Junho 2005:
Coisas que acontecem
| Médico pessoal | A minha ida ao tribunal | Botãozinho rosa molhadinho | Durão acaba com a União Europeia | A frase | Eu sócro-me, tu sócras-te, ele sócra-se | A feira dos autógrafos | Das putas: as que escrevem e as que são mães de jornalistas | Apanharam-me de costas! |
Quarta, 29 de Junho
A minha ida ao tribunal
Fui convocado para comparecer no tribunal, a fim de prestar declarações quanto ao eventual internamento compulsivo de um doente.
Só tinha ido uma vez ao tribunal, também como testemunha, há já muitos anos.
Não gosto especialmente de tribunais e desconfio que pouca gente gosta, incluindo os que lá trabalham.
Mas enfim, tinha que ir.
Cheguei 45 minutos antes da hora. Não fui aplaudido, mas percebi que não é costume chegar-se adiantado ao tribunal. Mas funciono assim: quando não gosto de uma coisa que sou obrigado a fazer, prefiro fazê-la o mais depressa possível, para me ver livre dela. Nunca deixo para o fim uma coisa de que não gosto. Para o fim fica sempre o que me dá gozo. Manias...
Confesso que me sentia um pouco ansioso. Mentalmente, revi dezenas de vezes o que ia dizer ao juiz. Nada de especial. Apenas o que sei sobre o doente em questão. Mesmo assim, estava ligeiramente desconfortável. Ainda por cima, de casaco, apesar do calor. Achei que ficava mal enfrentar a Justiça em mangas de camisa.
Decidi ir verter águas antes que me chamassem. Não me parecia correcto responder ao doutor juiz com a bexiga cheia.
Entrei na casa de banho com a pasta numa mão e a convocatória na outra. Havia, portanto, um problema logístico. Resolvi-o, entalando a convocatória entre os lábios. Fiquei com a mão direita livre para o acto. Comecei a urinar. Um jacto forte e encorpado. Respirei fundo. De alívio.
Foi quando o papel caiu da boca, directamente no urinol e mijei a convocatória toda!
Médico pessoal
Passa na tv um spot publicitário que me intriga.
Num restaurante, um casal vai iniciar a refeição. De súbito, o homem engasga-se e começa a esbracejar, aflito. Está a asfixiar. A mulher abana-o com o guardanapo. O empregado de mesa sopra-lhe para a cara. Mas ele está cada vez mais aflito. Em pânico, o empregado grita: "Há algum médico na sala?" Os clientes entreolham-se interrogativamente. Não há nenhum médico. Mas eis que, empurrando uma porta de vai-vem, surge um médico (vem da cozinha?). Vê-se que é um médico porque vem de bata e estetoscópio pendurado ao pescoço. É alto, bem parecido, barba bem aparada. Atira-se ao homem e executa a manobra de Heimlich. Colocando-se atrás do desgraçado, abraça-o e comprime-lhe o plexo solar. Com dois ou três impulsos, que levantam o homem do chão, obriga-o a expelir um pedaço de osso, que estaria encravado na laringe.
A voz off diz que a Médis é a única que oferece um médico pessoal, sempre disponível, no consultório ou no telemóvel.
Em primeiro lugar, a publicidade é enganosa: de que me serve um médico disponível no telemóvel se estiver a jantar sozinho e me engasgar com um osso? De que serve um médico pessoal, sempre disponível, se eu tiver um enfarto do miocárdio? Será que esse médico é mais rápido que o 112?
Parece-me um embuste invocar um médico deste tipo para situações de emergência.
Em segundo lugar, o spot passa muitas vezes antes do telejornal da noite e não é nada agradável estar a comer e ver, na tv, um tipo a engasgar-se.
Mas o que mais me intriga é a cena final do spot: vemos a companheira do engasgado, segurando o presumível osso e falando ao telefone. Com ar guloso, diz: "Doutor?..."
Que raio quer isto dizer? Quererá dizer que se vai engasgar de propósito para que o bonitão do médico apareça por trás dela e lhe dê uns apertões valentes no plexo solar, mesmo abaixo das mamocas?
Será que o médico pessoal da Médis está também sempre disponível para satisfazer as necessidades lascivas das suas clientes?
Domingo, 19 de Junho
Botãozinho rosa molhadinho
Sócrates prometeu 250 mil novos postos de trabalho até ao fim da legislatura, bem como um choque tecnológico capaz de relançar a economia do país.
