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O Coiso
Um dia destes...

Janeiro 2006:

Coisas que acontecem

| Sinais do Apocalipse | Terrorismo de Estado | E se Cavaco fosse veterinário? | Com um apoio destes, quem precisa de inimigos? | O Ministério da Quadrilhice | Um antepassado chamado Almachio | Fumadores - aperta-se o cerco | Sócrates não dá o exemplo | E se o próximo presidente fossem seis? |


Segunda, 31 de Janeiro
Sinais do Apocalipse
Quando recebi a mensagem, no telemóvel, não quis acreditar: está a nevar em Lisboa!

Fiquei preocupado. Verdadeiramente preocupado.

Na noite de sábado, deitei-me com aquela sensação estranha na boca: o Sporting fora ao Estádio da Luz derrotar o glorioso por um expressivo 3-1. O Sporting, que na semana anterior se vira grego para empatar com o modesto Marítimo, derrotava claramente a equipa que eliminou o Manchester United da liga dos Campeões.

Havia algo de errado em tudo isto.

Quando, menos de 24 horas depois, confirmei que, de facto, nevava em Lisboa - e que até nevava em Cacilhas! - quase decidi entrar em pânico.

Não nevava na capital do reino desde os meus 2 aninhos, isto é, há 52 anos, mais coisa, menos coisa.

Admito que não foi um grande nevão; os farrapos de neve eram rapidamente desfeitos pelos grossos pingos de chuva. Mas nevava.

Mais preocupado fiquei.

Hoje, então, fiquei siderado.

Bill Gates, o patrão da Microsoft e homem mais rico do mundo, está em Lisboa, a convite do Governo português e foi condecorado pelo Presidente Sampaio.

Entrei mesmo em pânico, há coisa de duas horas.

A vitória do Sporting, a neve em Lisboa e a visita de Gates, confirmam as minhas piores suspeitas: o mundo está prestes a acabar!

Por isso, há cerca de duas horas que estou sentadinho no meu sofá, fumando cigarros e bebericando whisky de malte.

Quero estar preparado quando o mundo acabar - o que, pelas minhas contas, deve acontecer dentro de pouco tempo, assim que Manuel Alegre anunciar a formação do seu Movimento de Cidadania...

Domingo, 29 de Janeiro
Terrorismo de Estado
O Hamas venceu as eleições palestinianas com maioria absoluta.

Finalmente, estamos perante o terrorismo democrático.

Deixaremos de ter atentados bombistas aleatórios, com os suicidas a explodirem onde muito bem entendem, provocando o caos no trânsito.

Na Assembleia da República lá do sítio, os deputados passarão a votar o próximo atentado bombista. Democraticamente, será escolhido o homem-bomba, o local onde deverá explodir, quantas pessoas deverá matar, bem como o subsídio a atribuir à viúva e restante família.

E se a democracia for levada a sério, o Hamas poderá até publicitar antecipadamente o local onde explodirá o próximo democrata.

Porque a democracia implica transparência.

E, se as coisas não correrem bem, há sempre a possibilidade de fazer explodir a própria Assembleia da República Palestiniana.

Sábado, 28 de Janeiro
E se Cavaco fosse veterinário?
O pai de Aníbal Cavaco Silva afirmou que o filho "é catedrático, não é um veterinário qualquer".

Está bem, estou de acordo: somos alguns porcos, ou quê? Presididos por um veterinário qualquer? Apesar de estarmos na cauda da Europa, a nossa realidade ainda não é a do livro de Orwel, O Triunfo dos Porcos. Não precisamos de nenhum veterinário, ainda por cima qualquer, para mandar em nós!

Mas a afirmação é enigmática e eu não sei bem porquê.

Por um lado, tenho quase a certeza de que há veterinários que também são catedráticos - embora perceba que um veterinário catedrático não é um veterinário qualquer...

Ora, se podemos afirmar que Cavaco não é veterinário - a menos que ele nos tenha andado a enganar estes anos todos, dizendo-se economista - a frase do seu pai é difícil de entender.

