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O Coiso
Um dia destes...

Fevereiro 2003:


| A prisão do Carlos Cruz | A desintegração do Space Shuttle | Mais coisas que me irritam profundamente | A anedota de Cristo clínico geral | O caso Carlos Cruz | A pedofilia afecta as cordas vocais? | Kumba Yalá - o filósofo do momento | Não gosto de publicaçoes corporativas |


Domingo, 2
A prisão de Carlos Cruz
O Carlos Cruz foi preso ontem. Está preso preventivamente pelos crimes de pedofilia e tráfego de menores. O espanto é geral e, sinceramente, não sei o que dizer. Convivi com o Carlos durante muitos anos (praticamente entre 1981 e 1995), colaborei com ele intensamente, em programas de rádio (Pão Comanteiga, Contra Ataque e Uma Vez por Semana), na revista Pão Comanteiga, na escrita da peça “Quem Tramou o Comendador”, em programas de televisão (A Quinta do Dois, 1, 2, 3 e Zona Mais), frequentei a casa dele, nas Águas Livres, o escritório do Pão Comanteiga, o escritório da Marajó, nas Amoreiras, os estúdios no antigo cinema Europa e os da CCA, ao Rato, estivemos juntos em dezenas de reuniões. Acho que o conheci mais ou menos bem e custa-me a crer que possa estar envolvido no chamado escândalo da Casa Pia, ainda por cima, desde os anos 80 – altura em que privei bastante com ele. E, no entanto...
E, no entanto, o juiz do TIC determinou a sua prisão preventiva, o que quer dizer que, no mínimo, tem em seu poder indícios muito fortes – mais fortes, por exemplo, do que os indícios que existem sobre os eventuais crimes do Pimenta Machado ou da Fátima Felgueiras – figuras públicas que, recentemente, também foram detidas para interrogatório pela Polícia Judiciária, e libertadas, sob caução, logo a seguir.
As televisões não têm parado de entrevistar familiares e amigos do Carlos, que clamam a sua inocência. E, neste particular, é interessante registar este facto: nos casos do Pimenta Machado e da Fátima Felgueiras, pareceu-me óbvio que a comunicação social os apresentou como culpados, enquanto que, no caso do Carlos, ele está a ser apresentado como inocente. Já vi entrevistas com a Marluce, a ex-mulher, e a actual mulher, com o Martim, seu enteado, com o Fialho Gouveia e o António Macedo – não vi, por exemplo, nenhuma entrevista com os familiares ou amigos do presidente do Guimarães ou da presidente da Câmara de Felgueiras. Isto apenas demonstra que a comunicação social não é isenta e actua de forma corporativa – é um deles que está a ser acusado!
De qualquer modo, não há dúvida que a prisão do Carlos é uma surpresa de todo o tamanho e que me custa a acreditar que ele tenha práticas pedófilas ou que esteja envolvido numa rede de tráfego de crianças.
Aguardemos o desenvolvimento da situação...

A desintegração do Space Shuttle
Ontem, quando entrava na atmosfera terrestre, o Space Shuttle Columbia, desintegrou-se. Os sete astronautas a bordo morreram, obviamente. É o segundo acidente com Space Shuttle; o primeiro aconteceu em 1986, altura em que o veículo espacial explodiu quando levantava voo.
Por volta das 2 da tarde, as televisões começaram a transmitir imagens da catástrofe e eu disse à Mila: “Chamem o Nuno Rogeiro, que o gajo explica já tudo – ele é um especialista!” Meu dito, meu feito! Alguns minutos depois, lá estava o Nuno Rogeiro a cagar sentenças sobre o acontecimento, chamando a atenção para o facto de, entre a tripulação, existir, pela primeira vez, um astronauta israelita e estarmos em pleno período de pré-guerra com o Iraque! Estava-se mesmo a ver! A Al-Qaeda deve ter posto uma bomba a bordo do Columbia – ou então, o Saddam conseguiu disparar um míssil, que atingiu a nave, quando ela reentrava na atmosfera!
O que me mais me irrita, é que o pateta do Nuno Rogeiro ganha dinheiro com as suas opiniões – isto é, é pago para dizer disparates!

Mais coisas que me irritam profundamente
* Os automobilistas que não fazem pisca.
Solução: proibir a venda de carros que não tenham pisca.

* Os especialistas em geral, tipos que têm a mania que percebem de tudo, cagam entenças e, ainda por cima, são respeitados.
Solução: ignorá-los.

* Entrar numa loja e, de repente, ficar invisível; toda a gente é atendida antes de mim, como se eu não estivesse lá.
Solução: ir a outra loja.

