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O Coiso
Um dia destes...

Julho 2003:


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Domingo, 27

Comentários ao Coiso
O Coiso está na net há mais de 3 anos e, de vez em quando, recebo, via e-mail, comentários ao site, alguns bem curiosos.

Foi graças ao Coiso que recebi, finalmente, notícias de amigos com os quais tinha perdido contacto há muito tempo – caso do Zé Tó Pinheiro, do Helder de Sousa e do Barradas, por exemplo.

Uma portuguesa, a residir na Alemanha, enviou-me um mail, agradecendo-me por publicar as minhas memórias na net e dar-lhe a oportunidade de “revisitar” locais e tempos da sua juventude.

Um português, a residir no Brasil, enviou-me um mail recordando os tempos em que, também ele, fazia patinagem na sede do Benfica, na Gomes Pereira.

Tenho recebido muitos mails a propósito dos textos do Pão Comanteiga, o que é natural, já que o programa tinha uma larga audiência.

De vez em quando, recebo alguns mails provocadores, o que também acho normal.

Mas, recentemente, recebi dois mails perfeitamente desajustados e que merecem alguns comentários, apenas porque me apetece (esta é, verdadeiramente, a grandeza da net e das páginas pessoais – o apetite!).

Há cerca de duas semanas, o presidente Lula, do Brasil, esteve em Portugal, em visita oficial. Peguei numa foto de Lula e Durão e, aproveitando o facto do 1º ministro português ter sido comparado, pela própria mulher, ao cherne do poema de O’Neil, coloquei um balão, na foto, em que Durão perguntava: “Lula, ali é o Oceanário... quer ir visitar os familiares?” E Lula respondia: “Também tem lá chernes, cara?”
Piada um pouco infantil, confesso. Mas enfim...

Logo no dia seguinte, tinha um mail de uma tal Lavínia (brasileira, claro!), a dizer que o “o post no seu blog de 13 de Julho é ridículo”. Respondi-lhe: “ridículo, mas é verdade; e o Coiso não é um blog”. Respondeu-me, dizendo que eu tinha uma mente muito pequenina e perguntando por que razão eu dizia que o Coiso não era um blog. Respondi-lhe que, mais uma vez, ela tinha toda a razão: a minha mente era minúscula, sobretudo quando comparada com a dela, que era enorme – e, quanto ao facto de o Coiso não ser um blog, expliquei-lhe que o Coiso é meu e não é um blog porque não me apetece que o seja. Enviou-me mais um mail, indicando-me moradas de sites brasileiros só com anedotas sobre portugueses... Paciência...

Na semana passada, escrevi um comentário sobre os 10 livros mais vendidos, em Lisboa, nas livrarias do DN. Entre os 10 títulos mais vendidos, figuram dois livros sobre nutrição/como perder peso/alimentação saudável/whatever – um, da Isabel do Carmo e outro de Paula Veloso. Limitei-me a dizer que este tipo de livros surgem sazonalmente, numa altura em que muita gente gostaria de perder peso para fazer melhor figura na praia e que Paula Veloso era apresentada, pelo menos nos jornais que li, como irmã de Rui Veloso.

A senhora enviou-me um mail devastador, em que me chama de pseudo-intelectual, um dos cancros do nosso país, que critico livros sem os ler e outras enormidades do mesmo quilate. Respondi-lhe, simplesmente, que tinha ficado muito zangada por tão pouco, mas que ficasse descansada porque o meu peso na opinião pública é igual a zero, não passo de um mero médico de família, com 25 anos de experiência.
Estes dois mails são sintomáticos.

Ora bem, como é que a Lavínia e a Paula Veloso descobriram um site tão obscuro como o meu Coiso, um site que tem pouco mais de 60 mil visitas em mais de 3 anos, que não vem noticiado nos jornais e revistas e que é apenas visitado por familiares e amigos e, quando é visitado por “estranhos”, isso acontece por acaso?

