Mentirolário – vocabulário da mentira

* Quando um fémur se encontra num braço, estamos na presença de um mentirosso

* A mentira nas horas de lazer recebe o nome de mentirócio

* Aqueles répteis cinzentos e repelentes que se fazem passar por simpáticas lagartixas, são as mentirosgas

* Quando um norueguês afirma que a capital do seu país é Nouatchock, deve-se chamar-lhe mentiroslo

* Um herpes simplex que se faz passar por herpes zooster, recebe o nome de mentirzona

* Uma fila em que as pessoas passam à frente umas das outras, inventando as desculpas mais incríveis, chama-se aldrabicha

* Quando aquele nosso amigo muito mentiroso nos convida a dar um passeio no seu iate novo, estamos perante um aldrabote

* Um cão que mia é um grande aldracão

* Se tem pé de atleta na mão, não passa de um aldramão

* Uma rapariga muito feiinha que vence um concurso de beleza é certamente uma aldramiss

* Um daqueles gangster manhosos que não consegue impor respeito aos seus capangas é, sem dúvida, um aldraboss

  • Pão com Manteiga – abril de 1988

Fertilidade

Fertilidade é sempre muita coisa, toneladas, aos montes, à brava, em abundância, para dar e vender, de sobra, em excesso, catadupas.

Fertilidade é um beijo hoje e gémeos nove meses depois.

Fertilidade é abrir, com uma única chave, todas as portas.

Fertilidade é Mozart.

Fertilidade é cuspir na terra e fazer nascer um faval.

As origens da fertilidade perdem-se nos tempos sem idade do nevoeiro da História.

Tudo começou com duas irmãs, provavelmente gregas: Ester e Ferter.

Ester e Ferter deitaram-se com o mesmo homem, Alfredo de Seu Nome.

Alfredo de Seu Nome era o reprodutor por excelência. Setenta por cento dos habitantes de Penopoulos era filho de Alfredo de Seu Nome.

Por isso, Ester e Ferter com ele se deitaram, uma de cada vez, noite sim, noite não, durante 31 dias.

Três meses depois, Alfredo de Seu Nome olhou para o ventre de Ester e apenas viu o umbigo. Olhou então para o ventre de Ferter e viu-o globoso, com a pele esticada, lustrosa, sob tensão.

Os meses passaram e enquanto o ventre de Ester permanecia liso e chato, o de Ferter crescia de uma maneira preocupante.

Nove meses passaram e o corpo de Ester não deitou ao mundo nada que não tivesse deitado antes.

Pelo contrário, Ferter deu à luz sete filhos – mais tarde conhecidos como os sete magníficos: Yul Breyner, Charles Bronson, Steve McQueen, Eli Wallach, Robert Vaughn e mais dois.

Foi assim que, de Ester veio a esterilidade e de Ferter, o filme de John Sturges, com a duração aproximada de 127 minutos, já disponível em vídeo.

Plurales, plurães, plurões, plurãos ou pluralistas

Abundância é plural.

E o plural é muito mal tratado na nossa língua. Esta a conclusão a que chegou o Grupo de Trabalho do Gabinete de Estudos Linguales do Pão com Manteiga.

Com efeito, se o plural de televisão é televisões, o de cão deveria ser cões. Mas se o plural de cão é cães, o de mão deveria ser mães – mas este é o plural de mãe. O verdadeiro plural de mão é mãos, pelo que o de capitão deveria ser capitãos. Ora, se o plural de capitão é capitães, o de limão deveria ser limães. Mas se o plural de limão é limões, o de mão deveria ser mões. Mas se é mãos, o plural de patrão deveria ser patrãos – ou patrães, já que o plural de pão é pães.

Por outro lado, o plural de qualquer é quaisquer, pelo que o plural de halter deveria ser haister.

Não esquecer ainda que, se o plural de barril é barris, o plural de projéctil deveria ser projectis – mas é projécteis. E, neste caso, o plural de funil deveria ser funeis.

O próprio plural de plural é plurais e não plurales, como deveria ser, já que o plural de mal é males, e não mais.

Nem mais!

  • in Pão com Manteiga, março de 1988

Grandes segredos bíblicos

* Quando Jesus disse que era mais fácil a um camelo passar pelo buraco da agulha do que a um rico entrar no reino dos céus, não contou com uma coisa muito importante: alguns ricos são mesmo uns grandes camelos!

