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O Coiso
Um dia destes...

Outubro 2004:

Coisas que acontecem

| A Europa do Zé Manel | O Circo Marcelo | Santana Lopes - campeão da maratona | A sesta do Sr. Lopes | Portugal causa-me azia | Visita a Veneza | Lobo Antunes e o Miguel Bombarda | A censura santanista | Um autarca em cuecas | Carvalhas e o operário pimba | A primeira obra do Sr. Lopes |


Sábado, 30
A Europa do Zé Manel
A Europa acaba de pregar a segunda partida ao Zé Manel Barroso (antes conhecido como Durão Barroso).
Em Junho passado, quando era primeiro-ministro, o Zé Manel perdeu as eleições europeias. Na noite da derrota, afirmou publicamente que esse resultado desfavorável era um incentivo para trabalhar mais e melhor por Portugal.
Duas semanas depois, pirou-se, aceitando ser presidente da Comissão Europeia.

O Zé Manel foi escolhido pelos senhores da Europa porque era o único político disponível capaz de aparecer ao lado de George Bush na cimeira dos Açores, apoiando a invasão do Iraque e, pouco depois, dizer que é preciso acabar com a arrogância dos americanos.
O Zé Manel sabe adaptar-se...

Agora, a Europa pregou-lhe outra partida. Escolheu os seus comissários, depois de longas negociações, mas o seu amigo Berlusconi impingiu-lhe um tal Buttiglioni – um italiano de extrema-direita que disse publicamente que ser homossexual é pecado e que o casamento serve para as mulheres terem filhos e serem protegidas pelos maridos.
Apesar disto, o Zé Manel insistiu na sua equipa de comissários, mesmo sabendo que, muito provavelmente, o Parlamento Europeu iria votar maioritariamente contra.

E, no dia da votação, recuou: retirou a sua lista de comissários e pediu mais tempo para arranjar outra.
Suspeito que, por momentos, o Zé Manel sentiu o desejo de regressar a Portugal e ocupar, novamente, o seu lugar de primeiro-ministro. Tarde piaste, Zé Manel...

No entanto, estranhamente, quando comprei o Diário de Notícias esta manhã, fiquei surpreendido com o nome do director interino do jornal.
Ora vejam lá...

Leram bem! Director interino: José Manuel Barroso!
E esta?!...

Será que o José Manuel Barroso desistiu do cargo de Presidente da Comissão Europeia e ocupou o cargo de director do Diário de Notícias, a mando da central de Informação do Sarmento Rodrigues?
Era uma grande ideia; para quê exercer pressões sobre os jornalistas ou os administradores? Põe-se o Zé Manel no DN, o Sarmento no Público, o Gomes da Silva no Expresso, a Celeste Cardona na TVI e a Teresa Caeiro na SIC (estas duas senhoras dão para qualquer lugar) e os principais órgãos de comunicação social ficam controlados.
Não me parece, no entanto, que estes tipos tenham imaginação para tanto.
Como diz Henrique Monteiro, na sua crónica de hoje no Expresso:

“Talvez seja esta conjunção de gente incompetente, com gente sôfrega de lugares, com gente com poucos escrúpulos que dá a ideia da conspiração do poder para dominar os «media». Talvez seja isto o santanismo. Mas talvez nem no santanismo eles sejam competentes.”

Subscrevo totalmente.

Sexta, 29
O Circo Marcelo
As coisas passaram-se mais ou menos assim:
Marcelo, na sua crónica dominical (há quem lhe chame homilia) na TVI tem zurzido no governo do Sr. Lopes.
O Sr. Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, afirmou que o Prof. estava deliberadamente a atacar o governo e que não havia hipótese de o rebater, porque ele falava sozinho.

No dia seguinte, o presidente da TVI, o Sr. Amaral, convidou Marcelo para um almoço e, nesse mesmo dia, Marcelo anunciou que ia deixar de fazer os seus comentários dominicais.
Toda a Oposição ficou escandalizada – mesmo os que sempre detestaram Marcelo. Era um atentado à liberdade de opinião. Era urgente uma comissão parlamentar de inquérito.