A semana passada, recebi um e-mail de uma epidemiologista (?) que andava a navegar na net, procurando coisas sobre a nova receita médica quando deu com o Coiso – porque também eu fiz alguns comentários ao novo modelo de receituário. Ao encontrar o Coiso, decidiu dar uma vista de olhos e gostou. O tal português a residir no Brasil, descobriu o Coiso porque pesquisava na net coisas sobre o Livramento, jogador de hóquei a quem me refiro nas minhas memórias. Todos os mails que recebo, referem que o Coiso foi encontrado por acaso. No caso da Lavínia e da Paula Veloso, também assim aconteceu, de certeza – só que a Lavínia devia andar a pesquisar coisas sobre a visita de Lula a Portugal e a Paula Veloso coisas sobre o seu livro. E aí, ambas depararam com o pobre do meu Coiso e vai de ficarem escandalizadas com as minhas opiniões que, em ambos os casos, nem opiniões são: no caso do Lula, é uma simples brincadeira (infantil, repito, com o nome do senhor), no caso do livro da Paula Veloso, sobre o simples facto (indesmentível!) de, nesta época do ano, ser habitual as editoras porem cá fora livros sobre nutrição/dietas.
Os tipos que se dão ao trabalho de visitar os sites dos outros, lê-los e , depois, fazer comentários sobre eles, merecem todo o meu respeito. Não sei como têm pachorra para isso. Cá por mim, dou-me ao trabalho de manter o meu Coiso na net porque me dá gozo e porque isso vem na sequência do que sempre fiz, desde miúdo, desde os tempos da instrução primária, em que fazia jornais de edição única, que depois vendia à minha mãe e à minha avó. Mais tarde, no fim da adolescência, juntamente com a Mila e o Zé, escrevi livros, que encadernava em edições únicas, para todos lermos. A seguir, vieram as cartas (para o Zé e Mizé, para o Mário-Henrique, para o Rui Lemus, para os Sousas, para os meus irmãos, para o Jorge e Luisa), enviadas de Moimenta da Beira e de Mourão, e para Mila (enviadas durante a recruta nas Caldas). Os livros que escrevi e publiquei, e que o Pedro ilustrou, vêm nessa linha: histórias que vou colhendo na minha prática clínica e que se destinam a ser lidas, apenas, por médicos. Mesmo os textos que escrevi para o Pão Comanteiga, e não só, eram, no fundo, para ser lidos no seio da equipa – e dava-me muito gozo quando, nas reuniões semanais, via o Carlos Cruz, o Zé Duarte ou o Zambujal, rirem-se dos meus trocadilhos e jogos de palavras. Isso era o mais importante. Claro que, depois, os meus textos eram difundidos pela rádio ou pela televisão, mas esse facto já não era o mais importante. Aliás, só muitos anos depois me apercebi da verdadeira dimensão do “fenómeno” Pão Comanteiga. Nos tempos do Coiso, em papel, o maior gozo era em minha casa, a fabricar aqueles textos malucos, com o Zé e, depois, no República, quando todos nos ríamos com as macacadas que inventávamos, eu e o Zé, o Rui, o Mário, o Álvaro e o Barradas.

Quando surgiu a hipótese de ter uma página na net, não hesitei – era outro veículo para escrever o que me apetecesse, sobretudo para ser lido pelos amigos, pelos Sousas, pelos meus filhos e ponto final.

Claro que sei que, ao colocar o que escrevo na net, estou a expor esses textos e eles serão lidos, potencialmente, por toda a gente. Paciência... Não é esse o meu objectivo, mas, no fundo, não me faz diferença. Estou, apenas, a registar o facto.

A coisa ficou pior com o incremento dos blogs. Hoje mesmo, a Lúcia Guimarães (uma brasileira radicada em Nova Iorque que, semanalmente publica uma coluna no DN), fala dessa loucura dos blogs. Diz ela:

“Se Grouch Marx estivesse entre nós, imagino que ele abriria uma excepção ao seu desprezo por clubes que lhe aceitassem como sócio. Groucho poderia ser sócio fundador do MSB, o Movimento dos Sem Blog. O MSB ainda não foi fundado mas é apenas uma questão de tempo. Afinal, não há vida inteligente fora da blogosfera.”

E acrescenta:

“Na noite passada, comecei a fazer uma lista mental das experiências que não tive. Não li Ulisses. Só li o primeiro canto dos Lusíadas na escola secundária e não sou mais capaz de ir além da Taprobana, se me pedirem para citar de cor. Não visitei as ruínas de Petra nem assisti a uma montagem da Flauta Mágica. Nunca aprendi a me equilibrar de rollerskate (...). A lista é interminável e pode me levar à melancolia crónica. E, enquanto tento me consolar com a brevidade da existência, sou objecto de uma ofensiva de alistamento para acessar weblogs, ou blogs. O blog vai extinguir a profissão de psicoterapeuta.”

