Um Orçamento pipi

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Esperei até hoje por um pedido de desculpas, mas como nada surgiu, decidi escrever estas linhas.

O líder do maior partido da Oposição, presidente do PSD e candidato a futuro primeiro-ministro, disse que o Orçamento de Estado de Fernando Medina era “…pipi, bem vestidinho e betinho”.

Poderia ter corrigido, depois, dizendo que se se estava a referir ao ministro e não ao Orçamento. Medina seria um pipi, expressão vulgar nos anos 40 do século passado, referindo-se a indivíduos do sexo masculino que gostavam de se apresentar sempre bem vestidos e bem penteados ““ daí, também, o “…bem vestidinho”. Quanto ao “…betinho”, poderia ser um erro geográfico, já que Medina é natural do Porto, e os betinhos costumam ser de Cascais.

Foi por isso que esperei pelo desmentido de Montenegro.

Mas esse desmentido não apareceu ““ pelo contrário, Montenegro fez questão de reforçar o que tinha dito. E ainda hoje, no jornal Público, Sarmento, o glorioso líder da bancada do PSD, confirma que o Orçamento é pipi ““ e justifica, dizendo: “…é um Orçamento que tem uma apresentação e uma marca muito forte, em que no papel parece tudo muito bem e muito bonito, mas depois olhamos e as medidas são curtas”.

Ora, isto prova que Sarmento não sabe o que é ser-se pipi. Aliás, basta olhar para ele…

Outro líder da Oposição de direita, o liberal Rui Rocha, declarou, numa das suas declarações inflamadas, que “…António Costa dá com uma mão e tira com as outras duas!”.

Quer dizer, temos um primeiro-ministro com três mãos e isto é que lixa a Oposição.

Com opositores como estes, pode Costa dormir descansado…

“Olho de Gato”, de Margaret Atwood (1988)

Gostei muito deste livro que já tem algumas décadas de edição no Canadá, mas que saiu agora, na Bertrand, com tradução de Rita Canas Mendes.

Atwood é uma escritora prolífica e dela já li muitas coisas, incluindo o Booker Prize de 2000, O Assassino Cego, e outros, como A História de uma Serva, Grace, O Coração é o íšltimo a Morrer”, Ressurgir, Os Testamentos, Coração de Pedra.

Neste Cat”™s Eye, Margaret Atwood conta-nos a história da pintora Elaine Risley, desde os tempos em que ela, os seus pais e o seu irmão, deambulavam pelas florestas canadianas, pouco depois do fim da Grande Guerra. O pai estudava insectos e a família ia atrás. Mais tarde, radicaram-se numa Toronto ainda por construir e por desenvolver. Elaine encontrou amigas, sobretudo uma, chamada Cordelia, que haveria de ensombrar o seu futuro. Vamos acompanhando a vida de Elaine, com muitas visitas ao passado, as suas paixões, a sua atitude cínica perante a vida.

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Apesar da diferença entre a vida no Canadá no post-guerra e a vida num país como Portugal nessa época, encontramos alguns pontos de contacto.

Como este pedaço da infância de Elaine:

“…Dois dias depois, a Carol conta-nos que o pai lhe deu uma valente sova de cinto, com o lado da fivela, diretamente no rabo. Diz que mal consegue sentar-se. Parece orgulhosa disto. Depois das aulas, no seu quarto, mostra-nos: levanta a saia, baixa as cuecas, e lá estão as marcas, parecidas com arranhões, não muito vermelhas, mas efectivamente lá.”

Elaine torna-se uma pintora, digamos, feminista, mas sem acreditar muito nisso. Depois de um primeiro casamento falhado, conhece Ben, um homem tradicional. Acaba por gostar disso:

“…Anos antes, tê-lo-ia considerado demasiado óbvio, demasiado tolo, praticamente um simplório. E, durante anos depois disso, um chauvinista da espécie mais amistosa. Ele é todas essas coisas; mas também é como uma maçã, depois de um banquete desenfreado.

Vem a minha casa e repara o alpendre traseiro com os seus próprios serrote e martelo, como nas revistas femininas de antigamente, e depois bebe uma cerveja, no relvado, como nos anúncios.  Conta-me anedotas que eu não ouvia desde os tempos do liceu. A minha gratidão por estes prazeres triviais surpreende-me. Mas não preciso dele, ele não é nenhuma transfusão. Ele agrada-me, só. É uma felicidade sentir-me agradada com algo tão simples”.

