Novembro 2004:
Coisas que acontecem
| Jerónimo! | O
Super-Sarmento | Morte aos fumadores!
| O referendo da Europa | O
astral do Sr. Lopes | Sondagens
para todos os gostos | Bagão,
Santana e Pequito | A Roche e a Quinta
das Celebridades | Arafat - morto
ou vivo, tanto faz | W. Bush - A Sequela
| Todos os santos |
Domingo, 28 de Novembro
Jerónimo!
Este é o grito dos pára-quedistas antes de
se lançarem no vazio.
“Jerónimo!”, gritaram, também
hoje, os comunistas portugueses, antes de se lançarem
no vazio de um futuro apenas feito de passado, depois de
terem escolhido Jerónimo de Sousa como novo secretário-geral.
Carlos Carvalhas, o dos ésses sibilantes, fartou-se,
ou obrigaram-no a fartar-se e decidiu sair de cena. E o
Partido foi incapaz de escolher outra pessoa que não
um representante do que mais ortodoxo o Partido possui –
um tipo de ar duro e carregado, que teima em que se apresentar
como operário metalúrgico, embora há
cerca de 30 anos que não pegue num martelo e com
ele bata numa bigorna (se é que alguma vez fez semelhante
coisa...). Esta particularidade, de um funcionário
burocrático de um partido se apresentar como operário,
quando há décadas que é funcionário
administrativo é ridículo; é como se
eu, que sou médico desde 1978, me continuasse a apresentar
como jornalista, profissão que exerci entre 1974
e 1977!...
Acredito que o PCP, por enquanto, apenas poderá
sobreviver se continuar a ser fechado, ortodoxo, marxista-leninista
sem concessões. Provavelmente, estabilizará
nos 5-6% do eleitorado, mas manter-se-á à
tona. Se o PCP se “liberalizasse”, acabaria
por se diluir no PS, no Bloco de Esquerda e em mais meia
dúzia de formações políticas
de reflexão e intervenção, sem qualquer
expressão eleitoral.
No entanto, a prazo, o PCP, tal como é, vai desaparecer.
Quando a “velha guarda” de operários
da cintura industrial de Lisboa e Setúbal, actualmente,
na casa dos 50-70 anos desaparecer, o Partido morre.
Darwin é implacável!
Sábado, 27 de Novembro
O Super-Sarmento
Agora é que eu começo a ficar verdadeiramente
assustado!
Até aqui, achava eu que o Sr. Lopes e seus apaniguados
eram um bando de medíocres, mas que estavam apenas
de passagem. Nós deixávamos que eles brincassem
aos governos durante dois anos e, nas próximas eleições,
a coisa ficava resolvida.
Mas, quando leio a entrevista do Prof. Cavaco ao Expresso
de hoje, em que ele diz, nomeadamente, “é chegado
o momento de os políticos competentes afastarem os
políticos incompetentes”, começo a ficar
mesmo preocupado!
Então, até o Cavaco não se coíbe
de chamar incompetentes a este banco?
Sendo assim, se calhar, a coisa é mais grave do
que eu pensava. Se calhar, o Sr. Lopes e seus capangas estão
mesmo convencidos que vão ganhar as próximas
eleições e continuar a governar Portugal.
Se calhar, o Sr. Lopes e o seu gang estão a ocupar
as posições estratégicas necessárias
e suficientes para, apesar das sondagens e do descontentamento
generalizado, conseguirem o número de votos suficientes
para continuarem no Poder.
Nunca gostei do Prof. Cavaco. Sempre o achei um tipo autoritário,
enfatuado, cinzento. Não vou alinhar neste costume
bem português que consiste em, com o tempo, dizer
que, afinal, aquele grande filho da mãe até
era um gajo porreiro, agora que já não manda
nada. Algo semelhante sucedeu com a maior parte dos políticos
dos últimos 30 anos. Freitas do Amaral, por exemplo,
que concorreu contra Mário Soares à Presidência
da República, agora é uma figura respeitada
e citada por toda a esquerda. O próprio Mário
Soares, acusado do desastre da descolonização,
de não dominar os dossiers, de ser o Kerenski à
portuguesa, agora é idolatrado como o tipo que nos
salvou de uma ditadura estalinista – como se fosse
possível que os EUA e a Europa deixassem que se instalasse
um regime desses em Portugal...