E continua neste tom, para se referir à loucura nova-iorquina em redor dos blogs. Eu faço ideia!... Pois se, no nosso pequeno país já todo o pateta tem o seu blog, imagino como será nos States!...

O mesmo DN, no seu DNA, já se dá ao trabalho de publicar, semanalmente, citações de diversos blogs.

Isto é, na minha perspectiva, o contrário do espírito das páginas pessoais, dos diários na net, ou do que lhe quiserem chamar. Estas coisas (como o Coiso) são para estar sossegadinhas na net, apenas para gozo (raiva, fúria, amor, ódio) de meia dúzia de pessoas – não são para divulgar nos órgãos de comunicação social tradicionais, não servem para influenciar a opinião pública, não se destinam a minar as instituições, a alimentar polémicas ou fazer cair governos. Em breve assistiremos, em Portugal, àquilo que, segundo L. Guimarães, já se passa em Nova Iorque: vernisages para assinalar o lançamento de um novo weblog do famoso escritor/jornalista/deputado/jurista/economista Fulano de Tal.

É por isso que a Dona Lavínia e a Sra. Paula Veloso não precisavam dar-se ao trabalho de me enviarem mails tão furiosos com aquilo que escrevi.

Senhoras: isto não tem importância nenhuma! É apenas uma brincadeira, um gozo pessoal, íntimo...

E mantenho: Lula é um gastrópode que, por acaso, chegou à presidência do Brasil.

E repito: nesta época do ano é habitual as editoras publicarem livros sobre dietas/alimentação saudável e sim, é verdade, não li o livro de Paula Veloso – e, já agora, não tenciono lê-lo, embora não tenha nada contra; só que não tenho pachorra... há uns meses atrás, a Mila bem me tentou “obrigar” a ler o mais recente livro do Emílio Peres, o decano português da Alimentação Saudável, e não conseguiu convencer-me...

Bom, até parece que fiquei muito chateado com o mail da P. Veloso. Estejam descansados que não é isso... Esse mail apenas me serviu de apoio a este texto que, de qualquer modo, já estava com vontade de escrever, a propósito dos blogs e da malta que tem paciência para visitar as páginas pessoais na net, lê-las e, ainda por cima, enviar comentários aos autores – quer a aplaudir, quer a criticar. Sobre este facto, não tenho nada contra ou a favor – apenas me espanto. Como leitor assíduo de jornais, quase diariamente me exalto com alguns artigos, calinadas no português, inexactidões, etc, etc; nomeadamente, no campo da Saúde, é confrangedora a ignorância da maioria dos jornalistas. Hoje mesmo, a propósito da estabilização da taxa de mortalidade neo-natal (pela primeira vez, nos últimos dez anos, esta taxa não baixou, em Portugal), ouvi e li diversas barbaridades, sobretudo, a confusão entre mortalidade neo-natal e mortalidade infantil. Mas, enfim, não tenho pachorra para escrever um mail à RTP, outro ao DN, outro ao Público, chamando-lhes a atenção para aqueles erros. Não me apetece – só isso. Portanto, sempre que recebo um mail daqueles, fico espantado e sai-me aquele comentário, provavelmente, de quem não percebe bem o que se está a passar por esse mundo fora: estes gajos não têm mais nada que fazer?!

A menos que, a eles, lhes dê tanto gozo a comentar o que escrevo como me dá, a mim, escrevê-lo...

Mick Jagger tem 60 anos
Foi ontem que o vocalista da “maior banda de rock and roll do mundo” completou 60 anos. O mínimo que se pode dizer de um tipo que desde os 16 anos, anda metido numa vida de “sex, drugs and rock’n’roll” e que chega aos 60 anos e os comemora com um concerto de duas horas, em Praga – o mínimo que se pode dizer é que o tipo tem uma resistência do caraças!

Quantas bebedeiras, quantos chutos de heroína, quantas snifadelas de coca, quantos cigarros, quantos companheiros e companheiras de sexo desprotegido, quantas noitadas – que “quantidade” de vida desbragada aguentou já este gajo?