“…Olho de Gato” é um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

“Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos”, de Robert Walser

Robert Walser nasceu em Biel, Suíça, em 1878 e faleceu de ataque cardíaco, durante um passeio, em 1956. Ao longo da sua vida, mudou de profissão inúmeras vezes e em 1929 foi internado num hospício, com o diagnóstico de esquizofrenia catatónica e aí se manteve durante cerca de vinte anos.

Walser é autor de muitos poemas, romances, peças de teatro e textos curtos, de teor original; parece ter influenciado Franz Kafka.

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Este pequeno livro, editado pela Assírio e Alvim, reúne alguns pequenos textos que Walser escreveu entre 1901 e 1932. Por vezes, estes curtos textos soam quase a redacções infantis, outras vezes, parecem textos quase surrealistas. Como este, intitulado Peça de Câmara e que começa assim:

“…Conheço um escritor que, depois de lutar em vão durante semanas para encontrar assunto adequado, teve finalmente a divertida ideia de empreender uma viagem de descoberta debaixo da sua própria cama.

No entanto, o resultado dessa temerária e perigosa expedição foi, como lhe poderia dizer de antemão qualquer pessoa que o estivesse a observar, igual a zero.

Desiludido e desencorajado, o aventureiro teve de se levantar do chão em que se tinha prostrado, lamentando-se vigorosamente por não ter descoberto uma matéria de escrita minimamente significativa e interessante”.

Livrinho curioso.

O Carlitos no 25 de Novembro

– Carlitos! ““ gritou a mãe ““ São horas do lanche! Vem comer o teu pão com manteiga, açúcar e canela!

– Não me apetece lanchar!

– Já disse, Carlitos! Vem lanchar! Tens de comer, senão não cresces e ficas pequenino! Além disso, hoje é o dia em que as forças da esquerda foram derrotadas e podemos dizer que a nossa nova democracia está consolidada e que nunca mais cairemos numa sociedade de tipo cubana!

Ouvindo isto, Carlitos Moedas parou de brincar e entrou em casa, pronto para comer o seu pão com manteiga, açúcar e canela e beber o seu leitinho morno com Toddy.

– Mamã, isso que disseste da nossa democracia é verdade? ““ perguntou o Carlitos.

– Claro que é! Os comunistas foram derrotados em toda a linha!

– Que bom, mamã. Os comunistas são feios, não são? Quando eu for grande, não quero ser comunista!

E foi devido a este singular episódio que Carlos Moedas, hoje Presidente da Câmara de Lisboa, se lembrou de anunciar que o 25 de Novembro será comemorado em 2024!

  • Carlos Moedas nasceu em 1970

A crise na habitação segundo o Público

E, de repente, surgiu a crise na habitação.

Ninguém falou nisto, anos a fio, ninguém ligou nenhuma í  falta de habitações e ao aumento das rendas e, de repente, assim que o governo criou um Ministério da Habitação e deitou cá para fora uma polémica lei da habitação, todos começaram a falar disto, a criticar a lei e a invectivar o governo. Ainda por cima, a ministra da Habitação é a mais nova ministra desde sempre, portanto, toca a deitá-la abaixo.

Hoje, o título do Público é elucidativo.

Diz assim:

“…Jovens com casa própria caem para metade nas duas últimas décadas: só pouco mais de 25% consegue ter casa antes dos 25 anos e a compra passou a ser cada vez mais feita com recurso a crédito”

Mas o que é isto?

Só conseguimos comprar a nossa casa aos 34 anos ““ e éramos ambos médicos. E claro que a Caixa Geral de Depósitos emprestou 90%!

Segundo o título do Público, parece que era comum os jovens com menos de 25 anos adquirirem casa própria e sem recurso a empréstimo!

E ainda dizem que isto está cada vez pior, porra!

“Correcções”, de Jonathan Franzen (2001)

Jonathan Franzen (Nova Iorque, 1959) é considerado, pela Time, o “…grande romancista americano”. Especialista em escrever grandes calhamaços, já tinha lido dele “…Liberdade“ (2010, 682 páginas), “…Purity“ (2015, 694 páginas) e “…Encruzilhadas“ (2021, 677 páginas). Faltava-se este “…Correcções” (2001, 512 páginas), vencedor do National Book Award.

Conta-nos a história da família Lambert, no final dos anos 90, nos EUA. Alfred é o pai, antigo engenheiro dos caminhos de ferro, abraços com a doença de Parkinson e a demência, Enid, a sua mulher, obcecada por um último Natal em família; e ainda os três filhos: Gary, um banqueiro snob com um casamento complicado, Chip, um desempregado crónico que se envolve em negócios escuros na Lituânia e Denise, uma cozinheira que se envolve com o patrão e, sobretudo, com a mulher dele.

