Abril 2003:
| António Maria Lisboa e a guerra
no Iraque | A queda de Saddam
| O iraque mostrado pela televisão
| 29 anos depois |
Domigo, 6
António
Maria Lisboa e a guerra no Iraque
Ouvi falar do António Maria Lisboa (AML) através
do Mário-Henrique Leiria. AML morreu em 1953, com
35 anos e foi um dos fundadores do Movimento Surrealista
Português. Em 1949, numa exposição,
AML publicou um trabalho manuscrito em que dizia:
“POR TEREM INDAGADO SE ERA OU NÃO ERA ESTA
MINHA LETRA, VENHO COMUNICAR:
Esta não é a minha letra
Esta é a minha letra
Esta nunca foi a minha letra
Esta foi sempre
a minha letra
Esta
nunca será a minha letra
Esta
será sempre a minha letra
N.B. – Tudo é e não é alternadamente”
A frase final ficou com uma das frases que eu e a Mila
usamos muito frequentemente, a propósito de algumas
coisas da vida: “tudo é e não é
alternadamente”.
Mas o que raio é que o António Maria Lisboa
e este seu texto têm a ver com a guerra do Iraque?
Tudo, como vou tentar explicar.
Saddam Hussein está vivo ou morto? O Iraque tem ou
não tem armas de destruição maciça?
O Iraque seria mesmo uma ameaça para os americanos?
Haveria alguma ligação entre o regime de Saddam
e a Al-Qaeda? George Bush desencadeou a guerra apenas para
sacar petróleo? A França e a Alemanha, que
se ergueram contra a guerra, fizeram-no apenas por altruísmo,
ou porque pretendiam retirar protagonismo aos EUA? A guerra
foi desencadeada porque já estava a ser preparada
há muito tempo pela extrema-direita norte-americana
e o 11 de Setembro não teve nada a ver com isto?
Esta é uma guerra do dólar contra o euro?
Quem é contra a guerra é a favor de Saddam?
Os americanos desencadearam a guerra porque querem dominar
completamente o Médio Oriente? Como não conseguiu
apanhar o bin Laden, Bush voltou-se para o Saddam?
A resposta a todas estas perguntas e a todas as outras que
queiram fazer sobre a 2ª guerra do Golfo é só
uma: sim e não, alternadamente.
Claro que, por princípio, sou contra esta guerra
– aliás, por princípio, sou contra qualquer
guerra. Mas, não sei se estão recordados existe,
neste momento, uma guerra civil na Costa do Marfim, no Nepal
e no Sri Lanka, para só citar três casos.
Claro que o facto, por si só, de Saddam Hussein ser
obviamente um ditador, não é justificativo
para se declarar uma guerra. Há outras ditaduras
por aí: Coreia do Norte, China, diversos países
africanos, Cuba.
E que raio de mania é essa de querer impingir aos
outros o nosso sistema político – quem disse
que os iraquianos querem a democracia?
Mas o busílis da questão não é
nada disto: o busílis é a comunicação
social.
Já imaginaram 500 jornalistas, com telefones satélite,
fax, computadores portáteis e toda a parafrenália
das chamadas novas tecnologias, a cobrirem a guerra civil
da Costa do Marfim? Uma seca! Aquilo nem tem hotéis
de jeito para tanta gente!
No Iraque, pelo contrário, todos participam no grande
show da comunicação social – quer os
americanos e restantes jornalistas ocidentais, quer os iraquianos,
que usam a televisão para lançarem campanhas
de contra-informação. Os americanos já
tomaram o aeroporto, já entraram em Bagdad, foram
expulsos do aeroporto, estão a 40km da capital? O
raio que os parta!
Neste momento, ver a guerra pela televisão é
como ver uma emissão do Big Brother. Quem gosta,
vê tudo, à espera de apanhar uma imagem mais
“real” – quem não gosta, muda de
canal.
E depois, sinceramente, não creio que a mais que
certa vitória dos EUA vá mudar alguma coisa
no panorama internacional – eles já mandam
no mundo, quer política, quer economicamente, já
se estão lixando para a ONU e restantes organizações
internacionais.
Ou não.
Ou, como diria o António Maria Lisboa, sim e não,
alternadamente, se é que me faço entender...
Domingo, 13
A
queda de Saddam
As mesmas pessoas que, há alguns meses, votaram a
permanência de Saddam Hussein na Presidência
do Iraque (100% de votos “sim”), as mesmas pessoas
que, há um mês, aclamava o ditador, ajudaram
esta semana os soldados americanos a derrubar a grande estátua
de Saddam.
História habitual...
Uma semana antes do nosso 25 de Abril, uma multidão
aclamou Marcello Caetano – a mesma que, depois, encheu
o Largo do Caldas, pedindo o seu linchamento.
Afinal, em 20 dias, a coligação anglo-americana
acabou com a ditadura no Iraque. Onde esteve o grande apoio
popular ao ditador? Onde estavam, afinal, as armas de destruição
maciça? E que dizer das pilhagens a que temos assistido?
