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O Coiso
Um dia destes...

Fevereiro 2004:


| Carnaval e ninguém lava o mal | O M.I.SA.LO.CA.PRE.REP. vencerá! | Publicidade nos telejornais | O reles João Semana | Armas de masturbação maciça |


Terça, 24
Carnaval e ninguém lava o mal
O carnaval não me diz nada – não ligo a palhaços.

Não sou capaz de me recordar se, em criança, gostava de palhaços. Aliás, não me recordo de palhaços na minha infância. Sei que fui várias vezes ao Circo, no Coliseu, mas só sou capaz de me recordar dos elefantes e dos tigres, dos anões e das pernas das trapezistas, com aquelas meias de rede e os fatos muito reduzidos para a época e para a imaginação de um miúdo. As trapezistas sempre andaram à frente dos costumes; muito antes das cidadãs do mundo mostrarem as nádegas nas praias, já as trapezistas nos provocavam, exibindo os glúteos enquanto voavam de um trapézio para outro. Mas não me lembro de palhaço nenhum.

À medida que fui crescendo, fui desenvolvendo uma certa raiva pelos palhaços. Estou a exagerar: não foi raiva, foi mais desprezo. Não sou capaz de lhes achar graça. Não acho graça a nada: nem às roupas, nem à maquilhagem, nem às vozes, muito menos às palhaçadas. Tem alguma graça tocar violino num serrote, ou rebentar balões na cara uns dos outros, ou bater com um enorme martelo fingido na cabeça do palhaço rico? Só essa dicotomia do palhaço rico-palhaço pobre é, em si mesma, uma palhaçada de muito mau gosto.

Em tempos, tive um doente que era palhaço profissional. O seu nome artístico era Eirmilita e era um chato do caraças, coitado; contava sempre as mesmas piadas, consulta após consulta, enquanto a mulher (a Marianita), que era ilusionista, fazia sempre o mesmo truque de fazer desaparecer a moeda dentro de um lenço adequadamente ranhoso. O Eirmilta tinha 80 anos mas continuava a fazer alguns espectáculos, cada vez menos, contratado por Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia. Morreu numa camioneta, quando regressava de um desses espectáculos. Contou-me muitas vezes que, quando era novo, fazia espectáculos em casas particulares de médicos e advogados. Agora, anos depois do Eirmilita ter morrido, é outra vez moda contratar palhaços para as festas de aniversário dos meninos. Mas a coisa democratizou-se e até empreiteiros contratam palhaços paras as festas dos filhos. Uma doente da Mila, cujo marido é mestre de obras, contratou uma parelha de palhaços para o 5º aniversário do seu rebento. Foi um desastre. Todos os miúdos tiveram medo dos palhaços e desataram a chorar assim que os viram chegar.
Em Sesimbra, bateu-se um recorde do Guiness. No corso carnavalesco, desfilaram 2400 palhaços! Eu sei que esta informação é completamente inútil, mas pensem nela durante alguns segundos: por que razão se juntam mais de duas mil pessoas vestidas de palhaço nas ruas de uma vila tão simpática como Sesimbra?

Depois, importaram-se os corsos carnavalescos do Brasil, com meninas semi-despidas a balançar as nádegas (e não são trapezistas), ao som de sambas intermináveis e chatos. É como se os brasileiros, no 13 de Junho, fizessem desfiles de marchas populares, com manjericos e santos-antónios. Uma palhaçada! Imagino, por momentos, a Cláudia Vanessa, que trabalha na papelaria da esquina, em Torres Vedras, e que anda sempre de gola alta e calças compridas, a abanar as mamas na terça-feira de carnaval. Com que cara enfrenta ela os clientes, no dia seguinte? “O que deseja, Sr. Lopes?”, “Eu desejava vê-la, novamente, em biquini, como ontem...mas como não pode ser, dê-me um maço de Português Suave...”

Mas há que honrar as miúdas que desfilaram hoje, por esse país fora, em trajes reduzidos. Está um frio tão intenso que nem as unhas crescem.

Do carnaval só se aproveita o feriado – ou antes, a tolerância de ponto que, todos os anos, o senhor primeiro-ministro faz o favor de conceder a todos os funcionários da administração pública. A única excepção foi o Cavaco que, há uns anos, achou que a economia do país não estava para carnavais e não concedeu a tolerância. Perdeu as eleições, claro.

É que os portugueses, no fundo, não querem saber do carnaval para nada – mas não desculpam um feriado, caramba!

Sábado, 21
O M.I.SA.LO.CA.PRE.REP. VENCERÁ!
Está criado o Movimento para Impedir Santana Lopes de se Candidatar à Presidência da República!
Todos os portugueses inteligentes fazem parte deste Movimento, por inerência.

