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O Coiso
Um dia destes...

Dezembro 2003:


| Terramoto no Irão | O inventário de Saddam | Um saddam de plástico | Fazer figura de parvo com a TV Cabo | Mais pérolas do Gabriel Alves |


Sábado, 27
Terramoto no Irão
O Sr. Silva beija a mulher e os filhos e sai de casa, a caminho do emprego; quando vai a atravessar a rua na passadeira para peões, um automobilista alcoolizado dá-lhe uma panada com o carro e projecta-o a mais de 30 metros; quando chega ao chão, o Sr. Silva já vai morto.

Oito mortos na estrada, só no dia de Natal.

Na China, uma explosão de gás fez 291 mortos.

Ontem, um terramoto no Irão ceifou mais de 20 mil vidas.

Vinte mil mortos! Não conseguimos imaginar o que significa. É mais fácil solidarizarmo-nos com a dor da família do Sr. Silva, que era uma pessoa com nome, emprego, casa e família, que podia ser qualquer um de nós, que estava a fazer algo de reconhecível – atravessar a rua – quando foi morto. Os oito mortos nas estradas portuguesas também são fáceis de reconhecer e identificar como pessoas com uma vida. Mais difícil pensar, individualmente, em cada um dos 191 chineses. Mas quanto aos 20 mil iranianos, limitamo-nos a dizer “que tragédia!” e continuamos com a nossa vida.

Sexta, 19
O inventário de Saddam
Sempre gostei de listagens. Tenho listagens de tudo e mais alguma coisa: dos meus doentes, dos livros, discos e dvd’s que possuo, das latas, revistas de medicina, etc, etc.

Portanto, fiquei muito satisfeito quando encontrei, no Público, o inventário do que foi encontrado na casa em cujo pátio estava o buraco onde se escondia o Saddam.

Tratava-se de uma casa de adobe, com duas divisões e um pátio.

Inventário do quarto: roupa suja, incluindo calças cinzentas e uma toalha, penduradas numa corda; uma cama tapada com um cobertor às flores; uma segunda cama não desmacnahda; uma caixa no chão com uma túnica preta, duas t-shirts brancas e novas, um par de boxers brancos; um par de mocassins pretos e um par de chinelos; pendurado na parede, um poster a representar a Arca de Noé.

Na cozinha: um frigorífico pequeno com barras de chocolate Bounty, cachorros e uma lata de 7-Up; em cima de um balcão, pão velho e uma panela com restos de arroz; no lava-loiça, pratos sujos; numa prateleira por cima do fogão a gás, sabão, uma embalagem de café, pasta de dentes, um espelho e duas barras de chocolate Mars.

No pátio: um táxi meio escondido e uma vaca; muito lixo, sacos de plástico, garrafas vazias, fruta estragada e uma cadeira partida, uma vala que parecia funcionar como latrina; um pano branco tapado com terra e, por baixo, uma placa de esferovite, que servia de tampa ao buraco onde estava o Saddam; ao pé, junto a uma tamareira, um tubo que servia de ventilação ao buraco; pendurados no tubo, enchidos e figos a secar.

Acho este inventário delicioso e não sei do que gosto mais: se da vaca se dos chocolates Mars; o pormenor dos enchidos pendurados no tubo de ventilação também tem a sua graça.

Obrigado Saddam, por mais este episódio pitoresco!

Segunda, 15
Um Saddam de plástico
Toda a gente viu os americanos exibindo o seu trofeu de caça: um Saddam envelhecido, cabeludo e barbudo, deixando que um yankee de luvas cirúrgicas lhe vasculhasse os cabelos (em busca de piolhos?) e lhe pesquisasse a boca com uma espátula. O velhote estava escondido num espécie de cova minúscula, cujo único acesso era um buraco no chão, tapado por uma placa de esferovite, escondida por um tapete; ao seu lado, tinha uma pistola. Consta das notícias que não esboçou, sequer, um gesto de resistência.

