< Voltar à homepage do Coiso
O Coiso
Um dia destes...

Novembro 2004:

Coisas que acontecem

| Jerónimo! | O Super-Sarmento | Morte aos fumadores! | O referendo da Europa | O astral do Sr. Lopes | Sondagens para todos os gostos | Bagão, Santana e Pequito | A Roche e a Quinta das Celebridades | Arafat - morto ou vivo, tanto faz | W. Bush - A Sequela | Todos os santos |


Domingo, 28 de Novembro
Jerónimo!
Este é o grito dos pára-quedistas antes de se lançarem no vazio.
“Jerónimo!”, gritaram, também hoje, os comunistas portugueses, antes de se lançarem no vazio de um futuro apenas feito de passado, depois de terem escolhido Jerónimo de Sousa como novo secretário-geral.

Carlos Carvalhas, o dos ésses sibilantes, fartou-se, ou obrigaram-no a fartar-se e decidiu sair de cena. E o Partido foi incapaz de escolher outra pessoa que não um representante do que mais ortodoxo o Partido possui – um tipo de ar duro e carregado, que teima em que se apresentar como operário metalúrgico, embora há cerca de 30 anos que não pegue num martelo e com ele bata numa bigorna (se é que alguma vez fez semelhante coisa...). Esta particularidade, de um funcionário burocrático de um partido se apresentar como operário, quando há décadas que é funcionário administrativo é ridículo; é como se eu, que sou médico desde 1978, me continuasse a apresentar como jornalista, profissão que exerci entre 1974 e 1977!...

Acredito que o PCP, por enquanto, apenas poderá sobreviver se continuar a ser fechado, ortodoxo, marxista-leninista sem concessões. Provavelmente, estabilizará nos 5-6% do eleitorado, mas manter-se-á à tona. Se o PCP se “liberalizasse”, acabaria por se diluir no PS, no Bloco de Esquerda e em mais meia dúzia de formações políticas de reflexão e intervenção, sem qualquer expressão eleitoral.

No entanto, a prazo, o PCP, tal como é, vai desaparecer. Quando a “velha guarda” de operários da cintura industrial de Lisboa e Setúbal, actualmente, na casa dos 50-70 anos desaparecer, o Partido morre.
Darwin é implacável!

Sábado, 27 de Novembro
O Super-Sarmento
Agora é que eu começo a ficar verdadeiramente assustado!
Até aqui, achava eu que o Sr. Lopes e seus apaniguados eram um bando de medíocres, mas que estavam apenas de passagem. Nós deixávamos que eles brincassem aos governos durante dois anos e, nas próximas eleições, a coisa ficava resolvida.

Mas, quando leio a entrevista do Prof. Cavaco ao Expresso de hoje, em que ele diz, nomeadamente, “é chegado o momento de os políticos competentes afastarem os políticos incompetentes”, começo a ficar mesmo preocupado!
Então, até o Cavaco não se coíbe de chamar incompetentes a este banco?

Sendo assim, se calhar, a coisa é mais grave do que eu pensava. Se calhar, o Sr. Lopes e seus capangas estão mesmo convencidos que vão ganhar as próximas eleições e continuar a governar Portugal. Se calhar, o Sr. Lopes e o seu gang estão a ocupar as posições estratégicas necessárias e suficientes para, apesar das sondagens e do descontentamento generalizado, conseguirem o número de votos suficientes para continuarem no Poder.
Nunca gostei do Prof. Cavaco. Sempre o achei um tipo autoritário, enfatuado, cinzento. Não vou alinhar neste costume bem português que consiste em, com o tempo, dizer que, afinal, aquele grande filho da mãe até era um gajo porreiro, agora que já não manda nada. Algo semelhante sucedeu com a maior parte dos políticos dos últimos 30 anos. Freitas do Amaral, por exemplo, que concorreu contra Mário Soares à Presidência da República, agora é uma figura respeitada e citada por toda a esquerda. O próprio Mário Soares, acusado do desastre da descolonização, de não dominar os dossiers, de ser o Kerenski à portuguesa, agora é idolatrado como o tipo que nos salvou de uma ditadura estalinista – como se fosse possível que os EUA e a Europa deixassem que se instalasse um regime desses em Portugal...

