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O Coiso
Um dia destes...

Agosto 2004:


| O barco do aborto | Olha o belo téni! | Uma medalhinha por favor! | Durão Barroso, do MRPP à União Europeia | O caso das cassetes roubadas | Histórias do Monte - Pensionismos | A última bushice | A diáspora do governo | As doenças salvam as notícias |


Sábado, 28
O barco do aborto
A ideia, em si, é idiota, na minha opinião. Um barco (ainda por cima com muito mau aspecto), que anda por aí, visitando os países onde o aborto é proibido e que, nas suas instalações, proporciona interrupções da gravidez a quem quiser, cheira mesmo a contestação populista, provocação barata, esquerda festiva. Mas enfim, tudo não passaria de uma manifestação simbólica, assim como queimar bandeiras americanas em frente à embaixada dos EUA, se não fosse a reacção histérica do governo e das associações contra o aborto. Que escândalo, o barco do aborto aportar ao nosso país! Intolerável! Os defensores da “vida”, os mesmos que apoiam a intervenção dos americanos no Iraque, que ignoram os genocídios em África, que nada fazem perante o facto de existirem milhares de portugueses sem médico de família, não podiam suportar a ideia de que um pequeno e ranhoso barco onde se fazem abortos acostasse em Portugal. E o governo, através do glorioso Ministério dos Assuntos do Mar, liderado pelo Sr. Paulo Portas, proibiu a entrada do barco em águas territoriais portuguesas.
Justificação? Simples: por razões de ordem pública e de perigo para a saúde pública!
O quê?!

Isso mesmo! O perigo para a ordem pública é evidente: como todos sabemos, existem milhares de portuguesas grávidas de 6 semanas, que estavam desejosas que o barco chegasse a Portugal para poderem abortar. Já todos imaginávamos o barco holandês a encostar no porto da Figueira da Foz e a ser assaltado por todas essas mulheres de ventres inchados, enfrentando a polícia de choque, a serem eficientemente sovadas pelos agentes da ordem, enquanto algumas conseguiam quebrar o cordão de segurança e entrar no barco, para saírem, algum tempo depois, já abortadas!

Quanto ao perigo para a saúde pública, é mais que evidente: como explicou um menino bem comportado de uma dessas organizações “defensoras da vida“, no barco do aborto usam-se medicamentos que não são aprovados pelo Infarmed – aliás, como todos os medicamentos vendidos nas ervanárias portuguesas... famigeradas pílulas abortivas (como a pílula do dia seguinte, de venda livre em todas as farmácias) e prostaglandinas, vendidas, também livremente, sob a forma de comprimidos para a úlcera duodenal, usadas nas maternidades de todo o país para ajudar a induzir o parto e vendidas, clandestinamente, por aí, à unidade, a 5 euros cada comprimido!
A hipocrisia a reinar!

O senhor ministro do Mar (que também é da Defesa), defende assim as nossas mulheres, impedindo-as de abortarem a bordo de um barco, enquanto se borrifa para o facto de elas continuarem a abortar em salas infectas, num qualquer anexo, ou em casa, sem qualquer supervisão médica, introduzindo prostaglandinas na vagina, compradas à vizinha do lado.

Este episódio do barco do amor – que já esteve em Malta, na Polónia e na Irlanda, países onde o aborto também é proibido – é bem o exemplo da idiotice de quem nos governa, mais preocupado com os chamados “sound bytes” da informação mediática do que com a resolução real dos problemas das pessoas. Estes sacanas continuam a governar para os órgãos de comunicação social, a falar para os círculos fechados dos lobbies, em vez de tentarem, de facto, governar para as pessoas em geral.

Não merecem a nossa consideração.
Estamos entregues a completos idiotas, medíocres, hipócritas.
Mas, cada país tem, de facto, os dirigentes que merece...

Sexta, 27
Olha o belo téni!
Após o telejornal da noite, na RTP-1, passa um magazine chamado “Diário Olímpico”. O programa apresenta resumos das principais competições do dia, entrevistas com alguns dos participantes e pequenas reportagens mais ou menos idiotas, versando curiosidades relacionadas com os Jogos.

O problema é que estas curtas reportagens pretendem ser engraçadas. É moda, hoje em dia, toda a gente tentar fazer humor, incluindo os jornalistas. No entanto, o que acontece é que o humor é um dom inato e não tem graça quem quer, mas quem pode...

