Maio 2005:
Coisas que acontecem
| Lustosa da Costa | Ser do Benfica | China - aqui vamos nós! | Aloé entre as mulheres | PSD procura autarcas | O Boavista muda de treinador | Mourinho-mania |
Sexta, 13 de Maio
Lustosa da Costa
E, de repente, no passado dia 6, recebi este mail:
"Estava atrás de saber, pela Internet, notícias de Belo Marques que conheci como diretor comercial do jornal socialista em 1972 quando visitei Portugal e ele me recebeu muito bem, quando vi seu blog. Gostei da primeira pagina de sua experiência profissional, como redator voluntário(?) de A Republica, do Raul Rego (morreu o bom e coerente velhinho?) ,da televisão etc e tal. Vou ler o resto. Pode me dizer o endereço do Belo Marques e o que faz atualmente? O obrigado do Lustosa da Costa, jornalista político em Brasília, ex-repórter de O Estado de S.Paulo e do Correio Braziliense."
Claro que nunca tinha ouvido falar de Lustosa da Costa, mas prontifiquei-me a pô-lo em contacto com o Álvaro.
Nos dias seguintes, recebi mais alguns mails de Lustosa que, às tantas, me pedia o meu endereço para me enviar alguns dos seus livros.
E não é que ontem recebi dois livros de Lustosa da Costa?!
"No Aprés-midi de nossas vidas", de 1997 e "Clero, Nobreza e Povo de Sobral", de 2004. com dedicatória e tudo!
Comecei logo a desfolhar o primeiro que, nas palavras do autor, é "o meu último livro, cheio de "estórias para boi dormir" ou de conversa fiada como se diz deste outro lado do Atlântico".
Ainda só vou na página 50 mas Lustosa da Costa já é da minha equipa: trata-se de um aglomerado de pequenos textos auto-reflexivos, com um fino sentido de humor e que me fazem lembrar o Mário-Henrique Leira. Sei lá porquê! Talvez saudosismo bacoco...
Um pequeno excerto:
"não sei como alguém possa merecer meu ódio. No máximo, o desdém. Admito desprezar um ser humano abjeto, fugir de companhias que me empobrecem, reduzir, ao máximo, os contatos com gente que no faz mal, me "seca", baixa meu astral. Agora, odiar, jamais. Odiar uma pessoa, um dia inteiro, é prestar-lhe suprema homenagem. Então, se durar, durante um mês, um ano, uma vida, constitui suprema imbecilidade. É conferir-lhe grande valor. É dispensar-lhe uma paixão amorosa com sinais trocados. Ninguém vale o nosso ódio."
Diz, na contra-capa de "No aprés-midi de nossas vidas", que Lustosa da Costa é "cearense do Sobral, no Ceará onde se criou, é jornalista desde os 9 anos quando, em seu diário de criança, registava todos os lances da campanha eleitoral para a prefeitura da cidade que, então, se processava."
Depois, trabalhou em diversos jornais, tendo sido editor-chefe do "Unitário" e do "Correio do Ceará"; em Brasília, foi repórter político de "O Estado de S. Paulo", durante 14 anos e, também, do "Jornal da Tarde"; foi candidato a deputado federal pelo MDB e foi o mais votado em Fortaleza mas, pelos vistos, não foi eleito "por falta de dinheiro para comover os currais eleitores do interior". Pelos vistos, gosta muito dos romances de Machado e de Eça, autores que levaria para uma ilha deserta, juntamente com as obras de teatro de Oscar Wilde e a poesia de Jorge Luis Borges.
Na contra-capa do mesmo livro está, também, uma foto de Lustosa, que me parece o "típico" sul-americano-não-muito-branco-mas-também-não-assim-tão-preto, com um farto bigode, estilo Garcia Marquez.
Amanhã, parto para a China.
Quando regressar, tenho que saber mais coisas deste Lustosa da Costa, que calculo ser um sessentão, ex-fumador compulsivo e (ainda) grande amante de whisky!...
Domingo, 8 de Maio
Ser do Benfica
Sou do Benfica desde que me conheço. E ser do Benfica é uma filosofia de vida. O importante na frase "ser do Benfica", é a contracção dos pronomes "de" e "o" e significa pertença.
É que não sou "de" mais coisa nenhuma. Sou médico, mas não sou "da" Medicina. Nasci em Queluz, fui registado na freguesia da Encarnação, vivo há muitos anos na margem sul do Tejo, mas não sou "de" Queluz, nem sou "de" Lisboa, nem sou "de" Almada. Gosto muito de música, mas não sou "da" música. Gosto muito de livros, mas não sou "dos" livros. Sou "de" esquerda, mas não "da" esquerda.