* Os mistérios de deus são mesmo insondáveis. Se há um anjo da Guarda, por que razão não há um anjo da Covilhã? Fica ali a dois passos!

* Por vontade expressa de Jeová, o Egipto é mais rico que a Checoslováquia. Sete pragas a uma

* De Sodoma, ainda nos chegou a sodomia. Agora, de Gomorra, nada… A gomorria deve ser cá uma indecência!

* Está provado: o dilúvio apanhou os meteorologistas desprevenidos

* Ao andar sobre as águas, Jesus inventou o surf

* Afinal, parece que 30 dinheiros velaram a pena. Não há dúvida que Judas é o mais famoso dos apóstolos

* Original foi o pecado de Adão e Eva. Todos os outros não passam de cópias

* Caim matou Abel porque não havia mais ninguém à mãe e matar os pais não era muito bem visto, mesmo naquele tempo

* A profissão do pai acaba sempre por influenciar o filho. S. José era carpinteira e trabalhava com madeira e pregos. O seu filho foi pregador

* Se deus tivesse um pouco mais de calma e gastasse, pelo menos, mais vinte dias a fazer o mundo, talvez isto fosse mais bem feitinho

* Como a sua mulher fosse estéril, Abraão dormiu com a serva – que assim se tornou a precursora das barrigas de aluguer

  • in Pão com Manteiga – março 1988

Fenómenos Estranhos

Indivíduos estranhos (excerto)

* Em Frankfurt existe um homem tão míope que precisa de óculos para dormir.

* Em Sydney é conhecido o caso daquele homem tão pequeno que tem de subir a um banco para atacar os sapatos.

* Em Liverpool todos conhecem o caso do homem tão magro que a gravata lhe fica larga nos ombros.

* Algures no Utah existe um senhor que, sempre que coça a cabeça, se acende uma luz no joelho esquerdo. Não precisa de pilhas.

* Em Nova Deli há uma mulher de ascendência anglo-britânica que tem uma boca tão pequena que só consegue alimentar-se de esparguete.

* Pelo contrário, em Kampala, há uma outra mulher com uma boca tão grande que consegue comer um melão inteiro de uma só dentada, desde que feche um bocadinho a boca.

* Em Antuérpia viveu um homem que tinha as duas orelhas do mesmo lado da cabeça. Felizmente para ele, do outro lado tinha o nariz.

* Perto de Pequim habita um camponês tão velho que assistiu ao próprio nascimento.

Fenómenos estranhos (excerto)

* Um cientista dinamarquês conseguiu, ao fim de 5 anos de trabalho penoso, demonstrar que, afinal, as estátuas dos gigantes da ilha da Páscoa, não se movem. Como se sabe, era aceite que essas estátuas se deslocavam cerca de 6 milímetros por ano, em direcção ao mar e, quando atingissem as águas, o ayatollah Khomeiny aceitaria escrever uma peça de teatro com Miguel Esteves Cardoso. Khadafi forneceria as anfetaminas. No entanto, o notável cientista dinamarquês – um tal Sjorgen qualquer coisa – esteve 5 anos sentadinho na ilha da Páscoa, vigiando as estátuas dia e noite, e afirma peremptoriamente, que elas não se mexeram.

* Gregory Stewart, hortelão de Ohio, afirma ter ouvido uma das suas couve-flor proferir, em tom profético, «you Bloody bastard!». Verificou-se, mais tarde, que eram os tomates de Stewart que falavam e o norte-americano foi acusado de praticar ventriloquia em vegetais, sem a devida autorização do sindicato.

* Extraordinário fenómeno de telequinésia na 7ª Avenida, em Nova Iorque. Todo o conteúdo de uma ourivesaria foi deslocado pela força mental de um extra-sensorial para o interior de uma carrinha a diesel que, por sua vez, se deslocou pelos seus próprios meios, para bem longe dali.

* Em Abbiate Guazzone, subúrbio da pequena cidade de Tradate, a alguns quilómetros de Varese, em plena Lombardia, isto é, Itália, sem tirar nem pôr, Bruno Facchini, um homem de 40 anos e dois filhos, decidiu ir à retrete após uma valente tempestade. A retrete situava-se do outro lado do pátio e Facchini teve que se deslocar cerca de 10 metros. Quando regressava a casa, após ter satisfeito as suas mais elementares necessidades, viu um reflexo, uma cintilação que cortava a obscuridade do seu pátio. Tinha deixado a lâmpada fosforescente da cozinha acesa.