A secção "Relax" do Diário de Notícias fornece um enorme contributo para que esse desiderato seja cumprido.
Basta ler as pequenas mensagens da referida secção para percebermos que estamos perante um verdadeiro choque tecnológico:
"2 Cunhadas: Adoramos fazer sem eles saberem 2 bocas simultâneo 4 mãos oral babar prazer 100% garantido"
Não estará o problema dos 250 mil novos empregos resolvido com mensagens como esta:
"Agência Cátia: apartamento de luxo... meninas alto nível... temos de tudo, morenas, louras, mulatas, corpos de sonho... atendimento 24 horas... privado, despedidas de solteiro... hotéis, domicílios... experimente e veja a diferença..."
Ou ainda:
"Pedro... 22 anos... português... moreno... lindíssimo... dotado... versátil... corpo escultural... atende apartamento privado cavalheiros de nível... hotéis e domicílios... speak english... parle français..."
O potencial desta pequena secção "Relax" é incomensurável e não sei por que razão o Governo ainda não decidiu apostar nesta gente jovem, dotada, versátil que, ainda por cima, fala várias línguas.
Só mais um exemplo:
"Cascais Vera: comigo tudo bom, sem reclamações!!! Trintona peitão 44 oral natural peludinha bumbum esfomeado botãozinho rosa molhadinho."
Com que então "botãozinho rosa molhadinho"?!
É ou não é um verdadeiro choque tecnológico?!...
Sábado, 18 de Junho
Durão acaba com a União Europeia
A exportação de craques portugueses tem resultado bem, no que respeita ao futebol: Rui Costa, Figo, Ronaldo - para citar apenas três nomes -, têm feito carreiras brilhantes no estrangeiro.
No que respeita a políticos, a coisa também está a correr muito bem: depois de Freitas do Amaral ter desempenhado um alto cargo na ONU com distinção, calhou a vez a Guterres mostrar o que vale com os refugiados.
A tudo isto não será alheio o facto de Durão Barroso estar a conseguir nivelar a União Europeia por baixo, isto é, por Portugal.
Primeiro, foi aquela história de ter passado férias num iate de um ricalhaço qualquer; a seguir, vieram os referendos da França e da Holanda, a recusarem a constituição europeia; agora, a pausa, depois dos 25 países não terem conseguido chegar a acordo quanto aos dinheiros.
E o que é a pausa?
A pausa é um período de tempo não definido, durante o qual, os dirigentes dos 25 países da UE vão reflectir, para chegar à conclusão que todos eles já conhecem: a Europa, tal como eles a querem, não existe. Um parlamento, um presidente, um ministro dos Negócios Estrangeiros, uma moeda, uma constituição, um exército - para os 25?
Devem estar a brincar...
O nosso Cherne mostrou-lhes como é. Utilizando a velha técnica da política portuguesa, de dizer hoje o contrário do que se disse ontem, aconselhou os países membros a prosseguirem com os referendos e, horas depois, aconselhou-os a pararem para reflectir.
Ora os organizados alemães, os fleumáticos ingleses e os emproados franceses não estão habituados a tácticas destas e ficam baralhados.
Agora é só esperar que, a pouco e pouco, todos se aproximem de Portugal, no que respeita a taxas de desemprego, esperança de vida e mortalidade infantil.
Quando todos os países da União Europeia souberem o que custa viver em Portugal, então sim, poderemos sentar-nos à mesma mesa e discutir em pé de igualdade.
E se esta estratégia falhar, o Zé Manel tem sempre uma alternativa: pirar-se, que foi o que fez quando era primeiro-ministro.
Talvez o Guterres (também especialista em bater a asa em momentos complexos) lhe arranje um lugar num campo de refugiados do Uganda...
Terça, 14 de Junho
A frase
Telejornal da RTP-1, às 20 horas, um dia depois da morte de Álvaro Cunhal.
O repórter está à porta do antigo Hotel Vitória. Lá dentro, a urna com o corpo de Cunhal. Cá fora, uma fila de cidadãos aguarda a sua vez para prestar homenagem ao líder histórico do PCP.
O repórter decide entrevistar um cidadão ao acaso. Escolhe um velhote com ar digno, de gravata preta.
"E o senhor, o que está aqui a fazer?" - pergunta o repórter.
