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O Coiso
Um dia destes...

Março 2006:

Coisas que acontecem

| Cheira a quê?! | O nosso futuro, à 5ª feira | Cavaco é presidente há 8 dias! | Co-incineremos esta coisa! | O meu colega angolano | Bush - o mentiroso |


Terça, 21 de Março
Cheira a quê?!!!
Estou a ler um livro delicioso, de um escritor norueguês, Lars Saabye Christensen, intitulado "Beatles".

Conta-nos a história de quatro miúdos, que crescem à medida que vão saindo os discos dos Beatles. Cada capítulo tem, como título, o nome de uma canção do quarteto de Liverpool, a começar por "I feel fine". Vou mas ou menos a meio do livro, no capítulo "Strawberry fields forever".

Os putos vão crescendo e descobrindo as coisas da vida, ao mesmo tempo que ouvem, estarrecidos, cada novo disco dos Beatles, como se de uma obra divina se tratasse.

Um das coisas da vida que descobrem, logo na página 18, são as revistas pornográficas.

Transcrevo este pedaço suculento:

"As primeiras fotografias eram grandes planos de conas rapadas e não se ouvia um som do ajuntamento, ninguém ria, ninguém soltava sequer gargalhadas, era um silencia sepulcral. Folheei mais apressadamente, eram conas vistas de cima e debaixo, páginas inteiras com rachas na diagonal, de canto a canto. Mas lá para o fim, começava a melhorar, mulheres inteiras, grandes meloas, pentelheira farta, mas de repente apareceu uma fotografia com um gajo deitado com a cara toda entre as pernas de uma mulher.
- O qu' é qu' ele tá a fazer? - inquiriu uma voz.
Fez-se um instante de silêncio, silêncio total.
- A lamber?
- A lamber a cona da gaja, não vês? - disse outra voz.
- Tá a lamber a cona?!
O Dragão revolvia os olhos, um pouco afastado.
- Iá.
- E a qu' é que... a qu' é que... que sabe?
- Sabe a relva - disse-lhe logo - se tiveres sorte. Mas s' apanhares uma azeda, sabe a chouriço e a sapatilhas de borracha"

Divertido.

Divertido e acertado! Enfim, parcialmente...

A relva, sabe, certamente... e a flores... e a manhãs húmidas e frescas, sabe a música, a sono, a quente...

A chouriço e sapatilhas, não. Definitivamente...

Domingo, 19 de Março
O nosso futuro, à 5ª feira
A comunicação social encheu páginas e minutos de éter com a primeira reunião das quintas-feiras, entre Cavaco e Sócrates. Parece que tudo vai depender daqueles magnos encontros, em que o Presidente e o Primeiro-Ministro vão decidir o futuro de todos e cada um de nós.

No final da reunião, os jornalistas sentiram-se um pouco frustrados: nada transpirou cá para fora, não houve fuga de informação, Cavaco entrou quedo e Sócrates saiu calado. Mas claro que isso também tem um significado. Porque, como todos sabemos, tudo tem um significado: se eles falassem, se só um deles falasse, se ambos tossissem, se emitissem um comunicado, se esse comunicado fosse conjunto ou em separado, se... se...

Hoje mesmo, depois do telejornal da RTP, o Professor de todos nós, aquele-que-tudo-julga, Marcelo Rebelo de Sousa, há-de explicar-nos todos os significados daquela primeira reunião.

E, no entanto, conhecendo Cavaco e Sócrates como eu conheço, sei que a reunião deve ter sido uma grande seca. Estiveram os dois fechados lá dentro duas horas e tal a falar de quê? Ainda por cima, desconfortavelmente sentados em cadeiras, em vez do confortável sofá, onde Soares e Sampaio recebiam os seus primeiros-ministros. Em cima da mesa redonda, blocos e caneta para tomar nota dos grandes assuntos em debate? Não! Simples papel quadriculado para jogarem uma batalha naval ou, dissimulados entre as folhas dos blocos, livrinhos de Sudoku.

É que, quando não há nada para dizer, os jornalistas arranjam maneira de dar significado às imagens. Por exemplo, no dia da tomada de posse de Cavaco, quando ele decidiu chegar a Belém, a pé, rodeado da família, o Público deu-se ao trabalho de pedir a consultores de imagem, especialistas em etiqueta e afins, para analisarem a coisa e encheram duas páginas com comentários sobre os vestidos das senhoras, o sorriso do avô Cavaco, a graciosidade da netinha, a colocação dos vários membros da família e outras idiotices semelhantes.

Agora, com a primeira reunião das quintas-feiras, não deixaram de referir o facto de a mesma não acontecer no sofá, de ambos levarem blocos e caneta, etc.

Para mim, a grande diferença política entre Cavaco e Sócrates, reside, de facto, nos sapatos: Cavaco usa sapatos de pala e Sócrates prefere o atacador. Claro que a pala é mais prática - basta enfiar o pé no sapato e, se este não estiver muito apertado, nem precisa de calçadeira. No entanto, se o pé inchar um pouco (o que é natural num homem com mais de 60 anos), o Presidente vai chegar ao fim do dia com uma dor do caraças nos peitos dos pés. Por outro lado, o atacador, embora mais tradicional, é mais democrático: se o pé protestar, põe-se o nó mais lasso; se o pé começa a querer fugir do sapato, aperta-se com mais força. E é essa a grande diferença entre ser Presidente e Primeiro-Ministro: Cavaco está mais à vontade, não tem que se preocupar muito com os calor; se estiver muito aflito, descalça os sapatos e calça uns chinelinhos. Pelo contrário, Sócrates não se pode descuidar e tem que manter o controlo sobre as bases - e convenhamos que, com um atacador, que se pode apertar ou desapertar, é muito mais fácil!

