Setembro 2005:
Coisas que acontecem
| Síndroma Depressiva Autárquico | Saudades do futuro | Se eu soubesse, tinha-me cadidatado! | Ena cum Katrina! | Da fartura à tontura | Não gosto de palhaços! |
Domingo, 25 de Setembro
Síndroma Depressivo Autárquico
Não há comentador político que não bata nos candidatos autárquicos que são, simultaneamente, arguidos em processos.
É fácil bater no ceguinho...
É fácil, mas não é bonito, não é cristão atacar pessoas doentes.
De facto, os casos em discussão são verdadeiros casos clínicos.
Passo a demonstrar.
Caso 1 - Nome do paciente: Avelino Ferreira Torres. Breve resumo da história clínica: presidente da Câmara do Marco durante longos anos, fez quase tudo o que havia para fazer no seu concelho tendo, até, um estádio de futebol com o seu nome. É acusado de tantas coisas que nem eu sei (nem interessa para o estudo clínico da situação). Parece que a sua principal obsessão consiste em relações com empreiteiros. Compra e vende propriedades de modo compulsivo. É arguido em muitos processos, terá metido ao bolso dinheiro que não lhe pertencia, talvez tenha usado fundos da Câmara para negócios pessoais. Teoricamente, tem a vida lixada mas, mesmo assim, decide candidatar-se à presidência da Câmara de... Amarante, abandonando o seu querido Marco, negando, portanto, o seu objecto de amor-ódio. O que o leva a fazer uma coisa destas? A fuga à depressão, obviamente. No fundo, é uma pessoa triste e amargurada, que não consegue viver sem a cadeira da presidência da Câmara, seja ela qual for. O prognóstico é reservado. Se ninguém o prender, é muito capaz de se ir candidatando a diferente Câmaras, mandato após mandato, até à morte.
Caso 2 - Nome do paciente: Valentim Loureiro. Breve resumo da história clínica: o resumo tem mesmo que ser breve, caso contrário o papel não chegava. Neste momento, para além de candidato à presidência da Câmara de Gondomar, é presidente da Liga de futebol e do Metro do Porto. Já foi presidente do Boavista e amigo do Nino Vieira, actual presidente da Guiné-Bissau. Acho que foi cônsul ou coisa que o valha. E major, claro, o que quer dizer que foi militar, eventualmente, na infância, porque nunca me lembro de o ter visto fardado e eu já tenho 52 anos. É arguido no caso do Apito Dourado, o que se pressupõe que terá corrompido árbitros para influenciarem resultados de jogos de futebol. Apesar do Metro do Porto, que é um obra emblemática e que vai transformar a imagem da cidade dita Invicta, é também dirigente da Liga que organiza os campeonatos de futebol. Já tem ralações que lhe cheguem. Por que razão, nesse caso, se candidata à Câmara de uma cidade que ninguém sabe muito bem onde fica (assim como, por exemplo, a Amadora - alguém sabe onde fica a Amadora?). É, claramente, mais um síndroma obsessivo. Cão que não larga o osso. Como quem não consegue tocar nos puxadores das portas sem ir logo lavar as mãos.
Caso 3 - Nome do paciente: Isaltino Morais. Breve resumo da história clínica: indivíduo pícnico, ventre em forma de pêra, bem como a barba. É acusado de desviar dinheiros públicos para a Suíça, ou algo semelhante. Aparentemente, a tal conta na Suíça está no nome de um sobrinho, que é taxista. Solidariedade familiar. Já foi ministro. Dizem que tem um terreno em Cabo Verde. Foi, em tempos, presidente da Câmara de Oeiras. Subiu a ministro. Demitiu-se por causa do referido escândalo e quer regressar, de novo, à Câmara de Oeiras. Porquê? Ninguém percebe. Que atractivos pode ter a presidência da Câmara de Oeiras para quem já foi ministro? Só pode haver uma resposta: Isaltino está triste, deprimido. Isaltino está doente.
Caso 4 - Nome do paciente: Fátima Felgueiras. Breve resumo da história clínica: foi presidente da Câmara de Felgueiras (outra cidade que ninguém sabe onde fica, como Odivelas, por exemplo) e, em pleno mandato, foi acusada de ter um saco azul, onde guardava dinheiro sujo, isto é, notas e moedas que não tinham sido devidamente branqueadas. Tudo a favor do Partido. Ou talvez, também, a seu favor. Ainda não se sabe. O presidente do Felgueiras (clube de futebol), até já morreu. Horas antes de ser presa preventivamente, fugiu para o Brasil, valendo-se da sua dupla nacionalidade. Esteve por lá cerca de dois anos: emagreceu, comprou fatos de cores suaves (azul-celeste, verde-marinho, laranja- pálido), emagreceu, aloirou o cabelo e até endireitou os dentes com um aparelho colorido. Estava lá muito bem, com o Lula no Poder e a praia ali ao pé. Regressou para concorrer a presidente da Câmara de Felgueiras novamente. Por que carga de água? A resposta é clara: Fátima está deprimida, triste, tem insónias, a vida, para ela, não tem sentido, sem a cadeira da presidência da Câmara.