* As etiquetas das camisas e camisolas, sobretudo as de boa qualidade, que me arranham o pescoço, porque são ásperas e cosidas com nylon.
Solução: tirar as etiquetas todas, assim que chego a casa.

* Os gajos que estacionam em segunda fila, mesmo com um parque de estacionamento ali ao pé.
Solução: ignorá-los e ir estacionar no parque.

Sexta, 7
A anedota de Cristo clínico geral
Conta-se a seguinte anedota: Cristo decidiu regressar à Terra, como clínico geral do Serviço Nacional de Saúde. Estava a fazer consultas num Centro de Saúde qualquer. O primeiro doente entrou no consultório, de muletas, arrastando os pés. Crsito operou o milagre do costume e minutos depois, o doente saiu, andando perfeitamente, sem a ajuda de nada. Perguntou-lhe outro doente: “Que tal é o novo médico?” Respondeu o ex-paralítico: “A merda do costume! Nem sequer me mediu a tensão!”
Pensam que é anedota?
Então oiçam esta: sou médico de R. há 18 anos. Há cerca de 6 anos que a consulto no domicílio; a velhota tem mais de 80 anos e muita dificuldade em andar. Problemas de saúde principais: hipertensão, dislipidémia, diabetes, insuficiência respiratória, osteoartrose generalizada, osteoporose acentuada. Costumo consultá-la praticamente todos os meses, não porque ela necessite que eu a veja todos os meses, mas porque é uma doente complicada, que passa os dias sozinha e – confesso – até simpatizo com a velhota. A rotina da consulta em casa de R. é mais ou menos esta: sento-me na borda da cama, enquanto ela está sentada num sofá, junto à garrafa de oxigénio; conta-me as desavenças que tem com as mulheres-a-dias (já teve mais de vinte, sem exageros, e não se entende com nenhuma), explica-me pormenorizadamente o que comeu nas diversas refeições dos últimos dias, ausculto-a, meço-lhe a tensão, renovo o receituário, oiço mais um pouco e vou-me embora. Em resumo: cinco minutos de medicina e cerca de quinze minutos de companhia. Estive lá no dia 13 de Janeiro e pedi-lhe umas análises de rotina, para controlar a glicémia, o colesterol e os triglicéridos. Fui lá anteontem, fundamentalmente, para ver as análises e, eventualmente corrigir alguma medicação. As análises não estavam más, mantive a medicação, escutei, pacientemente, alguns comentários que ela tinha a fazer sobre o escândalo da Casa Pia e vim-me embora. Telefonou-me hoje de manhã: “Está, sr. Doutor?... Então e a àtensão?” “Como, Dona R.? Não percebi...” – respondi eu. “A àtensão... o doutor, ontem, esqueceu-se de me medir a àtensão!...”
Toma!

Sábado, 8
O caso Carlos Cruz
Há uma semana que o Carlos Cruz está preso preventivamente, indiciado de pedofilia.
As notícias que têm saído nos jornais são contraditórias. Aparecem pistas que apontam para a culpabilidade do Carlos, a ex-mulher e a actual, desdobram-se em entrevistas, jurando a sua inocência, advogados, juristas e inspectores dão explicações, debatem o segredo de justiça, todos os semanários têm o Carlos na capa e, no interior, pequenas histórias da sua vida (há 40 anos que ele é visível, quer na rádio, quer na TV). Ontem, na Visão, saiu uma foto da equipa do “irrepetível Pão Comanteiga” – lá está o Carlos e, atrás, o Zambujal, a Eduarda, o BBC, o Zé Duarte, o Joaquim Furtado e eu; hoje, no Expresso, outra foto do “incontornável Pão Comanteiga” – o Carlos à frente, o Zé Duarte, o Zambujal, a Isabel Pinhão, o Zé Tó Pinheiro e eu. Ontem recebi, pela net, um mail da actual mulher, pedindo para assinar um abaixo-assinado a favor do Carlos. Hoje, as notícias dizem que a Judiciária não está muito satisfeita com o modo como a Procuradoria está a dirigir o caso.
O que penso eu de tudo isto?
Epidermicamente, acho que o Carlos não pode ser pedófilo e, no entanto...
A favor da acusação apenas isto: o juiz determinou a sua prisão preventiva, temendo a continuação da actividade criminosa. Não temos outro remédio senão confiar na Justiça. Passa-se o mesmo com os médicos – podemos dizer mal à brava deles e do sistema de saúde mas, quando estamos doentes, não temos outro remédio senão confiar.
A favor da inocência: tudo o resto; quase 15 anos de convívio, de colaboração nos diversos programas, de troca de opiniões sobre várias temas, de alguma intimidade, já que falámos muitas vezes de doenças; recordo-me, até que, na altura do Pão, eu era interno de Psiquiatria e, portanto, o Carlos tratava-me por “doutor” e dizia que eu era o psiquiatra privativo da equipa; sempre me tratou bem, ajudou-me, financeiramente, em alguns momentos difíceis, pagando-me o meu trabalho sempre a horas; nunca ouvi, da boca dele, nada que pudesse indiciar, digamos, um comportamento “desviante” (teria que ser um grande dissimulador!) Seria capaz de imaginar o Carlos culpado de diversos crimes – a pedofilia nunca me passaria pela cabeça!
Pergunta: cheguei a ser, verdadeiramente, amigo do Carlos, de modo a poder afirmar, categoricamente, que ele é inocente?
A minha primeira reacção é responder afirmativamente. No entanto, nesse caso, não podemos confiar na nossa Justiça! Qualquer um de nós pode ser acusado de qualquer coisa, a qualquer momento! E este pensamento é assustador.
Quero acreditar que o Carlos é inocente mas, simultaneamente, não quero acreditar – caso contrário, um dos pilares da nossa sociedade cai pela base.
Enfim, se calhar estou a dramatizar porque se trata do Carlos, que é uma figura pública. Exactamente por ser uma figura pública, a Justiça devia ter o dobro das cautelas e, se o juiz decidiu prendê-lo é porque tem indícios muito fortes e seguros. Nesse caso, o Carlos é mesmo pedófilo.
Porra!

