Abril
2004:
| 30 anos depois | A
santinha de Balasar | Coitado do
coronel Loureiro! | A resposta do
Provedor do Público | O engraxador
do Fórum | Doença prolongada
e doença súbita |
Domingo, 25
30 anos depois
Já passaram 30 anos, caramba! Já foi há
30 anos que me agarrei ao Pedro, então com 10 meses,
a anunciar-lhe, frenético, que o Marcello tinha sido
preso! Sei que evoco sempre esta memória, em cada
25 de Abril, mas é a minha memória mais fresca,
porque mistura duas coisas importantes: a alegria do fim
de um regime ditatorial e o cheiro a bebé do meu
primeiro filho. Naquela altura, quando peguei no Pedro ao
colo, ainda não sabia ao certo o que se estava a
passar – e soube-se depois, que ninguém sabia
ao certo o que se passava, nem mesmo os militares que promoveram
o golpe – mas o simples facto da ditadura cair, abria
um vasto campo de possibilidades e tudo ia ser melhor e
mais fácil, de certeza. E para nós, foi: não
me livrei da tropa, mas já não fui para a
guerra, arranjei emprego como jornalista dois meses depois
do golpe, alugámos uma casa, tornámo-nos independentes
dos paizinhos e muitas coisas mais, impensáveis 24
horas antes!
Por tudo isto, o 25 de Abril é uma data muito importante
para a história da minha vida e acho patético
ouvir pessoas da minha geração, e mais velhas
do que eu, continuarem a dizer que, agora, as coisas estão
muito piores. Bastava um número: em 1974, morriam
38 crianças por cada mil que nasciam; hoje em dia,
morrem “apenas” cinco.
Claro que a nossa democracia é uma merda, que muito
está por fazer, que os políticos são
corruptos, que o pessoal anda desmotivado, que a saúde
está uma desgraça, os serviços públicos
não funcionam, a educação está
pelas ruas da amargura, blá-blá...
Mas tudo isto é muito melhor do que viver no Portugal
bafiento, atrasado, amordaçado do tempo da ditadura!
Viva o 25 de Abril! Sempre! (sem sarcasmos, desta vez...)
E mais nada!
Sábado, 24
A
santinha de Balasar
Desconhecia a sua existência mas hoje, graças
ao Telejornal da hora do almoço, fiquei a conhecer
mais esta história trágico-cómica da
iconoclastia católica.
Então lá vai o resumo da história:
a santinha de Balasar (Alexandrina, de seu nome), ficou
paralítica, ainda jovem, quando se atirou da janela
para fugir a um homem que estava a assaltar-lhe a casa.
Remetida ao seu leito, lá ficou durante 14 anos;
nos últimos 3 anos de vida, não comeu nem
bebeu, alimentando-se apenas da hóstia matinal –
quer dizer, comungava todos os dias e aquele pedacinho de
pão abençoado manteve-a viva durante 3 anos,
sem necessitar de bifes, batatas fritas ou cervejola! Todas
as sextas-feiras e nos primeiros sábados de cada
mês, entrava em transe e comunicava com Cristo. São-lhe
atribuídos diversos milagres – o mais genuíno
dos quais consistiu em curar uma portuguesa emigrada em
França, que sofria de Parkinson.
Vai daí, passou a ser santinha e amanhã
vai ser beatificada pelo Papa, com a presença de
uma delegação do governo, chefiada pela ministra
dos Negócios Estrangeiros, Teresa Patrício
Gouveia.
Estes factos fazem-me colocar estas 21 questões.
1. a santinha estava sozinha em casa, quando o homem entrou
de assalto?
2. quem era esse homem?
3. o que queria o tipo, verdadeiramente: roubar a casa ou
violar a santinha?
4. a casa da santinha tinha assim tantos valores que merecesse
ser assaltada?
5. a santinha era assim tão apetitosa que merecesse
ser violada?
6. por que razão a santinha comungava todos os dias?
Cometia assim tantos pecados?
7. que tipo de anfetaminas é que tinham as hóstias
que a alimentaram durante 3 anos?
8. o facto de não comer nem beber durante 3 anos
é suficiente para se ser beatificado?
9. o que faz um membro do governo português num acto
de beatificação?
10. não é suposto existir separação
entre o Estado e a Igreja?
11. a religião católica já passou a
ser a religião oficial do governo de Portugal?
12. o Papa saberá onde fica Balasar?
13. por que razão o Papa não experimenta,
também, a dieta da santinha?
14. uma hóstia por dia, durante 3 anos, não
será, também, óptimo para o Parkinson?
15. a magreza de Teresa Patrício Gouveia é
esquisita – será que também só
come hóstias?