Ontem, uma menina jornalista, com um nome que inclui o apelido Ribas, decidiu fazer uma reportagem sobre as dificuldades que os lisboetas enfrentam ao andarem a pé, ali para os lados do Marquês. Com as obras do famigerado túnel do Sr. Lopes, os peões vêem-se em palpos de aranha para atravessarem as ruas, sendo obrigados a contornarem inúmeros obstáculos para ir de um lado para o outro. Até aqui, tudo bem. Tem alguma graça estabelecer um paralelo entre as corridas de obstáculos dos Jogos e as dificuldades dos peões lisboetas. Só que, às tantas, a tal repórter Ribas, entrevista um jovem negro, mesmo à saída da estação de metro do Marquês e diz qualquer coisa como: “ora cá está! Até já vem equipado!... tem o belo téni!...”

O TÉNI?!!!
A repórter disse TÉNI!!!
Mais grave ainda: ninguém a corrigiu!

A menina Ribas, portanto, pensa que ténis é o plural de téni – logo, deve pensar que pénis é o plural de péni e imagino que deve ter ficado muito entusiasmada quando o namorado lhe revelou que tinha pénis (seriam dois, três, quantos? A sua imaginação partiu à desfilada!). Do mesmo modo, na escola primária, que deve ter frequentado, ela escrevia sempre com um lápi (singular), mas tinha uma caixa com lápis de cores (plural).

Imagino a sua estupefacção, quando se debruça sobre as diversas modalidades dos Jogos Olímpicos e descobre o ténis de mesa. Ténis de mesa, pensa ela – mas é só uma mesa... devia ser téni de mesa. Mas depois, percebendo que, nessa modalidade, há um atleta de cada lado da mesa, percebe que o plural (ténis) está correcto...

Que a repórter Ribas não saiba que o singular de ténis é, exactamente, ténis, não me admira – o que me espanta é que não haja ninguém na secção desportiva da RTP QUE CORRIJA ESSA GAJA!!!

Quinta, 25
Uma medalhinha, por favor!
No que respeita aos Jogos Olímpicos, a participação dos portugueses divide-se nos períodos ACL (antes de Carlos Lopes) e DCL (depois de Carlos Lopes).
O período ACL caracterizou-se por um atleta que morreu em plena maratona porque decidiu barrar o corpo com gordura para não suar e acabou por se desidratar e algumas medalhas avulsas, ganhas no tiro, na vela e no hipismo, mas que não tiveram importância nenhuma, porque tudo se passou numa altura em que os órgãos de comunicação não mandavam nada.

Depois, em 1976, Carlos Lopes ganhou a medalha de prata dos 10 mil metros, nos Jogos Olímpicos de Montreal e, em 1984, a medalha de ouro da maratona e estragou tudo!

DCL, os atletas portugueses nos Jogos Olímpicos só têm duas hipóteses: ou ganham medalhas ou são uma desilusão.

Ao longo de quatro longos anos (o intervalo entre cada edição dos Jogos), os meios de comunicação social apenas falam de futebol, ignorando “olimpicamente” o atletismo, a natação, o judo, a vela, a canoagem, o tiro, as lutas, a esgrima, etc, etc. Depois, quando os Jogos Olímpicos começam e os atletas portugueses começam a competir e a ficar em 10º lugar, a serem eliminados nos quartos de final, a serem desclassificados, os jornais e as televisões falam em desilusão, como se tivessem quatro anos a investir naquele atleta e ele os tivesse desiludido, falhando rotundamente os objectivos. Só os que ganham medalhas merecem destaque!

Quantas vezes as televisões falaram, ao longo destes quatro últimos anos, de Rui Silva? Creio que, para muitos portugueses, o nome de Rui Silva não tinha qualquer significado. Mas quem não conhece Maniche, Paulo Ferreira, Simão? De repente, Rui Silva ganha uma medalha de bronze nos 1500 metros e é um herói! Imediatamente, as televisões se apossam do feito do atleta, invadem-lhe a casa, para entrevistarem a mulher e a filha, realizam separadores com imagens, em câmara lenta, do corredor a passar a meta... Cambada de hipócritas!

Daqui a uns dias, os Jogos terminam, em Atenas. As televisões deixarão de falar de modalidades tão estranhas como triatlo, tiro com arco, fosso olímpico, e regressarão às telenovelas do Jaime Pacheco, do Trapatoni, do Vitor Baía e do Pinto da Costa.

E em 2008, em Pequim, lá teremos, novamente, os atletas portugueses entre as medalhas e a desilusão porque, o facto de competirem, de estarem entre os melhores do mundo, nada disso tem importância...