* Em Aveiro, a senhora de Castro Sintra afirma ser capaz de influenciar a saída das cartas numa jogatana de poker. Partiram-lhe dois braços.

* Na Nova Cantuária é encontrado um túmulo de um homem que, segundo os primeiros estudos, teria falecido há mais de 3 mil anos. O corpo estava intacto, as roupas praticamente novas e o próprio morto confirmou, depois de muito instado, que morrera há uma porrada de anos.

* Dois ovnis aterram em Alverca, mas ninguém vê.

Fenómenos estranhos em Portugal (excerto)

* Em Avintes, uma galinha pôs um ovo cosido com esse.

* Em Ourique, existe uma árvore genealógica com 3 metros de altura

* Em Sernancelhe nasceu uma pata com um erro genético nas vogais.

* Em S. Bento existe uma fonte geralmente bem informada que nunca deu água. Apenas mete.

* Em Viana do Castelo o sr. Rebordão tem tomates do tamanho de melões no seu quintal. Já foram fotografados e tudo.

* Em Tomar, perto do rio Nabão, foi encontrado um gambuzino com o dobro do tamanho habitual e ainda mais verde.

* Na Amareleja existe um barbeiro tão desajeitado que só faz a barba aos outros. A ele, corta-se

* Na Amadora, um gato tentou suicidar-se e só conseguiu à oitava tentativa.

Mais fenómenos estranhos

* Andar com os dois pés no chão ao mesmo tempo

* ter caspa na cabeça dos dedos

* ter umbigo na barriga das pernas

* voar nas asas do nariz

* fazer o ninho atrás da orelha e pôr ovos no sovaco

* ir para a cama com todas as meninas dos olhos

* usar soutien nos peitos dos pés

* atirar tudo para trás das costas das mãos

* estar pelos cabelos, sendo careca

* atar os nós dos dedos

* subir ao alto da cabeça

* meter a mão na consciência e sujá-la

* morrer e ir para o céu da boca

* pôr supositórios pelo rabo do olho

* ter o coração aos saltos em altura

* sofrer de dores na bacia e ser operado ao bidé

* jogar andebol no pavilhão auricular

* ter um olho de vidro martelado

* curar a bebedeira do intestino grosso

* ter as costas largas e só entrar em casa de lado

* lavar os dentes com a pasta de executivo

* ensebar o couro cabeludo

* usar pêra no queixo e nêspera nas orelhas

* ter as maçãs do rosto com bicho

* ter uma corda na garganta e engoli-la

* despir o sobretudo e vestir o realmente

* estender o cabelo escorrido

* tomar o pulso com um copo de água

* ter garrafas de tinto na caixa dos pirolitos

* colocar lentes de contacto nas pupilas do sr. Reitor

* pôr óleo nos maxilares para não ranger os dentes

* bocejar com a boca de incêndio

* engolir em seco debaixo de água

* usar suíças na Alemanha

* dormir ao ralenti e constipar-se devagarinho

* beber uma cervejinha e comer os caracóis do cabelo

* ter a cara cheia de pés de galinha, a cabeça cheia de bicos e pôr ovos pelos ouvidos

* ser analfabeto, ter nariz aquilino e chamar-se Ribeiro

* ser um testa de ferro e enferrujá-la numa noite húmida

  • Programa Pão com Manteiga – 2 de janeiro de 1983

Futebol – modalidade multifacetada

Quando o guarda-redes rechaça com os punhos – é boxe

Se o avançado executa um pontapé de bicicleta – é ciclismo

Se o guardião mergulha aos pés do adversário – é natação

Se o avançado dispara à queima-roupa – é assassínio

Se fuzila o guarda-redes – é carrasco

Se dispara sem preparação – é assassínio involuntário

Quando a bola bate na barra – é galo

Se passa por baixo das pernas do guarda-redes – é frango

Se bate duas vezes na barra e não entra – é vaca

Se o avançado está à mama – é a zoologia completa

Se a bola pinga sobre a baliza – há molho

Se os avançados fazem tabelinha – é bilhar

Quando o jogador chuta na relva – é desprezo pelos espaços verdes

Quando atira para a terra de ninguém – é um perdulário

Quando o avançado surge isolado na grande área – é a solidão

Quando o defesa corta – há sangue

Quando o defesa se corta – é maricas

Se o jogador se agarra muito à bola – é fanático

Se passa em profundidade – é escafandrismo

Quando o avançado se interna no campo adversário – está doente

Se se agarra muito à linha – é alfaiate

Se o guardião defende in extremis – é latim

Se o defesa alivia de qualquer maneira – é porcalhão

Se o defesa, atento, está sempre em cima do adversário – é a dor nas costas

Quando o avançado centra solicitando a cabeça de um companheiro – é um sanguinário

Se o guardião oferece o corpo à bola – é um depravado

Se o jogador vai a todas – é um garanhão.

