Montenegro e o climatério

Já estamos habituados às calinadas de Montenegro no português.

O empresário de Espinho é o típico cidadão que diz “visionar”, em vez de ver. Foi ele que disse “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”, em vez de “aqueles que morreram”.

Esta frase ainda é mais estranha porque, se a analisarmos bem, ficamos com a sensação que o primeiro-ministro quis dizer que os falecidos não evitaram morrer, como quem diz, só morreram porque não tiveram cuidado.

Agora, temos a questão do “climatérico”.

Montenegro insiste nas alterações climatéricas, em vez de usar o termo correcto, que é, climáticas.

Um mestre em climatologia, pela Universidade de Coimbra, chamado Paulo Dias, escreveu uma carta para os jornais, em que diz, com muita piada, que o primeiro-ministro “funde a meteorologia com a ginecologia ou a agronomia”.

É que o termo “climatérico” deriva de climatério que é a “transição para a menopausa ou ainda o amadurecimento final de frutos, como a banana.”

Esta da banana é novidade para mim, mas quanto ao climatério, conheço-o bem, profissionalmente.

Portanto, o empresário de Espinho deve pensar que é mais fino dizer climatérico do que climático.

Climático é para o povo – climatérico, é para os grandes crânios do Governo!

Oxalá Montenegro tenha os afrontamentos próprios do climatério…

“Partida”, de Julian Barnes (2026)

Este é o décimo livro que leio deste escritor britânico e, a acreditar no que ele diz, será o seu último livro. Agora com 80 anos e sofrendo de uma doença mieloproliferativa, Barnes parece satisfeito com a sua extensa obra e decidiu descansar.

Dele li “Inglaterra, Inglaterra” (1998), “Amor & Etc” (2000) “Arthur & George” (2005), “Nada a Temer” (2008), “O Papagaio de Flaubert” (2010) “O Sentido do Fim” (2011) “O Ruído do Tempo” (2016), “A Única História” (2018), “O Homem do Casaco Vermelho” (2019), “Elizabeth Finch” (2022).

Como é habitual em muitos dos seus livros, Barnes fala connosco e este “Partida” – no original “Departure(s) – parece mesmo uma conversa do autor com os seus leitores, uma conversa de fim de vida.

O livro está dividido em cinco partes: duas delas conta-nos a história de Stephen e Jean, que Barnes juntou quando frequentavam a Universidade e tornou a juntar 40 anos depois; a primeira parte fala-nos nas memórias, nomeadamente a catadupa de memórias que, muitas vezes, são despertadas por um cheiro ou um sabor; outra das partes é dedicada à doença de Barnes e às doenças em geral, sobretudo o cancro e a última parte é uma espécie de despedida.

A propósito do cancro que, estatisticamente atingirá uma em cada duas pessoas, Barnes diz, com o seu habitual humor:

“O obituário «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta contra o cancro» deveria ser substituído por «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta que o cancro manteve com ele»”

Chegado aos 80 anos, Barnes já não vai fazer uma série de coisas que poderia ter desejado fazer, mas já leva a barriga cheia e isto que ele diz, na página 136, poderia ser dito por mim:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

Mais uma leitura agradável de Julian Barnes.

Segurem-me senão sou Presidente!

O Ventura foi derrotado em toda a linha.

Diz que teve mais percentagem que a AD, mas teve menos votos.

Apesar de estar todos os dias em todos os canais televisivos, todas as rádios e todos os jornais, foi derrotado, massivamente, por um tipo que não aparecia há onze anos!

Diz que em breve vai governar este país, quando teve apenas 1,7 milhões de votos, contra os 3,5 milhões de votos que o rejeitaram.

Apesar de dizer que o Seguro era um candidato das elites e que ele, Ventura, era o candidato do povo, as elites, afinal, valem o dobro do que vale o povo.

Somos um país elitista, segundo o político de Mem Martins.

Dizia Ventura que Seguro não tinha opinião sobre nada – mesmo assim, mais de 68% dos eleitores preferiram-no, portanto, a esmagadora maioria dos portugueses não tem opinião sobre coisa nenhuma.

E Ventura acabou por ter a pior votação de um derrotado numa segunda volta.

De nada lhe serviu ir à missa – 20 minutos atrasado, aliás.

Será que o André só vai à missa nos dias em que há eleições?

E porquê naquela igreja da Baixa de Lisboa?

Será porque há estacionamento mais fácil?

Não há uma igreja no Parque das Nações, caramba?

Que fracasso que é o Ventura!…

“A Festa do Chibo”, de Mario Vargas Llosa (2000)

Publicado dez anos antes do escritor peruano receber o Nobel, este livro debruça-se sobre a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, de 1930 a 1961, quando foi assassinado.

O livro tem três histórias que se vão cruzando: os últimos anos da ditadura e todas as suas atrocidades e arbitrariedades, a intentona, como foi preparada, como correu e o que sucedeu aos revoltosos, e a história de Urania, filha de um dos colaboradores de Trujillo, que volta ao país muitos anos depois do fim da ditadura.

As ditaduras têm todas pontos comuns: um ditador que é visto como salvador da pátria, um grupo de cortesãos que o seguem cegamente, uma polícia política sem dó nem piedade, comunicação social domesticada e um aparente sucesso da Nação, que não seria nada sem o ditador.

Mas Trujillo tinha algumas particularidades: além de um culto da personalidade levada ao extremo da própria capital do país ter mudado de nome e ter adoptado o nome de Cidade Trujillo, o homem era um garanhão e não se coibia de comer as mulheres de alguns dos seus seguidores, que não se importavam e até achavam uma honra o Chibo ter interesse pelas suas esposas. E gostava, sobretudo, de jovens virgens. Na página 373, diz:

“A receita de Petrónio e do rei Salomão: uma conazinha fresca para devolver a juventude a um veterano de setenta primaveras”

E é aqui que entra a jovem Urania.