Qual é o seu segredo? alguém lhe perguntou.

Jagger respondeu, simplesmente: “uma alimentação saudável e não abuso das drogas e da bebida”. Não abuso das drogas? Não abuso da bebida? Então, isto quer dizer que o fulano continua a drogar-se e a beber, mas com moderação?...

Um resistente, este tipo!...

Não matem o Saddam, por favor!
Esta semana, o exército norte-americano, graças a uma denúncia, descobriu os dois filhos do Saddam e, após intenso tiroteio, matou-os. Posteriormente, as autoridades norte-americanas exibiram os corpos, quais troféus de caça, e permitiu que os jornalistas filmassem e fotografassem. O mundo pôde, assim, ver os corpos de dois homens, crivados de balas e barrados de sangue e comprovar que os dois filhos do “carniceiro de Bagdad” estavam, de facto, mortos. Para que não restassem dúvidas nas mentes dos mais cépticos, foram também mostradas radiografias e fichas dentárias dos dois homens.

A população, em Bagdad (os “iraqui people”, como lhe chamam os americanos) exultou: os filhos do ditador estavam mortos! E, como é costume, vieram par as ruas festejar, dando tiros para o ar. Resultado: 31 mortos, vítimas das balas perdidas nos festejos.

Por isso, peço, humildemente, aos americanos que, por favor, não apanhem o Saddam. Se isso acontecer, os festejos poderão provocar a extinção do “iraqui people”!...

Domingo, 20
Os livros mais vendidos
O DN publicou ontem a lista dos 10 livros mais vendidos em Lisboa, nas Livrarias Diário de Notícias. Esta lista revela a insanidade que vai por aí...

Em primeiro lugar está o primeiro romance do Miguel Sousa Tavares, “Equador”. Não faço comentários porque não li o livro, apenas algumas críticas, todas favoráveis. Admito que seja um bom romance mas duvido que estivesse em primeiro lugar nas vendas se não fosse a promoção que o autor obtém pelo simples facto de ser uma figura pública, aparecer com frequência na televisão, escrever uma crónica semanal no Público e, portanto, ter muitos amigos que podem fazer a diferença.

Portanto, o primeiro lugar é aceitável. No entanto, daí para baixo é quase tudo uma desgraça.
Vejamos.

Em segundo lugar está “José Mourinho”, da autoria de um tal Luis Lourenço. Quem é José Mourinho? Para que fique registado, é um treinador de futebol. Carreira: adjunto de Robson no Barcelona, treinador do Benfica durante uns meses, do União de Leiria em 2001-2002 e do Porto, em 2002-2003, época em que foi campeão nacional, ganhou a taça de Portugal e a taça UEFA. Isto dá para escrever um livro? Dá. E para vender assim tantos exemplares, de modo a que ocupe o 2º lugar de vendas? Sim.
Sem comentários.

Em 3º lugar vem uma coisa chamada “Não há lugar para divorciadas”, de Francisco Moita Flores. O título diz tudo. E quem é FMF? Foi investigador da PJ durante uns anos e, depois, tornou-se autor de telenovelas e “especialista” em criminologia. Sempre que há um caso que envolva crimes, lá surge FMF, nas televisões, a cagar sentenças. Isso faz vender livros? Faz.

Em 4º lugar está o senhor que, escrevendo em português, vende mais livros no mundo inteiro: Paulo Coelho e o seu novo livro “Onze Minutos”. Say no more...

Em 5º lugar, Nicholas Sparks e “Laços que perduram”. Há sempre um Konsalik ou um Robbins nos Top Ten...
Os dois lugares seguintes são ocupados por livros largamente noticiados em tudo o que é revista e jornal e que estão directamente relacionados com a mania de perder peso na época estival. Isabel do Carmo escreveu “Porque não consigo parar de comer” (e ela deve saber bem porquê, já que continua gordinha, apesar do PRP-BR e da prisão...) e Paula Veloso publicou “Dietas sem dieta”, com a enorme vantagem de ser apresentada, convenientemente, como a irmã de Rui Veloso.