O museu de Bagdad com as vitrinas todas quebradas e objectos
de valor incalculável, da Suméria, da Babilónia,
da Assíria, tudo roubado e vandalizado. A casa de
um dos filhos de Saddam com centenas de metralhadoras, algumas
com placas de ouro. Os barracões de Udai Hussein,
com cerca de um milhar de carros topo de gama, destruídos.
Os palácios de Saddam – as casas de banho com
torneiras douradas. Tudo isto é mostrado, até
à exaustão, pelos diversos canais de televisão
e nós assistimos, primeiro com estupefacção,
depois, com normalidade – a repetição
leva a isso mesmo e a guerra no Iraque e os seus excessos
acabam por ser apenas mais um segmento do Telejornal.
Mas agora, só uma perguntinha: onde está o
Saddam? Arrisco a dizer que poderá estar, calmamente,
sentado ao lado de Osama bin Laden, em casa do sobrinho
de Isaltino Morais...
Quinta, 17
O
Iraque mostrado pela televisão
Pilhagens. Um árabe a carregar um sofá enorme.
A criança sem braços deitada na cama do hospital.
A directora do Museu de Bagdad a chorar ao ver as vitrinas
vazias. Milhares de notas de dinar esvoaçando. Um
soldado norte-americano apanha notas do chão e já
tem um grande maço na mão. Todos os iraquianos
têm bigode. O general americano que comanda toda a
invasão parece sexagenário – por que
não está, calmamente, a gozar a reforma? A
guerra em directo de um quarto do Hotel Palestina. A enorme
estátua de Saddam a ser deitada abaixo; fica caída
para a frente, em ângulo recto; parece um pénis
erecto, que depois soçobra para o chão. Iraquianos
berram para as câmaras: uma semana depois da queda
do regime já não têm medo de protestar
e exigem, contestam, dão opiniões, armam-se
em democratas. Onde estão as mulheres? Hospitais
miseráveis, saqueados. O que se rouba num hospital
miserável? Prédios a arder. Palácios
sumptuosos com torneiras de ouro na casa de banho. Um barracão
com cem Rolls Royce calcinados. Caixas cheias de metralhadoras
com as coronhas em ouro. Um iraquiano aponta uma pistola
à cabeça de outro e olha para a câmara
do repórter, ameaçando disparar. Ódio
naqueles olhos, mas também algum divertimento –
por vezes, parece que a cidade se transformou num recreio
cheio de jovens delinquentes. Os soldados da coligação
estão ali, como se nada se passasse. Crianças
à beira da estrada pedindo água, um dólar,
qualquer coisa; a sensação que elas estariam
ali, exactamente a fazer aquilo, mesmo que não tivesse
havido guerra. O ministro da Informação do
Iraque a dizer que os americanos estavam a ser chacinados
às portas de Bagdad, horas antes de fugir para nunca
mais ser visto, perante o avanço das tropas da coligação.
Uma empresa americana já fez bonecos que o representam,
tipo “Action Man”. Dois iraquianos atiram com
um grande aparelho de ar condicionado do telhado de um edifício
para o chão, apenas porque sim. A cúpula da
mesquita que fica em frente ao Hotel Palestina vista de
vários ângulos, conforme o canal de televisão,
conforme o quarto do hotel onde está hospedado o
respectivo repórter. Parece que a cidade é
apenas aquela cúpula e o horizonte negro borrado
pelos clarões vermelhos das bombas. São mais
três horas, em Bagdad – ficámos a saber
a diferença horária para o Iraque, mesmo que
não quiséssemos. Ninguém sabe onde
está Saddam? Ele está em toda a parte: nas
estátuas derrubadas, nas fotos queimadas, nos grandes
quadros em que aparece com os cornos do diabo e os dentes
do vampiro. Bush muito satisfeito – com quê?
Rumsfeld ameaçando a vítima seguinte. Powell
armado em diplomata. Um pingo de sangue na objectiva da
câmara do repórter atingido. A câmara
filmando o chão. Ouvem-se gemidos. Um monte de caixas
de medicamentos, devolvidos ao Hospital, depois de roubados.
Os ladrões apenas queriam o frigorífico onde
eles estavam – sabem lá para que serve o Capoten!
Este programa é engraçado, mas monótono...
vê lá o que está dar noutro canal...
Sexta, 25 de Abril de 2003
Vinte e nove anos
depois
Em 1974, na manhã do dia 25 de Abril, foi a Mila
que me acordou, agitadíssima: “O regime caiu!”
Não acreditei imediatamente – naquele tempo,
éramos levados a acreditar que o regime nunca iria
mudar, que o mundo continuaria a evoluir à nossa
volta e nós nos manteríamos, sossegadinhos,
isolados, orgulhosamente sós, neste cu da Europa.