 

Quarta, 15 de Março
Cavaco é presidente há 8 dias!
Foi Miguel Cadilhe que disse que Cavaco era como o eucalipto - secava tudo à sua volta. E a prova é que o professor já é presidente há 8 dias e eu ainda não escrevi nada sobre isso!

No dia em que Cavaco tomou posse, vivíamos o rescaldo do grande jogo do Benfica em Liverpool. Eufórico, não liguei grande coisa às imagens que a televisão transmitiu do discurso de posse e de toda aquela pompa e circunstância, ávido que estava por rever, pela enésima vez, os super-golos do Simão e do Miccoli, em terras de Sua Majestade.

Grande jogo! Como é que a mesma equipa capaz de derrotar o campeão europeu, na sua própria casa, foi incapaz, depois, de marcar um golito que fosse ao humilde Naval, da Figueira da Foz?!

Reparem todos na diferença entre o Benfica da era pré-Cavaco e o Benfica da era pós-Cavaco!

O nosso Presidente-eucalipto secou o Benfica!

É como vos digo: sempre que pensava em sentar-me ao computador para escrever qualquer coisinha sobre o novo Presidente, ficava a olhar para o monitor, feito parvo, bocejava, muito e acabava por desistir.

Escrever o quê?

Que aquela chegada da família Cavaco ao Palácio de Belém parecia um passeio de domingo pelo jardim do Campo Grande; que o discurso do Presidente parecia uma colagem de lugares comuns; e que o único episódio digno de registo em todas as cerimónias, ocorreu na noite anterior quando, antes do jantar oferecido por Freitas do Amaral aos representantes dos Palop que cá vieram, Xanana "exigiu" uma televisão para ver o Benfica. O jantar foi adiado por umas horas e todos abancaram para ver o glorioso derrotar o Liverpool. Depois, foi ver o Presidente de Timor, aos saltos, gritando: "Eu não tenho palavras, só posso dizer GOOOOOLO!"

E lá estou eu a falar do Benfica quando, afinal, o tema deste texto, devia ser a tomada de posse de Cavaco Silva.

Não há duvida: também eu já sequei...

Domingo, 5 de Março
Co-incineremos esta coisa!
Manuel Alegre não resistiu e criou mesmo uma coisa chamada MIC (onde estará a MIN?).

O quase-ex-presidente Sampaio deu um prazo curtíssimo ao Procurador Moura para deslindar a fuga de informação que permitiu ao 24 horas divulgar o famoso "envelope 9", que continha escutas telefónicas a figuras públicas. O Ministério Público decidiu invadir a redacção do 24 Horas e confiscar os computadores dos jornalistas. Atacou-se o mensageiro, deixando-se voar quem forneceu a mensagem. Os jornalistas estão aflitos. É difícil ser solidário com um jornal com o 24 Horas. Por que raio o Ministério Público não invadiu a redacção do Expresso, por exemplo?

O corpo da irmã Lúcia foi transladado para Fátima e os três canais generalistas transmitiram em directo. Ficámos com a certeza de que os restos mortais da pastorinha são mais importantes que os de Cunhal, por exemplo. Veremos o que acontece quando Soares morrer. Longa vida ao camarada Soares!

Os deputados que criticaram o PS por atribuir o rendimento mínimo a tipos que não querem trabalhar e que só estão interessados num subsídio do Estado, são os mesmos que criticam agora o governo por ser demasiado rigoroso na atribuição do subsídio a velhinhos pobrezinhos.

Querem fechar maternidades que fazem poucos partos e escolas que têm menos de dez alunos. Toda a gente concorda que os obstetras que fazem tão poucos partos não podem ter a mesma perícia que outros com muito mais prática. O mesmo se passa com professores que dão aulas a um único aluno. Então mas a quantidade e a qualidade não são antagónicas? Talvez sim, talvez não - depende de quem está no governo e de quem está na oposição. A política é a única profissão em que um tipo pode dizer uma coisa e o seu contrário, conforme está no Poder ou na Oposição, e toda a gente acha normal. É política...

Os sindicatos da PT não querem que o Belmiro tome conta daquilo e apelam para o governo. Os sindicatos pedem a ajuda do governo?! Parece que sim...

Só há uma solução para tudo isto: avança, Sócrates - co-incinera esta merda deste país!

Sexta, 3 de Março
O meu colega angolano
O Pedro fez-me chegar esta foto deliciosa, que me deixa, no entanto, um sabor amargo: é que eu, infelizmente, não preciso de qualquer tipo de propaganda para ter a consulta sempre cheia. E juro que os meus doentes acreditam que eu consigo resolver tudo o que vem naquela lista!... Estou a exagerar, claro: Makulo e Lukika não sei tratar...

Bush - o mentiroso
Afinal, Bush sabia que os diques do Mississípi estavam em risco de rebentar, provocando a inundação e destruição de New Orleans.

Ontem, nos telejornais, passou um vídeo em que se vê um técnico a explicar a Bush o que poderia acontecer, na véspera do que, de facto, aconteceu.

Dias depois da catástrofe, Bush apareceu na televisão, com aquele seu ar farçola, a dizer aos americanos que ninguém podia prever que os diques rebentassem!

Mais uma vez Bush mentiu com quantos dentes e próteses tem na boca - como já tinha feito com o Iraque, convencendo a malta que o Saddam estava atolado em armas de destruição maciça!

A sorte do menino é que os Estados Unidos não são o Iraque e, portanto, ninguém vai invadir o país, alegando que os States são governados por um mentiroso compulsivo e que o povo americano quer a libertação.




 

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Este é o Coiso do Artur Couto e Santos.
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