
No entanto, não será maior o fiasco de quem a nomeou?…
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Olga Merino (Barcelona, 1965), escreveu um romance que se integra num novo movimento das letras espanholas, a narrativa neorrural. Recentemente li um outro livro que também se integra neste movimento e de que gostei mais: “Eu Canto e a Montanha Dança”, de Solà Saez.
No entanto, este “A Forasteira” também é interessante e, como diz a contracapa, é uma espécie de “western contemporâneo no território da Espanha esquecida”.
Ângela é a narradora. Viveu em Londres durante alguns anos, serviu de modelo para um pintor e acabou por viver com ele, cometeu alguns excessos e agora, que se aproxima a menopausa, decide regressar às origens, voltando para a sua aldeia no sul de Espanha, numa zona isolada.
Algum tempo depois de chegar, descobre o proprietário de terras mais poderoso da região, enforcado numa nogueira. Também o seu pai morreu precocemente e ela nunca soube como. Também ter-se-á suicidado. Os enforcamentos são comuns naquela região.
Ângela decide, então, escavar o passado e a tensão da história vai aumentando, à medida que o livro avança.
Vale a pena ler.
Coitado do líder parlamentar do Chega!
Pedro Pinto foi à RTP defender a actuação do agente da PSP que matou um cidadão que, aparentemente, tinha uma faca fechada numa bolsa.
Disse Pedro Pinto que “se os polícias atirassem mais a matar, o país estaria mais em ordem”.
É uma verdade insofismável!
Se eu matasse todos os cabrões que mudam de direcção sem fazer pisca, todos os filhos da puta que cospem para o chão e não apanham a merda dos cãezinhos, se eu matasse à pancada todos os filisteus que me ultrapassam pela direita, todos os sevandijas que fogem aos impostos, todos os políticos que faltam à verdade, talvez ficássemos com um país semi-deserto, mas haveria mais paz e tranquilidade. Para já não falar nos merdósicos que me passam à frente na fila para o autocarro, nos energúmenos que deixam as trotinetes a atravancar os passeios e nos atrasados mentais que estacionam em cima dos passeios.
Pedro Pinto apenas deu voz a milhares de portugueses e querem, agora, silenciá-lo só porque ele é obeso – e isso é discriminação!
Pedro Pinto não tem culpa de ser obeso e de parecer um taberneiro (sem ofensa para os verdadeiros taberneiros). Foi certamente um erro na sua educação; comeu muitos chocolates quando era criança e engordou porque teve falta de carinho e atenção. Devia ser ajudado e não acusado de incentivar à violência.
Se o Pedro Pinto fosse um tipo todo janota, magro e elegante, nada disto aconteceria!
Tenham vergonha!
Justiça para Pedro Pinto!
Deve ser preciso estudar muito para se chegar a Ministro – e para se chegar a ministro da Agricultura, ainda mais!
O ministro da Agricultura tem de saber tudo sobre maçãs, azeitonas, castanhas, laranjas, mirtilos, cenouras e bróculos, couves variadas, vinhos e bebidas correlativas e muito mais. No fundo, é um Ministros dos Comes e Bebes.
O que ele deve estudar!
O Ministro dos Comes e Bebes do governo do Montenegro chama-se José Manuel Fernandes, nasceu em 1967 e é formado em Engenharia de Sistemas e Informática, portanto, deve perceber do que fala.
Foi ele que disse que, em Portugal, a “longevidade é maior onde bebem tinto verde”.
Claro que os produtores de vinho branco já se preparam para organizar uma manifestação a favor do vinho branco. Há casos de portugueses que bebem vinho branco até aos 96 anos de vida!
Mas o licenciado em engenharia de sistema foi mais longe e afirmou que “água em excesso faz mal”. Por um lado, foi muito aplaudido pela malta que não gosta de tomar banho, mas os produtores de água-pé ficaram incrédulos. Será que o ministro também inclui a água-pé neste lote das bebidas que fazem mal?
Sr. Ministro Fernandes, por que não se limita aos sistemas informáticos e deixa a Agricultura para os agricultores?
Ventura diz que se encontrou com Montenegro cinco vezes para discutir o Orçamento e que o primeiro-ministro lhe pediu que saísse pelas traseiras, para não ser notado.
Verdade ou mentira?
Ventura também diz que Montenegro lhe ofereceu um compromisso: o Chega poderia vir a fazer parte do Governo se aprovasse o Orçamento.
Verdade ou mentira?
Ventura ainda disse que o “não é não” de Montenegro já não fazia sentido.
Verdade ou mentira?
Pouco interessa se é verdade ou mentira.
Quem se mete com o fogo sai sempre chamuscado.
Deborah Levy é uma escritora britânica, nascida em Joanesburgo em 1959. Escreveu várias peças de teatro estreadas pela Royal Shakespeare Company e é autora de diversos romances, tendo sido nomeada para o Bokker Prize três vezes.
Este “August Blue”, traduzido para a Relógio de Água por Alda Rodrigues, é uma romance singular, um pouco surrealista até, que nos conta a história de Elsa M. Aderson, uma pianista virtuosa que, a meio da interpretação do concerto para piano e orquestra nº2 de Rachmaninov, em Viena, começa a falahar e acaba por abandonar a sala de concertos.