Portugal fica melhor com um catedrático na Presidência, em oposição a um veterinário? Algum dos outros candidatos é veterinário? Soares, afinal, é veterinário? Ou Alegre?... Não me parece. Garcia Pereira, muito menos. Jerónimo é operário, não se cansa de o afirmar, e o homem não tem pinta de mentiroso. A menos que Louçã que, entre outras coisas, também defende os direitos dos animais (que são, à sua maneira, uma minoria), a menos que seja Louçã, o veterinário.

Partindo do princípio que nenhum dos adversários de Cavaco são veterinários, a frase do pai do nosso Presidente mantém-se obscura.

Adiante.

Quem deve estar muito contente é Sócrates, depois da vitória de Cavaco. Alguém está a ver o catedrático que não é um veterinário qualquer, a receber, em Belém, os juízes zangados, os professores irados e os trabalhadores em geral, protestando contra a política do governo?

De modo nenhum. É fácil de imaginar qualquer dos outros candidatos a receber comissões de trabalhadores da função pública, pretendendo que o Presidente intercedesse junto do governo, impedindo-o de tomar medidas impopulares.

Cavaco, nunca!

Sócrates esfrega, pois, as mãos de contente.

Se a malta continuar a protestar, pode sempre dizer que até o Presidente está de acordo com as medidas tomadas.

Estamos tramados, meus amigos. Teremos que aturar Sócrates e Cavaco durante os próximos dez anos.

E olhem que eles não são uns veterinários quaisquer!...

Domingo, 15 de Janeiro
Com um apoio destes, quem precisa de inimigos?

Sábado, 14 de Janeiro
O Ministério da Quadrilhice
O pasquim "24 Horas" conseguiu um grande furo e, desta vez, não foi nada relacionado com a porteira do prédio onde mora a namorada de um conhecido actor de telenovela, ou as fotografias chocantes do pénis do actor brasileiro que participou no Big Brother.

Desta vez, o "24 Horas" revelou que tem em seu poder os ficheiros com os números de telefone de inúmeras personalidades políticas, cujos telefonemas terão sido escutados no âmbito do processo Casa Pia. Entre essas personalidades, destacam-se o Presidente da República, António Guterres e muitos outros ministros e dirigentes do PS e do PSD.

Ai que escândalo, meninas!

As escutas telefónicas parecem ser, de facto, a grande arma dos investigadores do Ministério Público, que usam e abusam delas, aproveitando para escutar os telefonemas dos políticos a encomendar pizzas, a marcar visitas ao cabeleireiro ou, quem sabe, a combinar uma pinocada para o próximo fim de semana...

O Ministério Público transforma-se, assim, no Ministério da Quadrilhice ou das Calhandreiras.

Em vez de investigar os crimes, o Ministério Público parece entreter-se a ouvir conversas telefónicas, para ficar a saber tudo sobre a vida privada dos políticos.

Perante esta enormidade, o Dr. Souto Moura (que, na expressão feliz do EPC, parece um gato constipado...), desmente.

E nisso, o homem é bom.

Aliás, nos últimos anos, não tem feito outra coisa senão desmentir as notícias que vêm nos jornais, ficando indiferente a todas as fugas do segredo de justiça que têm ocorrido.

Foi graças a uma dessas fugas que ficámos a saber, por exemplo, que Ferro Rodrigues se estava cagando para o segredo de justiça - informação vital para o desenvolvimento social e económico deste nosso querido Portugal.

Depois destes acontecimentos, vou ter mais cuidado quando estiver ao telefone.

Quando chegar a casa, estoirado, depois de 14 horas a aturar doentes, não poderei telefonar para outro colega e dizer-lhe, por exemplo: "quero que o Serviço Nacional de Saúde se lixe!"

Expressões como "o pateta do Alegre é um poeta medíocre e seria um presidente medroso", "coitado do Marocas, até já mija nas botas" ou "já imaginaste o Cavaco a dar uma queca à mulher?", nunca mais poderão ser usadas numa conversa telefónica com o nosso melhor amigo. A gente sabe lá se esse nosso amigo não tem alguma ligação com o primo do rapaz que entrega pizzas em casa do Souto Moura e, sendo assim, a nossa conversa poderá muito bem estar a ser escutada por um dos investigadores do Ministério da Quadrilhice!

