Fevereiro 2006:
Coisas que acontecem
| Cozinha tradicional portuguesa: Frango à Vítor Baía | Termómetro da homofobia | Como Freitas e Felgueiras me lixaram a escrita | Maior audiência | De Maomé a Bill Gates, passando por Alegre |
Segunda, 27 de Fevereiro
Cozinha tradicional portuguesa
- Frango à Vítor Baía
Ingredientes:
1 Vítor Baía
1 francês canhoto
1 bola de futebol e respectiva baliza
1 homem para formar barreira
Como preparar:
Colocar a bola a cerca de 35 metros da baliza. O Vítor Baía deve ficar em cima da linha de golo e fica à sua responsabilidade a formação da barreira. Por esse motivo, deve escolher-se um Vítor Baía experiente, de preferência, um que já tenha efectuado cerca de 400 jogos no Campeonato. Como experiente que é, o Vítor Baía só precisa de um homem para formar barreira. Coloca-se esse homem à distância regulamentar da bola e diz-se para ele se encolher, de modo a não ser atingido pela mesma.
Pega-se no francês canhoto e diz-se para que tome balanço. Muito.
O francês chuta, de modo a que a bola descreva um arco, contorne o homem da barreira e se dirija para a baliza, dando a entender que vai entrar junto ao canto direito.
Entretanto, o Vítor Baía lança-se para esse canto, com o intuito de agarrar a bola.
O esférico deve, então, bater no chão e sofrer um ligeiro desvio para a esquerda, enganando o Vítor Baía, que já vai em queda.
A bola entra na baliza e é golo.
O frango está pronto.
Acompanha com batatas e salada de tomate.
Domingo, 26 de Fevereiro
Termómetro da homofobia
Uma pequena notícia no DN de hoje: "a Associação Panteras Rosa quer testar um 'termómetro da homofobia no Porto'. Em data ainda a definir, um casal de homossexuais passear-se-á pela cidade com demonstrações de carinho em locais públicos, como cafés e restaurantes, para aferir da aceitação dos cidadãos á sua orientação sexual".
Um tipo lê e não acredita...
Claro que isto surge na sequência do assassínio de um transexual brasileiro, no Porto. Alegadamente, terá sido morto após ter sido submetido a vários dias de agressões violentas por um grupo de miúdos, com idades entre os 10 e os 16 anos. Os miúdos viviam todos numa instituição destinada a crianças abandonadas, instituição sob a alçada do bispo do Porto. O transexual brasileiro seria, também, prostituto e toxicodependente.
As associações de homossexuais transformaram esta vítima de violência num mártir da homofobia.
Tudo isto é tão triste...
Mas sugere novas propostas:
a) um tipo com ar de pastor, passeando-se pelas ruas com uma ovelha, demonstrando o seu amor por ela, beijando-a e afagando-lhe a lã;
b) um preto e uma branca, beijando-se e apalpando-se nos centros comerciais;
c) dois deputados, do mesmo sexo, distribuindo folhetos de propaganda e dando beijinhos na boca;
d) um toxicodependente e uma fumadora, em cuecas, fazendo marmelada na Avenida dos Aliados;
e) uma ucraniana boazona e uma habitante de Gaia, em combinação, lambendo-se no Mercado do Bulhão;
f) dois brasileiros, de qualquer sexo, fumadores, toxicodependentes, seropositivos para a Sida e para todas as hepatites, um deles muçulmano e o outro vestindo uma t-shirt com uma caricatura de Maomé, introduzindo dildos em diversos orifícios dos seus corpos, em qualquer local da cidade do Porto;
g) um homem e uma mulher, aparentemente banais, osculando-se ostensivamente, também em qualquer local da Invicta, mas com prévio aviso às cadeias de televisão, de modo a que estejam rodeados de mirones, na hora em que entrem em directo nos telejornais.
Que raio tem isto a ver com um grupo de adolescentes que mataram, à pedrada, uma pessoa, no Porto?