Devido ao tom da escrita, eu teria optado pelo título “Agosto triste”, mas enfim…
Elsa foi adoptada aos 6 anos por um professor de piano que está agora velho e doente. Ela pouco sabe sobre a sua mãe biológica.
Ao longo do livro, a pianista vai saltitando entre Atenas, Paris, Londres e a Sardenha, sempre “perseguida” por uma mulher que ela pensa ser a sua dupla.
O livro tem uma linguagem, por vezes, surreal e poética:
“Durante a adolescência, fui uma pessoa serena, disse ele. Fiquei neurótico aos vinte, quando comecei a beber batidos de abacate e a esforçar-me por ter apenas pensamentos positivos.”
Ou ainda:
“As plantinhas cheiravam a meia-noite e a pedras quentes sob a chuva”.
Gostei de ler, mas não vai deixar marcas.
Na reunião sobre comunicação social, o primeiro-ministro Luís Montenegro disse:
“Fazer a pergunta que o outro sopra ao ouvido não é jornalismo”
Apesar desta afirmação sensacional, Montenegro recusou-se a explicar o que substituiria o soprismo.
Alguém aventou a hipótese de os jornalistas passarem a usar cábulas onde registariam todas as perguntas possíveis e imaginárias que gostariam de fazer.
As senhoras jornalistas poderiam passar a escrever essas cábulas nas coxas e, durante as conferências de imprensa (raras, como se sabe), puxariam as saias para cima, discretamente, para relembrar as perguntas que teriam de fazer ao Montenegro.
Os homens poderiam, por exemplo, escrever as perguntas possíveis nas palmas das mãos.
Tudo menos usar auriculares!
Outra possibilidade poderia ser o Governo de Montenegro usar alguns jornalistas para soprar perguntas divertidas aos ouvidos dos colegas.
Por exemplo: “pergunta ao gajo se, por acaso, esta bêbado!”
Outra: “pergunta-lhe há quanto tempo não manda uma queca!”
Com perguntas destas, os jornalistas ficariam muito mal-vistos e acabavam por desistir de fazer perguntas e Montenegro ficaria, finalmente, livre dessa espécie incomodativa.
Ainda estamos longe, mas cada vez mais perto…
Ia Genberg (Suécia, 1967) conseguiu, com este pequeno livro, ser selecionada para o Prémio Booker Internacional deste ano.
É um livro simples, muito ao estilo de Annie Ernaux – estilo que parece estar na moda. Será autobiográfico, será autoficção, será qualquer coisa intermédia.
A narradora está doente, com febre, e começa a recordar pessoas que foram importantes para si. Ao recordá-las, narra diversos episódios da sua vida, mesmo os mais íntimos e os mais banais. Parece que, afinal, a importância está nos detalhes.
Ficamos assim a conhecer as histórias de Johanna e de Alejandro, duas paixões da narradora, a da amiga Nikki e a de Birgitte, sua mãe.
Recomendo.
John Banville (Wexford, Irlanda, 1945) venceu o Booker Prize de 2005 com o romance “O Mar”, razão pela qual esperava algo de melhor.
Este “Abril em Espanha” é um romance “antigo”. Embora tenha sido publicado apenas há três anos, a história cheira a velho: não há telemóveis, muito menos computadores, a máquina de escrever ainda é usada, toda a gente fuma e em todo o lado, dentro dos hotéis, até no hospital – e isto não seria nada de especial se, em algum lado, durante o romance, soubéssemos em que época a história se passava.
Depois, todas as personagens são demasiado caricaturadas. O assassino a soldo é, todo ele, uma caricatura. O patologista alcoólico idem idem. E a história é pouco credível.
Esta passagem da página 226 é bem ilustrativa do mofo da história:
“Observou o homem do outro lado da secretária. Olhando para ele, com aquela cabeça quadrada e aqueles ombros enormes, ninguém diria que era maricas. Mas, numa noite de nevoeiro, não há muitos anos, os Gardas tinham-no apanhado na casa de banho dos homens em Burgh Quay, de joelhos, em frente a um rapaz que tinha as calças pelos tornozelos”.
Já não se usa…
Alba de Céspedes nasceu em Roma em 1911, trabalhou como jornalistas na década de 1930, publicou o seu primeiro livro cinco anos depois; foi também nesse ano que foi presa pela primeira vez, devido a actividades antifascistas. Faleceu em Paris em 1997.
“O Caderno Proibido” é um livro surpreendente que nos ajuda a perceber como era o ambiente da pequena-burguesia italiana (e portuguesa também, embora ainda mais pobre, penso eu).
A narradora é uma mãe de família, casada com um homem pouco ambicioso. Entre eles já não atração erótica e é suposto não haver porque já se considerem velhos, apesar de ainda não terem cinquenta anos. Têm uma filha que, a pouco e pouco, está a romper com as convenções e um filho, mais convencional. Valéria – é o nome da narradora – trabalha num escritório porque a família precisa de mais um salário; além disso, encarrega-se de todo o trabalho doméstico.
Certo dia, decide, num impulso, comprar um caderno e nele escrever um diário, que se manterá secreto.
À medida que vai escrevendo o seu diário, sempre às escondidas, Valéria cai-se descobrindo a si própria e questionando as convenções, embora não sinta coragem para as ultrapassar.
Um livro surpreendente, que aconselho.