Portanto, não gosto do Cavaco, o tipo não sabe falar português (não lhe desculpo o “cicartizar as feridas” do incêndio do Chiado) – mas se ele diz que chegou o momento dos políticos competentes afastarem os incompetentes, é porque, também ele, teme que esta corja de medíocres se eternize no Poder.
O Sarmento é o paradigma desta pandilha.

Quem é o Sarmento? De onde veio ele? Que currículo possui que o leve a ser, agora, o Ministro de uma Data de Porção de Quantidade de Coisas? Como é possível que um tipo com a atitude e pose de um sargento-lateiro chegue onde chegou?

O Sarmento engendrou uma Central de Informação, assim uma espécie de agência que deveria influenciar os órgãos de comunicação, explicando ao pobre povo as grandes iniciativas do Governo. O Sr. Lopes lamentou-se, em entrevista à RTP que apenas conseguia falar durante um minuto por dia, nos Telejornais e que esse tempo não chegava para explicar as iniciativas do seu Governo. Seria necessário mais tempo, para que o pobre povo percebesse o bem que o Governo está a fazer. Isto é simplesmente patético – mas assustador!
Ora, como o Presidente Sampaio vetou a criação da tal Central de Informação, o Sr. Lopes ofereceu ao Sarmento mais poderes e transformou-o em Super-Sarmento.

O Super-Sarmento é bem a imagem deste Governo – como um tipo com ar de arruaceiro, sem nunca ter dado provas de coisa nenhuma em nenhuma área, se transforma na imagem de marca do Governo de um país europeu.
No tempo do chamado Verão quente de 1975, dizia-se que Portugal estava próximo de um daqueles países da América Latina, sempre à beira da guerra civil.

Agora, com o Sr. Lopes e o Super-Sarmento somos mesmo um país da América Latina, versão europeia – não pela hipótese eminente de guerra civil mas pelo triunfo da mediocridade!

Sábado, 20 de Novembro
Morte aos fumadores!
Os portugueses que admiram George Bush e tudo aquilo que ele representa devem estar exultantes – o governo prepara-se para tomar medidas restritivas aos fumadores, idênticas ao que os Estados Unidos têm em vigor já há anos e que a Irlanda (um dos países que mais emigrantes forneceu aos States) adoptou no ano passado.
Finalmente, os não fumadores vão poder viver descansados, sem serem obrigados a inalar o fumo dos outros, morrendo tranquilamente de cancro do cólon, que é a segunda patologia oncológica mais frequente em Portugal, ou de diabetes, que cada vez é mais frequente no nosso país, ou de acidente rodoviário, ou de frio extremo, ou de calor intenso, ou de negligência médica, ou de...

O hipócrita governo do Sr. Lopes escolheu, mais uma vez, a via mais fácil.
Aliás, a filosofia deste governo é mesmo esta: quando algo é demasiado complicado, opta por outra coisa qualquer que seja mais fácil – mesmo que os resultados sejam duvidosos.

Com os impostos é assim que se passa: em vez de apanhar os filhos da mãe que nunca pagaram, não pagam nem nunca pagarão um tostão de impostos, adopta medidas que penalizam os que não têm maneira de fugir a esses impostos.

Falemos claro: o tabaco é assim tão perigoso para a saúde? Se a resposta é afirmativa, toca a proibir o tabaco, pura e simplesmente, considerá-lo uma droga, ao nível do haxixe, da coca e da heroína e bani-lo definitivamente...
Pois... mas e os impostos que o Estado saca em cada maço de tabaco vendido?
Não, o que vamos fazer é proibir o consumo de tabaco em locais públicos, que é para dar a ideia de que estamos a fazer algo a favor da saúde pública.

No entanto, em relação ao cancro do cólon, por exemplo, não existe nenhum programa nacional de rastreio. Os especialistas dizem que todos os portugueses deviam fazer uma colonoscopia aos 50 anos e, depois, regularmente, de 5 em 5 anos. Este simples facto, diminuíra drasticamente o número de mortos por cancro do cólon. Ora, o que acontece, é que o SNS nem sequer comparticipa uma colonoscopia.
E quanto à diabetes? Dizem todos os estudos que a incidência desta doença está a aumentar todos os anos. Para este facto contribuem os estilos de vida: o sedentarismo, o consumo de açúcar e gorduras, a obesidade.

