“O Lago da Criação”, de Rachel Kushner (2024)

Rachel Kushner (Oregon, EUA, 1968) é já uma romancista norte-americana consagrada.

Dela já li Telex de Cuba (2008), Os Lança-Chamas (2013) e O Quarto de Marte (2018).

Sáo todos romances actuais, com implicações políticas e este O Lago da Criação não foge à regra.

Foi finalista do International Booker Prize e trata-se de um romance de espionagem à moda antiga, com a característica específca de ser narrado por uma mulher.

Sadie Smith é uma espia contratada para se infiltrar num grupo de activistas franceses, prontos a pôr em causa o status quo.

Sadie é implacável, e tem um humor muito especial, não se importando que o seu disfarce a obrigue a algumas cenas menos, digamos, formais. Faz-se passar por namorada de um grande amigo do líder do grupo activista, com tudo o que isso a obrigada a fazer, nomeadamente sob o ponto de vista sexual:

“Baixou-me os calções e pouco depois senti-lhe o hálito quente entre as minhas pernas. Sabia o que esperar. A língua na minha vulva era um prelúdio, um serviço que era sobretudo um pedido. (…)

Não sentia a menor atracção por Lucien, mas nessa tarde, naquele quarto de hotel, fechei os olhos, concentrei-me e, fingindo que me masturbava com um aparelho, ainda que o aparelho fosse o corpo de outra pessoa, consegui vir-me, precipitando assim o orgasmo dele, como cavalheiro que era.”

Sadie é americana e aceita trabalhos na Europa, nunca revelando quem a contrata. Desta vez está em França.

“…ou trufas secas, mostardas e frascos de carne gelatinosa semelhante a comida de gato, que os franceses apelidam de «terrine» e comem como se não fosse comida de gato”.

A crítica aos franceses está presente ao longo do livro:

“«Mas vai e diverte-te», dissera a Vito. «Os meus familiares teriam feito tudo para pertencer a um clube como esse. Em vez disso, esfregavam chãos e eram confundidos com portugueses.»”

A história é muito boa e poderá dar uma excelente mini-série de televisão, se alguém pegar nela.

Os activistas que Sadie infiltra, querem impedir as autoridades francesas de constituírem as chamadas mega-bacias hidrográficas que vão alimentar a agricultura intensiva. Têm, como mentores, alguns dos antigos activistas do Maio de 68 e toda a narrativa está cheia de ironia, como se este fosse um romance policial negro.

“Acho que confundiu água com identidade. Como aquelas pessoas que vão para o ioga e se convencem de que lhes bastará respirar para resolverem todos os problemas que têm.”

São 400 páginas de puro divertimento.

“Os Lanças-Chamas”, de Rachel Kushner (2013)

Este foi o 3º livro de Rachel Kushner que li e, tal como os outros dois (Telex de Cuba e O Quarto de Marte), trata-se de um livro complexo, cheio de referências históricas e culturais, as mais diversas.

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Kushner escreve regularmente sobre arte e este livro é prova disso. A maior parte do livro é narrada por uma jovem que se muda para Nova Iorque com o intuito de se tornar artista. Este é o ponto de partida para uma série de episódios que vão desde o recorde de velocidade em mota no deserto de sal do Utah, as vidas um pouco loucas dos artistas nova-iorquinos, com grandes bebedeiras e exposições de arte duvidosas (uma das personagens tira fotografias ao interior do forno da cozinha e diz que se trata de fotos do firmamento), e muitas outras coisas.

Uma boa parte do romance passa-se em Itália. A protagonista namora com o herdeiro das motas Valera, de Milão, que vive em Manhattan; depois, vão ambos para Itália e presenciam as grandes manifestações e os atentados das Brigadas vermelhas, já que a acção do livro decorre na década de 70.