É verdade que sou casado há 32 anos e (não só por isso) sou "da" Mila. Sou de tal maneira "da" Mila, que toda a gente sabe o que significa o neologismo "Milartur".
Mas a Mila não é uma coisa, uma instituição, um objecto, uma carreira.
O Benfica é a única "coisa" à qual pertenço.
Desde sempre.
Vem isto tudo a propósito do mal que o Benfica tem jogado nesta época em que o título de campeão está (esteve?) ao virar da esquina. Em três jogos inenarráveis, desbaratou 8 pontos, perdendo com o Rio Ave e o Penafiel (ontem) e empatando com o Leiria. E jogou sempre mal, muito mal, mesmo quando ganhou, à rasca, 4-3 ao Marítimo, 2-1 ao Estoril e 1-0 a Belenenses.
Faltam dois jogos para acabar o campeonato e o Benfica tem que os ganhar, se quiser ser campeão. E são dois jogos difíceis: Sporting e Boavista. Embora, com "este" Benfica, não existam jogos fáceis.
E aqui entra a noção de "este" Benfica.
É que quem, como eu, é "do" Benfica há mais de 50 anos, sabe que "este" Benfica não é o "nosso" Benfica. Aliás, ao longo dos anos, houve diversos Benficas e poucos foram o "nosso" Benfica.
Claro que o "nosso" Benfica foi o de Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Germano, Simões, José Águas, Torres, Cávem, Jaime Graça, José Augusto, Chalana, Humberto Coelho, Ângelo, Santana, Nené, mesmo João Pinto - e misturo gerações de propósito.
O "nosso" Benfica foi, por exemplo, o do 5-3 ao Real Madrid e o do 6-3 ao Sporting. Quando o "nosso" Benfica jogava, a gente acreditava que, por muito difícil que fosse o jogo, o Benfica ia tentar tudo para vencer e quase sempre o conseguia. E quando não conseguia era porque era totalmente impossível.
Agora, com "este" Benfica - e com outros Benficas que fomos tendo ao longo das décadas - nós estamos sempre à espera que o Benfica perca ou empate e, quando ganha, respiramos de alívio. Mesmo que o adversário seja o último classificado do campeonato - ou, sobretudo quando o adversário é o último classificado do campeonato...
Penso que o problema é este: enquanto eu sou "do" Benfica, o Karadas, o Bruno Aguiar, o Geovanni, o Quim, o Delibasic, o Fyssas, o Luisão, o André Luis, o Dos Santos, o Nuno Assis, não são "do" Benfica - limitam-se a jogar "no" Benfica. Talvez o Mantorras, o Petit, o Miguel, o Simão, o Ricardo Carvalho, o Nuno Gomes e o Manuel Fernandes possam vir a ser "do" Benfica mas, mesmo que o venham a ser, não são suficientes para transformar "este" Benfica no "nosso" Benfica.
E não sei se já repararam, mas todos os jogadores que eu assinalei como podendo vir a ser "do" Benfica, são portugueses (se exceptuarmos o Mantorras, que é tão angolano como o Eusébio é moçambicano)... Enfim, nacionalismos arcaicos...
Portanto, enquanto o Benfica não tiver jogadores que sejam mesmo "do" Benfica, o "nosso" Benfica não voltará a ser campeão.
No próximo sábado, o Benfica joga contra o Sporting e tem que ganhar, caso esteja interessado em ser campeão este ano.
O problema é que, enquanto para nós, os "do" Benfica, isto é importantíssimo, para os jogadores "deste" Benfica, a coisa já não é bem assim.
Quanto a Trappatoni... é italiano e merece a reforma. Tenho a certeza que nunca foi "do" Benfica.
Felizmente, quando o jogo estiver a decorrer, estarei muito, muito longe...
China - aqui vamos nós!
No próximo sábado, vamos partir para duas semanas na China!
Hong Kong, Macau, Guangzhou, Guilin, Beijing, Xi'an e Shangai serão os locais a visitar.
O visto já cá canta, bem como os bilhetes de avião.
Depois das costas leste e oeste dos EUA, do Egipto, de diversas cidades europeias, da volta ao mundo da Air Luxor e do Peru, chegou a vez de visitar o país que anda a meter medo ao Ocidente.
"Quem tem medo da China?" era o título de um dos Cadernos Dom Quixote que eu comprava, religiosamente, todos os meses, na década de 70 do século passado. Durante todos estes anos, o mundo andou preocupado com a guerra fria e, depois, com o terrorismo e só este ano parece ter despertado para o poder da China. Anda tudo aflito, com medo que os chineses se aglomerem na fronteira e comecem a fazer chi-chi simultaneamente, inundando a Europa...