E o que faz o Estado? Proíbe as lojas de fast-food, organiza grandes programas nacionais para promover alimentação saudável, cria espaços para a prática de exercício físico? Isso é que era bom! O Estado nem sequer comparticipa qualquer dos medicamentos existentes no mercado e que estão indicados no tratamento da obesidade.
O Estado está-se cagando para a saúde dos fumadores e dos não fumadores!
A hipocrisia é tanta que até chateia.

E o problema, é que os não fumadores militantes vão aplaudir as medidas restritivas do governo em relação ao tabaco, sem sequer pararem para pensar que elas são meras manobras publicitárias. Porque é fácil decretar: é proibido fumar nos restaurantes e pronto! as consciências ficam tranquilas, o governo consegue mais alguns votos mas nada muda, no que respeita à saúde pública.
Tretas!

Hoje mesmo, ao almoço, comi uma tangerina que não sabia a nada; devia ser daquelas que são produzidas em série, em pomares repletos de pesticidas, a partir de sementes transgénicas; mas, caramba, faz bem à saúde comer fruta, não é? E então, nós fazemos um esforço e comemos qualquer merda em forma de fruta que nos apareça à frente.
Sinceramente, prefiro fumar um cigarro, que é coisa que sei, de fonte segura, que me vai fazer mal, mesmo muito mal!...

Agora a sério: será que ainda ninguém se questionou por que carga de água esta cruzada anti-fumadores começou nos Estados Unidos – país onde um jovem com menos de 18 anos não pode comprar uma bebida alcoólica, mas pode comprar uma arma automática? Será que os States estão assim tão preocupados com a saúde dos seus cidadãos? Se assim fosse, por que motivo os EUA é um dos poucos países ocidentais que não tem um serviço nacional de saúde? Na América, se não tiveres um seguro de saúde, podes muito bem morrer à porta do hospital com a tecnologia de saúde mais avançada, que ninguém te virá socorrer – e isto não é exagero...

A questão das proibições aos fumadores é, única e exclusivamente, uma questão moral - como foi a chamada lei seca, no século passado, também na América. Porque, no fundo, é feio fumar! E agora, que as estatísticas mostram que cada vez mais mulheres fumam, é tempo de acabar com essa libertinagem!

As novas leis anti-fumadores deverão ser aprovadas nas próximas semanas e entrarão em vigor 180 dias depois.
Então, finalmente, os não fumadores deixarão de ter desculpa para morrerem!

O referendo da Europa
Está aprovada a pergunta que vai ser posta a referendo sobre a Constituição da União Europeia.
Diz o seguinte:

“Concorda com a Carta dos Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?”

Parece-me demasiado rebuscada. Estou mesmo a ver a Dona Olinda, que não sabe ler nem escrever, a pedir à Dona Genoveva, que ainda andou na escola uns dois anos, que lhe leia a pergunta. Ambas vão ficar a olhar uma para a outra, sem perceber patavina daquilo e, das duas uma, ou nem sequer se dão ao trabalho de votar ou acabam por pôr a cruzinha no “sim”, porque a pergunta está formulada na afirmativa; se a pergunta começasse com “não concorda com...”, votariam “não”.
Na minha opinião, a pergunta deveria ser assim:

“Concorda com o facto de a União Europeia, que agora é presidida por aquele senhor que era primeiro-ministro de Portugal, Durão Barroso e que decidiu pirar-se daqui para fora, a fim de aproveitar um tacho muito melhor, embora tenha tido alguma dificuldade em conseguir que aprovassem a sua equipa de comissários, porque incluía um italiano que acha que o lugar das mulheres é em casa e que os homossexuais são pecadores e foi obrigado a remodelar essa mesma equipa e lá conseguiu a aprovação da maioria dos deputados da União Europeia, que ninguém sabe muito bem o que lá estão a fazer porque, a única coisa que a gente dá por isso são os subsídios porque uma pessoa anda por aí e vê obras numa escola e lá está o cartaz a dizer que o dinheiro vem do Fundo Social Europeu e vê um novo centro de saúde a ser construído e o cartaz diz que as obras têm o apoio da UE, mas sem ser propriamente esses subsídios, que não são de desprezar, a gente não entende para que serve a Europa e muito menos percebe se valerá a pena ela ter uma Constituição, porque cada um dos 25 países que compõem a UE já têm uma Constituição, mas, pelos vistos, a tal Europa quer agora funcionar como se fosse um país, assim uma espécie de Estados Unidos da Europa e, portanto, quer ter uma Constituição só dela, que englobe os países todos e, depois, nós temos que obedecer a essa Constituição, mas suspeita-se que também teremos que obedecer à nossa própria Constituição porque, tanto quanto sabemos, a nossa manter-se-á em vigor e teremos que ter muito cuidado porque, havendo duas Constituições, as leis serão a dobrar e esperemos que não existam leis contraditórias, isto é, coisas que sejam permitidas pela nossa Constituição, mas proibidas pela Constituição da Europa. Numa palavra: concorda ou não?”