Portanto, não gosto do Cavaco, o tipo não
sabe falar português (não lhe desculpo o “cicartizar
as feridas” do incêndio do Chiado) – mas
se ele diz que chegou o momento dos políticos competentes
afastarem os incompetentes, é porque, também
ele, teme que esta corja de medíocres se eternize
no Poder.
O Sarmento é o paradigma desta pandilha.
Quem é o Sarmento? De onde veio ele? Que currículo
possui que o leve a ser, agora, o Ministro de uma Data de
Porção de Quantidade de Coisas? Como é
possível que um tipo com a atitude e pose de um sargento-lateiro
chegue onde chegou?
O Sarmento engendrou uma Central de Informação,
assim uma espécie de agência que deveria influenciar
os órgãos de comunicação, explicando
ao pobre povo as grandes iniciativas do Governo. O Sr. Lopes
lamentou-se, em entrevista à RTP que apenas conseguia
falar durante um minuto por dia, nos Telejornais e que esse
tempo não chegava para explicar as iniciativas do
seu Governo. Seria necessário mais tempo, para que
o pobre povo percebesse o bem que o Governo está
a fazer. Isto é simplesmente patético –
mas assustador!
Ora, como o Presidente Sampaio vetou a criação
da tal Central de Informação, o Sr. Lopes
ofereceu ao Sarmento mais poderes e transformou-o em Super-Sarmento.
O Super-Sarmento é bem a imagem deste Governo –
como um tipo com ar de arruaceiro, sem nunca ter dado provas
de coisa nenhuma em nenhuma área, se transforma na
imagem de marca do Governo de um país europeu.
No tempo do chamado Verão quente de 1975, dizia-se
que Portugal estava próximo de um daqueles países
da América Latina, sempre à beira da guerra
civil.
Agora, com o Sr. Lopes e o Super-Sarmento somos mesmo
um país da América Latina, versão europeia
– não pela hipótese eminente de guerra
civil mas pelo triunfo da mediocridade!
Sábado, 20 de Novembro
Morte aos
fumadores!
Os portugueses que admiram George Bush e tudo aquilo que
ele representa devem estar exultantes – o governo
prepara-se para tomar medidas restritivas aos fumadores,
idênticas ao que os Estados Unidos têm em vigor
já há anos e que a Irlanda (um dos países
que mais emigrantes forneceu aos States) adoptou no ano
passado.
Finalmente, os não fumadores vão poder viver
descansados, sem serem obrigados a inalar o fumo dos outros,
morrendo tranquilamente de cancro do cólon, que é
a segunda patologia oncológica mais frequente em
Portugal, ou de diabetes, que cada vez é mais frequente
no nosso país, ou de acidente rodoviário,
ou de frio extremo, ou de calor intenso, ou de negligência
médica, ou de...
O hipócrita governo do Sr. Lopes escolheu, mais
uma vez, a via mais fácil.
Aliás, a filosofia deste governo é mesmo esta:
quando algo é demasiado complicado, opta por outra
coisa qualquer que seja mais fácil – mesmo
que os resultados sejam duvidosos.
Com os impostos é assim que se passa: em vez de
apanhar os filhos da mãe que nunca pagaram, não
pagam nem nunca pagarão um tostão de impostos,
adopta medidas que penalizam os que não têm
maneira de fugir a esses impostos.
Falemos claro: o tabaco é assim tão perigoso
para a saúde? Se a resposta é afirmativa,
toca a proibir o tabaco, pura e simplesmente, considerá-lo
uma droga, ao nível do haxixe, da coca e da heroína
e bani-lo definitivamente...