Nada!
Palhaços!
Nota 1: não admira - estamos no Carnaval...
Nota 2: "palhaços"? não estarei a demonstrar uma certa palhaçofobia?
Sábado, 18 de Fevereiro
Como Freitas e Felgueiras me lixaram a escrita
Ando com pouca vontade de escrever. Acontece. São fases.
Mas esta semana apetecia-me escrever qualquer coisa. Sentei-me ao computador, desfolhei os jornais da semana e encontrei vastos motivos para escrever. Já tinha deixado passar a OPA do Malandro sobre a PT. Nunca me senti muito à vontade com as OPAS, sobretudo porque não sei ao certo o que é uma OPA, mas também porque me custa a entender como alguém se oferece para comprar alguma coisa, não tendo dinheiro para isso e, ainda por cima, é aplaudido por todos os economistas.
Adiante.
Bom, se já não valia a pena falar sobre a OPA, que tema escolher?
Foi então que percebi que estava bloqueado. Como se pode escrever uma crónica que se pretende humorística, quando temos competidores tão competentes?
Como posso eu competir, por exemplo, com a Dona Fátima Felgueiras?
Que humor posso eu adicionar ao hilariante facto da Dona Fátima e mais 62 autocarros cheios de felgueirenses terem ido a Fátima, agradecer a ajuda da Nossa Senhora na reeleição da autarca que esteve foragida no Brasil?
Penso que não há mais nada a dizer: uma senhora que é acusada de ter abusado dos seus poderes, enquanto presidente da Câmara de Felgueiras e que, no dia em que ia ser presa preventivamente, cavou para o Brasil, vai a Fátima agradecer o facto de, apesar disso tudo, ter ganho as eleições. E não vai sozinha: leva 62 autocarros cheios de apoiantes.
É ou não é um fartar de rir?
E o que mais me espanta é que a Nossa Senhora não faz nada! Nem um raio sobre um dos autocarros, nem uma tempestadezita a encharcar a Dona Fátima, nem uma gastroenterite para a malta toda, depois do leitão à Bairrada que, certamente, comeram a meio da peregrinação. Nada! Ora, quem cala, consente - o que quer dizer que a Nossa Senhora apoiou mesmo a reeleição da Dona Fátima.
Sinceramente, já nada me espanta, no que diz respeito à Nossa Senhora. Por exemplo, agora que estamos em confronto com o mundo muçulmano por causa das caricaturas de Maomé, a Nossa Senhora podia resolver tudo se aparecesse, em sonhos, ao Presidente do Irão ou ao mais alto dirigente do Hamas. Podem crer que nos poupava muitas manifestações, muitas embaixadas incendiadas e diversos atentados bombistas.
Mas enfim, prefere ajudar autarcas duvidosos a ganhar eleições...
Paciência...
Portanto, no que respeita à ida da Dona Fátima a Fátima, pouco mais havia para dizer.
Passei, então a outro assunto: a reacção do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros à crise das caricaturas.
Ainda mais frustrado fiquei!
Então não é que Freitas do Amaral propôs, como modo de aproximar as duas comunidades (a nossa e a muçulmana), a realização de um Campeonato de futebol Euro-Árabe?
É ou não é outro fartar de rir?!
Isto é concorrência desleal!
Que mais posso eu dizer? Que talvez fosse melhor que o campeonato fosse de hóquei em patins porque, nesse caso, teríamos mais hipóteses de ganhar?
Sinceramente, assim, nem vale a pena um tipo tentar escrever crónicas humorísticas! Os políticos portugueses têm muito mais graça do que eu!
Domingo, 12 de Fevereiro
Maior audiência
No serviço de urgência há uma regra de ouro, que todos tentam cumprir: falar o essencial. Todos temos que ser rápidos - médicos e doentes. A sala de espera está cheia, há já outro doente à espera de ser chamado, não podemos estar com floreados.