Talvez tenha chegado a altura do dito Ministério começar a utilizar outros métodos, para além das escutas telefónicas, não lhes parece?

Que tal o agente infiltrado? Bastava contratar uma figura pública conhecida, que tenha acesso aos locais do costume e, mediante o pagamento de um salário condigno, pedir-lhe que forneça informações sobre as pessoas a investigar.

Por exemplo: pedir ao Jorge Coelho que diga o que Sócrates verdadeiramente pensa sobre o país, pedir à Joana Amaral Dias que informe sobre o que terá levado Soares a acreditar que ia ganhar as eleições, pedir ao Marques Mendes que esclareça o que Cavaco fará quando for eleito Presidente e a CGTP lhe pedir uma audiência nas vésperas de uma greve geral, pedir ao Manuel Alegre que se explique a si próprio.

Mas talvez não valha a pena...

Ao fim e ao cabo, não será já o próprio Souto Moura um agente infiltrado?...

Um antepassado chamado Almachio
A Dalila empreendeu um trabalho ciclópico: fazer a árvore genealógica da família. Graças a um trabalho de paciência, tem conseguido as certidões de nascimento de vários membros da família e já vai, pelo menos, na 5ª geração.

E foi graças ao seu trabalho que eu descobri que, afinal, tive bisavós!

Juro que só me lembrava dos avós: do lado do meu pai, o Fernando e a Ada; do lado da minha mãe, a Rita e o Loureiro (e reparo, agora, que não sei o nome próprio do meu avô materno - tenho que perguntar à minha nora!...)

Mas, quanto a bisavós, népia.

Foi então que, ontem, a Dalila me mostrou a certidão de nascimento do meu pai.

E lá constavam os nomes dos meus bisavôs, do lado do avô paterno: Estefânia Rita e Almachio dos Santos!

Almachio!

Paremos um pouco para meditar sobre este nome próprio!

Acrescento que o dito nome consta do Prontuário, embora com a grafia Almáquio.

E penso: quando o meu bisavô Almachio era pequenino, nos idos do século XIX, somo seria que a mãe (a minha trisavó, portanto), o chamaria? - "Almachinho, anda almoçar que a sopa está a arrefecer!"

Domingo, 8 de Janeiro
Fumadores - aperta-se o cerco
Em Espanha, a lei anti-tabaco já está em vigor. Tão restrita como a da Irlanda e as de outros países em que o tabaco é o novo demónio, o culpado de todos os males do corpo e do espírito.

Há algum tempo, a Organização Mundial de Saúde anunciou que deixará de contratar fumadores para os seus quadros.

Na Grã-Bretanha, Sophie Blinman, de 21 anos, foi despedida da Dataflow Comunications, 45 minutos depois de ter sido contratada, quando os patrões descobriram que era fumadora.

Os impostos sobre o tabaco aumentaram vergonhosamente, de tal modo que se pode dizer que somos nós, os fumadores, que estamos a pagar o deficit.

A ideologia dominante até se dá ao trabalho de reescrever a História, retirando o cigarro da boca de Malraux, num selo dos Correios franceses, da boca de Lucky Luke, nos álbuns de banda desenhada, ou da mão de McCartney, na foto do Abbey Road.

Ora, se nós, fumadores, estamos condenados a morrer de cancro do pulmão, da bexiga, da boca ou da laringe, de enfarto do miocárdio ou de acidente vascular cerebral, se vão ficar impotentes, com menos esperma, menos fecundidade, menos energia, menos força, menos memória - por que carga de água não nos deixam em paz?

Somos, de facto, uma espécie em vias de extinção.

Devíamos ser protegidos, como as baleias ou os linces da Malcata!

Sócrates não dá o exemplo
Temos um primeiro-ministro com a mania das grandezas.

Numa altura em que se pedem grandes sacrifícios a todos os portugueses, obrigando-os a trabalhar mais e a ganhar menos, é ver o Sr. Engenheiro a passar férias no Estrangeiro.