Domingo, 15
Durão Barroso, do MRPP à União Europeia


Sábado, 14
O caso das cassetes roubadas
Os factos são estes: um jornalista do Correio da Manhã (o jornal que, comparado com o 24 Horas, até parece um jornal de referência), de nome Octávio Lopes, costumava juntar-se em conversas informais com diversas fontes. Entre essas fontes (geralmente bem informadas, próximas ou fidedignas, conforme os casos), contavam-se o director geral da Polícia Judiciária, Adelino Salvado e Sara Pina, assessora do Procurador Geral de República, Souto Moura.
Nesses encontros informais, entre amigos, falava-se de diversos assuntos, nomeadamente, do caso Casa Pia. Trocavam-se opiniões, davam-se palpites, mandavam-se umas bocas.

O jornalista, à sorrelfa, sem dizer nada a ninguém, gravou essas conversas e foi guardando as cassetes na gaveta da sua secretária, na redacção do jornal.
Esta semana, soube-se que algumas dessas cassetes foram surripiadas da gaveta de Octávio Lopes; alguém as transcreveu para cd e, depois, enviou o resultado para as redacções de alguns jornais e revistas. Nesse cd, estavam registadas afirmações de Salvado e de Sara Pina sobre o processo Casa Pia, nomeadamente bocas sobre o alegado envolvimento de Ferro Rodrigues no escândalo da pedofilia – coisas que podiam ser consideradas fugas ao chamado segredo de justiça.

A maior parte dos órgãos de comunicação social optou por não divulgar o conteúdo do cd. A Focus tentou fazê-lo, mas foi impedida por uma decisão judicial; o Independente não quis saber disso para nada e divulgou excertos do cd.

Ferro Rodrigues reagiu, indignado, ameaçando levar Salvado e Sara a tribunal.
Souto Moura disse que nada tinha a ver com as afirmações da sua assessora.
Salvado disse que desconhecia que as conversas estavam a ser gravadas e que o jornalista cometera uma perfídia.
Salvado foi demitido ou demitiu-se, o que vai dar ao mesmo.

Estamos ao nível do chinelo, da conversa entre porteiras, dos mexericos de cabeleireiro, do diz que diz-se.

A coisa fica tão descredibilizada que, no final do processo Casa Pia, o pobre do Bibi há-de ser o único pedófilo condenado.
Tudo o resto é uma tristeza tão grande que até mete nojo.

O jornalista que grava as conversas às escondidas, o director da PJ e a assessora do Procurador, que mandam palpites à mesa do café, os órgãos de comunicação que fazem eco desta mediocridade toda – tudo isto dá vómitos.
E, claro que os responsáveis pela classe dos jornalistas, assumem atitudes corporativas, defendendo o indefensável: que é legítimo o jornalista gravar conversas particulares – é o habitual apelo à obrigação de informar! Um jornalista está sempre em serviço! Mesmo quando está na cama com a namorada, e ela geme perante os seus avanços, ele toma notas, regista em cassete os seus gritinhos... nunca se sabe quando poderá utilizar essa informação importantíssima: segundo fontes bem informadas, a Sandra geme quando lhe lambem o clítoris! Pode sempre ser uma boa manchete, quando a Sandra estiver na ribalta por causa de um qualquer escândalo...
Cambada!

Quinta, 12
Pensionismos
Caiu e bateu com a cabeça, disse.“E como sou muito pensionista, gostava de fazer uma radiografia para ver se está tudo bem...”
Pensionista?!

Não tive tempo de tentar esclarecer porque ela logo acrescentou:
“Sou muito pensionista... penso logo no pior...”

A flexibilidade da língua portuguesa permite sempre novos significados para as palavras...

Domingo, 8
A última bushice
O presidente da nação mais poderosa do mundo é tolo!
Isso já todos sabemos. O problema é que a sua tolice prejudica milhões de pessoas em todo o mundo.

Perito em gafes, George Bush está sempre a meter a pata na poça. De tal modo que já se diz “bushice”, sempre que ele comete uma gafe.
A última do Bush foi no Senado e foi assim:

Simplesmente delicioso...

Sábado, 7
A diáspora do governo
O Sr. Lopes fez disto uma questão de honra: dispersar o governo pelo território nacional. Os eleitores encolheram os ombros e não ligaram nenhuma a esta originalidade. Que vantagens tira o Zé e a Maria do facto do Ministério do Turismo ficar no Algarve? Nenhuma...