Uma pequena passagem da página 220:

“…Pensei no discurso de Ronnie sobre o pão. Divertia-o que agora só se encontre pão integral nos mercados gourmet de Nova Iorque. Não é que Ronnie fizesse compras em lojas gourmet, mas tinha aberto uma no SoHo e ele percorreu os corredores para alimentar os habituais comentários. Disse que é uma ironia as pessoas terem decidido colectivamente que a farinha integral é mais desejável do que o pão branco que era há séculos o pão da nobreza. ““ Agora é tudo assim ““ disse ele. O refinamento seguira determinado curso e invertera-o. Neste caso, a farinha refinada para um pão branco super refinado, leve e fofo, outrora só alcance de reis e rainhas, obtém-se em toda a parte, pelo que os ricos tiveram que voltar a comer o rude pão integral que costumavam deixar aos camponeses. Agora, nenhuma pessoa instruída se deixa apanhar em flagrante a comer pão branco. Nem sequer uma pessoa da classe média”.

Ao longo do livro deparamos com citações deste género sobre os mais diversos assuntos, o que faz com que este livro de Rachel Kushner tenha sido considerado, pelo New York Times, um dos dez melhores livros de 2013.

“Telex de Cuba”, de Rachel Kushner (2008)

O ano passado, li O Quarto de Marte (2013), outro livro desta escritora norte-americana, que promete.

Este Telex de Cuba é um livro sobre os últimos tempos dos americanos e das suas empresas, em Cuba, antes de Fidel Castro e dos seus barbudos tomarem conta da ilha.

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Narrado sempre por americanos que lá viveram e que administraram as minas de níquel e as plantações de cana-de-açúcar, Telex de Cuba dá-nos uma ideia de como funcionava aquela sociedade estratificada, em que os americanos estavam no topo da pirâmide e, depois, por aí abaixo, vinham os cubanos, os haitianos e os da República Dominicana.

Nas montanhas, Castro e sus muchachos organizavam a revolta, mas, cá em baixo, os americanos continuavam com as suas festas onde todos se embebedavam e com os seus criados negros e a sua vida fútil.

Como reconstituição histórica, trata-se de um livro muito interessante.

“O Quarto de Marte”, de Rachel Kushner (2018)

Rachel Kushner nasceu no Oregon em 1968 e mudou-se para San Francisco em 1979. É autora de três romances premiados: Telex from Cuba (2008), The Flamethrowers (2013) e este The Mars Room (2018), que fez parte da lista finalista do Man Booker Prize desse ano.

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O Quarto de Marte é um daqueles livros que se lê de uma penada e ficas com pena de ter acabado.

A protagonista da história é Romy Hall, que está presa e foi condenada a duas penas perpétuas consecutivas. Romy (que diz ter o mesmo nome que a actriz Romy Schneider) vai-nos contando as peripécias da prisão de Stanville e também os seus receios em relação ao filho Jackson, de 10 anos, que ficou com a avó, quando Romy foi presa, e ainda as suas recordações dos desvarios que cometeu em San Francisco.

Pelas suas palavras, ficamos a saber que Romy, como muitas outras pessoas, foi vítima das circunstâncias.

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O Quarto de Marte é o nome de uma casa de strip-tease, onde Romy trabalhou, e onde conheceu homens que, depois, a maltrataram e a quem ela aplicou o respectivo correctivo – imaginamos nós, porque o texto nunca refere explicitamente os crimes que ela terá cometido para ter sido condenada a duas prisões perpétuas.

Para além da história de Romy Hall, que percorre todo o livro, conhecemos ainda as histórias de outras personagens, como a de Bo Crawford.

Este pedaço tocou-me especialmente, porque já vou no terceiro Honda Civic consecutivo:

“Vena Hubbard, uma mulher que trabalhava na lavandaria da cadeia, convivera com Bo Crawford e apaixonara-se por ele. Ela começou a sonhar com uma nova vida. Isto veio a saber-se mais tarde, em relatos jornalísticos que procuravam narrar a quebra de segurança na cadeia. Vena e Bo tinham falado em fugir para o México, mas antes de se dirigirem para lá, o seu plano era fazerem uma paragem rápida em casa de Vena para matarem Mack, o marido desta. Depois rumariam í  fronteira no carro dela, um Honda Civic. Tinham mapas e as poupanças dela, assim como uma espingarda que pertencia a Mack, que levariam com eles depois de o matarem. (Gordon perguntou a si mesmo se uma espingarda caberia sequer dentro de um Honda Civic”).

Claro que cabe!

Aconselho.