Sexta, 14
A pedofilia afecta as cordas vocais?
Sinceramente, não sei.
O que é certo é que todas as vítimas de pedofilia – pelo menos as que falam na televisão – têm a voz distorcida!...

Sábado, 15
Kumba Yalá – o filófoso do momento
Há um Presidente da República que usa um barrete de lã vermelha na cabeça – sempre.
Esse homem chama-se Kumba Yalá e é presidente da Guiné-Bissau – país equatorial, cuja temperatura média não aconselharia ninguém a usar barretes de lã na cabeça.
Mas Kumba não é uma pessoa qualquer.
Além de ser o Presidente, Kumba é um filósofo. Diria mesmo, que ele é o filósofo do momento.
Segundo revela o Expresso, na sua primeira página de hoje, Kumba Yalá acabou de publicar um livro de “pensamentos políticos e filosóficos”. Há muito tempo que a Humanidade aguardava por uma obra destas – uma obra que viesse esclarecer as mentes confusas.
Quero partilhar com todos os pensamentos de Kumba.
Aqui estão alguns deles:

* “A liberdade mental deve ser da autoria do próprio indivíduo”
* “O comprido é a negação do curto, bem como o alto o é em relação ao baixo, que assim se apresentam com a igualdade de posição de relatividade”
* “O não tempo é o tempo que não pode ser tempo, com o tempo”

Rendidos? Então tomem lá mais estes:

* “A beleza de uma mulher elegante, é a atrapalhação do cabrão do macaco da indochina!”

Aconselho que leiam novamente o pensamento anterior e que se compenetrem que ele é da autoria do Presidente da República de um país.
Mas há mais:

* “Se eu fosse rico, não precisava de andar a pé; mas se fosse tal, teria muitos carros, e como estes e por razões de tanto andar de carro, a coluna vertebral desequilibra o corpo: logo, não preciso de ser rico, tenho apenas o suficiente para o meu conforto familiar”
* “Em política quando se adormece sossegado, acorda-se com tudo perdido”

E apenas mais uma frase de Kumba (tenho que comprar este livro, caramba!):

* “Quando se viaja para o estrangeiro, e a partir do momento em que o avião se descola da pista do aeroporto internacional Osvaldo Vieira, dá-se o início do respiro da ranquilidade; e de regresso para Bissau, mal se atravessa a fronteira do exterior para o interior do país, começa-se a sentir a atmosfera da insónia e do sufocante respiro da tranquilidade abafada”

Há pouco tempo, Mário Soares disse que Kumba Yalá era louco.
Olhe que não, doutor, olhe que não...