Em 8º lugar vem um outsidder, que nada tem a ver com os restantes: “A Vida de Pi”, de Yan Martel, vencedor do Booker’s Prize. É verdade que também tem sido alvo de uma boa campanha, por parte dos jornais e revistas. O autor é simpático e comunicativo, esteve em Portugal por altura da Feira do Livro e tudo isso deve ter ajudado à promoção do livro. Comprei-o, exactamente, na Feira, mas ainda não li; no entanto, cheira-me que se trata de um romance interessante; depois se verá...

Em 9º lugar, “O meu país inventado”, de Isabel Allende, que é aquele tipo de escritora (de quem nunca li nada), que vende tudo o que publica porque sim.

No último lugar deste Top Ten, uma jóia da literatura portuguesa: “Absolutamente Tias”, da nóvel escritora Ana Bola! Quem diria! Lembro-me bem, quando escrevia aqueles textos de merda para os programas televisivos do Júlio Isidro e quando a Ana Bola e a Maria Vieira ainda conseguiam que eles ficassem piores do que já eram! Claro que eu é que estava errado e elas é que estavam certas – eu tinha a mania que conseguiríamos implantar, nos programas de entretenimento televisivo algo de vagamente semelhante ao non sense dos Monty Python e elas já tinham percebido que o que o público gostava era de frases como “cheiras mal”, ou bocas que metessem “chi-chi e cocó”. Claro que, com o desenvolvimento da sociedade televisiva portuguesa, as referidas actrizes, hoje em dia, já dizem “merda” com total à vontade. Evoluiram, e eu retirei-me, reduzindo-me à minha insignificância de médico de clínica geral. E agora, isto: Ana Bola está no Top Ten dos livros mais vendidos!

Cito – mais uma vez – o Mário-Henrique: isto é mesmo um fartar de rir!

Domingo, 13
As paneleirices do defeso
Os jornalistas desportivos adoram paneleirices. Sem ofensa, claro. Conheço paneleiros que são gajos porreiros e não perdem tempo com paneleirices!

Agora, que não há jogos de futebol, que estamos na chamada época do defeso, os três jornais desportivos diários (três!!!) e os noticiários televisivos e radiofónicos, mais as muitas páginas diárias que os jornais generalistas dedicam ao futebol, há que encher o papel e o éter com alguma coisa. Então, inventam-se paneleirices. E as notícias do futebol ficam ao nível das revistas de mexericos, tipo Caras, Lux e quejandas.

O Benfica está a estagiar em Qualquer-Coisa-de-La-Frontera, no sul de Espanha. Todos os dias ficamos a saber que está por lá muito calor e que os rapazes ficam exaustos e muito suados e que os músculos se ressentem e que dura é a profissão de futebolista! Vejam lá que o Quaresma, aquele cigano que era do Sporting, até só vai ganhar cerca de mil contos por dia em Inglaterra! Mil contos por dia! O que eles sofrem, coitados! Será que a Manuela Ferreira Leite também os obriga aos pagamentos especiais por conta? Em caso afirmativo, é uma injustiça, caramba! Eu, por exemplo, que não passo de um médico de clínica geral da merda, que ganho pouco mais que 25 contos por dia e que, no mês passado, graças ao subsídio de férias, paguei apenas cerca de 800 contos de impostos (retenção na fonte, não há como fugir...), já fui pagar o meu primeiro PEC, não vá eu enganar o fisco, recusando-me a receber o ordenado ou indo ali à secção de pessoal, ameaçar a funcionária que me processa o vencimento e obrigá-la a não reter porra nenhuma na fonte! Mas compreende-se que isso me aconteça – sou um reles médico, não possuo um táxi ou um camião TIR para atravessar nos acessos a Lisboa, nem sou atleta de alta competição, ninguém me obriga a treinar no sul de Espanha com aquele calor, apenas sou obrigado a consultar 30 a 40 pessoas por dia, a mexer em sovacos, pés e barrigas mal lavadas, a fazer domicílios em espeluncas inenarráveis, debaixo de um sol impiedoso e não tenho a mais pequena hipótese de ser transferido para o Serviço Nacional de Saúde inglês por 12 milhões de euros...