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Como os restantes calhamaços, também este é um romance essencialmente americano. As suas personagens não poderiam ser, por exemplo, francesas, ou italianas, muito menos portuguesas. São americanos típicos.

Franzen escreve que se desunha, fabricando enormes parágrafos, como este, sobre o casamento de Gary e a sua incapacidade em se envolver com outras pessoas:

“…Gary lembrou-se de que outro motivo por que permanecera fiel a Caroline ao longo de vinte anos de casamento fora a sua constante e crescente aversão ao contacto físico com outros seres humanos. Estava, com certeza, apaixonado pela fidelidade, com certeza de perfilhar esse princípio lhe causava um frémito erótico, mas algures entre o seu cérebro e os seus testículos também havia, porventura, um fio a soltar-se, pois o seu principal pensamento, enquanto despia e violava mentalmente aquela rapariguinha de cabelos vermelhos, era como acharia abafado e infecto o lugar da sua infidelidade ““ um armário com uma provisão bacterial coliforme, um hotel Courtyard da cadeia Marriott com sémen seco nas paredes e nas colchas, o estafado e febril banco de trás do adorável Volkswagen ou do Plymouth que ela sem dúvida conduzia, a alcatifa infestada de esporos do seu exíguo apartamento em Montgomeryville ou Conshohocken, todos eles lugares sobreaquecidos, subventilados e sugestivos de condilomas genitais e clamidíase í  sua própria e desagradável maneira ““ e como seria difícil respirar, como a carne dela seria sufocante, como seriam sórdidos e de antemão condenados os esforços dele para não condescender…”

Ufa! Gostei.

“A Arte de Cozinhar”, novo livro do Chefe Aníbal

O antigo presidente Cavaco Silva, dedicou-se í  culinária, como toda a gente sabe. Desde que deixou de ser presidente, arrumou as suas botas de político profissional, recolheu-se a Boliqueime e, com a ajuda da sua Maria, esposa dedicada e esmerada dona de casa, decidiu aprender a cozinhar.

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Sabe-se que, hoje em dia, cozinha umas caras de bacalhau com arroz de grelos como ninguém. Também os seus carapaus com molho de escabeche são conhecidos além-fronteiras, bem como as papas com muito sarrabulho.

Por isso mesmo, o Chefe Aníbal, como é agora conhecido em quase todo o Algarve, decidiu publicar um livro intitulado “…A Arte de Cozinhar”, que será apresentado ao público no próximo dia 15 ““ e quem melhor para apresentar um livro de culinária senão o Cherne em pessoa?

Portanto, contamos ver, na mesma sala, o Chefe Aníbal, o Cherne Barroso e o próximo líder do PSD, o saudoso Coelho e esperamos que o Chefe nos premeie com um uma receita de Coelho í  Caçadora.

A Universidade Laranja é Canja!

Decorre em Castelo de Vide, mais uma edição da Universidade Laranja.

Já não vamos a tempo de nos inscrevermos e temo que, mesmo que conseguíssemos frequentá-la, o resultado seria um valente chumbo. Se o PSD tivesse uma linha política que se percebesse, ainda poderíamos tentar, mas assim é difícil. Sociais-democratas já sabemos que não são; serão então liberais, anarco-capitalistas, populistas, nacionalistas envergonhados?

Sim, nacionalistas. Então não ouvimos um seu destacado membro elogiar a política de habitação do Salazar? Ou aquilo não era um elogio a Salazar, mas sim um ataque ao Costa?

Adiante.

Depois de muito trabalho, conseguimos arranjar uma lista das cadeiras ministradas na Universidade Laranja. Aqui estão elas.

* Como se tornar candidato a presidente sem se pí´r em bicos dos pés ““ pelo Dr. Marques Mendes

* Vejam como sou inteligente e alto ““ pelo Dr. Hugo Soares

* Como se tornar especialista em tudo, mas mesmo tudo, excepto submarinos ““ pelo Dr. Paulo Portas

* Estudo comparativo entre Antónios ou Como Salazar e Costa podiam formar uma coligação ““ pelo ilustre Doutor por Extenso Leitão Amaro

* Como escavar trincheiras ““ pelo Professor Rebelo de Sousa

* Aprender ucraniano em três quartos de hora ““ também pelo Professor Rebelo de Sousa

É pena já não irmos a tempo para nos inscrevermos…

“O Quarto do Bebé”, de Anabela Mota Ribeiro (2023)

Li algures que Annie Ernaux, a escritora francesa que venceu o Nobel, é uma das escritoras favoritas de Anabela Mota Ribeiro. Li também, que este livro será uma obra de autoficção.