"Nem é preciso perguntar..." - diz o velhote. E, mantendo o mesmo porte digno, acrescenta: "Digam ao Alberto João Jardim que ele foi parido pelo cu da mãe dele!"
Sem comentários...
Domingo, 12 de Junho
Eu sócro-me, tu sócras-te, ele sócra-se
O Sócrates ataca em todas as frentes: dos professores aos polícias, dos bombeiros às educadoras de infância, dos médicos aos juizes. Ninguém se safa: coveiros, auxiliares de acção educativa (grande nome para tarefa tão inglória!), administrativos, arquitectos, engenheiros, enfermeiros, deputados, ministros! Vai tudo raso!
De repente, o país descobriu, graças ao Sócrates, que existia para aí uma maltósia da função pública a reformar-se antes do tempo, com ordenados obscenos.
De súbito, os jornais encheram-se com notícias de coisas inacreditáveis: sabiam que os enfermeiros se podiam reformar aos 55 anos, com 32 anos de serviço porque a sua profissão é de desgaste rápido e sofrem de muitas lesões da coluna? Sabiam que os juizes têm as chamadas férias judiciais, de junho a setembro? Sabiam que os professores, no ano em que se vão reformar, já nem sequer dão aulas? Sabiam que um economista que trabalhe 6 anos como vice-presidente do Banco de Portugal, tem direito a uma reforma de 8 mil euros por mês?
Pelos vistos, ninguém sabia disto: nem Santana Lopes, nem Durão Barroso, nem Guterres, nem mesmo Cavaco que, juntamente com Sousa Franco, é responsável pelo novo sistema retributivo da função pública!
Toda a gente ficou indignada!
Desde o empregado de escritório que passa o dia a fazer downloads da internet à empregada de balcão que boceja e nos atende com duas pedras na mão, desde o operário que trabalha seis meses e fica seis meses de baixa ao jornalista que recorta e cola telegramas, desde o médico com consultório, para onde desvia os doentes que não atende no Serviço Nacional de Saúde, ao advogado que subsiste graças à ineficácia do serviço público - todos, sem excepção, apoiam o Sócrates, na sua decisão de atacar os benefícios da função pública.
O problema é que não há meios para combater os fogos, não há pessoal suficiente nos hospitais, faltam infantários, os processos emperram nos tribunais.
Aqui vai um conselho, Sócrates: não tentes remediar o que não tem remédio porque, o que não tem remédio, remediado está. Deixa arder, que o meu pai é bombeiro.
É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma...
Confuso? Não... Portugal é como o futebol: assim mesmo...
Sexta, 10 de Junho
A feira dos autógrafos
A Feira do Livro transformou-se numa feira de autógrafos. O fenómeno tem vindo a aumentar nos últimos anos. Agora, quando nos deslocamos ao Parque Eduardo VII para espiolhar as bancas, em busca de livros mais baratos, damos de caras com dezenas de autores, sentadinhos a uma mesa, aguardando que os leitores lhes entreguem os livros que escreveram (?), para que os possam autografar.
Hoje fomos fazer a nossa sacramental visita anual à Feira do Livro. No sentido ascendente, deparámos com o rei, os bobos e a prostituta; no sentido descendente, com a comunicação social.
De facto, para além de muitos outros autores (e não digo escritores porque acho que não estava lá nenhum), pudemos ver, prontos para o autógrafo, D. Duarte, o rei sem trono, mais acima, os gatos fedorentos, os actuais bobos oficiais da corte e, um pouco mais acima, Carla de Almeida, a tal que escreveu um livro sobre uma prostituta. Do outro lado, José Rodrigues dos Santos, representava a comunicação social...
Infelizmente, os autores dos livros que comprei não estavam presentes para os autografar: Philip Roth ("Casei com um comunista" e "Pastoral americana"), Paul Auster ("Experiências com a verdade" e "Timbuktu"), Manuel Vasquez Montalban ("Galindez" e "O Pianista"), Umberto Eco ("A Misteriosa chama da rainha Loana"), David Lodge ("Longe do Abrigo") e Tom Sharpe ("Wilt em parte incerta").
Talvez para o ano...
Domingo, 5 de Junho
Das putas: as que escrevem e as que são mães de jornalistas
A Visão de 26 de maio dedica duas páginas a Carla de Almeida, que acaba de lançar um livro intitulado "300 Clientes Habituais" e que conta a história de um prostituta de luxo.