Anúncios Pão com Manteiga

* Evite o roubo – junte-se a nós. Nunca roubamos colegas.

* Monte Gordo – que o magro não aguenta

* Drogaria – se não fosse proibido. Assim, tenho medo da polícia

* Andar Baixa – faz mal à espinha; endireite essas costas

* Dá-se 5 000$00 – a quem der 10 000$00. Negócio absolutamente limpo. Lavo sempre as mãos antes de receber a massa

* Furos para água – orifícios para vinho, buracos para cerveja, aberturas para leite, covas para laranjada. Fazemos orçamentos.

* Parede vende-se – pintada de verde, sem buracos de pregos. Tem apenas um quadro pendurado

* Bom Andar – tudo depende dos sapatos. Use o nosso calçado e verá como andará bem

* Quinta Compro – sexta vendo. Sou um inconstante

* Paio Pires – Mortadela Amaral, Presunto Silva, Bacon Oliveira, Salsichas Borsalino. Carnes das melhores proveniências

* BMW, DKW, VW – Pltr rtgsls  ldkjhd lslkjdh

* Andar na Pontinha – é perigoso; mantenha o equilíbrio!

* Sementes – levas porrada! É muito feio mentir.

  • in revista Pão com Manteiga, diverso números, 1981/2

A Cara

Sinónimos: rosto, face, tromba.

Breve explicação: um homem sem cara não é um verdadeiro homem. Provavelmente não será também uma mulher. A cara é, portanto, uma das partes mais importantes do corpo humano e justifica-se que nos ocupemos dela nesta primeira lição.

Localização: a cara localiza-se um pouco acima do pescoço, mas não muito. Apenas o suficiente para não se confundir com o tórax.

Conteúdo: é muito variável de pessoa para pessoa. No entanto, determinados constituintes existem na esmagadora maioria dos humanos, nomeadamente a boca e o nariz.

A boca trata-se de uma abertura logo acima do queixo, rodeada por duas faixas mais ou menos vermelhas, a que chamamos lábios. Note-se que a boca pode estar aberta ou fechada e possui uma propriedade fundamental, que poderá ser facilmente comprovada pelo leitor atento. Para tal, pegue num pedaço de pão com cerca de 8 centímetros e tente introduzi-lo no nariz, nas orelhas e assim sucessivamente.

Não conseguiu, não é verdade?

Pois tente agora enfiá-lo na boca.

Que tal? Entrou, não foi?

E, mesmo sem dar por isso, o leitor desatou a fazer movimentos com os dentes, para cima e para baixo, e acabou por engolir o pão. Experimente com o pão barrado com manteiga. Mais agradável ainda, hem? Pois é a isso que se chama comer. Já sabia, com certeza… Nem sempre se pode ser original…

Bom, acima da boca está o nariz. O nariz é um apêndice com alguns centímetros de comprimento e dois orifícios. Trata-se de um órgão muito útil, mesmo imprescindível. Assim, o nariz serve para nos assoarmos, mas, sobretudo, para metermos o dedo no nariz.

Como é do conhecimento geral, sem nariz não se poderia meter o nariz onde não se é chamado, não se poderia torcer o nariz, a mostarda nunca nos subiria ao mesmo. Serve também para levar murros e é muito utilizado quando está nevoeiro; nestas alturas, medimos um palmo à frente do nariz e se não enxergarmos coisa nenhuma, confirma-se que está nevoeiro.

Além da boca e do nariz, a cara pode ainda possuir dois olhos, com as respectivas sobrancelhas e duas orelhas – mas nem sempre. Pouco se sabe quanto à utilidade dos olhos, embora muita gente os utilize para ver.

A expressão “comer com os olhos” deve ser banida, uma vez que ficou provado que é com a boca que se come. Tal como no nariz, também se dão murros nos olhos ou, de preferência, deita-se-lhes poeira.