Os autarcas é que ficaram muito contentinhos, sobretudo os que tiveram a sorte de ficar com uma secretaria de Estado ou um Ministério. Zangados ficaram os outros, claro: por que raio é que Aveiro tem direito a uma secretaria e Castelo Branco não? Acaso Castelo Branco não é uma cidade portuguesa?

E já houve guerra: a secretaria de Estado da Agricultura, que era para ficar em Santarém, afinal vai para a Golegã. Os escalabitanos ficaram piursos; os goleguenhos (?) rejubilaram.

Hoje, o director do Expresso, José António Saraiva, sai-se com uma ideia ainda mais peregrina: por que razão a capital de Portugal há-de ser em Lisboa? Sim, por que razão?! E dá os excelentes exemplos de dois países desenvolvidos: o Brasil, que deslocou a capital do Rio de Janeiro para Brasília e... o Paquistão, que a deslocou de Carachi para Islamabad...

Sendo assim, Saraiva propõe que a capital de Portugal fique bem no interior do país e que se construa uma nova cidade, de raiz, para receber o governo da nação; e chega à conclusão que o melhor local para essa nova cidade é ali para os lados de Castelo Branco, exactamente.

Ora aqui fica uma ajudinha do Sr. Saraiva ao Sr. Lopes: a grande obra do novo governo Santana-Portas! Depois da ponte Vasco da Gama, da Expo 98, do Euro 2004, nada melhor que uma cidade completamente nova. Que frenesim de cimento e asfalto! Construir tudo de raiz: estradas, jardins, passeios, prédios, palácios, fontes. Uma maravilha para os empreiteiros e os ucranianos que, depois dos estádios, ficaram sem nada para fazer!

Mas o director do Expresso não dá nenhuma ideia para o nome da nova capital de Portugal. Sugestões: Lusitânia, Lisporboato (uma amálgama de Lisboa e Porto), Camões, Amália, Eusébio (os três nomes em separado, ou mesmo todos juntos...), ou ainda Alguidares de Baixo (nome bem português que, apesar de muito falado, não existe ainda, de facto).
Ó Saraiva: não dês ideias ao Sr. Lopes!...

Sexta, 5
As doenças salvam as notícias
Quando não há notícias-choque, as doenças salvam os órgãos de comunicação social, nomeadamente as televisões, e garantem as audiências...

Os incêndios acalmaram, a onda de calor recuou, os casos de Justiça (Casa Pia e similares) estão em gozo de férias judiciais, as trapalhadas do governo do Sr. Lopes já não espantam ninguém (agora, a secretaria de Estado da Agricultura vai para a Golegã, em vez de ir para Santarém, que chatice...); os editores dos telejornais vêem-se às aranhas para encontrar um bom tema para abrir as notícias. E é então que se viram para os hospitais. É garantido que há sempre um bom tema para explorar. Todos os dias morrem pessoas nos hospitais – é só procurar com atenção e o tema-choque está encontrado. Hoje coube a vez ao Hospital de Santo Tirso, onde três idosos morreram, vítimas de infecção nosocomial. E aí foram os jornalistas, a correr, em directo para os telejornais, a debitarem nomes esquisitos como estafilococus aureus metilino-resistentes, palavras que eles nunca sonharam poder dizer em directo! Que sensação deve ser pronunciar tais palavras complicadas sem sequer se engasgarem! Que orgulho para os pais dos repórteres (geralmente são jovens, suspeito que estagiários) ver os seus filhos a dizerem coisas tão complicadas!

O pobre do director do hospital lá vai tentando explicar que os idosos tinham muitas patologias, pelo que é natural que não tenham conseguido sobreviver a algo que acontece, com frequência, nos hospitais. As infecções hospitalares (ou nosocomiais) existem desde que os hospitais foram criados; as bactérias mais bizarras adoram viver nos hospitais, local onde têm sempre à mão bom terreno para se desenvolverem; todos os manuais de Medicina falam disso. Mas, para os jornalistas, este é um bom assunto para quando a Arrábida não arde ou o governo está ausente em parte incerta, muito provavelmente a banhos. E, se três velhotes morreram com estafilococus aureus, algo correu mal naquele hospital, uma máquina de lavar que não funciona, um ar condicionado que não existe, um funcionário que não calçou luvas, um antibiótico que foi mal ministrado – a culpa tem que ser de algo ou alguém; não se admite que um velhinho de quase 90 anos, diabético, hipertenso, com sequelas de AVC, morra assim, sem mais nem menos, num local onde é suposto salvarem-se vidas!
Cambada de ignorantes!


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Actualizado em: 28 Agosto 2004
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