Recomendo.

Grandes frases de grandes políticos (um deles muito pequeno, aliás)

“Tratai dos feridos e enterrai os mortos”

– Marquês de Pombal, depois do terramoto de 1755

“O nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”

– Luis Montenegro, depois da tempestade Kristin

A ministra invisível e o primeiro-ministro que não sabe português

Perante a tragédia provocada pela tempestade Kristin, a ministra da Administração Interna apareceu, finalmente, três dias depois. Justificou essa ausência, dizendo que esteve a trabalhar “em contexto de invisibilidade, no gabinete”.

Toda a gente sabe como é difícil a vida das pessoas invisíveis, como muito bem descreveu H. G. Wells no seu livro de 1897.

Deve ter sido difícil para a ministra conseguir tornar-se visível, uma vez que envolve uma reação química que pode pôr em risco a própria vida.

O que vale à Dona Maria Lúcia Amaral é que tem sempre o respaldo do Presidente Marcelo que – como todos sabemos – nunca pediu a demissão de nenhuma ministra invisível.

Quanto ao primeiro-ministro Montenegro, ficou tão espantado com os estragos da tempestade que até se esqueceu do significado das palavras.

Disse ele que esses estragos eram “muito vultuosos, mais do que era espectável”.

Por um lado, Montenegro estava à espera de 30 ou 40 árvores caídas e afinal caíram muitas mais; por outro lado, “vultuosos” significa “rostos inchados, congestionados, edemaciados – não confundir com “vultosos”, de grande vulto, enormes, grandes como o caraças.

Triste país que tão maus governantes escolheu…

“Sexografias”, de Gabriela Wiener (2021)

De Gabriela Wiener já tinha lido o curioso “Retrato Huaco”, de 2021. Wiener nasceu em Lima, Peru, em 1975, mas vive em Espanha desde 2003, colaborando em diversos jornais com as suas crónicas sobre sexo.

E este livro, como o próprio nome indica, é sobre sexo, reunindo diversas crónicas que abordam assuntos tão díspares como a ejaculação feminina, as relações entre trans, entrevistas com Nacho Vidal, o actor porno com um pénis de 27 centímetros, a história da iguana com priapismo, experiências num clube de swingers e etc e tal.

Gabriela Wiener conta-nos que vive com Jaime, o seu marido e com a sua mulher, Rocío – e até nisso é provocadora.

O livro é curioso, embora, às tantas, tantas experiências sexuais acabem por enjoar um pouco e é pena que os textos não estejam datados.

De qualquer modo, é uma leitura divertida.

Monte, sim – Negro, não – Montenegro, talvez

Monte não escolhe Seguro – Negro não quer Ventura.

Monte será anti-socialismo. Negro detesta populismo.

Montenegro está à rasca!

Se aconselha voto em Ventura, que votou contra o Orçamento, estará sempre à espera de ser esfaqueado pelas costas.

Se nos diz que vai votar em Seguro, teme que lhe lixem as leis laborais e a ministra da Saúde, aquela beleza de cabelo louraço e saia-casaco vermelho.

É verdade que o Monte apoiou Marques e o Negro foi pelo Mendes.

É verdade que a derrota foi total, aviltante, humilhante.

Uma grande derrota para um pequeno candidato – piada gasta, mas verdadeira!

Derrotado o seu candidato, Montenegro pensa que não precisa de tomar partido.

Para ele, tão democrata é o socialista envergonhado das Caldas da Rainha, com o fascista encapotado do Algueirão.

Com aquele ar trocista e sardónico, Montenegro faz de conta que tem maioria absoluta e que pode governar a seu belo prazer.

Agora, do alto das sua baixeza, até decidiu pôr em tribunal o Volksvargas, acusando-o de notícias falsas.

Ó Montenegro, não sejas mesquinho – vota Seguro e volta para Espinho!

“Os Nomes de Feliza”, de Juan Gabriel Vásquez (2024)

Feliza Bursztyn (Bogotá, 1933-Paris, 1982) foi uma escultora colombiana cuja vida dava, de facto, para um romance, um filme e uma série televisiva. Morreu subitamente, com apenas 49 anos, e a história da sua vida teria ficado por contar se não fosse, Juan Gabriel Vásquez, que decidiu contá-la neste livro, juntando factos, testemunhos e um pouco de imaginação.

Feliza, cujo nome teve várias versões, escolheu ter uma vida diferente daquela que parecia estar-lhe destinada. Depois de um casamento precoce, depois de ter tido três filhas, abandonou tudo e dedicou-se totalmente à escultura, criando obras a partir de sucata.

Teve uma vida muito acidentada e repleta de tragédias, como a morte num acidente de aviação do seu segundo companheiro e, mais tarde, o seu próprio acidente, desta vez, a bordo de um Volkswagen – acidente esse que a obrigou a um flagelo de cirurgias reconstrutivas.

A sua ligação a tudo o que fosse diferente e provocador, levou-a, depois, a Cuba e a um confronto com as autoridades colombianas que acabaram por resultar no seu exílio, primeiro no México, na casa de Garcia Marquez, depois em Paris, onde acabou por falecer de ataque cardíaco, quem sabe proporcionado pelos muitos vapores da soldagem que usava para unir a sucata, a partir da qual criava as suas obras (só muito tarde começou a usar máscara).

Livro muito interessante.