Das orelhas, conhecem-se apenas duas utilidades: ou servem de abano, se forem grandes, ou se faz o ninho atrás delas. De resto, são inestéticas e desprovidas de interesse.

Função: falámos do conteúdo da cara e da utilidade de cada uma das suas partes. Mas a cara propriamente dita, como um todo, merece uma referência à parte.

Como se sabe, existem vários tipos de caras, nomeadamente, a cara de parvo, a cara de mau, a carantonha, a cara de pau, a cara de poucos amigos, e a vida, que está cara. Por vezes, a cara serve para se transformar em bolo. O leitor talvez não acredite, mas se fizer mais uma pequena experiência, comprovará que não o estamos a enganar. Esta experiência pode realizá-la na cara de um amigo seu, ou na sua própria cara, em frente a um espelho, não necessitando de nenhum material especial. Basta, de facto, de dar uma série numerosa de socos no nariz e nos olhos (cf. Referências anteriores a estes dois órgãos). Como vê, tem a cara feita num bolo. Aproveite e coma-o. Com a boca, claro. É para isso que ela serve, como já aprendeu no início desta lição.

Conclusão: mas nestas coisas de anatomia, as aparências iludem muito. É

 frequente, por exemplo, que um tipo com cara de poucos amigos, tenha um fígado impecável. Aliás, quem vê caras, não vê corações, como se sabe…

  • in Revista pão com Manteiga, nº1, junho 1981

A Água

A água é um dos líquidos mais úteis ao homem e sem ela a nossa economia chegaria à ruína. Aliás, já anda lá perto…

Felizmente, apesar da seca que assola o país real (porque o outro, o país imaginário, já é uma seca desde o tempo do Eça de Queiroz, pelo menos), apesar da seca, dizíamos, a água encontra-se facilmente. Basta procurá-la, por exemplo, nos rios, mares, oceanos, lagos, lagoas, albufeiras, riachos, ribeiras, poços, charcos, pântanos, sargetas, fontes, nuvens e, por vezes, também nos canos, não é pal?

Sem água, seria o desemprego, as indústrias arruinar-se-iam. Note-se, por exemplo que, sem água não haveria submarinos, banheiras, bidés, lavatórios, torneiras, paquetes, navios, bisnagas, garrafas, boias, nadadores-salvadores, fatos de banho, âncoras, pescadores, minhocas, linguados, safios e outros peixes, algas, alforrecas, corais,  ilhas, quedas de água, cascatas, cataratas, arquipélagos, porta-aviões, borrifadores, chuveiros, canos, desentupidores, canalizadores, estações elevatórias, o homem da Atlântida, piscinas, pranchas de saltos, barbatanas, termas, mangueiras, bombeiros, o deserto deixava de fazer sentido, ninguém tinha sede, não teria piada nenhuma atravessar o Canal da Mancha a pé ou ir a Cacilhas de mota, não haveria chuva, nem chapéus de chuva, nem aguaceiros, nem gabardinas, nem galochas, cargas de água, trombas de água, até mesmo o desporto perderia várias modalidades, a natação, o polo aquático, a pesca submarina, não haveria naufrágios, maremotos, inundações. Enfim, vendo bem, talvez até fosse bom que não houvesse água!

Mas há água!

Pior ainda, existem diversas qualidades de água. E nem sempre no estado líquido. Com efeito, encontramos a água no estado sólido, sob a forma de gelo ou água mineral. No estado líquido, citemos a água-ardente, que é “um fogo que arde se beber”, como já dizia Camões; a água-pé, que me dispenso de comentar porque não gosto de conversas baixas; a água-rasca, espécie de água de má qualidade, utilizada para tirar manchas de tinta; a água-mole, utilizada para furar pedras duras – processo que requer muita persistência; a água destilada, que se obtém correndo 3 mil metros com um copo de água na mão – a meio do percurso, o copo começa a suar e a água destila; a água potável, armazenada em potes; a água lisa, para lavara a Mona; a água salgada, com a qual se preparam as lágrimas dos portugueses; a água doce, para bolos e outras guloseimas, etc…

Antigamente, também se fabricava a chamada água de colónia, mas como os novos métodos de exploração dos países do 3º mundo, a sua denominação mais correcta será água das ex-colónias.

Ah! e a água benta, que é a água da chuba, quando batida pelo bento.