16. por que razão a santinha só comunicava
com Cristo em dias fixos?
17. por que carga de água a santinha foi ajudar aquela
emigrante?
18. não será uma injustiça do caraças
eu não saber da existência da santinha?
19. como conseguirei obter algum milagre se a Igreja não
publicita a existência destas santinhas, de modo a
que me possa pôr a jeito, ser mais casto, mais puro,
mais crente, para que possa merecer uma graça, mesmo
pequenina que seja?
20. mais uma beata portuguesa?
21. então os tipos da Igreja católica não
sabem que fumar mata?
Coitado do
coronel Loureiro!
Fiquei estupefacto com a detenção do coronel
Valentim Loureiro! Como é possível que um
senhor que é Presidente da Câmara de Gondomar
desde a fundação daquela simpática
cidade nortenha, em 1832, Presidente da Liga de Clubes,
Presidente do Metro do Porto e pai do Presidente do Boavista,
essa verdadeira escola de sarrafeiros que tanto prestigia
a cidade Invicta – e que ainda por cima é tenente-coronel,
como é possível prender um senhor destes?
Mas afinal, o que fez de mal o senhor general Loureiro?
Deu umas prendas em ouro a uns árbitros para eles
não se enganarem quando apitam um penalti? Telefonou
a uns quantos secretários de Estado para eles facilitarem
umas obras públicas a cargo de uns amigos? Fez-se
valer da sua influência para ajudar os amigos? Mostrou
todo o seu peso para conseguir alguns intentos menos claros?
Mas que mal tem isso? Quem é o português que
não faz isso?!
Peço desculpa, mas não acredito que o contra-almirante
Loureiro seja culpado seja do que for! Com tantos cargos
que desempenha, não estou a vê-lo ter tempo
para coisas fora da lei. O pobre do senhor deve andar sempre
a correr da Câmara de Gondomar para a administração
do Metro do Porto e dali para a Liga de Clubes! E imaginem
a chatice que deve ser presidir a uma Liga que engloba equipas
como o FC Porto, os Dragões Sandinenses, o Paços
de Ferreira, o Guimarães, o Rio Ave, o Penafiel e,
ainda por cima, as equipas do sul do país, que devem
ser uns chatos, sempre a quererem tratamento igual –
nem deviam era participar no campeonato nacional! O campeonato
nacional devia ser só com equipas do rio Lis para
cima; para baixo, era outra divisão – pois
Portugal não foi fundado no Norte? Não é
verdade que, a Sul, era tudo mouros? Por que raio é
que o Benfica, o Sporting, o Belenenses e os outros todos
não hão-de jogar no campeonato de Marrocos?!
Coitado do senhor cabo Loureiro! Deve estar tristíssimo!
Um senhor tão bem apessoado, sempre de fato e gravata,
com aquela barba branca tão aparada – e que
distinção a falar, que voz tão bem
colocada! E a fumar charuto... um verdadeiro lorde, melhor
que major – comandante Valentim Loureiro!
Oramos por si, senhor alferes!
Domingo, 18
A resposta
do Provedor do Público
Joaquim Furtado deu notícias na sua coluna dominical,
no Público. Pegou no e-mail que lhe enviei na semana
passada e transcreve-o, quase na íntegra. A jornalista
responsável pela notícia (“Ataque com
gás venenoso faz quarenta mortos em Sófia”),
assume o erro, mas não explica porque errou. É
que, de facto, o tal ataque causou 40 feridos – e
não 40 mortos.
Diz Joaquim Furtado: “com humor, fica introduzida
uma questão séria. E clássica, na relação
entre o jornal e o leitor: a importância dos títulos”.
E o Provedor dos leitores aproveita o meu reparo para
falar de outras críticas feitas por outros leitores,
relacionadas com discrepâncias entre os títulos
e os conteúdos das notícias, nomeadamente
uma notícia, já de Fevereiro passado, sobre
os exames médicos desportivos, realizados por clínicos
gerais. Também nessa altura eu reagi e enviei um
e-mail sobre a notícia, que foi ignorado –
talvez porque o enviei para o sítio errado (correio
dos leitores), em vez de o ter enviado para o Provedor.
Sábado, 17
O engraxador
do Fórum
O Sr. Ramalho é meu doente há quase 20 anos.
Serralheiro mecânico, reformou-se há 5 anos,
aos 65. È a figura típica do operário
da cintura industrial de Lisboa: apenas com a 4ª classe,
mas com um boa cultura geral da vida, politizado, cigarrinho
ao canto da boca (sempre!) e boné de xadrez –
a personificação do Zé Ferrugem, personagem
de uma tira de banda desenhada da Gazeta da Semana, nos
anos quentes do PREC.