Terça, 16 de Novembro
O astral do Sr. Lopes
Sinto-me na merda! Sinto-me tão em baixo que decidi escrever este texto e colocá-lo na internet, na esperança de que alguém o leia e me dê uma ajuda...
Peço desde já desculpa por escrever em português, o que poderá dificultar a ampla divulgação do texto. Sei que as traduções instantâneas feitas pelos motores de busca não são muito fiáveis, mas decidi correr o risco. Infelizmente, não domino nem o inglês, nem o francês, muito menos o alemão e, mesmo em português, a minha língua pátria há 51 anos, vou ter dificuldade em exprimir o que me vai na alma...
O primeiro-ministro do meu país, Portugal, chamado Pedro Santana Lopes (eu trato-o por Sr. Lopes, por deferência), fez um discurso no encerramento do congresso do partido a que preside, e que se designa por Partido Popular Democrático Traço Partido Social Democrata (PPD-PSD).
Ajudem-me, por favor!
O Sr. Lopes disse:

“EU QUERO QUE O PAÍS VÁ SUBINDO NO SEU ASTRAL!”

Mas o que quer isto dizer?!
Foi por esta frase que fiquei na merda!
O que queria o Sr. Lopes dizer com isto?
Por favor – ajudem-me!
O que diriam vocês, povos de todo o mundo, se o vosso dirigente governamental dissesse uma coisa destas?
Vocês, ingleses, americanos, neo-zelandeses, australianos – se o vosso primeiro-ministro dissesse “I want that the country go up in its astral!”, o que pensariam? Como reagiriam?
E vós, franceses, belgas, luxemburgueses e quejandos – se o vosso líder afirmasse “Je veux que le pays eléve son astral?”, o que fariam, conseguiriam dormir descansados?
É que, embora eu saiba que “astral” provém dos astros, quer-me parecer que o Sr. Lopes não queria dizer que está à espera que Portugal vá pelos ares, até explodir em contacto com o sol ou despenhar-se no solo lunar.
O problema é que eu não sei bem o que o Sr. Lopes quis dizer com “astral” – muito menos com “vá subindo no seu astral” – porque, nesta frase, “astral” é um substantivo, isto é, uma coisa.
E que coisa será essa?
Eu tenho um dicionário, que é da Sociedade de Língua Portuguesa, em 12 volumes, que me custou os olhos da cara. Bem sei que a edição já é de 1981 e, se calhar, está desactualizado, mas, segundo esse dicionário, “astral”, como substantivo, quer dizer “plano intermediário entre o físico e o espiritual ou região que os ocultistas julgam povoada de miragens e sombras, as quais são observadas por videntes, possessos e hipnóticos”.
Quererá isto dizer que o Sr. Lopes é vidente, está possesso, foi hipnotizado? Que Portugal está povoado por miragens e sombras? Que o Sr. Lopes é um ocultista?
E, mesmo que todas estas hipóteses sejam verdadeiras, mesmo assim, fico sem saber o que o Sr. Lopes queria dizer com “subindo no seu astral”... será que Portugal estava, digamos, no rés-do-chão, das miragens e sombras e ele quer que vá subindo, digamos, até ao 3º andar? Será que, atingido o 3º andar, se vêem melhor os possessos, os videntes e os hipnóticos?
Sinceramente, não estava à espera de uma coisa destas...
Eu sei que o Sr. Lopes é um pouco bronco. Não sei se sabem que foi ele quem disse, aqui há uns anos, que Chopin compôs uns excelentes concertos para violino...
Mas esta do astral deixou-me perplexo porque, se calhar, o Sr. Lopes sabe mais do que eu pensava, tem contactos que eu desconhecia e é, talvez, capaz de estabelecer pontes com videntes e ocultistas.
E se isto é assim, temo que, se não nos portarmos bem, se continuarmos a gozar indecentemente com o Sr. Lopes como temos gozado nos últimos meses, ele ainda é muito capaz de invocar os seus amigos possessos e, num golpe de varinha de condão, transformar-nos, todos, em sapos!
Ajudem-me, por favor!