Pois... mas e os impostos que o Estado saca em cada maço
de tabaco vendido?
Não, o que vamos fazer é proibir o consumo
de tabaco em locais públicos, que é para dar
a ideia de que estamos a fazer algo a favor da saúde
pública.
No entanto, em relação ao cancro do cólon,
por exemplo, não existe nenhum programa nacional
de rastreio. Os especialistas dizem que todos os portugueses
deviam fazer uma colonoscopia aos 50 anos e, depois, regularmente,
de 5 em 5 anos. Este simples facto, diminuíra drasticamente
o número de mortos por cancro do cólon. Ora,
o que acontece, é que o SNS nem sequer comparticipa
uma colonoscopia.
E quanto à diabetes? Dizem todos os estudos que a
incidência desta doença está a aumentar
todos os anos. Para este facto contribuem os estilos de
vida: o sedentarismo, o consumo de açúcar
e gorduras, a obesidade.
E o que faz o Estado? Proíbe as lojas de fast-food,
organiza grandes programas nacionais para promover alimentação
saudável, cria espaços para a prática
de exercício físico? Isso é que era
bom! O Estado nem sequer comparticipa qualquer dos medicamentos
existentes no mercado e que estão indicados no tratamento
da obesidade.
O Estado está-se cagando para a saúde dos
fumadores e dos não fumadores!
A hipocrisia é tanta que até chateia.
E o problema, é que os não fumadores militantes
vão aplaudir as medidas restritivas do governo em
relação ao tabaco, sem sequer pararem para
pensar que elas são meras manobras publicitárias.
Porque é fácil decretar: é proibido
fumar nos restaurantes e pronto! as consciências ficam
tranquilas, o governo consegue mais alguns votos mas nada
muda, no que respeita à saúde pública.
Tretas!
Hoje mesmo, ao almoço, comi uma tangerina que não
sabia a nada; devia ser daquelas que são produzidas
em série, em pomares repletos de pesticidas, a partir
de sementes transgénicas; mas, caramba, faz bem à
saúde comer fruta, não é? E então,
nós fazemos um esforço e comemos qualquer
merda em forma de fruta que nos apareça à
frente.
Sinceramente, prefiro fumar um cigarro, que é coisa
que sei, de fonte segura, que me vai fazer mal, mesmo muito
mal!...
Agora a sério: será que ainda ninguém
se questionou por que carga de água esta cruzada
anti-fumadores começou nos Estados Unidos –
país onde um jovem com menos de 18 anos não
pode comprar uma bebida alcoólica, mas pode comprar
uma arma automática? Será que os States estão
assim tão preocupados com a saúde dos seus
cidadãos? Se assim fosse, por que motivo os EUA é
um dos poucos países ocidentais que não tem
um serviço nacional de saúde? Na América,
se não tiveres um seguro de saúde, podes muito
bem morrer à porta do hospital com a tecnologia de
saúde mais avançada, que ninguém te
virá socorrer – e isto não é
exagero...
A questão das proibições aos fumadores
é, única e exclusivamente, uma questão
moral - como foi a chamada lei seca, no século passado,
também na América. Porque, no fundo, é
feio fumar! E agora, que as estatísticas mostram
que cada vez mais mulheres fumam, é tempo de acabar
com essa libertinagem!
As novas leis anti-fumadores deverão ser aprovadas
nas próximas semanas e entrarão em vigor 180
dias depois.
Então, finalmente, os não fumadores deixarão
de ter desculpa para morrerem!
O referendo
da Europa
Está aprovada a pergunta que vai ser posta a referendo
sobre a Constituição da União Europeia.
Diz o seguinte:
“Concorda com a Carta dos Direitos Fundamentais,
a regra das votações por maioria qualificada
e o novo quadro institucional da União Europeia,
nos termos constantes da Constituição para
a Europa?”