Depois de lhe fazerem um exame físico e um teste de ADN para confirmarem a sua identidade, os yankees cortaram-lhe a barba, mas deixaram-lhe o bigode.

Foi tudo muito emocionante mas... sabendo que o Bush, na noite de Thanks Giving, foi ao Iraque jantar com os soldados e exibiu, para os fotógrafos, um peru que, afinal, era de plástico, não é exagerado supor que o Saddam que os americanos apresentaram ao mundo é, também ele, um boneco de plástico, daqueles de plástico.

E como estamos em época natalícia, só nos resta pedir ao Pai Natal que, na noite de 24, nos ponha, no sapatinho, um Saddam insuflável...

Domingo, 14
Fazer figura de parvo com a TV Cabo
Por vezes, tenho que deixar passar algum tempo antes de conseguir falar ou escrever sobre determinadas coisas. Alguns episódios (da minha vida profissional, por exemplo) são tão insólitos que tenho que deixar passar alguns dias, deixar os acontecimentos sedimentarem, para depois poder elaborar a coisa e escrever sobre eles.

Foi o que aconteceu com a imagem do plasma e o meu contacto telefónico com o serviço de clientes da TV Cabo.
Há cerca de uma semana e picos, comecei a notar interferências na imagem da televisão – fragmentação da imagem, como acontece, por exemplo, em alguns dvd piratas; além dessa fragmentação da imagem, havia também curtas interrupções do som. Deixei passar alguns dias, pensando que podia ser qualquer deficiência transitória da emissão. No entanto, como as alterações continuassem e como, entretanto, também descobri que estava sem interactividade, decidi telefonar para o serviço de apoio a clientes da TV Cabo. Atendeu-me uma menina que, depois de ouvir as minhas queixas e de me pedir o número de cliente, me sugeriu que apertasse os contactos dos cabos que ligam a Power Box ao televisor. Expliquei-lhe que isso iria demorar algum tempo porque o meu televisor é um plasma monstruoso, com um peso considerável. Combinámos que, depois de tentar essa manobra algo idiota, tornaria e entrar em contacto com o serviço. Um pouco incrédulo, afastei a mesa onde está o plasma, desliguei a power box, apertei os contactos dos cabos todos, liguei a caixa novamente e as interferências continuavam e continuava sem interactividade. Liguei outra vez para o serviço de apoio ao cliente. Dessa vez, atendeu-me a Patrícia. Expliquei-lhe a situação toda e ela pediu-me que eu acedesse a um determinado menu da power box e verificasse que número tinha na opção “rede”; disse-lhe que não tinha número nenhum. Estava tudo explicado, disse ela, sem rede não podia ter acesso à interactividade. Fiquei espantado: tenho power box há quase 6 meses, nunca mexi nos menus e, se não tinha rede, não a tinha desde o início. A zelosa Patrícia explicou-me que isso podia acontecer, isto é, a tal rede podia desaparecer assim, de repente, sem que ninguém saiba bem porquê. Mistérios das novas tecnologias, suponho. Então, e sempre sob a direcção da astuta Patrícia, introduzi, na opção “rede”, o número que ela me foi ditando; depois de fazer “ok” várias vezes, ganhei a interactividade mas – hélas! – fiquei com o menu congelado no televisor, não conseguindo voltar à emissão normal de televisão. A inteligente Patrícia, sempre com a sua voz calma e despreocupada, ensinou-me uma manobra inaudita: que tirasse as pilhas do comando da power box, carregasse nas teclas todas do comando e voltasse a introduzir as pilhas. E lá estou eu, no chão da sala, a obedecer cegamente às ordens da Patrícia, não acreditando na figura de parvo que estou a fazer: tiro as pilhas do comando, carrego nas teclas todas ao mesmo tempo, introduzo as pilhas, carrego no ok mas tudo continua na mesma. Já um pouco aflito, informo a sagaz Patrícia do sucedido e ela informa-me que tenho que carregar nas teclas uma a uma! Lépida Patrícia! Bom, o melhor é fazer como ela diz. Volto a tirar as pilhas do comando, carrego nas teclas uma a uma, coloco as pilhas novamente, carrego no ok e, finalmente, desaparece o menu do plasma. Resultou, categórica Patrícia! Resultou em cheio – só que continuo com interferências na imagem, amiga! Bom, nesse caso, diz a competente Patrícia, eu vou enviar-lhe dois ou três reforços de sinal e se, amanhã, as interferências continuarem, entre em contacto connosco novamente. Ficamos então assim, embora eu não perceba porque há-de ser um reforço, ou dois reforços, ou três reforços... será que é a olho?