Domingo, 14
Sondagens para todos os gostos
Não há jornal que não inclua uma sondagem. Não há programa de televisão que não faça a uma pergunta ao espectador, que deverá responder por SMS. Muitos sites, digamos, institucionais, não dispensam a perguntinha para os visitantes responderem. Até um telejornal (o da TVI), faz diariamente uma pergunta aos espectadores, para ver se eles estão atentos às notícias. É uma praga!

Todas as semanas, o Expresso publica o seu painel que, supostamente, espelhará a opinião do país. Nesse painel, há perguntas fixas: em que partido votaria se as eleições fossem hoje, qual o candidato a candidato à Presidência da República está melhor colocado para ser eleito – para além de classificações dos diferentes políticos, quanto à sua actuação (muito boa, boa, má, muito má). Aproveitando o facto de possuírem um painel já organizado, introduzem, regularmente, perguntas relacionadas com a actualidade.

Esta semana, questionavam o painel sobre a vitória de Bush nas eleições norte-americanas. O título dizia: “Vitória de Bush foi uma surpresa”. E o texto começava assim: “A vitória de George Bush nas eleições presidenciais dos Estados Unidos não foi uma surpresa para os portugueses.”
Em que ficamos? Acreditamos no título ou no texto da notícia?
Mas toda a notícia é uma confusão pegada. Continua assim:

“Que preferiam que John Kerry tivesse sido vencedor, já que entendem que o candidato democrata seria melhor para a Europa e para o mundo.
Sendo Portugal dos países europeus menos críticos da Administração Bush, é entre os homens que o republicano reeleito presidente dos Estados Unidos tem mais apoios: com efeito, um em cada três eleitores masculinos acha que Bush é melhor que Kerry, enquanto entre as mulheres apenas uma em cada é dessa opinião”

É mesmo assim, não me enganei! “Entre as mulheres apenas uma em cada é dessa opinião”. Uma em cada quantas? O que quererá dizer isto?

E, afinal, se os “portugueses preferiam que John Kerry tivesse sido vencedor”, como é possível que a vitória de Bush não tenha sido uma surpresa, como diz o texto? A menos que tenha sido uma surpresa, como diz o título.
Enfim, erros todos nós cometemos e a salganhada do texto pode ter sido uma coincidência infeliz de uma série de erros e omissões, mas o que eu quero sublinhar é a perversidade deste tipo de sondagens.
Por exemplo, uma mulher vai a julgamento por ser acusada de se ter submetido a um aborto clandestino. O assunto é discutido nos jornais e há logo um deles que pergunta: é a favor ou contra o aborto? Os leitores que não tenham mais nada para fazer, votam a favor ou contra. Os que são contra têm mais votos. No dia seguinte, o jornal há-de titular: “maioria dos portugueses é contra o aborto”

Este tipo de inquéritos/sondagens/chamem-lhe o que quiserem é uma mentira e jornalismo descuidado.

Por curiosidade, fui visitar alguns sites de revistas e jornais e todos eles têm um inquérito:
A Visão pergunta: “Como acha que vai decorrer o processo do Médio Oriente sem Yasser Arafat?”
O DN: “Considera que, para o processo de paz no M.O. a morte de Y. Arafat vai ser...”
O Jornal de Notícias: “Que conhecimento possui sobre as novas alterações ao Código da Estrada?”
O Público: “Concorda com o prolongamento da missão da GNR no Iraque?”
O Correio da Manhã: “Justifica-se a proibição absoluta de fumar nas instalações das empresas?”
O Record: “Quem deve defender a baliza de Portugal no Luxemburgo?”
A Bola: “Trapattoni deverá continuar a apostar de início numa dupla Sokota/Karadas?”

Quer dizer, do código de estrada à dupla atacante do Benfica, tudo serve para fazer perguntas aos portugueses. Inquéritos de opinião que, depois, servirão para dizer, por exemplo: “Os portugueses não estão devidamente informados sobre as novas alterações ao código da estrada” ou “Trapattoni deve deixar Sokota no banco”. Notícias que valem o que valem este tipo de inquéritos. Irrelevantes!...