Parece-me demasiado rebuscada. Estou mesmo a ver a Dona
Olinda, que não sabe ler nem escrever, a pedir à
Dona Genoveva, que ainda andou na escola uns dois anos,
que lhe leia a pergunta. Ambas vão ficar a olhar
uma para a outra, sem perceber patavina daquilo e, das duas
uma, ou nem sequer se dão ao trabalho de votar ou
acabam por pôr a cruzinha no “sim”, porque
a pergunta está formulada na afirmativa; se a pergunta
começasse com “não concorda com...”,
votariam “não”.
Na minha opinião, a pergunta deveria ser assim:
“Concorda com o facto de a União Europeia,
que agora é presidida por aquele senhor que era primeiro-ministro
de Portugal, Durão Barroso e que decidiu pirar-se
daqui para fora, a fim de aproveitar um tacho muito melhor,
embora tenha tido alguma dificuldade em conseguir que aprovassem
a sua equipa de comissários, porque incluía
um italiano que acha que o lugar das mulheres é em
casa e que os homossexuais são pecadores e foi obrigado
a remodelar essa mesma equipa e lá conseguiu a aprovação
da maioria dos deputados da União Europeia, que ninguém
sabe muito bem o que lá estão a fazer porque,
a única coisa que a gente dá por isso são
os subsídios porque uma pessoa anda por aí
e vê obras numa escola e lá está o cartaz
a dizer que o dinheiro vem do Fundo Social Europeu e vê
um novo centro de saúde a ser construído e
o cartaz diz que as obras têm o apoio da UE, mas sem
ser propriamente esses subsídios, que não
são de desprezar, a gente não entende para
que serve a Europa e muito menos percebe se valerá
a pena ela ter uma Constituição, porque cada
um dos 25 países que compõem a UE já
têm uma Constituição, mas, pelos vistos,
a tal Europa quer agora funcionar como se fosse um país,
assim uma espécie de Estados Unidos da Europa e,
portanto, quer ter uma Constituição só
dela, que englobe os países todos e, depois, nós
temos que obedecer a essa Constituição, mas
suspeita-se que também teremos que obedecer à
nossa própria Constituição porque,
tanto quanto sabemos, a nossa manter-se-á em vigor
e teremos que ter muito cuidado porque, havendo duas Constituições,
as leis serão a dobrar e esperemos que não
existam leis contraditórias, isto é, coisas
que sejam permitidas pela nossa Constituição,
mas proibidas pela Constituição da Europa.
Numa palavra: concorda ou não?”
Terça, 16 de Novembro
O astral do
Sr. Lopes
Sinto-me na merda! Sinto-me tão em baixo que decidi
escrever este texto e colocá-lo na internet, na esperança
de que alguém o leia e me dê uma ajuda...
Peço desde já desculpa por escrever em português,
o que poderá dificultar a ampla divulgação
do texto. Sei que as traduções instantâneas
feitas pelos motores de busca não são muito
fiáveis, mas decidi correr o risco. Infelizmente,
não domino nem o inglês, nem o francês,
muito menos o alemão e, mesmo em português,
a minha língua pátria há 51 anos, vou
ter dificuldade em exprimir o que me vai na alma...
O primeiro-ministro do meu país, Portugal, chamado
Pedro Santana Lopes (eu trato-o por Sr. Lopes, por deferência),
fez um discurso no encerramento do congresso do partido
a que preside, e que se designa por Partido Popular Democrático
Traço Partido Social Democrata (PPD-PSD).
Ajudem-me, por favor!
O Sr. Lopes disse:
“EU QUERO QUE O PAÍS VÁ SUBINDO NO
SEU ASTRAL!”
Mas o que quer isto dizer?!
Foi por esta frase que fiquei na merda!
O que queria o Sr. Lopes dizer com isto?
Por favor – ajudem-me!
O que diriam vocês, povos de todo o mundo, se o vosso
dirigente governamental dissesse uma coisa destas?
Vocês, ingleses, americanos, neo-zelandeses, australianos
– se o vosso primeiro-ministro dissesse “I want
that the country go up in its astral!”, o que pensariam?