O PSD – partido a que pertence o Prof. – e o PP acharam que não; a Alta Autoridade para a Comunicação Social (organismo que os partidos do Poder vão dissolver em breve) é que deveria tomar conta da situação.
O primeiro a ir falar à AACS foi o ministro Silva, que disse que havia uma cabala entre o Expresso, o Público e o Prof. Marcelo para denegrir o governo do Sr. Lopes.
Depois, foi lá o Sr. Amaral, que assegurou que não tinha recebido pressões de ninguém e que também não tinha pressionado o Prof.

Também os directores do Público e do Expresso lá foram afirmar que não havia cabal nenhuma.
Finalmente, Marcelo foi à AACS e partiu a loiça toda: que o Sr. Amaral tinha sugerido que amaciasse as suas crónicas porque a TVI tinha negócios em vista, para os quais necessitava do aval do governo e os seus comentários estavam a ser demasiado críticos; que a televisão, ao contrário dos jornais, necessita de uma licença passada pelo governo para poder operar e tal e coisa.
Confrontado com estas declarações, o Sr. Amaral disse que o Prof. estava a exagerar e a fazer um aproveitamento político da coisa.

A Oposição – mesmo os que sempre odiaram o Prof. – ficou em pé de guerra: era mesmo preciso uma comissão parlamentar de inquérito para avaliar da existência de pressões governamentais sobre a liberdade de imprensa.
Os deputados da maioria dizem que não senhor – a Alta Autoridade (que eles até vão dissolver) há-de resolver o problema.

Em conclusão: é óbvio que o governo pressionou o Sr. Amaral para tentar convencer o Prof. a amaciar as suas crónicas; parece-me claro que o Prof. aproveitou a situação para adoptar uma atitude radical e sair de cena, fazendo-se de vítima; está na cara que a Oposição se está a aproveitar de tudo isto, até porque muitos dos seus elementos não podem com o Prof. nem pintado; e está-se mesmo a ver que os da maioria estão a fazer o frete ao governo porque, entre eles, há quem odeie tanto o Prof. como o Sr. Lopes e o ideal seria que ambos desaparecessem de cena.

Quanto a mim, estou-me nas tintas. Nunca fui à bola com o Prof. e deixei mesmo de escutar as suas crónicas quando ele entrou para a mesma estação de televisão que produz, por exemplo, o Big Brother e outras enormidades – aliás, nem percebo como uma pessoa da sua estatura intelectual aceitava participar num telejornal que escorre sangue todas as noites.

No entanto, o Prof. merece, pelo menos, um aplauso por ter conseguido inventar mais uma bagunça para o governo do Sr. Lopes que, uma vez mais demonstrou a sua completa falta de jeito para governar seja o que for...

Domingo, 24
Santana Lopes – campeão da maratona
Tinha pensado que hoje não ia escrever nada sobre o Sr. Lopes. É domingo, o Sr. Lopes deve ter ido à missa de manhã e, durante o resto do dia, deve ter ficado em casa, a fazer uma sesta e a estudar os dossiês (não obrigatoriamente por esta ordem...); está um dia de outono chuvoso e cinzento, não há nenhuma passagem de modelos que valha a pena, o Sporting jogou ontem, portanto, o melhor mesmo é ficar em casa.

Ora, ficando em casa, o Sr. Lopes não teria oportunidade de aparecer nas televisões a anunciar a baixa de mais algum imposto ou outra qualquer medida extraordinária que traga a felicidade aos portugueses.
Sendo assim, eu não teria motivo para escrever sobre o Sr. Lopes.

Mas eis que encontro, no Público, uma notícia a que não consigo resistir.
Ontem, o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, na assembleia distrital do partido, em Castelo Branco, disse coisas que merecem ser citadas.

Disse, por exemplo, que o primeiro-ministro (o Sr. Lopes) tem sido “um campeão da maratona” e espera “que esteja acompanhado no governo também por maratonistas e não por campeões dos 100 metros”.

Interpreto estas curiosas palavras do seguinte modo: o Sr. Lopes é como um corredor de fundo, resistente a tudo e a todos; ele acabará por vencer todos os obstáculos, tomando as medidas que são necessárias ao país e, quando chegar à meta (nas próximas eleições), será o vencedor. O problema é se, no governo, existem alguns ministros que são meros campeões de 100 metros, isto é, ministros que tomam medidas de efeito rápido, que depressa se esquecem e que, nesta maratona até às eleições de 2006, acabarão por se cansar e desistir.