Estes quatro casos prefiguram um novo síndroma, que já estava latente entre nós, mas que só agora vê a luz do dia.
Todos estes paciente sofrem do Síndroma Depressivo Autárquico, uma doença que se caracteriza pela obsessão de ocupar a cadeira da presidência da Câmara, mesmo que isso signifique a prisão, a expulsão do partido a que pertencem, a crítica de todos os comentadores e dirigentes políticos e a chacota do anedotário nacional.
São pessoas doentes.
Por favor, tenham pena delas e respeitem-nas, como devem respeitar os restantes doentes crónicos.
Domingo, 11 de Setembro
Saudades do futuro
Fomos hoje ao cemitério dos Olivais. Foi a cremação do nosso primeiro neto. Um bebé que não teve direito a viver. Um bebé que morreu quando se preparava para abandonar o útero da mãe.
O absurdo de tudo isto!...
A dor insuportável!
A tristeza profunda!
A falta de palavras! Domingo, 4 de Setembro
Se eu soubesse, tinha-me candidatado!
E pronto: estamos limitados ao Soares, ao Louçã e ao Jerónimo (o Cavaco não interessa)!
O Soares é mais do mesmo, o Louçã é um evangélico ultrapassado, o Jerónimo nem vai chegar ao fim (e o Cavaco não interessa).
Em quem vamos votar, afinal?
Quem queremos que seja o próximo Presidente de Portugal?
Se eu soubesse que as coisas ficavam assim, tinha-me candidato! Tenho meia dúzia de ideias boas para Portugal como, aliás, todos os portugueses. Não há nenhum português que se preze que não tenha uma opinião sobre o combate aos incêndios, o desemprego, o choque petrolífero, o déficit orçamental, a colocação dos professores, o falhanço do Serviço Nacional de Saúde, a ineficácia do ataque do Benfica, as relações com Espanha, a invasão dos têxteis chineses, a corrupção no seio dos partidos.
O que me espanta, portanto, é que não existam mais candidatos à Presidência da República.
Mesmo dentro dos partidos, há tantos talentos com a resposta pronta para todos os assuntos importantes para a Nação, que me custa acreditar que não exista mais ninguém, para além do Soares, do Louçã e do Jerónimo (o Cavaco não interessa).
Mas, enfim, nada obriga a que um candidato a Presidente pertença a um partido. No meu dia a dia, oiço tantos portugueses a cagar sentenças sobre tudo e mais alguma coisa, todos contra os partidos, que tudo dominam, que fico espantado por não surgirem mais candidatos para além daqueles três (o quarto não interessa).
Foi por que, todos os dias, li nos jornais e vi nas televisões, tantos peritos a apresentarem soluções para a crise nacional, que nem me passou pela cabeça candidatar-me.
Pensei assim: com tantos licenciados a darem palpites, hão-de aparecer três ou quatro candidatos capazes de dar a volta a este país; portanto, não valia a pena dar-me ao trabalho de coleccionar as sete mil e quinhentas assinaturas necessárias para apresentar a minha candidatura.
E afinal, estamos nesta: um velhote de 80 anos, um pregador sem igreja definida e um operário sem calos (o outro não interessa).
No entanto, e pensando bem: quem iria votar em mim. Melhor: quem iria votar noutro candidato qualquer.
Sejamos honesto: quem votaria em Manuel Alegre, Pacheco Pereira, Marcelo Rebelo de Sousa, Simão Saborosa, Miguel Sousa Tavares, Marques Mendes, Vicente Jorge Silva, Vasco Pulido Valente, Santana Lopes, Luís Filipe Vieira, Pinto da Costa, Nuno Rogeiro, Belmiro de Azevedo, Jacinto Paixão, ou mesmo Nicolau Breyner - para apenas citar alguns nomes?
Ao fim e ao cabo, até é relaxante saber que, no limite, apenas temos que escolher entre um velhote de 80 anos e um pregador evangélico (Jerónimo vai desistir e o outro não interessa).
Portanto: não se esqueçam - na hora de votar, façam o favor de se lembrarem que o Presidente da república portuguesa não resolve porra nenhuma, não tem poder algum e apenas serve para representar o país no estrangeiro e chatear os jornalistas e votem em quem vos der na gana, menos no único tipo que gostaria, de facto, de mandar no país, e que se chama Aníbal (o tal que não interessa...)
Ena cum Katrina!
Quem diria que a nação mais poderosa do mundo mais parece um estado africano, depois de uma longa guerra civil.