Depois desta aventura, decido deixar de me preocupar com as interferências e passam dois dias, sempre com a imagem a estilhaçar-se de vez em quando, a fragmentar-se em mil rectângulos, como se, ao chegar ao plasma, se partisse em bocadinhos. Finalmente, é sábado. Ligo o plasma, à hora de almoço, para ver o Telejornal e a imagem está impecável. Penso que os tais reforços de sinal, afinal, deram resultado. As notícias vão decorrendo, enquanto eu actualizo o Coiso no computador. De súbito, lembro-me que ainda não liguei as luzes da nossa árvore de natal, que já está rodeada de algumas prendas. Ligo as luzes e zás! começa a fragmentação da imagem! Desligo as luzes e as perturbações de imagem desaparecem! Está tudo explicado! São as luzes da árvore de natal as causadoras disto tudo!

Agora, pergunto eu: e a rede? Por que razão não tinha eu rede? E o menu congelado na imagem? Aquilo de tirar as pilhas e carregar nos botões foi mesmo verdade ou estiveste a gozar comigo, capciosa Patrícia?...

Mais pérolas de Gabriel Alves
Um gajo passa uma semana inteira de intenso trabalho, sempre a ansiar pelo fim de semana; depois, chega sábado e tem que se levantar às 7 da matina porque está de serviço no SAP! Está uma manhã de nevoeiro, húmida e fria; não se vê o rio, as casas e as pessoas estão difusas – isto se existissem pessoas mas, quando saímos de casa, a caminho do SAP, pouco antes das 8 da manhã, não havia vivalma nas ruas. Um gajo passa 12 horas enfiado no SAP, a consultar gripes e faringites e diarreias e dores das costas, um tipo está farto de ouvir queixas, de repetir os mesmos gestos, auscultar, ver a garganta, palpar a barriga, chega a casa estoirado mas – MAGIA! – senta-se no sofá, a assistir ao Benfica-Braga, ouve a voz bem colocada do grande Gabriel Alves e tudo, de repente, faz sentido! Vale a pena viver quando se tem um Gabriel Alves inspirado! E que inspirado que ele estava ontem! Claro que os bons golos do Simão e do Sokota também ajudaram à boa disposição, depois de 12 horas de trabalho, mas as pérolas do Gabriel foram tantas que o meu intelecto ficou atarantado.

Felizmente, ainda tive força para registar algumas, com a ajuda telefónica do Pedro, que me ia enviando mensagens sobre o jogo, mas sobretudo sobre a arte do Gabriel – uma verdadeira Gabriarte!

O Pedro começou esta semana uma nova rotina de trabalho, em Lisboa. Ainda por cima, está com uma gripalhada a sério, com tosse e febre. Mas, ao ouvir o Gabriel, deve ter-se sentido melhor!

Aqui estão, algumas das suas máximas de ontem:

* “João Pereira demonstra uma apetência de futebol directo”
* “descai à direita, foge pelo meio, é sempre um elemento que sobra”
* “é muito importante jogar de cabeça levantada para se poder ler convenientemente o jogo”
* “fragilidade no núcleo central”
* “está tudo no meio e ninguém à linha”
* “ficou na zona do ponta de lança a ler o trabalho de Zahovic”
* “muito bom trabalho à faixa”
* “é preciso alguém que segure a bola, que paute, que arme, que leia o jogo!”

Obrigado, mais uma vez, Gabriel!

 

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Actualizado em: 31 Dezembro 2003
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