Como reagiriam?
E vós, franceses, belgas, luxemburgueses e quejandos
– se o vosso líder afirmasse “Je veux
que le pays eléve son astral?”, o que fariam,
conseguiriam dormir descansados?
É que, embora eu saiba que “astral” provém
dos astros, quer-me parecer que o Sr. Lopes não queria
dizer que está à espera que Portugal vá
pelos ares, até explodir em contacto com o sol ou
despenhar-se no solo lunar.
O problema é que eu não sei bem o que o Sr.
Lopes quis dizer com “astral” – muito
menos com “vá subindo no seu astral”
– porque, nesta frase, “astral” é
um substantivo, isto é, uma coisa.
E que coisa será essa?
Eu tenho um dicionário, que é da Sociedade
de Língua Portuguesa, em 12 volumes, que me custou
os olhos da cara. Bem sei que a edição já
é de 1981 e, se calhar, está desactualizado,
mas, segundo esse dicionário, “astral”,
como substantivo, quer dizer “plano intermediário
entre o físico e o espiritual ou região que
os ocultistas julgam povoada de miragens e sombras, as quais
são observadas por videntes, possessos e hipnóticos”.
Quererá isto dizer que o Sr. Lopes é vidente,
está possesso, foi hipnotizado? Que Portugal está
povoado por miragens e sombras? Que o Sr. Lopes é
um ocultista?
E, mesmo que todas estas hipóteses sejam verdadeiras,
mesmo assim, fico sem saber o que o Sr. Lopes queria dizer
com “subindo no seu astral”... será que
Portugal estava, digamos, no rés-do-chão,
das miragens e sombras e ele quer que vá subindo,
digamos, até ao 3º andar? Será que, atingido
o 3º andar, se vêem melhor os possessos, os videntes
e os hipnóticos?
Sinceramente, não estava à espera de uma coisa
destas...
Eu sei que o Sr. Lopes é um pouco bronco. Não
sei se sabem que foi ele quem disse, aqui há uns
anos, que Chopin compôs uns excelentes concertos para
violino...
Mas esta do astral deixou-me perplexo porque, se calhar,
o Sr. Lopes sabe mais do que eu pensava, tem contactos que
eu desconhecia e é, talvez, capaz de estabelecer
pontes com videntes e ocultistas.
E se isto é assim, temo que, se não nos portarmos
bem, se continuarmos a gozar indecentemente com o Sr. Lopes
como temos gozado nos últimos meses, ele ainda é
muito capaz de invocar os seus amigos possessos e, num golpe
de varinha de condão, transformar-nos, todos, em
sapos!
Ajudem-me, por favor!
Domingo, 14
Sondagens
para todos os gostos
Não há jornal que não inclua uma sondagem.
Não há programa de televisão que não
faça a uma pergunta ao espectador, que deverá
responder por SMS. Muitos sites, digamos, institucionais,
não dispensam a perguntinha para os visitantes responderem.
Até um telejornal (o da TVI), faz diariamente uma
pergunta aos espectadores, para ver se eles estão
atentos às notícias. É uma praga!
Todas as semanas, o Expresso publica o seu painel que,
supostamente, espelhará a opinião do país.
Nesse painel, há perguntas fixas: em que partido
votaria se as eleições fossem hoje, qual o
candidato a candidato à Presidência da República
está melhor colocado para ser eleito – para
além de classificações dos diferentes
políticos, quanto à sua actuação
(muito boa, boa, má, muito má). Aproveitando
o facto de possuírem um painel já organizado,
introduzem, regularmente, perguntas relacionadas com a actualidade.
Esta semana, questionavam o painel sobre a vitória
de Bush nas eleições norte-americanas. O título
dizia: “Vitória de Bush foi uma surpresa”.
E o texto começava assim: “A vitória
de George Bush nas eleições presidenciais
dos Estados Unidos não foi uma surpresa para os portugueses.”