Sábado, 13
Bagão, Santana e Pequito
Bagão Félix anunciou que o IRS ia baixar já em 2005. Santana Lopes corroborou. Depois, na discussão do Orçamento, Bagão explicou que, afinal, essa descida do IRS só se faria sentir em 2006 – ano em que, por simples coincidência, haverá eleições legislativas... Afirmou, também, que não explicou estar artimanha logo no início... porque ninguém ainda lhe tinha perguntado. Como é católico, Bagão deve ter tido o chamado sentimento de culpa, e foi internado no hospital com uma crise hipertensiva...

Santana Lopes andou durante dois anos a ameaçar que se candidataria à Presidência da República. Ontem, no Congresso do Partido, em Barcelos, anunciou que o candidato do PSD será Cavaco Silva.

Alfredo Pequito, ex-delegado de informação médica da Bayer, tem uma segurança pessoal de seis elementos, fornecida pela PSP, a fim de evitar ataques de que terá sido alvo, perpetrados por desconhecidos. Essa segurança custou ao Estado, desde 1997, cerca de 500 mil euros! Agora, o Ministério Público vem dizer que, muito provavelmente, os ataques e as ameaças que Pequito diz ter sofrido foram todas forjadas por ele próprio.

Não há, nestes três casos, uma espécie de padrão de comportamento?

A Roche e a Quinta das Celebridades
Recebemos ontem uma carta muito curiosa da Roche Farmacêutica. Diz assim:

“Como é do conhecimento geral, a TVI está a transmitir o programa “A Quinta das Celebridades”, onde o Xenical tem sido mencionado diversas vezes pelos concorrentes do programa.
No sentido de evitar qualquer dúvida relativamente à origem destas referências ao Xenical, a Roche Farmacêutica considera seu dever esclarecer que não tem qualquer responsabilidade nem envolvimento quer com o programa, quer com os concorrentes respectivos.”

Até Roche se demarca da Quinta das Obscenidades!
A ideia base do programa é, em si própria, idiota: pegar numa dúzia de pessoas mais ou menos conhecidas (e, por isso, ditas célebres), fechá-las numa quinta com animais e filmá-las 24 horas por dia. Objectivo? Transmitir, para todo o país, imagens de tipos a correr atrás de porcos, a dar comida às galinhas ou simplesmente sentados numa sala, a dizer banalidades. No entanto, pelos vistos, a coisa tem interesse porque, neste momento, é o programa mais visto de todas as televisões. Mais de metade dos portugueses que vêem televisão, sintonizam a TVI para ver aquela merda...

Ontem, no restaurante onde almoçamos todos os dias, a televisão estava sintonizada na TVI, que transmitia “A Quinta”. Dois tipos, mascarados de soldados (um tal José Castelo Branco que diz não ser bicha, mas sim lésbica... e um brasileiro chamado Frota, apresentado como actor de filmes pornográficos), corriam por entre couves e outros vegetais, simulando um ataque furtivo a qualquer coisa que não consegui perceber. O tal gajo que diz que é lésbica dava gritinhos, à medida que se agachava e espetava o cu, escondendo-se atrás de alguma couve; o brasileiro, atirava granadas de fumo e dava ordens. Na mesa ao lado, duas mulheres que também estavam a almoçar, escangalhavam-se a rir.
Mistérios da espécie humana...

Domingo, 7
Arafat – morto ou vivo, tanto faz
Arafat está a morrer – ou será que já morreu?
Arafat causa tantos problemas vivo como morto.
Suspeito que, no fundo, Arafat esteja vivo apenas porque ainda não desligaram as máquinas porque não sabem o que hão-de fazer com o seu cadáver.
Enterrá-lo, onde?
Arafat disse que queria ser enterrado na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém (nome irónico, este da Esplanada das Mesquitas...). mas os israelitas nunca permitirão que o túmulo de Arafat seja o centro de constantes manifestações dos palestinianos, em pleno Estado judaico.
Intensas negociações têm tido lugar entre líderes israelitas e palestinianos, e outros.
Enquanto não chegarem a um acordo, Arafat não pode morrer...
Pobre Arafat, que não tem onde cair morto...

Sexta, 5
W. Bush – A Sequela
Desta vez não houve dúvidas: Bush ganhou as eleições com mais 3,5 milhões de votos do que Kerry e temos que o aturar mais 4 anos.
É esse o problema...