Domingo, 22
Não gosto de publicações corporativas
Entendo como publicações corporativas todos aqueles jornais e revistas publicados por uma determinada classe profissional, clube ou partido político. O jornal do Benfica, por exemplo – é impensável encontrar, nesse jornal, outra coisa senão o panegírico permanente da grandeza do clube. Também ninguém está à espera de encontrar, por exemplo, no Avante, artigos de opinião, pondo em causa as linhas mestras do marxismo-leninismo.
As publicações corporativas que conheço melhor são, como é evidente, a revista da Ordem dos Médicos e os diversos jornais médicos: “Tempo Medicina”, “Semana Médica” e “Médico de Família”, para citar os mais importantes.
E, na semana passada, tive mais um caso com o jornal “Médico de Família”.
Confesso que, de todos os jornais corporativos de que não gosto, é do “Médico de Família” que eu gosto ainda menos!
Em tempo que já lá vão, troquei umas cartas amargas com o ex-director deste jornal, um colega chamado Falcão, que me convidou para escrever para o jornal, na altura em que eu andava nas lides televisivas e radialistas. Na altura, conhecia mal o jornal. Depois de desfolhar um ou dois números do mesmo, escrevi, polidamente (juro!), ao Dr. Falcão, declinando o convite, que agradeci, dizendo que o meu estilo de escrita não se adaptava ao estilo do jornal. Pensei, claro, que o assunto ficaria por ali, mas não – o Dr. Falcão respondeu-me, com um texto inenarrável, acusando-me de não conhecer o Estatuto Editorial do jornal e pontilhando o seu texto de “clichés” mais ou menos poéticos. Respondi-lhe, está claro. Pegando no estilo do Artur Portela das “Fundas”, enviei-lhe um texto que o deve ter deixado muito mal disposto, e que transcrevo, na íntegra, nas minhas Memórias.
Ao longo destes anos tenho recebido, com regularidade, o “Médico de Família” e presto-lhe, todos os meses, cerca de 5 minutos de um dos meus serões. Como jornal corporativo que é, está recheado de artigo laudatórios à Medicina Familiar, escamoteando a realidade que, infelizmente, é bem diferente. Claro que há bons exemplos, que existem Unidades de Saúde que funcionam bem, mas a verdade verdadinha é que os cuidados de saúde primários primam pela desorganização, pelo desinteresse de muitos colegas, fruto de factores variados. No entanto, continuo a pensar que os médicos são parte do problema – ao contrário da imagem que o jornal sempre transmite, isto é, de que o problema está sempre noutro lado: nas autoridades, na falta de recursos, nas instalações inadequadas...
A propósito da nova lei dos Cuidados de Saúde Primários, que o governo aprovou e que aguarda promulgação pelo Jorge Sampaio, os sindicatos, a Ordem e a Associação dos Médicos de Família apoiaram uma greve de três dias (quarta, quinta e sexta-feira), que deixaria os utentes dos Centros de Saúde sem consultas durante cinco dias (já falei sobre isto em devido tempo). Nós, no Monte, achámos que a greve era uma brutalidade e não aderimos; apenas a Inês e o Varela fizeram greve, e apenas em um dos três dias previstos (na sexta-feira, claro...). Qual não é o meu espanto quando vejo, no “Médico de Família” deste mês uma notícia que dizia que “pela primeira vez na sua história, a unidade do Monte de Caparica aderiu a uma greve”! E seguiam-se uma série de afirmações do Varela, em que ele dizia que todos os médicos do Monte estavam solidários com a greve e blá-blá... As afirmações do Varela até nem estariam incorrectas, mas era totalmente falso que a unidade tivesse aderido, pela primeira vez, a uma greve. Já fizemos greve várias vezes, a começar com as famosas greves do tempo da Leonor Beleza. Não podia ficar calado e enviei um e-mail ao director do jornal, repondo a verdade – e a verdade era que 8 dos 10 médicos não tinham feito sequer um dia de greve! No mesmo jornal, uma colega que costuma escrever umas crónicas, também se insurgia contra Miguel Sousa Tavares, porque este, no seu comentário semanal na TVI, terá falado mal dos médicos de família e terá comentado a greve sem conhecimento de causa. Dizia a colega que MST mentira – e se ele mentira sobre este assunto, quantas vezes não terá já antes mentido sobre outros assuntos? Claro que peguei neste exemplo, para tentar mostrar ao jornal que se estava a passar o mesmo, em relação à unidade do Monte – se a notícia da total adesão à greve no Monte era falsa, quantas outras não seriam também falsas (é que o jornal publicou um destacável de várias páginas, relatando a adesão maciça à greve, distrito a distrito).
Parece que o director do jornal ficou muito zangado com o meu e-mail e já me mandou uma resposta, pedindo-me para o contactar.
Não tenho paciência...

 

 


 

 

 

 


 




Actualizado em: 28 Fevereiro 2003
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