Nunca tinha pensado no Sr. Lopes como campeão da maratona e não sou capaz de o imaginar a correr, qual Carlos Lopes, 42 km seja por que objectivo for.

Mas se o Sr. Relvas diz que o Sr. Lopes é campeão da maratona é porque é verdade. Ele deve saber. Resta o problema de saber quem, no governo, será campeão de 100 metros. Já revi mentalmente os ministros todos que conheço (três, e todos do CDS-PP) e não os estou a ver a correr nem 10 metros, a não ser, talvez, o Nobre Guedes, que tem as pernas altas.

Claro que as palavras do Sr. Relvas foram uma metáfora e eu estou a ser mauzinho.
Aliás, se quisermos comparar a legislatura a uma maratona, convém lembrar que o Sr. Lopes entrou a meio da corrida...

Sexta, 22
A sesta do Sr. Lopes
Na passada semana, o Expresso publicava na última página do corpo do jornal, esta fotografia do Sr. Lopes, a fazer boquinhas para os jornalistas.

A fotografia não tem nada de especial, a não ser o facto do Sr. Lopes estar a fazer aqueles olhinhos de carneiro mal morto e respectiva boquinha de beiços espetados e ainda, o facto de, à sua frente, estar espetado um microfone da Quinta das Celebridades.

Na legenda, o Expresso dizia qualquer coisa como isto: depois de ter discutido, na Assembleia da República, o Orçamento Geral do Estado e de ter dormido uma curta sesta, o primeiro-ministro não quis deixar de passar pela Moda Lisboa, como tem feito nos último anos, na qualidade de Presidente da Câmara de Lisboa.
Pequena provocação inocente...

Só que o Sr. Lopes não brinca em serviço e logo o gabinete do primeiro-ministro publicou um comunicado negando terminantemente que ele tenha dormido uma sesta naquele dia!
Isto é ou não um fartar de rir?!...

Deve ter sido inédito: um gabinete de um chefe de governo (mesmo da Mauritânia, Gana, ilhas Faroé ou até do Brunei) desmentir uma hipotética sesta do primeiro-ministro!
Por que razão?

Que mal é que fazia se o Sr. Lopes tivesse mesmo batido uma sorna entre a Assembleia e a Moda Lisboa?

Que importância teria este facto (ou a inexistência dele), de tal modo que o gabinete se sentiu na obrigação de publicar um desmentido?
Miguel Sousa Tavares adiante uma possível explicação, hoje, na sua crónica do Público: “se Santana Lopes deu tanta importância a que o país ficasse a saber que ele não tinha dormido uma sesta é apenas porque não ignora que o país que lê o Expresso conhece de há muito a sua fama de trabalhar pouco e preparar mal os assuntos.”

Desmentindo uma inocente soneca, o Sr. Lopes quis mostrar ao país que não é homem para se deitar a dormir num momento em que a nação enfrenta tantos problemas – a começar por ter como primeiro-ministro um verdadeiro tonto...

Quarta, 20
Portugal causa-me azia
Estive quatro dias em Veneza, comi pastas e pizzas carregadas de tomate e queijo e estive sempre óptimo do meu estômago.

Na segunda-feira, cheguei a casa, vi o Telejornal e comecei logo a sentir azia!
Talvez tenha sido da tosta mista que comi, à laia de almoço atrasado, por volta das 5 da tarde, mas inclino-me mais para a boçalidade dos meus conterrâneos que cada vez é mais difícil de suportar!

No passado domingo, o Benfica perdeu com o Porto por 1-0, mas parece que o árbitro – com o nome incrível de Olegário Benquerença (ninguém se chama assim!...) – se enganou muitas vezes: não validou um golo ao Benfica e não assinalou duas grandes penalidades contra o Porto. Coisas que acontecem! Mas, após o jogo, os dirigentes das duas equipas vieram à sala de imprensa insultar-se mutuamente, fazendo insinuações torpes sobre a vida privada de cada um. Escrevo os nomes para que fiquem registados: Luis Filipe Vieira e José Veiga, pelo Benfica e o inefável Pinto da Costa, pelo Porto. Um espectáculo de boçalidade, baixeza, mediocridade e absoluta estupidez, institucionalizada pela comunicação social, que provoca e se péla por situações destas.