No Verão, lá foi ele, com os filhos, para um safari, no Quénia.

No passado mês de Dezembro foi, também com os filhos, esquiar para uma estância qualquer.

Coisa boa: o Sr. Engenheiro é um homem de família - nunca se esquece de levar os filhos.

Coisa má: se gosta muito de esquiar com os filhos, ao menos que fosse para a Serra da Estrela. Sempre era um exemplo de poupança.

Claro que Deus (que está sempre atento), castigou-o e proporcionou-lhe um entorse que obriga o Sr. Engenheiro a andar de muletas durante duas semanas.

Mas Sócrates faz mal.

Devia ser mais contido. Antes de mais, não devia sequer tirar férias, para dar o exemplo. Mas enfim, se precisava de descansar, ao menos que tirasse férias na Costa da Caparica, na praia do Tarquínio, por exemplo.

Assim, vendo-o chegar ao aeroporto de Lisboa, vindo da neve, de muletas, todos os portugueses vão comentar: então este gajo não nos aumenta os ordenados e vai gastar dinheirinho a fazer sky?

Vai daí, desatam logo a empenhar-se em férias nas Caraíbas...

Domingo, 1 de Janeiro
E se o próximo presidente fossem seis?
Eis uma proposta edificante: em vez de estarmos todos aflitos, sem saber em quem não votar nas próximas presidenciais, por que não transformar a Presidência numa espécie de condomínio e deixar que cada candidato seja Presidente, digamos, por seis meses.

Seria assim uma espécie de União Europeia. Hoje mesmo, a Áustria toma conta da Presidência da EU e assim ficará nos próximos seis meses, sucedendo à Grã-Bretanha.

Podíamos perfeitamente fazer o mesmo. A UE é o precedente que precisávamos para justificar tal medida.

Ora bem, começava o Cavaco e teríamos seis meses de conflito entre a Presidência e o governo, com o professor a tentar impor secretários de Estado ao Sócrates e este a resistir e a dizer que assim não se pode governar, com um tipo sempre a mandar palpites e a querer imiscuir-se onde não é chamado.

Lá para Julho, a Presidência passava para o Soares e voltava a acalmia governativa, enquanto a malta se divertia com as gafes do Presidente. Devido à sua provecta idade, Soares iniciava as chamadas Presidências Fechadas, sempre no Palácio de Belém, para evitar os resfriados. Seria um semestre dedicado aos cidadãos mais velhos, com constantes inaugurações de lares para a 3ª idade.

Em Janeiro de 2007, seria a vez de Alegre assumir a Presidência e teríamos um semestre poético, com jogos florais por todo o país. Haveria algumas zangas entre o Presidente e o Primeiro-Ministro, mas tudo se acalmaria num mar de cidadania.

Em Julho do próximo ano, Jerónimo seria Presidente e Portugal regressaria à reforma agrária. Seria um semestre de acalmia, no que respeita a greves, porque a Intersindical não deveria querer manchar a presidência de Jerónimo.

Depois, em Janeiro de 2008, Louçã seria Presidente e seria um semestre de grandes alterações sociais: casamentos entre homossexuais, legalização das drogas leves, salas de chuto em cada esquina e prostitutas a não terem que fugir à polícia.

Mas a mudança mais dramática seria em Julho de 2008, com Garcia Pereira na Presidência: era ver as multinacionais a pirarem-se do país e o povo a tomar o Poder nas mãos, numa aliança indestrutível entre os camponeses e os operários, embora a coisa não causasse grande mossa porque cada vez há menos camponeses e operários em Portugal.

Em Janeiro de 2009, não teríamos alternativa senão votar novamente para Presidente mas, até lá, estes três anos de Presidência em condomínio deveriam fazer-nos reflectir. E se não aparecessem candidatos como deve ser, tenho a certeza que muitos de nós decidiriam avançar com uma candidatura.

É que, com candidatos como estes seis que a gente tem, mais valia que o próximo Presidente de Portugal fosses tu ou eu...

 

 




 

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Este é o Coiso do Artur Couto e Santos.
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