Em que ficamos? Acreditamos no título ou no texto
da notícia?
Mas toda a notícia é uma confusão pegada.
Continua assim:
“Que preferiam que John Kerry tivesse sido vencedor,
já que entendem que o candidato democrata seria melhor
para a Europa e para o mundo.
Sendo Portugal dos países europeus menos críticos
da Administração Bush, é entre os homens
que o republicano reeleito presidente dos Estados Unidos
tem mais apoios: com efeito, um em cada três eleitores
masculinos acha que Bush é melhor que Kerry, enquanto
entre as mulheres apenas uma em cada é dessa opinião”
É mesmo assim, não me enganei! “Entre
as mulheres apenas uma em cada é dessa opinião”.
Uma em cada quantas? O que quererá dizer isto?
E, afinal, se os “portugueses preferiam que John
Kerry tivesse sido vencedor”, como é possível
que a vitória de Bush não tenha sido uma surpresa,
como diz o texto? A menos que tenha sido uma surpresa, como
diz o título.
Enfim, erros todos nós cometemos e a salganhada do
texto pode ter sido uma coincidência infeliz de uma
série de erros e omissões, mas o que eu quero
sublinhar é a perversidade deste tipo de sondagens.
Por exemplo, uma mulher vai a julgamento por ser acusada
de se ter submetido a um aborto clandestino. O assunto é
discutido nos jornais e há logo um deles que pergunta:
é a favor ou contra o aborto? Os leitores que não
tenham mais nada para fazer, votam a favor ou contra. Os
que são contra têm mais votos. No dia seguinte,
o jornal há-de titular: “maioria dos portugueses
é contra o aborto”
Este tipo de inquéritos/sondagens/chamem-lhe o
que quiserem é uma mentira e jornalismo descuidado.
Por curiosidade, fui visitar alguns sites de revistas
e jornais e todos eles têm um inquérito:
A Visão pergunta: “Como acha que vai decorrer
o processo do Médio Oriente sem Yasser Arafat?”
O DN: “Considera que, para o processo de paz no M.O.
a morte de Y. Arafat vai ser...”
O Jornal de Notícias: “Que conhecimento possui
sobre as novas alterações ao Código
da Estrada?”
O Público: “Concorda com o prolongamento da
missão da GNR no Iraque?”
O Correio da Manhã: “Justifica-se a proibição
absoluta de fumar nas instalações das empresas?”
O Record: “Quem deve defender a baliza de Portugal
no Luxemburgo?”
A Bola: “Trapattoni deverá continuar a apostar
de início numa dupla Sokota/Karadas?”
Quer dizer, do código de estrada à dupla
atacante do Benfica, tudo serve para fazer perguntas aos
portugueses. Inquéritos de opinião que, depois,
servirão para dizer, por exemplo: “Os portugueses
não estão devidamente informados sobre as
novas alterações ao código da estrada”
ou “Trapattoni deve deixar Sokota no banco”.
Notícias que valem o que valem este tipo de inquéritos.
Irrelevantes!...
Sábado, 13
Bagão,
Santana e Pequito
Bagão Félix anunciou que o IRS ia baixar já
em 2005. Santana Lopes corroborou. Depois, na discussão
do Orçamento, Bagão explicou que, afinal,
essa descida do IRS só se faria sentir em 2006 –
ano em que, por simples coincidência, haverá
eleições legislativas... Afirmou, também,
que não explicou estar artimanha logo no início...
porque ninguém ainda lhe tinha perguntado. Como é
católico, Bagão deve ter tido o chamado sentimento
de culpa, e foi internado no hospital com uma crise hipertensiva...
Santana Lopes andou durante dois anos a ameaçar
que se candidataria à Presidência da República.
Ontem, no Congresso do Partido, em Barcelos, anunciou que
o candidato do PSD será Cavaco Silva.