O campeonato de futebol esteve parado durante uma semana para os jogos da selecção. A equipa de Portugal empatou vergonhosamente 2-2 com os bancários e empregados de escritório do Lichstenstein e cilindrou a Rússia por 7-1. mas durante toda essa semana, as televisões quase só falaram do Benfica-Porto que estava para vir, esmiuçando todos os pormenores sórdidos, dando espaço a que idiotas que se tornam presidentes de colectividades de interesse público (e, portanto, têm tratamento especial por parte do Estado, nomeadamente em matéria de impostos) falem, tenham tempo de antena e possam dizer, publicamente, as maiores barbaridades, dando constantes pontapés na gramática (“penso eu de que...” já deve fazer parte das novas gramáticas ensinadas nas escolas).

Os dirigentes desportivos têm mais espaços nos noticiários televisivos que os tufões no Japão ou a guerra no Iraque, num momento em que aquilo se estabilizou nos 30 mortos/dia em atentados e um decapitado ou outro...
Depois, li no jornal que vamos pagar cerca de 2 milhões de euros por ano para o funcionamento de uma espécie de central de informação criada pelo governo do Sr. Lopes e dirigida pelo boxeur Morais Sarmento, com aquela barba de rufia e aquele ar de quem está preparado para nos dar uma carga de porrada se não concordarmos com ele.

E para que vai servir esta central de informação? Em princípio, para centralizar a informação sobre os grandes actos do governo do Sr. Lopes, de modo a que não existam fugas de informação e para que todos tenhamos uma certa imagem deste excelente governo.

Cheira-me a SNI e Moreira Baptista – se calhar, já muita gente se esqueceu destas instituições do Estado Novo, mas eu ainda me lembro.
E, logo no dia seguinte, o Sarmento diz, num colóquio qualquer, que o governo deve zelar pela programação da televisão pública. E o ministro Gomes da Silva – o tal que precipitou a saída do Marcello Rebelo de Sousa da TVI – foi a uma audição da Alta Autoridade para a Comunicação Social dizer que havia uma espécie de conluio entre o Marcello, o Expresso e o Público para denegrir o governo do Sr. Lopes.

Por favor: tirem-me deste filme!
Não há Vingel que me livre desta azia portuguesa!...

Quarta, 13
Lobo Antunes e o Miguel Bombarda
A crónica de António Lobo Antunes, publicada na semana passada na Visão, mexeu comigo. Trouxe-me à memória os cerca de três anos que trabalhei no Hospital Miguel Bombarda e, pelos vistos, os sentimentos do escritor em relação a essa instituição são muito semelhantes aos meus.

Diz ele: “Sempre achei, desde o primeiro dia, era eu um internozito chegado de África, que em lugar de hospital me haviam colocado num chiqueiro de merda. Mas quem se rala? São doentes e são pobres. Lá andam eles a penar, entupidos de medicamentos até à goela , de expressões vazias. Calmos, claro, mas no sentido em que os legumes são calmos.”

E diz mais coisas; fala de “um clínico geral para centenas de doentes. Chegava ao meio-dia. Saía às onze.”, do “psicanalista que dava electrochoques”, “do grupanalaista (grupanalista: passei oito anos nessa léria e ainda estou para saber o que é) que, na Urgência aplicava doses de injectáveis que me aterravam”. E diz: “tenho vergonha de ter trabalhado no hospital. De ter sido médico ali. De me ter calado tantas vezes.”

Eu não cheguei a ter tempo de sentir vergonha. Estava ainda na fase do medo – do medo de trabalhar naquele hospital – quando decidi ser clínico geral e deixar a especialidade de Psiquiatria.