Pois os futebolistas do Benfica lá estão a treinar e fizeram uma votação para saber quem iria ser o capitão da equipa na próxima temporada. Helder foi o eleito, mas Simão Sabrosa ficou magoado e não compareceu no treino dois dias seguidos, disseram que era uma lesão no joelho, mas o rapaz estava era zangado porque não tinha sido escolhido para capitão e o Álvaro Magalhães, adjunto do treinador Camacho, que foi contratado para cumprir a mística do Benfica, porque ele próprio foi um lateral direito do velho Benfica, chegou ao balneário e viu que essa mística já não era a mesma, porque antigamente só havia jogadores portugueses e agora há-os de várias nacionalidades, mas não se quis pronunciar sobre a questão da eleição para capitão! Porra de paneleiros! Que interessa é que tem esta merda? O que é isto se não mexericos reles? O que estão a fazer, no sul de Espanha, não sei quantos jornalistas desportivos, a acompanhar o estágio do Benfica? A ver quem enraba quem? A ver quem falta ao treino porque, na noite anterior, foi para a cama com? Quem está zangado com quem? Quem sua mais?
Paneleirices!...

Sábado, 12
Uma questão de anilhas
O Sr. Luis é aquilo a que se chama um verdadeiro pintas. Rosto quadrado, que parece ter sido talhado, à pressa, com escopro e martelo, a partir de um bloco de granito; barba cerrada, daquelas que começa logo por baixo dos olhos e só termina nos tornozelos; voz rouca e gutural; maço de tabaco no bolso da camisa e pente no bolso de trás das calças.

O Sr. Luis gosta da pinga e embebeda-se com regularidade desde tenra idade; quanto ao tabaco, diz que começou a fumar na tropa e nunca mais parou e uma maço não lhe chega até à hora do jantar.

Desde há dois anos que as aurículas do Sr. Luis fibrilham que nem as asas de uma borboleta e no ano passado esteve internado no hospital com uma descompensação cardíaca que o ia obrigando a deixar de fumar. Deixar de fumar, de beber, de comer – deixar de ser...

Lá se safou, com alguma dificuldade e, após cerca de uma semana de bom comportamento, voltou ao mesmo.
Foi ontem à minha consulta, depois de uma longa ausência; queixava-se de uma dor no peito, aqui mesmo do lado esquerdo, em cima do coração, que depois vai para as costas - parece que tenho aqui um peso de cinco toneladas no peito e uma faca espetada nas costas, dizia o Sr. Luis, enchendo bem os esses, fazendo-os parecer cê-agás.
Observei-o e, ao carregar-lhe nas articulações condro-costais, na região précordial, o Sr. Luis quase que deu um salto com a dor.

- Não me parece que essa dor seja do coração – disse-lhe. – Você não fez algum esforço ou deu algum jeito? – perguntei.

- Eu vou contar ao doutor o que aconteceu... – respondeu o Sr. Luis. – Eu e o meu genro fomos ao supermercado comprar uma bicha para o autoclismo, que estava avariado e precisávamos também de quatro anilhas, mas lá no supermercado só havia caixas com cem anilhas. Então, o meu genro vai de tirar duas anilhas duma caixinha e outras duas de outra caixinha! Eu ainda lhe disse é pá olha que os gajos vêem tudo pelas câmaras, mas o gajo não me ligou nenhuma!... A gente pagou e quando já nos vínhamos embora, vieram dois seguranças daqueles matulões, agarraram-se a nós e algemaram-nos! Já tenho 60 anos e nunca tinha algemado na minha vida! Levaram-nos lá para um cubículo e deram uns sopapos no meu genro e foi muito bem feito, que o gajo não tinha nada que palmar as anilhas! E tivemos que pagar as duas caixas!...

O sintoma do Sr. Luis estava, assim, esclarecido. O segurança, ao torcer-lhe o braço para o algemar, provocara-lhe a dor condro-costal.

Tudo por causa de quatro anilhas...

Em compensação, o Sr. Luis e o genro possuem, agora, 196 anilhas e não sabem o que hão-de fazer com elas...

 

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Actualizado em: 31 Julho 2003
O MELHOR DO PÃO COMANTEIGA
Textos seleccionados do Pão
CROMOS DO COISO
Cromos antigos para a troca e sites recomendados

O MELHOR DO PAU DE CANELA
Textos selecionados deste jornaleco de 1985

HISTÓRIAS POUCO CLÍNICAS
...mas muito cínicas
O MELHOR DO UMA VEZ POR SEMANA
Textos seleccionados deste programa sexual de 1986

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