Mas bastou ligar a rádio e ouvir a voz do Joaquim
Furtado a ler o comunicado do Movimento da Forças
Armadas para perceber que, afinal, o Marcello Caetano, o
Américo Tomaz e toda a restante camarilha estavam
mesmo a passar um mau bocado. Foi aí que peguei no
Pedro ao colo e, perante a estupefacção do
puto, então com 10 meses, anunciei-lhe: “O
Caetano caiu!”
O 25 de Abril continua a ser, para mim, uma data memorável,
recordada com emoção. E todos aqueles que
dizem que “isto ainda está pior!”, “antigamente
eram só meia dúzia a roubar, agora todos roubam!”,
“dantes é que era bom!”, “o que
isto precisava era de um Salazar!”, “só
ganhámos a liberdade, o resto está tudo muito
pior!” – e baboseiras semelhantes, estão
redondamente enganados, mal informados, esquecidos ou são,
de facto, fascistas.
Eu tinha apenas 21 anos quando aconteceu o 25 de Abril,
mas lembro-me perfeitamente de como era viver no Portugal
de antigamente – tudo era pior! Não há
comparação possível! Portugal era um
país triste, com uma taxa de analfabetismo assustadora,
a mortalidade infantil era catastrófica, o ensino
era uma merda, não existia nenhum sistema de saúde
organizado (as Caixas? Deixem-me rir!), pouca gente tinha
direito a reforma, as mulheres quase não tinham direitos
– se agora ainda estamos na cauda da Europa, antes
do 25 não estávamos sequer na Europa. O meu
pai nunca se meteu em política (“a minha política
é o trabalho!”) e recordo-me bem do ódio
que ele tinha ao regime e do medo, lembro-me bem do medo;
sempre que o meu pai via o Tomaz na televisão a cortar
mais uma fita e mandava uma boca, a minha mãe aconselhava-o
a falar baixo, como se as paredes tivessem ouvidos. O meu
pai trabalhou uma vida inteira, durante anos seguidos não
teve férias e nunca conseguiu sair da cepa torta;
em termos de habitação, o melhor que conseguiu
foi alugar uma casa minúscula, onde se acotovelavam
seis pessoas e, quando morreu, deixou no Banco 100 contos
ou coisa que o valha (se tanto!...). O que fez “o
nosso querido Salazar” por Portugal? Salvou-nos da
2ª Grande Guerra e encomendou-nos a Fátima,
mandou construir a ponte sobre o Tejo e uma auto-estrada
Lisboa-Porto, que terminava ali para os lados do Carregado,
encheu os cofres de ouro, roubado aos judeus e atirou-nos
para uma guerra só por teimosia; enquanto a França,
a Bélgica e a Inglaterra, davam a independência
às suas colónias, mantendo com elas laços
bem fortes, Portugal teimava em manter as suas terras africanas,
à custa do sacrifício de gerações.
E depois, há a liberdade, a democracia, a possibilidade
de todos e cada um de nós participar nas decisões
ou, pelo menos, de protestar, barafustar, tentar mudar as
coisas. Claro que esta democracia burguesa, com os partidos
em jogos de poder constantes faz com que, de vez em quando,
até apeteça que apareça por aí
um iluminado, que estabeleça uma ditadura faça
as coisas avançar neste ou naquele sentido. Mas é
pura ilusão, qualquer democracia, por mais merdósica
que seja, é preferível a toda e qualquer ditadura.
Após o 25 de Abril, as coisas andaram muito confusas
durante algum tempo, não há dúvida.
A malta não sabia muito bem o que queria, em termos
de regime político: uma democracia semelhante às
restantes democracias ocidentais, ou uma democracia “popular”,
de esquerda, encostada à União Soviética,
ou mesmo uma ditadura do proletariado. Em dois ou três
anos, fizemos a nossa aprendizagem política, em lições
aceleradas e a matéria foi dada muito depressa. Mas
estávamos atrasados: tínhamos vivido 40 anos
em ditadura! Na Grã-Bretanha, o Serviço Nacional
de Saúde foi criado em 1953; nos países nórdicos,
a educação sexual nas escolas estava institucionalizada
há que tempos; a taxa de mortalidade infantil, em
quase todos os países da Europa era muito inferior
à nossa; todas as áreas do conhecimento se
foram desenvolvendo por todo o lado, sobretudo depois da
2ª Guerra e nós a marcarmos passo. Depois, claro,
quisemos fazer tudo ao mesmo tempo e foram cometidos erros.
O nosso atraso ainda não foi recuperado e será
difícil que o seja nos próximos anos, mas
nada, nada se compara ao que era viver em Portugal, antes
do 25 de Abril.
Caraças! Este texto está demasiado sério
para o meu gosto, mas irrita-me solenemente ouvir tipos
a dizerem que antigamente é que era bom.
Fascismo nunca mais? Talvez seja mais correcto dizer: ditaduras,
nunca mais!
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