Nas Memórias de um Fumador, escrevi isto, sobre o Miguel Bombarda:

“Chegava ao hospital por volta das 9 horas da manhã e só lá estavam os doentes, naturalmente, e os enfermeiros. Os médicos começavam a aparecer muito mais tarde e tentavam sair o mais depressa possível. O Bombarda funcionava quase como um asilo; os doentes crónicos, internados há décadas predominavam. Por esses doentes, não havia grande coisa a fazer – estavam institucionalizados, diziam-me. Fazia lembrar, um pouco, o “Voando sobre um ninho de cucos”, embora sem a graça do Nicholson. Quando aparecia um doente agudo, a coisa era um pouco diferente. Falava-se com o doente, ou melhor, estava-se com o doente que, muitas vezes, não estava nada interessado em falar connosco, nos ignorava ou se colocava numa atitude negativista, não respondendo às perguntas, ou respondendo ao lado. Terminada a consulta, escrevia-se a medicação na papeleta e o enfermeiro encarregava-se de lhe ministrar os neurolépticos da ordem. E o doente ia amaciando e, eventualmente, acabava por descobrir que, se queria ter alta, tinha que colaborar, dizer qualquer coisa, mostrar melhoras.”

Olhando para esses anos, à distância de duas décadas, os cerca de 3 anos que passei no Miguel Bombarda deixaram de ter grande importância: foi apenas mais uma experiência desagradável por que passei. Mas sinto-me bem por ter tido a coragem de abdicar de uma especialidade, trocando-a pela clínica geral. Aparentemente, tomei essa decisão por razões familiares mas, se calhar, inconscientemente, fugi da depressão profunda em que acabaria por cair se continuasse a trabalhar naquele ambiente. Pela impotência que um tipo sentia perante aquele quadro dos doentes a arrastarem-se pelos corredores do hospital e os psiquiatras, indiferentes (resignados?), todos cheios de teoria psicanalítica e a afinfarem doses maciças de neurolépticos aos doentes e, de facto, chegando ao hospital ao meio-dia e saindo às onze.

Quinta, 7
A censura santanista
Nunca gostei muito do Marcello Rebelo de Sousa. No tempo da ala liberal da União Nacional, quando Marcello Caetano parecia permitir uma certa abertura, não eram os escritos do Rebelo de Sousa que me entusiasmavam, mas sim os de Miller Guerra. Depois, no Expresso, irritavam-me um pouco os textos da secção Gente, uma espécie de mexericos políticos de que Marcello seria inspirador (ou autor?). Vem daí a sua tentação para a criação de factos políticos – coisa que não é muito difícil para quem tenha alguma influência em certos meios político-jornalísticos portugueses. Mais tarde, também não achei graça nenhuma quando Marcello mergulhou nas águas do Tejo, para provar que não estavam poluídas, no decorrer da sua campanha para a presidência da Câmara da capital. Igualmente, a célebre frase “só se Cristo descer à Terra é que serei dirigente do PSD”, dá uma ideia da coerência do senhor em causa.

A certa altura, começou a ser conhecido por Professor; foi quando começou a fazer os seus exames na TSF: durante quase uma hora, dava opinião sobre tudo e sobre todos e aplicava notas a determinados políticos, como se fossem seus alunos; e ainda tinha tempo para fazer notas críticas a livros, filmes, artigos de jornal e tudo e tudo. Em seu redor, criou-se a lenda do homem que só precisa de dormir 4 horas por noite. Uma espécie de super-homem, com uma visão sempre acertada sobre tudo, desde a economia aos negócios estrangeiros, da literatura à música.

Dando razão à minha desconfiança em relação à sua pessoa, eis que Marcello aceita, a partir de certa altura, ser o comentador residente de uma estação como a TVI – a tal que mostra autarcas em cuecas. O simples facto de o Professor ter aceite um emprego na TVI apenas veio confirmar que o homem não é de confiança, na minha opinião. Por definição, tudo o que a TVI transmite é lixo (excepto os jogos do Benfica; neste particular, sou sectário e pronto!).