Alfredo Pequito, ex-delegado de informação
médica da Bayer, tem uma segurança pessoal
de seis elementos, fornecida pela PSP, a fim de evitar ataques
de que terá sido alvo, perpetrados por desconhecidos.
Essa segurança custou ao Estado, desde 1997, cerca
de 500 mil euros! Agora, o Ministério Público
vem dizer que, muito provavelmente, os ataques e as ameaças
que Pequito diz ter sofrido foram todas forjadas por ele
próprio.
Não há, nestes três casos, uma espécie
de padrão de comportamento?
A Roche e a
Quinta das Celebridades
Recebemos ontem uma carta muito curiosa da Roche Farmacêutica.
Diz assim:
“Como é do conhecimento geral, a TVI está
a transmitir o programa “A Quinta das Celebridades”,
onde o Xenical tem sido mencionado diversas vezes pelos
concorrentes do programa.
No sentido de evitar qualquer dúvida relativamente
à origem destas referências ao Xenical, a Roche
Farmacêutica considera seu dever esclarecer que não
tem qualquer responsabilidade nem envolvimento quer com
o programa, quer com os concorrentes respectivos.”
Até Roche se demarca da Quinta das Obscenidades!
A ideia base do programa é, em si própria,
idiota: pegar numa dúzia de pessoas mais ou menos
conhecidas (e, por isso, ditas célebres), fechá-las
numa quinta com animais e filmá-las 24 horas por
dia. Objectivo? Transmitir, para todo o país, imagens
de tipos a correr atrás de porcos, a dar comida às
galinhas ou simplesmente sentados numa sala, a dizer banalidades.
No entanto, pelos vistos, a coisa tem interesse porque,
neste momento, é o programa mais visto de todas as
televisões. Mais de metade dos portugueses que vêem
televisão, sintonizam a TVI para ver aquela merda...
Ontem, no restaurante onde almoçamos todos os dias,
a televisão estava sintonizada na TVI, que transmitia
“A Quinta”. Dois tipos, mascarados de soldados
(um tal José Castelo Branco que diz não ser
bicha, mas sim lésbica... e um brasileiro chamado
Frota, apresentado como actor de filmes pornográficos),
corriam por entre couves e outros vegetais, simulando um
ataque furtivo a qualquer coisa que não consegui
perceber. O tal gajo que diz que é lésbica
dava gritinhos, à medida que se agachava e espetava
o cu, escondendo-se atrás de alguma couve; o brasileiro,
atirava granadas de fumo e dava ordens. Na mesa ao lado,
duas mulheres que também estavam a almoçar,
escangalhavam-se a rir.
Mistérios da espécie humana...
Domingo, 7
Arafat –
morto ou vivo, tanto faz
Arafat está a morrer – ou será que já
morreu?
Arafat causa tantos problemas vivo como morto.
Suspeito que, no fundo, Arafat esteja vivo apenas porque
ainda não desligaram as máquinas porque não
sabem o que hão-de fazer com o seu cadáver.
Enterrá-lo, onde?
Arafat disse que queria ser enterrado na Esplanada das Mesquitas,
em Jerusalém (nome irónico, este da Esplanada
das Mesquitas...). mas os israelitas nunca permitirão
que o túmulo de Arafat seja o centro de constantes
manifestações dos palestinianos, em pleno
Estado judaico.
Intensas negociações têm tido lugar
entre líderes israelitas e palestinianos, e outros.
Enquanto não chegarem a um acordo, Arafat não
pode morrer...
Pobre Arafat, que não tem onde cair morto...
Sexta, 5
W. Bush –
A Sequela
Desta vez não houve dúvidas: Bush ganhou as
eleições com mais 3,5 milhões de votos
do que Kerry e temos que o aturar mais 4 anos.
É esse o problema...
É que se, por absurdo, o Santana Lopes ganhasse
as próximas legislativas (hipótese meramente
académica e até um pouco idiota, mas enfim...)