  • in Pão com Manteiga, Rádio Comercial, 20-09-1981

Antigamente também havia super-heróis

Os super-heróis não são uma criação recente, como se poderia supor. Já na Antiguidade, muitos homens e mulheres se distinguiram pelos seus feitos, merecendo o epíteto de heróis. No entanto, se tivessem vivido no século 20 e vendessem as suas histórias a uma qualquer empresa de banda desenhada, certamente que seriam tão super-heróis como o homem aranha ou o super-homem.

Façamos uma rápida recapitulação dos grandes super-heróis de antigamente, sem preocupações cronológicas.

Todos se recordam de Spartakus que, com uma fisga de ir aos passarinhos furou o olho do gigante Adamastor num combate que se tornou célebre em todo o Egipto. Ou Alexandre o Grande que, à frente de um exército montado em elefantes, atravessou os Himalaias, derrotando os Persas em Ormuz, sem lugar para dúvidas nem lugar para mortos, que foram aos milhares. Todos se recordam também do pequeno David, possuidor de uma farta cabeleira que, graças à sua força bruta, impediu que o Circo de Roma se desmoronasse durante o terramoto de 1755. Foi também nessa data que Joana D’ Arc se tornou famosa ao transformar o pão que levava aos pobrezinhos esfomeados, em rosas perfumadas, ao ser interpelada por Lord Nelson que acabava de chegar da batalha de Aljubarrota, na qual, à frente de um pequeno exército, derrotara as hordas dos temíveis Hunos, que pretendiam conquistar o Peloponeso.

Foi a histórica batalha de La Lys, em que também se distinguiu Guilherme Tell que, com um único tiro de pistola, acertou em cheio na maçã de Adão de Gengis Khan, pondo fim ao reinado de terror daquele impiedoso imperador jugoslavo.

Não menos famosa foi Deuladeu Martins, uma super-heroína lusa que, munida de uma pá de padeiro, esmagou o crânio do gigante Golias – essa fera hedionda, possuidor de um único olho, situado a meia distância.

Citemos ainda Bufalo Bill, espadachim exímio que, num duelo nunca visto, porque era noite, e estava escuro, derrotou Napoleão na grande batalha de Trafalgar, quando os ingleses, fartos e cansados da Guerra dos Cem Anos procuravam, a todo o custo, submeter os povos das Antilhas britânicas.

Outro grande nome foi, sem dúvida, Nabocudonosor, mas esse não foi herói.

Herói foi, no entanto, Robin dos Bosques, cavaleiro da Transilvânia que, durante a noite, se transformava num insaciável vampiro, conhecido pelo nome de Conde de Sabrosa, que aterrorizava toda a região limítrofe do seu castelo. Ou esse outro herói, o dr. Frankenstein que, graças a um produto químico que ele próprio fabricava no seu laboratório secreto, se transformava em dr. Jeckyl. Os americanos lembram-se bem dele e da sua actuação decisiva para a independência dos Estados Unidos,

 E o grande Ulisses que, na batalha de Trancoso, preferiu ser decepado a deixar a bandeira nacional nas mãos dos austro-húngaros, acabando por morrer com a bandeira nos dentes.

E os nomes dos super-heróis de antigamente poderiam seguir-se. Seria uma lista interminável.

El Cid, o campeador, herói britânico, que preferiu juntar-se aos povos árabes e lutar pela sua independência, nas ardentes areias do deserto paquistanês.

Robinson Crusoe que, com um golpe de espada trespassou a enorme baleia Moby Dick.

Bem-Hur que, mercê da sua super-força, afastou as águas do Mar Vermelho para deixar passar os Curdos, que fugiam dos agressores gauleses.

Lawrence da Arábia, que ficou na História como desbravador da selva africana, enfrentando feras, antropófagos e a malária, acabando por morrer às mãos de King Kong, terrível chefe etíope que, na altura, dominava todas as tribos a norte do Tibete.

Ou Sir Lancelot e D’Artagnan, dois dos famosos cavaleiros da Távola Redonda, que se distinguiram na busca da pedra filosofal, derrotando dragões e monstros fantásticos, como o de Loch Ness e o da Lagoa de Melides.

Que nos desculpem as memórias dos que não foram aqui citados, mas para todos os super-heróis de antigamente aqui fica a nossa homenagem e o nosso muito obrigado.

  • in Pão com Manteiga, Rádio Comercial, 13.9.1981