Portanto, há já bastante tempo que, todos os domingos, o Professor Marcello diz de sua justiça no telejornal da TVI, todos os domingos. Nesse mesmo dia, a TSF, no noticiário da meia-noite, já está a transmitir excertos da sua análise política e, na segunda-feira, não há jornal que não cite esta ou aquela frase do Sr. Professor. É assim e não há nada a fazer. Conheço muita gente que não perde a palestra do Prof. e que lhe atribui uma importância galáctica. Quanto a mim, aquele tipo de conversa é como se fosse transmitido em circuito fechado: serve apenas para dar umas alfinetadas a este ou aquele e tudo continua na mesma – os cães ladram e a caravana passa.

Mas eis que, ontem, o Sr. Gomes da Silva, que é ministro dos Assuntos Parlamentares do governo do Sr. Lopes, ficou muito zangado com a palestra do Professor Marcello e disse publicamente que isto não pode continuar, apelando à Autoridade para Comunicação Social para que faça alguma coisa. Não o disse explicitamente, mas subentendeu-se claramente que o que o Sr. Silva queria era silenciar o Prof. – que não há direito que ele fale à vontade, criticando o governo a seu belo prazer! A raivinha do Sr. Silva terá sido motivada por uma notícia de 1ª página do Expresso, segundo a qual haveria um acordo secreto entre o PSD e o CDS-PP; esse acordo estabeleceria que, mesmo que o PSD concorresse sozinho às eleições e vencesse, convidaria, depois, o CDS-PP a fazer parte do governo. Pelos vistos, o Marcellito comentou esta notícia e o Sr. Silva não gostou, dizendo que isto era uma verdadeira conspiração orquestrada: o semanário inventava uma notícia, o comentador da TVI comentava, as rádios e os jornais do dia seguinte noticiavam esses comentários e, assim, uma mentira passava a ter cunho de verdade.

Solução: calar o Prof. Marcello. Por outras palavras: censura pura e simples!

É assim, pelos vistos, que os santanistas pretendem vencer os seus críticos: calando-os!

E não é que o Prof. Marcello, depois de uma reunião com o sinistro patrão da TVI, Pais do Amaral, decidiu deixar de fazer o seu comentário dominical?

Claro que, hoje, os jornais estão cheios de teoria da conspiração: a Mediacapital, dona da TVI, terá negócios com tipos importantes do PSD e estes tipos já teriam demonstrado o seu desagrado por alguns comentários do Prof. Outro autarca pateta, que ainda não foi visto em cuecas, por enquanto – estou a falar do Filipe Menezes, de Gaia, veio a público dizer que isto não passava de uma manobra para o Prof. Marcello se candidatar à presidência da República!
Por seu lado, Pacheco Pereira, que também é PSD, diz que o ministro Silva devia ser demitido. De um modo ou de outro, o que é certo é que o Prof. vai deixar de fazer os seus comentários televisivos e, quer se queira, quer não, acabamos por relacionar esta decisão com as críticas públicas feitas pelo ministro.

Penso que a maior parte do pessoal ainda não percebeu quem são estes arrivistas que chegaram ao poder sem sequer terem sido eleitos.

São perigosos, estes gajos!

Perigosos porque, conscientes da sua mediocridade, não têm armas para esgrimirem as suas opiniões, preferindo calar quem tem opiniões diferentes...

E ainda vamos ter que os aturar até 2006!...

Quarta, 6
Carvalhas e o operário pimba
Carlos Carvalhas anunciou que vai deixar de ser secretário geral do PCP. Embora já se falasse disso, não deixou de ser uma notícia mais ou menos inesperada. No que respeita a dirigentes comunistas e papas, estamos habituados a vê-los resignar apenas no leito de morte ou quando já não podem mesmo com uma gata pelo rabo.

Claro que estou a ser exagerado: Cunhal deixou a liderança do PCP em muito melhor estado de saúde do que o Papa João Paulo II, que continua a arrastar o seu Parkinson; dizem os católicos mais empedernidos que ele está a dar o exemplo e são capazes de ter razão porque a religião católica é dor, sacrifício, sofrimento e paixão, como sinónimo de dor, sacrifício e sofrimento.