Diana é o nome da prostituta (pseudónimo da autora?) que, estando cheia de dívidas, coloca três hipóteses para sair do aperto: "suicídio, tráfico de droga ou prostituição. A primeira era trágica demais, a segunda, muito arriscada. Sobrou a terceira solução."
Estou a citar o texto da Visão, da autoria de Ricardo Fonseca. E pergunto-me: o suicídio será "trágico demais"? O tráfico de droga é "muito arriscado"? não haveria mais opções? Por que razão a tal Diana não equacionou a hipótese de arranjar um emprego legal para, desse modo, poder pagar as dívidas? Ou porque não optou por enfrentar os tribunais? Na prisão, teria cama, mesa e roupa lavada e, certamente, algumas experiências sexuais interessantes, com a vantagem, em relação à prostituição, de ficar livre da infecção pelo HIV.
Mas enfim, Diana decidiu ser puta - o que lhe permitiu escrever um livro, agora editado e que promete ser um êxito de vendas.
Vamos agora a outro tipo de putas.
O presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim, foi reformado da Função Pública e acumula essa reforma com o ordenado de presidente. Incomodado com o facto dos jornalistas terem revelado este facto, afirmou: "Há aqui uns bastardos da comunicação social do continente. Digo bastardos para não ter que lhes chamar filhos da puta... que aproveitaram este ensejo para desabafar o ódio que têm pela minha pessoa."
Esta putas são diferentes das retratadas por Carla de Almeida: estas putas não escrevem, mas dão à luz jornalistas que, esses sim, escrevem e desabafam ódio contra o Sr. Alberto.
Não há dúvida que as putas estão na moda!
E, aqui bem perto da minha casa, a inscrição na parede de um prédio mantém-se bem visível, apesar da passagem dos anos:
"Putas ao Poder! Que os filhos já lá estão!" Sexta, 3 de Junho
Apanharam-me de costas!
Apanharam-me de costas, durante duas semanas, a viajar pela China e desataram a tomar medidas!
Quando cheguei, fiquei estupefacto: o IVA tinha aumentado, os polícias ficaram sem serviços de saúde, os funcionário públicos só se podem reformar aos 65 anos, os políticos perdem as subvenções vitalícias, o IRS ganha um novo escalão de 42%, os impostos sobre os combustíveis e o tabaco vai subir, o Alberto João reformou-se mas continua no activo.
Mas o que é isto?
Não sabiam estar quietos?
Isto não será frenesim a mais?
O Sr. Engenheiro esteve caladinho durante alguns meses e, de repente, apareceu com tantas medidas que toda a gente está baralhada. Os jornalistas, por exemplo, ainda não conseguiram perceber se, afinal, o preço dos medicamentos vai aumentar ou diminuir.
Não percebo tanta agitação. Todos nós, no fundo, sabemos que isto não vai dar em nada, que o déficit vai continuar na mesma. O próprio ministro das Finanças, que é dois (Campos e Cunha), saca 15 mil euros por mês, sendo que mais de metade desse ordenado é de uma pensão que recebe por ter sido, durante seis anos (seis anos!), vice-presidente do banco de Portugal! E mais: por que carga de água nos devemos preocupar com o déficit? Alguém conhece algum país que dê lucro? Estamos preocupados com o déficit, porquê? O Sr. Barroso, que agora é presidente da União Europeia, vai-nos dar tau-tau se não controlarmos o défict? Agora, que os franceses e os holandeses mandaram a Constituição europeia dar uma curva?
Em Itália, já começa a falar-se de que a lira poderá regressar, em substituição do euro.
A verdade, é que toda a gente se está borrifando para a Europa, que é uma coisa que ninguém sabe muito bem o que é - talvez seja assim uma espécie de invenção de meia dúzia de políticos de elite que nos tentaram fazer acreditar que não havia vida fora da CEE.
Agora, a pouco e pouco, começamos a perceber que, para pertencer a essa tal Europa, somos obrigados a pagar mais impostos, a aumentar a produtividade, a reformarmo-nos mais tarde, só para termos direito aos tais subsídios que nos permitem construir novos estádios de futebol, auto-estradas e outras coisas de que, se calhar, não precisávamos...
Claro que estou a ser muito politicamente incorrecto!
A Europa é óptima!
Os nossos políticos é que são uma merda!
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