Bastou um furacão para pôr a nu a ineficácia do Bush, capaz de colocar 100 mil soldados do outro lado do mundo em meia dúzia de dias e incapaz de ajudar os seus compatriotas, ali, ao pé da porta.
New Orleans desapareceu do mapa em dois dias, os mortos são aos milhares, a solidariedade entre os habitantes mede-se pelas armas que cada um consegue arranjar para matar o parceiro ou assaltar o supermercado e as televisões estão cheias de negros a pedirem ajuda.
Que diferença entre New York e a destruição das Twin Towers e New Orleans e Katrina.
Os próprios jornalistas, que tanto gostam de tragédias, demoraram alguns dias até perceberem que, afinal, New Orleans merecia uma reportagem mais detalhada do que simples folclore de mostrar a força dos ventos.
Foi notória a diferença entre a cobertura do tsunami dos sudeste asiático e a devastação de New Orelans - como se os jornalistas ocidentais tivessem alguma vergonha em mostrar que, afinal, não existe assim grande diferença entre um país do 3º mundo e outro que gosta de se mostrar como o farol do desenvolvimento, da organização, da prevenção.
Espero que, agora, George Bush continue bem agarrado à Teoria Criacionista e persista em não assinar o protocolo de Quioto ou qualquer outro do género.
Pois não foi o Deus dele que também criou os furacões?...
Sexta, 2 de Setembro
Da fartura à tontura
A Dona Gisela veio à consulta com um joelho todo deitado abaixo.
Que aconteceu? Tropeçou? Escorregou?
Não, senhor doutor - respondeu ela - deu-me uma tontura.
Claro que não foi assim tão simples.
Nada é simples com os meus doentes...
A Dona Gisela contou-me tudo: na noite anterior, a nora e o filho passaram lá por casa. Vamos até à feira de Corroios, dar uma voltinha. Vocês estão sempre metidos em casa, nunca saem para se distraírem...
A Dona Gisela protestou. Já passou dos 70 anos e o marido acabou de fazer 80 anos. Querem lá sair de casa! O que os velhotes querem é ficar sossegadinhos, dentro das pantufas, a ver televisão.
Mas acabaram por aceitar o convite.
E afinal, até passaram um serão agradável.
Pena que tivesse acabado mal...
E a culpa foi do apetite da Dona Gisela que, a passar junto à roulote das farturas, não resistiu. Comprou meia dúzia e devorou-as em menos de um fósforo.
Já de regresso a casa, a Dona Gisela sentiu uma revolução na barriga.
As farturas faziam das suas.
Aflita, percebeu que não chegaria a casa incólume.
Correu para um baldio, à beira da estrada, e aliviou-se ali mesmo, atrás de um valado.
O pior foi depois.
Quando tentava subir o valado para voltar à estrada, sentiu uma tontura descomunal e caiu para trás, mesmo em cima do que restava das farturas e o joelho aterrou numa pedra pontiaguda.
Mas por que raio não ficou ela, dentro das pantufas, a ver televisão?
Quinta, 1 de Setembro
Não gosto de palhaços!
Não sei explicar porquê, mas não gosto de palhaços (também não gosto de mimos). Mesmo quando era miúdo, não achava muita graça aos palhaços - e ia vê-los, com frequência, ao Coliseu dos Recreios. Pelo menos, uma vez por ano, na festa de natal da Companhia Colonial de Navegação, onde o meu pai trabalhava. Aliás, do circo, apenas tenho uma boa recordação: as pernas das equilibristas, envoltas em meias de rede e que, aí por volta dos meus 10 anos, me provocavam uma excitação desmesurada...
Quanto aos palhaços, aquela cena do palhaço rico e do palhaço pobre, o serrote a fingir de violino, as chapadas falhadas, as flores que esguichavam água e todo o restante manancial de palhaçadas, nunca me atraíram por aí além.
Mais tarde, quando descobri outro tipo de palhaços, a coisa ainda ficou pior.
Neste momento, os palhaços de circo são-me indiferentes. Quanto aos restantes palhaços, odeio-os.
Vem esta confissão a propósito de um folheto publicitário que hoje me veio parar às mãos...
Uma escola chamada "Palhacinho Vaidoso"!
Como é possível?
Já imaginaram o seguinte diálogo: um homem pergunta a outro - "então o teu filho já anda na escola?" "Sim", responde o outro, já está na primeira classe!" "E em que escola anda o puto?", pergunta o primeiro. E o segundo responde, corando de vergonha: "Anda no Palhacinho Vaidoso..."
Um escola chamada "Palhaço" (nome de um restaurante onde almoçamos, por vezes, no fim de semana), já era mau. Uma escola chamada "Palhacinho" seria ainda pior... Mas pior do que "Palhacinho Vaidoso" só se fosse "Externato Auschwitz", por exemplo!
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