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O Coiso
Um dia destes...

Janeiro 2003:


| Zé Duarte na TSF | Quem é a Jacinta? | O frio que dá na televisão | Coisas que me irritam profundamente |Não nos apaguem os cigarros |
| Joselito Motherfucker
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Terça, 7
Zé Duarte na TSF
Ouvi hoje o Zé Duarte na TSF e gostei.
Ouvi, por mero acaso, a “Conversa pessoal e transmissível”, que a TSF transmite, diariamente, ao fim da tarde. Por vezes, oiço pedaços dessa conversa, a caminho dos domicílios. Hoje, ouvi aqui em casa, enquanto fazia a barba.
O Zé continua com o seu fino sentido de humor. Gostei.
A propósito do jazz. “Somos poucos, mas bons”, afirmou. Contou uma parábola: um jornalista foi fazer uma reportagem à ilha do Corvo. Decidiu falar com a pessoa mais velha. Fez bem. A entrevista foi interessante. No final, o velhote disse ao jornalista: “agora, volte para o Continente e não diga mal do Corvo. Também não diga muito bem, que nós gostamos de estar sozinhos...” Assim é com o jazz. O Zé disse que, em tempos, quis que o jazz fosse para todos – agora já não pensa assim. Espanta-se com o aumento do número de concertos de jazz, já que as pessoas continuam a não perceber nada do que se passa em palco. Fica admirado por todos os espectáculos terem “encore” – será que todos os concertos são assim tão bons que mereçam “encores”? Ele acha que não – pensa que é tudo uma questão de economia. Se uma pessoa paga 5 contos pelo bilhete, se o músico tocar 10 temas, sai a 500 paus cada tema; se tocar “encores”, o espectáculo sai mais barato. O entrevistador pergunta-lhe se sabe tocar algum instrumento, se sabe música. O Zé responde que, agora, já sabe responder a essa pergunta, graças à ajuda do José Mário Branco. Que não, que não sabe música, mas tem uma filha, a Rita, com 22 anos, que tem o curso de piano e dá aulas de solfejo, e outra filha, a Adriana, com 19 anos, que está em Berkeley, a estudar flauta. E eu lembrei-me que, nos idos de 1981/82, eu e a Mila ainda consultámos a Rita, então com 1-2 anos, com uma eventual rubéola, nos tempos em que eu escrevia para o Pão Comanteiga.
Há anos que não vejo o Zé Duarte. Não vou dizer que tenho saudades. Saudade é um daqueles sentimentos que, dizem, é tipicamente português, mas que eu nunca entendi muito bem. O Zé participou activamente numa parte importante da minha vida e penso que fomos amigos. No entanto, quando consegui perceber que a minha “missão” neste mundo não era escrever piadinhas para programas de rádio e televisão, senti-me “obrigado” a cortar amarras com toda a gente. Era difícil, para mim, viver em dois mundos, qualquer deles muito absorvente. E escolhi a Medicina.
Escolhi bem. Não estou arrependido. No entanto, é sempre com muito prazer que oiço o Zé Duarte e recordo os bons momentos que passámos juntos. Por exemplo: a tarde que passámos, em casa dele, a inventar uma espécie de “performance”, para dois actores, a partir da canção “Povo que lavas no rio”.
O que nós gozámos!
Agora, o Zé é professor na Universidade de Aveiro e vai doar todos os seus discos, vídeos, cartazes, livros, sobre jazz a essa Universidade. É uma escola com sorte! Senti que ele está entusiasmado com o projecto.
Longa vida, camarada Zé Duarte!

Quinta, 9
Quem é a Jacinta?
Mais domicílios após o almoço. Esta semana, decidimos descansar na tarde de quinta-feira, já que estivemos 12 horas de serviço no domingo, 2ª feira foi até às 19 horas, 3ª e 4ª feira foi até às 18, amanhã vai ser até às 22 horas. Apesar dessa decisão, não nos conseguimos safar de alguns domicílios.
Deixei a Mila no Bairro do Pica Pau Amarelo, para fazer o domicílio dela e segui para o bairro da Nossa Senhora da Conceição. No mesmo prédio, dois domicílios. No primeiro andar, consultei a Maria Luisa. Depois, não me atrevi a entrar no elevador, que tem sempre a luz fundida, os botões queimados com pontas de cigarro e outras surpresas; até já lá deparei com uma grande bosta de cão! Portanto, comecei a subir as escadas, em direcção à casa da Jacinta, que fica no 4º andar. No meu estômago, chocalhava alegremente a estupenda feijoada à transmontana do Sr. Martins, regada por meia garrafinha de Monte Velho, que dividi com a Mila, razão pela qual não subi as escadas tão depressa como habitualmente; mesmo assim, ultrapassei facilmente um velhote caboverdiano que, apoiado no corrimão e numa bengala, subia penosamente, degrau a degrau. De súbito, cheguei a um patamar e não conseguia saber se já estava no 4º andar ou ainda estava no 3º. Virei-me para baixo, para o velhote e perguntei: “Sabe-me dizer se é aqui que vive a Dona Jacinta?” Abanou a cabeça negativamente. “Mas sabe quem é a Dona Jacinta?”, perguntei novamente. Que não, não sabia quem era a Dona Jacinta. De uma das portas, surgiu uma negrinha que me informou que a Dona Jacinta era no andar de cima. Obrigado. Subi mais um andar e toquei à campainha do 4º esquerdo. Entrei e comecei a consultar a Jacinta, que sofreu um AVC severo e tem uma hemiparésia espástica. Alguns minutos depois, batem à porta; o companheiro da Jacinta vai abrir e eis que o velhote de há pouco entra, amparado na bengala. Informam-me que é o sogro da Jacinta. Viro-me para o velhote: “então o senhor não sabe quem é a Dona Jacinta?” E o casmurro do velhote, com a Dona Jacinta mesmo à frente dos seus olhos, continuou a abanar a cabeça negativamente e foi lá para dentro, ignorando a minha estupefacção. O companheiro da Jacinta sorria-se. E eu, para ele: “então o seu pai não sabe que a sua mulher se chama Jacinta?” Ele continuou a sorrir-se e encolheu os ombros.
Fiz como ele: encolhi os ombros também...