Antes que a China invada definitivamente o velho continente, quero lá ir ver como é.
As malas estão feitas há muito tempo e o itinerário estudado, embora com muitas falhas porque, desta vez, decidi não me informar demasiado, para poder ser ainda mais surpreendido.
E, quando voltar, o Benfica já será campeão...
Sábado, 7 de Maio
Aloé entre as mulheres
O aloé vera não tem igual!
Para além das propriedades curativas (cura o cancro, melhora o blefarospasmo, cicatriza úlceras varicosas, elimina a celulite, atrasa o Alzheimer, evita a hipertensão e a diabetes, aumenta a potência sexual) e para além de entrar na constituição de iogurtes, champôs e detergentes para a máquina de lavar roupa - agora, o aloé vera também está presente nos pensos higiénicos.
Juro que é verdade: já existem pensos higiénicos com aloé vera!
Aguardo agora, com ansiedade, o papel higiénico, as cotonetes e os preservativos feitos à base dessa planta prodigiosa...
PSD procura autarcas
O PSD está com um grave problema: faltam-lhe candidatos à altura das exigências.
Partindo do princípio que, para se ser candidato, pelo PSD, a uma qualquer Câmara Municipal, é necessário ser arguido, o partido só pode contar, até agora, com o major Valentim, para Gondomar, o Sr. Isaltino, para Oeiras e aquela senhora para Leiria.
É curto.
Sugestão: por que não convidar a Dona Fátima Felgueiras para a Câmara do Porto e o Sr. Abílio (acho que é Curto) para outra Câmara qualquer?
Quer-me parecer que o PS não se importava.
O Boavista muda de treinador
Jaime Pacheco já não é treinador do Boavista.
A partir desta semana, a equipa passou a ser treinada por uma dupla: Barny e Bobó.
Repito: o Boavista é agora treinado por Barny & Bobó.
Preciso dizer mais alguma coisa?
Quarta, 4 de Maio
Mourinho-mania
Estou cansado de José Mourinho!
Agora que o treinador português conseguiu que o Chelsea fosse campeão da Inglaterra, os media portugueses não falam de outra coisa e, de repente, o Chelsea transformou-se numa espécie de selecção nacional.
Ontem, o Chelsea foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Liverpool. Claro que o jogo mereceu transmissão directa pela RTP-1 que, este ano, perdeu o direito às transmissões dos jogos de futebol do campeonato nacional para a TVI, ficando apenas com as dos jogos da selecção nacional. Ora, como o Chelsea é uma espécie de filial da selecção, a RTP-1 transmitiu o jogo em directo.
E, sinceramente vos digo, eu que já vejo jogos de futebol há mais de 40 anos, o jogo de ontem, entre o Chelsea e o Liverpool, foi uma bodega. O Liverpool marcou um golo aos 3 minutos de jogo – dizem que o golo foi polémico mas, aqui, do meu sofá, não tive dúvidas de que a bola entrou – e depois foram mais 90 minutos de jogo chato, com os vermelhos à defesa e os azuis a atacar de forma inconsequente, sem alternativas, sem imaginação, sempre pelo meio, até parecia o Benfica contra o Estoril (sendo o Benfica representado pelo Chelsea e o Estoril, pelo Liverpool).
No entanto, apesar da pobreza do espectáculo, os jornalistas da RTP-1 comentavam o jogo como se estivessem a assistir a um duelo de gigantes, como se aquele fosse o jogo do ano, como se estivéssemos a assistir a um espectáculo inolvidável. E, no final, quando a equipa de Mourinho perdeu, quase que choraram no ombro um do outro.
Depois, o Telejornal transmitiu uma reportagem, em directo, de um bar qualquer, nos arredores de Londres, onde um grupo de emigrantes portugueses assistiu ao jogo, pela televisão. O jornalista, António Esteves Martins, falou de Mourinho com o mesmo entusiasmo com que, semanas antes, falara do Papa João Paulo II, em directo de Roma.
De súbito, ouvindo AEM, pensei que estávamos, novamente, a ouvir o elogio fúnebre do chefe da Igreja católica...
Hoje, os telejornais mostraram um Mourinho arrogante, duvidando da legalidade do golo do Liverpool e interpelando um jornalista inglês: “achas que vais conseguir, na tua profissão, em três anos, o mesmo êxito que eu tive na minha profissão? No chance!”
A arrogância habitual. Ou será a basófia?
Mourinho é um bom treinador de futebol.
Ponto final.
Não me parece, no entanto, que o homem tenha descoberto o caminho marítimo para a Índia, elaborado a teoria da relatividade ou descoberto a penicilina.
Portanto, chega de Mourinho, caramba!
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