Todos os portugueses – mesmo que não sejam muito inteligentes – devem aderir a este Movimento, por uma questão de bom senso.

Imaginem, apenas por momentos, Santana Lopes como Presidente da República.
Já imaginaram?

É ou não é horripilante, terrível, assustador, achincalhante, preocupante, aflitivo, depressivo, horroroso, humilhante, triste?

Imaginem-no a receber os Presidentes dos outros países, com aquele cabelinho cheio de gel a escorregar sobre o colarinho do casaco, a careca a fugir para a nuca, cheio de sorrisos e salamaleques, a falar dos concertos para violino de Chopin, a convidá-los para um copo numa discoteca, com o mindinho espetado, a mostrar-lhes o túnel do Marquês e as restantes obras feitas por ele na Câmara de Lisboa (quais?...quais?...)

Imaginem Santana Lopes, como Presidente, a fazer a comunicações ao país, a realizar presidências abertas, a inaugurar, a discursar, a morar no Palácio de Belém!
Estão ou não estão assustados?

Claro que estão!
Portanto, juntem-se ao M.I.SA.LO.CA.PRE.REP. e impeçam o Santana Lopes de se candidatar à Presidência da República!

Todos os métodos são aceitáveis, incluindo a emigração em massa para Espanha!
Antes uma Monarquia castelhana do que uma República com Lopes como Presidente!

Domingo 15
Publicidade nos Telejornais
Os telejornais continuam a transmitir publicidade encapotada com a maior das naturalidades. Não há telejornal em que não apareça um treinador ou um jogador de futebol a comentar o jogo da véspera, a lesão do avançado ou o próximo jogo; habitualmente, as afirmações não têm qualquer relevância e não constituem notícia – tudo aquilo apenas serve como veículo publicitário para as marcas que rodeiam o fulano.

Atrás do jogador ou do treinador, um painel com uma série de marcas. À frente, sobre uma secretária, um microfone com uma placa do Banco Espírito Santo (que patrocina o Benfica, o Sporting e o Porto) e duas ou três garrafas, cuidadosamente colocadas com o rótulo bem visível: água do Luso, Coca Cola e Isostar. Em alguns casos, uma destas garrafas está até colocada num suporte, de modo a que o rótulo seja bem visível.
Isto é publicidade encapotada!

Mas há mais: ontem à noite, o telejornal da televisão do Estado, transmitiu uma reportagem sobre um concerto de Rui Veloso e de Sara Tavares, no Palácio de Cristal, no Porto. O repórter fez umas perguntas idiotas a ambos os artistas e, lá ao fundo, bem visível, um cartaz com a morada de um site sobre disfunção eréctil, que é uma doença dos ricos - os pobres têm falta de tesão... O concerto foi patrocinado pela companhia farmacêutica que lançou, recentemente, um novo medicamento nesta área. A empresa é a Lilly, o medicamento chama-se Cialis. Claro que o repórter não referiu nenhum destes nomes, mas não deixou de falar em disfunção eréctil. Também ontem, no Pavilhão Atlântico, o Abrunhosa deu um concerto para comemorar 10 anos de carreira, mas o telejornal nada disse sobre isso. Por que razão o telejornal decidiu escolher o concerto do Porto, e não o de Lisboa? Para a indústria farmacêutica, não há almoços grátis – qual terá sido a moeda de troca? Embalagens de Cialis para todos os repórteres da RTP?

Terça, 10
O reles João Semana
No Público da passada 6ª feira, Bernardo de Vasconcelos, do Colégio da Especialidade de Medicina Desportiva da Ordem dos Médicos, dizia que os médicos de família faziam, ilegalmente, os exames desportivos para os jovens praticantes de desporto federado das pequenas equipas. Que o ideal, seria o Estado fazer, por exemplo, acordos com os privados, no sentido desses jovens serem avaliados por especialistas em Medicina Desportiva, antes de poderem praticar desporto federado. O médico da selecção nacional de futebol, na mesma reportagem, dizia que os exames médicos desportivos eram algo de muita responsabilidade, que não devia estar entregue “a meros João Semana, mas sim a especialistas”!
Pois claro!