Terça, 14
O frio que dá na televisão
Está um frio de rachar, um tarau dos antigos, um barbeiro do caraças! Disto ninguém tem dúvidas. Mas, desta vez, o frio é mais genuíno porque dá na televisão, passa na rádio e aparece nos jornais. De facto, não me lembro dos órgãos de comunicação social terem dado tanto relevo às temperaturas do ar como agora. Ainda a vaga de frio não tinha cá chegado e já as rádios, as televisões e os jornais berravam que vinha aí um frio árctico de congelar as orelhas. Na sexta-feira passada – ainda o frio não tinha chegado a sério – e já toda a gente falava disso, como se nunca tivesse havido frio antes. “Vem aí uma vaga de frio!”, “Já morreram não sei quantas pessoas na Polónia!”, “Coitadinhos dos sem abrigo!” Eis algumas exclamações que se ouviam com frequência. Como se nunca tivesse havido frio, nunca ninguém tivesse morrido de hipotermia na Polónia e nunca tivessem existido sem abrigo. Ontem e hoje esteve, com efeito, muito frio. E, no entanto, os recordes não foram batidos. Segundo os registos do Instituto de Metereologia, em Lisboa, estiveram 2 graus positivos e o recorde é de 0,4 negativos, sentido há alguns anos. No entanto, só agora vi notícias sobre as estações do Metro que ficam abertas durante a noite para acoitar os sem abrigo, entrevistas de rua sobre o frio, responsáveis da Câmara a falar sobre as iniciativas de recolha de cobertores e alimentos, informações sobre os consumos de energia e outras coisas que só demonstram que os órgãos de comunicação social se querem apropriar até da própria realidade. Como, neste momento, o caso da pedofilia na Casa Pia já passou, o processo da Universidade Moderna se arrasta sem grandes sensações, o défice das contas públicas está ultrapassado e não surge mais nenhuma bronca que mereça as parangonas, noticia-se o frio, como se fosse novidade.
Entretanto, cá por casa, está mesmo um frio do caraças e, se não fosse o estupendo ar condicionado que instalámos há dois anos, estaríamos a bater o dente. No nosso quarto, a temperatura ambiente é, à noite, de 12 graus. Uma hora depois de ligado o ar condicionado, sobe timidamente para os 14 graus o que, no entanto, permite que nos deitemos com algum conforto...
Agora, é só esperar que os órgãos de comunicação social comece a anunciar que a temperatura está a aumentar, para podermos tirar os cobertores da cama...

Sábado, 18
Coisas que me irritam profundamente
* Abrir as embalagens do comprimidos sempre pelo lado onde está a bula.
Solução: colocar um aviso – deste lado está a bula!

* Nunca conseguir tirar facilmente o celofane que cobre os cd’s.
Solução: alguém precisa da merda do celofane?

* Reuniões de condóminos.
Solução: entregar a administração do condomínio a uma empresa.

* Ouvir o Cavaco Silva a falar.
Solução: não ouvir o Cavaco Silva falar.

* Críticos de cinema, música, literatura, que não são capazes de dizer, simplesmente, se gostaram, ou não, do filme, disco ou livro.
Solução: exterminá-los.

* Os testes da DECO, que nunca escolhem como melhor opção de compra as coisas que se está mesmo a ver que são as melhores.
Solução: deixar de dar subsídios à DECO.

* Programas da área da Saúde Pública/Assistência Social para mães jovens, delinquentes juvenis, educação sexual, promoção da saúde, etc, etc.
Solução: arranjar um programa para os que inventam esse programa e levá-los aos sítios, para eles verem as realidades.

* Reuniões de condóminos, novamente.
Solução: nunca mais ir a nenhuma; delegar, pagar, estar sempre de acordo com maioria mas nunca, nunca mais ir a nenhuma!