Ficou certamente aliviado quando se reformou; trabalhava
desde os 12 anos, tinha muitos mais que os 40 anos de descontos
obrigatórios para a Segurança Social e, quando
atingiu o limite de idade, achou que era tempo de parar.
Não me recordo de ter pedido baixa alguma vez. As
crises de bronquite do fumador, resolvia-as com o antibiótico
que lhe prescrevia e continuava a trabalhar.
Mas aos 65 anos, parou. A sua vida passou a ter apenas
uma única distracção: passear a cadelinha,
de roupão e chinelos. Começou a ficar chateado
da vida de reformado. Até que o Fórum de Almada
foi inaugurado. O Sr. Ramalho, como todos os almadenses,
foram visitar aquilo, passear pelos corredores largos, ver
as montras, sentar-se nos sofás dos lobbys. Foi então
que teve uma ideia: assim que deixou a escola primária,
o Sr. Ramalho começou a ganhar a vida como engraxador,
antes de ingressar numa empresa como aprendiz de serralharia.
E era óbvio que o Fórum tinha uma falha: lojas
de roupa, de óculos, cabeleireiros, livrarias, restaurantes,
cafés, supermercado – mas nenhum sítio
onde um tipo pudesse engraxar os sapatos. Vai daí,
escreveu uma carta à administração
do Fórum: por que não um engraxador no Fórum?
Por que não a integração de uma profissão
tradicional no meio de tanta modernidade? Escreveu a carta
e aguardou, sem grandes esperanças. Mas eis que a
administração do Centro Comercial o convoca
para uma reunião. Estavam interessados na sua proposta.
Rapidamente chegaram a um acordo: a administração
fornecia o espaço, um patrocinador fornecia o material
e o Sr. Ramalho só tinha que contribuir com a mão
de obra e com a cadeira de engraxador.
Da arrecadação tirou o seu material de serralheiro
e rapidamente construiu uma cadeira de engraxador e agora,
lá está o Sr. Ramalho, no espaço entre
os cinemas e os restaurantes, pronto a pôr os nosso
sapatos a brilhar.
“Estou lá todos os dias, das 11 às 17,
menos ao domingo. Faço pouco dinheiro... 8 a 10 euros
por dia, pouco mais ou menos... mas todo o dinheiro que
eu fizer é para mim... mas estou distraído...
fumo o meu cigarrinho, vejo as miúdas passarem, olá
carinha laroca, como é que vai isso?... é
bom...” – diz-me o Sr. Ramalho, com um sorriso
malandro.
E ainda dizem que não é possível a
aliança entre o capital e a classe operária!...
Domingo, 11
Doença
prolongada e doença súbita
O Provedor dos leitores do Público é, desde
há algum tempo, o Joaquim Furtado, meu colega no
Telejornal, nos anos a seguir ao 25 de Abril, e também
no Pão Comanteiga, nos anos 80.
Hoje, publica ele um extenso texto sobre o uso do termo
“doença prolongada” nas notícias
do falecimento de alguém que morre vítima
de cancro.
Ontem, o mesmo jornal publicou uma notícia com
o seguinte título: “Ataque com gás venenoso
faz quarenta mortos em Sófia”. A notícia
começava assim: “quatro dezenas de pessoas
ficaram feridas, algumas delas em estado grave, devido a
um ataque com gás venenoso, na cidade de Sófia”.
E em lado nenhum da notícia se fala em mortos.
A propósito destes dois textos, enviei ao Provedor
o seguinte e-mail:
“Curioso o texto do Provedor sobre o termo “vítima
de doença prolongada”. Há muito que
os leitores se habituaram a traduzi-lo por “vítima
de cancro”. Não me choca continuar a ler a
referida expressão. O rigor da informação
é igual, quer se escreva doença prolongada”
ou “cancro”. Os tipos de cancro são tantos
e tão diversos, que ambas as expressões são
muito vagas.
O mesmo se passa com a expressão “morte súbita”,
habitualmente conotada com enfarto do miocárdio –
mas pode ser tantas outras coisas: ruptura de aneurisma,
embolia pulmonar, hemorragia cerebral...
Ou então, deslize do jornalista...
No passado sábado, dia 10 de Abril, o Público
noticiava, em título, na secção internacional:
“Ataque com gás venenoso faz quarenta mortos
em Sófia”. A notícia começa assim:
“quatro dezenas de pessoas ficaram feridas, algumas
delas em estado grave, devido a um ataque com gás
venenoso na cidade de Sófia.” E em lado nenhum
se falava em mortos! Suspeito que o jornalista tenha escrito,
primeiro, a notícia e, só depois, o título
e que, entre uma coisa e outra, os quarenta feridos tenham
morrido todos.
De morte súbita, claro...”
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