Vamos deixar os exames médicos desportivos dos jovens que querem praticar futebol nos Pescadores da Caparica, nos Canários da Charneca ou no Monte de Caparica, para os excelentes especialistas em Medicina Desportiva e, para os “meros João Semana”, deixamos o seguinte:

- diagnóstico e controlo dos diabéticos e hipertensos
- planeamento familiar de todas as mulheres em idade fértil
- rastreio do cancro do colo do útero e da mama
- cumprimento do Plano nacional de Vacinação
- seguimento de todas as grávidas que não sejam de risco (a imensa maioria)
- vigilância de todas as crianças
- despiste da tuberculose
- aconselhamento de estilos de vida saudáveis
- diagnóstico e tratamento de doenças cardíacas
- prevenção da osteoporose
- rastreio do cancro da próstata
- diagnóstico e tratamento das gripes, constipações, rino-faringites, bronquites, otites, diarreias, obstipações, lombalgias, gonalgias, omalgias, cervicalgias, enxaquecas, cefaleias em geral, piorreia, abcessos dentários, unhas encravadas, panarícios, conjuntivites e toda a sorte de maleitas de índole geral
- diagnóstico e tratamento de síndromas depressivos e ansiosos, crises de pânico, insónias, astenias, anorexias e outros males derivados aos nervos
- acompanhamento de doentes que queiram deixar de fumar, deixar de beber e/ou de perder peso
- cartas de condução, de caçador e de marinheiro
- atestados para frequentar a creche, a escola, o ATL e a universidade
- despiste de déficits de audição e de visão
- acompanhamento de doentes acamados, com deficiências diversas, doentes terminais com patologias oncológicas, sequelas de AVC, amputações, post-operatórios
- despiste de doentes com Parkinson, Alzheimer, demências várias
- certidões de óbito

A ordem desta lista (manifestamente incompleta) é arbitrária.
Mas o Dr. Camacho Vieira pode ficar descansado que os exames médicos desportivos, no que me diz respeito, foram já banidos da minha lista de trabalhos. De facto, não passo de um reles João Semana.

Ele que faça os exames médicos desportivos, que eu fico com o resto da Medicina. Toda!

Sexta, 6
Armas de masturbação maciça
Os agentes da CIA (Corporação de Iniciados Amblíopes) estiveram no terreno; vasculharam os quintais, os baldios, os descampados, as caves, os armazéns; palmilharam, esquadrilharam, esgaravataram e acabaram por encontrar alguns indícios reveladores: os iraquianos pareciam estar preparados para começar a pensar em, talvez, eventualmente, fabricarem uma ou outra arma de masturbação maciça.

A ameaça era evidente: milhares de infiéis, milhões de seguidores de Maomé poderiam, caso quisessem, caso Saddam ordenasse, inundar o mundo ocidental e cristão de armas perigosíssimas, capazes de provocar um orgasmo involuntário no mais pacato e ordeiro cidadão.

George Bush ficou compreensivelmente preocupado. Ele, um homem temente a Deus, nascido no Texas – terra natal de alguns dos maiores cristãos planetários – sentiu que o Mundo do Bem estava em perigo. Se o pérfido Saddam decidisse utilizar essas armas de masturbação maciça, poderíamos assistir ao triste espectáculo de cristãos onanistas a masturbarem-se em Oxford Street, nos Champs Elysées, ou mesmo na Park Avenue.

E então, num arroubo de internacionalismo cristão, chamou à sua Sala Oval o chefe da CIA (Companhia Internacional de Ambidextros) e pediu-lhe as provas: onde estavam essas armas de masturbação maciça. E o chefe da CIA (Congregação de Imbecis Anónimos) mostrou-lhe as provas. Para George Busch, as provas eram claras e inequívocas. Logo enviou um fax com as provas aos seus amigos Blair, Aznar, Durão Barroso e ao gajo da Austrália, cujo nome ninguém sabe (nem quer saber). Todos ficaram horrorizados. O nosso adorado líder, Sr. Barroso, imaginou logo centenas de fiéis, saindo da missa, com as calças manchadas de sémen, o Rossio pejado de cidadãos crentes, masturbando-se compulsivamente, a Praça da Figueira numa completa rebaldaria, o próprio Castelo de S. Jorge transformado num verdadeiro recinto masturbatório.
Era preciso fazer algo.

Foi então que todos – George Why Bush, Tony Blair, Aznar, Durão Barroso e o gajo australiano, cujo nome ninguém sabe, decidiram invadir o Iraque e bombardear aquilo tudo.
Foi um sucesso, como se sabe.

Só que, até agora, ninguém encontrou as famosas armas de masturbação maciça.
O chefe da CIA (Conferência de Ímpios Ambivalentes) diz que nunca disse que elas existiam, que apenas disse que elas poderiam existir e que George Who Bush é que quis acreditar que elas, de facto, existiam.
Por sua vez, George Bush, olha para o lado e assobia para o ar, como se não tivesse nada com o assunto.
Assim, como assim, o Iraque já está invadido.

A verdade, é que as famosas armas de masturbação maciça, de facto, existiam.
E onde estarão elas?

Obviamente, em poder de George Bush, Tony Blair, Aznar, Durão Barroso e do gajo australiano, cujo nome ninguém sabe.
Ainda não repararam no sorriso beatífico com que todos eles andam, ultimamente?...

 

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Actualizado em: 28 Fevereiro 2004
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