* Especialistas em geral. Empregados bancários que sabem tudo de electricidade; empregados de balcão que opinam sobre canalização, betumagem e recolha de resíduos; alfaiates que são peritos em ligações à terra, gestão de dinheiros públicos e neurocirurgia; jornalistas que dão palpites sobre geoestratégia, ogivas nucleares, paragens cardíacas e luta contra o cancro; especuladores imobiliários que têm ideias sobre desemprego, crises económicas, fiscalidade e pedofilia.
Solução: ignorá-los!

Sexta, 24
Não nos apaguem os cigarros!
Está bem, estou de acordo, é proibido fumar nos transportes públicos, nos recintos desportivos fechados, nas salas de espectáculo. Começa a ser habitual olharem-nos de lado, quando fumamos num restaurante. Os fumadores estão, definitivamente a ficar fora de moda – o que é natural, já que somos uma espécie em vias de extinção. Não me revolto. Vivo há 30 anos com uma fumadora e, cá em casa, fumo à vontade e ninguém me chateia. Mesmo assim, quando os meus filhos cá vêm, tenho mais cuidado e procuro fumar menos ou ir para outra sala cacilhar. Aturo isso tudo, compreendo e não faço ondas. Podem até aumentar o preço do tabaco, subirem-lhe estupidamente o imposto, cobrirem o rótulo com promessas de cancro, insuficiência respiratória e catástrofes cardiovasculares.
Podem fazer tudo isso mas, por favor, não apaguem os cigarros da História!
Então não é que nos Estados Unidos (onde é que havia de ser?!) foram re-editados posters com a famosa capa do “Abbey Road”, dos Beatles, aquela em que os quatro vão a atravessar a rua dos estúdios da Apple, em Londres, em que o Paul Mccartney já não tem o cigarro na mão! Para quem não se lembra bem da capa, a sequência é a seguinte: à frente vai o Lennon, de fatinho branco e fartíssima cabeleira e barba, segue-se o Ringo, de fato preto, depois vem o McCartney, descalço e cigarro na mão direita e, a fechar, o Harrison, todo de ganga. Pois os sacanas dos americanos apagaram da foto o cigarro do McCartney!
Claro que isto já não é inédito. Em França, fizeram um selo com uma famosa foto do André Malraux, com o cabelo ao vento e o cigarro ao canto da boca; só que o cigarrito desapareceu. Nos EUA, fizeram também um selo do pintor Jackson Pollock, que andava sempre de cigarro na boca mas que, para a estampilha, ficou sem cigarrete! Isto, para já não falar do pobre Lucky Luke que, a partir de 1983, em vez da beata ao canto da boca, passou a usar uma palhinha...
Onde é que eu já vi isto?
Na União Soviética, dos tempos de Lenine e Estaline, pois claro! Todas as fotos em que o Trotsky aparecia ao lado do Lenine foram convenientemente retocadas, de modo a que o fundador do trotsquismo desaparecesse.
Assim, também o McCartney, o Malraux, o Pollock e o Lucky Luke passam à História como não fumadores.
Por favor, não nos apaguem os cigarros da História!

Joselito Motherfucker
Quando eu tinha para aí 10 anitos, ia com a minha mãe ao Ódeon ver os filmes do Joselito – um espanholito da minha idade que cantava muito bem, tão bem que até o apelidavam de rouxinol. Claro que ele era pobrezinho, mas feliz – como todos os pobrezinhos da Espanha de Franco e do Portugal de Salazar. Os argumentos dos filmes batiam nas mesmas teclas: Joselito vivia num bairro pobre de um cidade qualquer de Espanha, era ardina ou outra coisa do género (nesses tempos não se falava em trabalho infantil), e abrilhantava as ruas com a sua voz de rouxinol; depois havia sempre um velhinho doente ou uma menina paralítica a quem Joselito ajudava, graças às massas que acabava por ganhar, quando um senhor rico e influente descobria o seu talento vocal.
Intervalo para vomitar.
Muitos anos depois, li não sei onde que Joselito se transformara num toxicodependente e não sei se é vivo ou morto. Também existia uma versão feminina do Joselito, chamada Marisol.
E parece que estes fenómenos são recorrentes: agora temos um tipo chamado Eminem, rapper, branco, de origens humildes, filho de uma mãe que ele odeia porque nunca lhe ligou pevide e era viciada em drogas e alcoólica. O tal Eminem (que até tem umas canções giras) entra agora num filme mais ou menos autobiográfico, chamado “8 Mile”, que está a ser um sucesso. Parece que o argumento, com as devidas diferenças, se assemelha aos filmes do Joselito, só que em estilo “motherfucker”. Ontem, no Fórum, onde fomos ver o “Analyze That”, havia uma fila interminável de teen-agers a comprar bilhetes para o “8 Mile”. Foi engraçada ver jovens de 10-12 anos, escanzelados, com calças largueironas, a cairem para os pés, sweat-shirts descuidadas, bonés com a pala para trás, ténis enormes, com os atacadores desapertados, todos ansiosos por ver a primeira aventura do Joselito Motherfucker, vulgo Eminem.
Mudam-se os tempos...

 

 

 

 


 




Actualizado em: 31 de Janeiro 2003
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