É que se, por absurdo, o Santana Lopes ganhasse as próximas legislativas (hipótese meramente académica e até um pouco idiota, mas enfim...) – bom, se o Sr. Lopes ganhasse as eleições, quem o teria que aturar mais 4 anos seríamos nós, e nós apenas; os americanos nem sabem sequer onde fica Portugal, quanto mais quem é o Sr. Lopes...
No entanto, para Portugal (e para o resto do mundo), não é indiferente se, na Casa Branca, está um democrata ou um republicano – sobretudo quando esse republicano está convencido que governa sob o comando directo de Deus. E Bush está disso convencido, assim como não tem dúvidas que esse Deus é o único e verdadeiro, enquanto um tal Alá, invocado pelo seu arqui-rival Ben Laden, não passa de uma ficção.

Ficámos desiludidos com a vitória de Bush, mas não devíamos. Ao fim e ao cabo, não consideramos nós que os EUA é um estado imperialista? Ora, se é imperialista, deve ser governado por um imperador e, que eu saiba, os súbditos não podem escolher o seu senhor – aceitam-no e pronto!

Por outro lado, se é verdade que os EUA se metem na política dos outros estados, intervindo até militarmente para derrubar governos e colocar outros no seu lugar, seria justo que todos os povos do mundo pudessem votar no presidente americano.

E afinal, se os 4 anos de governo de Bush foram assim tão maus, por que raio é que a maioria dos americanos votou nele novamente? Só por serem burros? Não me parece...
E se Kerry tivesse ganho as eleições, as coisas seriam assim tão diferentes? Também não me parece... Afinal, foi durante o reinado do Reagan (tão odiado por tanta gente aqui na Europa, tão gozado por não passar de um actor medíocre armado em dono do mundo) que o muro de Berlim caiu e as ditaduras do Leste se desmoronaram. E foi durante o reinado de John Kennedy (tão amado e idolatrado aqui na Europa), que se iniciou o bloqueio a Cuba.
Portanto, vamos ter que aguentar mais 4 anos de George W. Bush mas, sinceramente, o que me preocupa é o ano e meio que temos que aguentar de Santana Lopes...

Segunda, 1
Todos os Santos
Não faço ideia de quantos serão, mas hoje é o dia deles todos. Agradeço-lhes o facto de me proporcionarem este feriado. Obrigado, santos. Obrigado a todos.
No entanto, não se justificam os foguetes.

Logo pelas 8 da matina, o padre, nove acólitos e um cão, enfrentaram o frio da manhã para, no Largo de Cacilhas, lançarem nos ares dezenas de foguetes tonitruantes! Um sacrilégio, incomodar assim o sono dos justos! Cinco minutos de estrondos ininterruptos. Objectivo? Não vejo outro senão o de castigar os que dormiam em paz – satisfeitos com um feriado, sem darem nada em troca, sem se sentirem um bocadinho culpados? Vocês sabem que a culpa faz parte da religião... querem um feriado religioso sem sofrerem um pouco que seja?

Sentei-me na cama e pensei: o que se passará? Os foguetes estão a anunciar o quê? O início da missa? E era preciso tanto barulho?

Neste dia 1 de Novembro festeja-se, em Cacilhas, o dia em que a padroeira, há 249 anos, conseguiu que o maremoto de 1755 não atingisse esta simpática freguesia e fosse dizimar milhares de lisboetas. Estranhos, os caminhos de Deus...

Depois dos foguetes, creio que há a tal missa e, a meio da tarde, uma procissão anémica sobe e desce uma rua secundária de Cacilhas (que, como se sabe, tem três ruas); são três ou quatro andores, com a banda dos bombeiros, à frente, a tocar marchas militares. Todos a caminho do Iraque! Depois de chegar ao Largo de Cacilhas, em frente aos cacilheiros, o padre imola-se pelo fogo e as cinzas são lançadas ao Tejo. Não tenho bem a certeza se é assim que se passa, mas deve ser parecido...

Tantos santos que existem e logo me havia de calhar uma santa que gosta de foguetes!


 

voltar ao topo

 

 

 

 

 


 

 


Este é o Coiso do Artur Couto e Santos.
Se tiver algum comentário a fazer ao meu Coiso, carregue aqui:

arturcs@netcabo.pt