Pressionado pelo Comité Central ou simplesmente farto de ser o dirigente de um partido condenado ao imobilismo, Carvalhas decidiu que chegou a hora de se ir embora. Resta saber quem será o seu sucessor. Fala-se de Jerónimo Sousa, um ex-operário metalúrgico com ar patibular e que é considerado como representante da linha mais ortodoxa do partido. Um dos dissidentes disse hoje, no Telejornal, que era uma espécie de operário pimba, uma ofensa para todos os trabalhadores. Vi-o ontem, em imagens de arquivo da RTP, dançando ao som de música pimba, numa qualquer festa do partido. Que cena tão triste!...

Por definição, o Partido Comunista Português não muda – há-de manter-se assim por muitos e muitos anos e, sinceramente, nós até nos sentiríamos esquisitos se, de repente, o PCP decidisse modificar-se, modernizar-se, actualizar-se. Sabe bem ter alguns valores imutáveis. No entanto, este PCP está condenado, durando apenas o tempo que durarem os tipos do comité central – mais 20 anos?

Mesmo assim, é muito tempo, caramba!...

Um autarca em cuecas
Vi ontem o presidente da Câmara de Marco de Canaveses em cuecas!

Não, não o surpreendi no balneário de algum health-club – vi-o na TVI, no excelente programa A Quinta das Celebridades que, por curiosidade mórbida, fui espreitar, à hora do almoço.

Para que fique registado e para que, daqui a alguns anos, quando reler estas páginas, eu próprio não pense que inventei tudo isto, penso que vale a pena dizer que A Quinta das Celebridades é o novo reality show da TVI que consiste em manter, fechadas numa quinta, uma dúzia de pessoas consideradas célebres pela direcção daquela estação televisiva – o que só demonstra o elevado QI do Sr. José Eduardo Moniz. Portanto, uma série de idiotas estão fechados numa quinta, construída de raiz, sem água corrente nem luz eléctrica e, durante não sei quanto tempo, terão que ordenhar vacas, tratar de porcos, amanhar uma horta e aturar-se uns aos outros. Não conheço os nomes de todos esses idiotas; sei que está lá uma tal Cinha Jardim, que já foi companheira do Santana Lopes, a Ana Maria Lucas, que foi miss Portugal, um actor pornográfico, um pateta chamado José Castelo Branco e o actual presidente da Câmara de Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres, eleito pelo CDS-PP.

O Sr. Avelino destacou-se, recentemente, por ter sido filmado a dar pontapés a diversos objectos e a querer bater no árbitro, durante um jogo do Marco, clube de futebol lá da terra dele, que até joga num campo que tem o nome do Sr. Presidente.

Pois ontem, durante o almoço, mudei o canal deliberadamente para ver o que se passava na TVI e apanhei o Sr. Avelino em cuecas, conversando animadamente com o andrógino Castelo Branco que, de fio dental, se pavoneava por ali.

Mas o que é isto, afinal?! O que terá a dizer a tudo isto o conservador Paulo Portas, quando vê um membro do seu partido metido numa mixórdia destas?!

Embora já tivesse lido, nos jornais, que o Avelino poderia ser uma das “celebridades” a participar neste programa rasca, não liguei muito assunto. Mas ontem, quando o vi, em cuecas, fiquei estupefacto.

Que me dizes a isto, Portas? Vais ficar indiferente? Ou será que vais enviar a marinha de guerra avançar para resgatar o teu autarca daquela espelunca? Não será um vergonha para o teu partido ter um dos seus membro mais destacados a exibir-se, em trajes menores, num programa televisivo de mau gosto?

Se fosse a ti, Paulinho, das duas uma: ou o tirava de lá imediatamente e lhe dava umas nalgadas naquele rabo maroto ou – quem sabe? – juntava-me a ele e ficava na quinta. Deve ser tão divertido ordenhar vacas na companhia do Avelino, do Castelo Branco e daquele brasileiro tão musculoso e cheio de tatuagens!...

Diz qualquer coisa, Portas – caso contrário, toda a gente pensará que o CDS-PP não se importa com a situação e, como diz o povo, quem cala, consente...

Sábado, 4
A primeira obra do Sr. Lopes
Aí está a primeira obra do Sr. Lopes como primeiro-ministro: incapaz de concluir o túnel do Marquês, o Sr. Lopes decretou a ponte do 4 de Outubro. Parabéns Sr. Lopes!

 

 

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Este é o Coiso do Artur Couto e Santos.
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