Os doentes - a maior parte deles - entende esta necessidade e colabora.
Por exemplo, aquela mãe, que entrou com o filhote de 10 anos a reboque, atirou, de rúpia:
- O Filipe queixa-se de um ouvido. Quando era mais pequenino, foi operado aos ouvidos; puseram-lhe aqueles tubinhos nos ouvidos, para melhorar a audiência.
Se os directores dos canais de televisão descobrem que as timpanoplastias melhoram as audiências, os otorrinos vão ter muito trabalho...
Domingo, 5 de Fevereiro
Maldita enxaqueca!
1. De Maomé a Bill Gates, passando por Alegre
Quase todos os dirigentes ocidentais, incluindo Sócrates, criticaram os cartoons publicados num jornal dinamarquês, que mostram Maomé com uma bomba no turbante. De repente, ficaram todos muito muçulmanos, todos horrorizados com a brincadeira dos desenhadores escandinavos. O único que se recusa a pedir desculpa é o primeiro-ministro dinamarquês. Chama-se Anders Fogh Rasmussen. Registo o nome para que conste.
Hipócritas!
Lembram-se do cartoon de António que mostra o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz? E de milhares de cartoons que brincam com Jota Cristo na cruz, S. Pedro nas portas do céu, a Nossa Senhora de Fátima aparecendo aos pastorinhos e outras heresias similares?
Têm medo de quê?
De um bando de tipos que se fazem explodir, matando inocentes, que cortam as mãos aos ladrões e apedrejam as mulheres adúlteras?
Não! Têm medo é de perder o petróleo que escorre das arábias!
Felizmente, já temos Alegre na Assembleia da República. Depois de uma baixa médica que lhe permitiu descansar da agitação da campanha e ir à caça, o Candidato-Um-Milhão regressou à bancada socialista. É natural. A baixa médica levava-lhe 40% do ordenado e, estando na caça, candidatava-se a ser apanhado pela fiscalização da Segurança Social e o médico que lhe passou a baixa ainda ia parar aos tribunais, como aqueles médicos de Guimarães que passaram atestados aos estudantes para faltarem aos exames do 12º ano.
O que nos vale é o Valentim Loureiro. Acusado de 18 crimes, no caso Apito Dourado, já disse que não se demite de cargo nenhum. Como é óbvio, está inocente! Nem percebo como é que o Ministério Público continua a gastar o dinheiro do contribuinte em inquéritos desnecessários. Pois se está mesmo a ver que o major é um pobre inocente, apanhado na teia das escutas telefónicas!
Claro que, entretanto, todos estamos mais descansados, depois da visita de Bill Gates a Portugal. O novo cavaleiro da ordem de D. Henrique, assinou acordos com o governo e promete ensinar informática a um milhão de portugueses. Será o milhão que votou em Alegre? Se assim for, Sócrates vai ficar pior que estragado!
Graças a esses protocolos, os nossos computadores vão ficar muito mais espertos e, em vez de uma vaga ideia, passarão a ter memória a sério. Todos aqueles projectos que envolvem banda larga vão ser um êxito. Teremos alunos, de repente, a gostarem de matemática, médicos a passarem receitas electrónicas, empresas a serem formadas na hora e tudo, tudo a ser resolvido imediatamente.
Excepto, claro, o casamento entre homossexuais.
Infelizmente, Bill Gates ainda não criou um software para isso.
As lésbicas e os homossexuais masculinos vão ter que continuar a viver na ilegalidade, sem poderem usar aliança e anel de noivado. Uma grande perda, sem dúvida!
E os polígamos também estão lixados. Milhares de portugueses que, tal como os seus irmãos muçulmanos - agora vilipendiados pelos cartoonistas dinamarqueses - ansiavam poder casar-se com cinco ou seis gajas, vão ter que aguentar os cavalos.
É por essas e por outras que esta maldita enxaqueca não há meio de me passar!
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