– bom, se o Sr. Lopes ganhasse as eleições,
quem o teria que aturar mais 4 anos seríamos nós,
e nós apenas; os americanos nem sabem sequer onde
fica Portugal, quanto mais quem é o Sr. Lopes...
No entanto, para Portugal (e para o resto do mundo), não
é indiferente se, na Casa Branca, está um
democrata ou um republicano – sobretudo quando esse
republicano está convencido que governa sob o comando
directo de Deus. E Bush está disso convencido, assim
como não tem dúvidas que esse Deus é
o único e verdadeiro, enquanto um tal Alá,
invocado pelo seu arqui-rival Ben Laden, não passa
de uma ficção.
Ficámos desiludidos com a vitória de Bush,
mas não devíamos. Ao fim e ao cabo, não
consideramos nós que os EUA é um estado imperialista?
Ora, se é imperialista, deve ser governado por um
imperador e, que eu saiba, os súbditos não
podem escolher o seu senhor – aceitam-no e pronto!
Por outro lado, se é verdade que os EUA se metem
na política dos outros estados, intervindo até
militarmente para derrubar governos e colocar outros no
seu lugar, seria justo que todos os povos do mundo pudessem
votar no presidente americano.
E afinal, se os 4 anos de governo de Bush foram assim
tão maus, por que raio é que a maioria dos
americanos votou nele novamente? Só por serem burros?
Não me parece...
E se Kerry tivesse ganho as eleições, as coisas
seriam assim tão diferentes? Também não
me parece... Afinal, foi durante o reinado do Reagan (tão
odiado por tanta gente aqui na Europa, tão gozado
por não passar de um actor medíocre armado
em dono do mundo) que o muro de Berlim caiu e as ditaduras
do Leste se desmoronaram. E foi durante o reinado de John
Kennedy (tão amado e idolatrado aqui na Europa),
que se iniciou o bloqueio a Cuba.
Portanto, vamos ter que aguentar mais 4 anos de George W.
Bush mas, sinceramente, o que me preocupa é o ano
e meio que temos que aguentar de Santana Lopes...
Segunda, 1
Todos os Santos
Não faço ideia de quantos serão, mas
hoje é o dia deles todos. Agradeço-lhes o
facto de me proporcionarem este feriado. Obrigado, santos.
Obrigado a todos.
No entanto, não se justificam os foguetes.
Logo pelas 8 da matina, o padre, nove acólitos
e um cão, enfrentaram o frio da manhã para,
no Largo de Cacilhas, lançarem nos ares dezenas de
foguetes tonitruantes! Um sacrilégio, incomodar assim
o sono dos justos! Cinco minutos de estrondos ininterruptos.
Objectivo? Não vejo outro senão o de castigar
os que dormiam em paz – satisfeitos com um feriado,
sem darem nada em troca, sem se sentirem um bocadinho culpados?
Vocês sabem que a culpa faz parte da religião...
querem um feriado religioso sem sofrerem um pouco que seja?
Sentei-me na cama e pensei: o que se passará? Os
foguetes estão a anunciar o quê? O início
da missa? E era preciso tanto barulho?
Neste dia 1 de Novembro festeja-se, em Cacilhas, o dia
em que a padroeira, há 249 anos, conseguiu que o
maremoto de 1755 não atingisse esta simpática
freguesia e fosse dizimar milhares de lisboetas. Estranhos,
os caminhos de Deus...
Depois dos foguetes, creio que há a tal missa e,
a meio da tarde, uma procissão anémica sobe
e desce uma rua secundária de Cacilhas (que, como
se sabe, tem três ruas); são três ou
quatro andores, com a banda dos bombeiros, à frente,
a tocar marchas militares. Todos a caminho do Iraque! Depois
de chegar ao Largo de Cacilhas, em frente aos cacilheiros,
o padre imola-se pelo fogo e as cinzas são lançadas
ao Tejo. Não tenho bem a certeza se é assim
que se passa, mas deve ser parecido...
Tantos santos que existem e logo me havia de calhar uma
santa que gosta de foguetes!
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