Seja como for, é uma obra muito conseguida. Lemo-lo em conjunto em três ou quatro sessões de leitura e gostámos muito.

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Escrito em forma de diário, acompanhada não só os tempos da pandemia, com o estado de emergência e o confinamento, como também as vicissitudes da doença da narradora. Um cancro da mama, a histerectomia radical, a infertilidade, tudo isso é narrado com emoção, mas de um modo muito pessoal.

Poderia citar dezenas de frases que nos tocaram por uma ou outra razão, mas escolhi apenas estas três.

A propósito do confinamento provocado pela pandemia:

“…Que sorte viver em Portugal, ter um governo socialista. A Europa disse para injectar dinheiro na economia. Como vamos viver daqui a três meses, apesar das medidas e dos apoios í s famílias e empresas”.

Isto passou-se há bem pouco tempo, mas muitos dos nossos políticos e comentadores parecem ter esquecido.

A narradora fala do seu dia-adia. O João, que se depreende ser o seu companheiro, está presente, embora não interfira muito na escrita. A propósito de uma visita que fizeram a Auschwitz, como nós fizemos, gostava de ter inventado a frase que a autora escolheu.

“…O João e eu fomos a Auschwitz, Birkenau, Treblinka. Fomos ao fim do mundo. Não se vem de lá com palavras.”

Mais í  frente, quando se recorda do momento em que soube que tinha cancro da mama:

“…A próxima pessoa que me falar de excesso de medicina, excesso de radiação, excesso de zelo, terapias alternativas, naturismos e o caralho, leva um murro”.

Como eu a compreendo!

Este é o primeiro romance de Anabela Mota Ribeiro (Trás-os-Montes, 1951), mas a sua escrita já é uma escrita madura.

Aconselho vivamente.

“A Louca da Casa”, de Rosa Montero (2023)

Rosa Montero (Madrid, 1951) explica, no final do livro, que esta é uma reedição, já que A Louca da Casa foi editado, pela primeira vez, em 2003. Terá sido o primeiro título de uma trilogia que a autora apelida de artefactos literários, uma vez que não são bem um ensaio, muito menos um romance, mas têm ingredientes de ambos.

Os outros dois títulos da trilogia são: A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te, publicado em 2013, e O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo (2022). Curiosamente, cada título está separado do seguinte por cerca de dez anos.

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Neste A Louca da Casa, Rosa Montero fala sobre a imaginação e como ela domina o acto de escrever romances, de tal modo, que a autora conta alguns episódios da sua vida e conta-os em diversas versões. O leitor fica sem saber qual dessas versões será a verdadeira, se é que alguma delas é.

Rosa Montero pouco mais velha que eu é, e isto que ela diz sobre o envelhecimento, é bem verdade:

“…O envelhecimento é um processo orgânico lamentável que tem apenas duas coisas boas (a primeira é que, se nos esforçarmos, aprendemos algumas coisas; e a segunda, é ser a melhor prova de que ainda não morremos) e muitas outras péssimas, como, por exemplo, os neurónios destruírem-se í s mãos cheias, as células se deteriorarem e se oxidarem, a gravidade puxar o corpo em direcção í  terra-campa enfraquecendo os músculos e dependurando as carnes. Pois bem, a todos esses pesares, e a outros que não cito, é possível que também se some um fastio acabrunhante da realidade, a perda progressiva da nossa capacidade de fantasia, o anquilosar da imaginação.”

A propósito das técnicas que os romancistas usam para escrever as suas obras, Montero cita diversos outros autores. Destaco esta citação de Mark Twain:

“…O livro relata uma história ainda mais inquietante sobre Mark Twain, que, em adulto, contou a um jornalista que tinha tido um irmão gémeo, Bill, com quem se parecia tanto que ninguém conseguia distingui-los, ao ponto de terem de colocar-lhes cordelinhos coloridos nos pulsos para saber quem era quem. Pois bem, um dia deixaram-nos sozinhos na banheira e um deles afogou-se. E, como os cordões se tinham soltado, «nunca se soube qual dos dois tinha morrido, Bill ou eu», explicou Twain placidamente ao jornalista”.

Também Rosa Montero fala, neste livro, da sua irmã gémea Martina, e ficamos na dúvida se ela não estará a seguir o exemplo de Mark Twain, inventando uma história que, afinal, pode ser verdadeira.

Mais um bom livro desta escritora castelhana.

Ver ainda: Instruções Para Salvar o Mundo; A Boa Sorte