Julho
2003:
| Comentários
ao Coiso | Mick Jagger tem 60 anos
| Não matem o Saddam, por favor!
| Os livros mais vendidos | As
paneleirices do defeso | Uma questão
de anilhas |
Domingo, 27
Comentários
ao Coiso
O Coiso está na net há mais de 3 anos e, de
vez em quando, recebo, via e-mail, comentários ao
site, alguns bem curiosos.
Foi graças ao Coiso que recebi, finalmente, notícias
de amigos com os quais tinha perdido contacto há
muito tempo – caso do Zé Tó Pinheiro,
do Helder de Sousa e do Barradas, por exemplo.
Uma portuguesa, a residir na Alemanha, enviou-me um mail,
agradecendo-me por publicar as minhas memórias na
net e dar-lhe a oportunidade de “revisitar”
locais e tempos da sua juventude.
Um português, a residir no Brasil, enviou-me um
mail recordando os tempos em que, também ele, fazia
patinagem na sede do Benfica, na Gomes Pereira.
Tenho recebido muitos mails a propósito dos textos
do Pão Comanteiga, o que é natural, já
que o programa tinha uma larga audiência.
De vez em quando, recebo alguns mails provocadores, o
que também acho normal.
Mas, recentemente, recebi dois mails perfeitamente desajustados
e que merecem alguns comentários, apenas porque me
apetece (esta é, verdadeiramente, a grandeza da net
e das páginas pessoais – o apetite!).
Há cerca de duas semanas, o presidente Lula, do
Brasil, esteve em Portugal, em visita oficial. Peguei numa
foto de Lula e Durão e, aproveitando o facto do 1º
ministro português ter sido comparado, pela própria
mulher, ao cherne do poema de O’Neil, coloquei um
balão, na foto, em que Durão perguntava: “Lula,
ali é o Oceanário... quer ir visitar os familiares?”
E Lula respondia: “Também tem lá chernes,
cara?”
Piada um pouco infantil, confesso. Mas enfim...
Logo no dia seguinte, tinha um mail de uma tal Lavínia
(brasileira, claro!), a dizer que o “o post no seu
blog de 13 de Julho é ridículo”. Respondi-lhe:
“ridículo, mas é verdade; e o Coiso
não é um blog”. Respondeu-me, dizendo
que eu tinha uma mente muito pequenina e perguntando por
que razão eu dizia que o Coiso não era um
blog. Respondi-lhe que, mais uma vez, ela tinha toda a razão:
a minha mente era minúscula, sobretudo quando comparada
com a dela, que era enorme – e, quanto ao facto de
o Coiso não ser um blog, expliquei-lhe que o Coiso
é meu e não é um blog porque não
me apetece que o seja. Enviou-me mais um mail, indicando-me
moradas de sites brasileiros só com anedotas sobre
portugueses... Paciência...
Na semana passada, escrevi um comentário sobre
os 10 livros mais vendidos, em Lisboa, nas livrarias do
DN. Entre os 10 títulos mais vendidos, figuram dois
livros sobre nutrição/como perder peso/alimentação
saudável/whatever – um, da Isabel do Carmo
e outro de Paula Veloso. Limitei-me a dizer que este tipo
de livros surgem sazonalmente, numa altura em que muita
gente gostaria de perder peso para fazer melhor figura na
praia e que Paula Veloso era apresentada, pelo menos nos
jornais que li, como irmã de Rui Veloso.
A senhora enviou-me um mail devastador, em que me chama
de pseudo-intelectual, um dos cancros do nosso país,
que critico livros sem os ler e outras enormidades do mesmo
quilate. Respondi-lhe, simplesmente, que tinha ficado muito
zangada por tão pouco, mas que ficasse descansada
porque o meu peso na opinião pública é
igual a zero, não passo de um mero médico
de família, com 25 anos de experiência.
Estes dois mails são sintomáticos.
Ora bem, como é que a Lavínia e a Paula
Veloso descobriram um site tão obscuro como o meu
Coiso, um site que tem pouco mais de 60 mil visitas em mais
de 3 anos, que não vem noticiado nos jornais e revistas
e que é apenas visitado por familiares e amigos e,
quando é visitado por “estranhos”, isso
acontece por acaso?
A semana passada, recebi um e-mail de uma epidemiologista
(?) que andava a navegar na net, procurando coisas sobre
a nova receita médica quando deu com o Coiso –
porque também eu fiz alguns comentários ao
novo modelo de receituário. Ao encontrar o Coiso,
decidiu dar uma vista de olhos e gostou. O tal português
a residir no Brasil, descobriu o Coiso porque pesquisava
na net coisas sobre o Livramento, jogador de hóquei
a quem me refiro nas minhas memórias. Todos os mails
que recebo, referem que o Coiso foi encontrado por acaso.
No caso da Lavínia e da Paula Veloso, também
assim aconteceu, de certeza – só que a Lavínia
devia andar a pesquisar coisas sobre a visita de Lula a
Portugal e a Paula Veloso coisas sobre o seu livro. E aí,
ambas depararam com o pobre do meu Coiso e vai de ficarem
escandalizadas com as minhas opiniões que, em ambos
os casos, nem opiniões são: no caso do Lula,
é uma simples brincadeira (infantil, repito, com
o nome do senhor), no caso do livro da Paula Veloso, sobre
o simples facto (indesmentível!) de, nesta época
do ano, ser habitual as editoras porem cá fora livros
sobre nutrição/dietas.
Os tipos que se dão ao trabalho de visitar os sites
dos outros, lê-los e , depois, fazer comentários
sobre eles, merecem todo o meu respeito. Não sei
como têm pachorra para isso. Cá por mim, dou-me
ao trabalho de manter o meu Coiso na net porque me dá
gozo e porque isso vem na sequência do que sempre
fiz, desde miúdo, desde os tempos da instrução
primária, em que fazia jornais de edição
única, que depois vendia à minha mãe
e à minha avó. Mais tarde, no fim da adolescência,
juntamente com a Mila e o Zé, escrevi livros, que
encadernava em edições únicas, para
todos lermos. A seguir, vieram as cartas (para o Zé
e Mizé, para o Mário-Henrique, para o Rui
Lemus, para os Sousas, para os meus irmãos, para
o Jorge e Luisa), enviadas de Moimenta da Beira e de Mourão,
e para Mila (enviadas durante a recruta nas Caldas). Os
livros que escrevi e publiquei, e que o Pedro ilustrou,
vêm nessa linha: histórias que vou colhendo
na minha prática clínica e que se destinam
a ser lidas, apenas, por médicos. Mesmo os textos
que escrevi para o Pão Comanteiga, e não só,
eram, no fundo, para ser lidos no seio da equipa –
e dava-me muito gozo quando, nas reuniões semanais,
via o Carlos Cruz, o Zé Duarte ou o Zambujal, rirem-se
dos meus trocadilhos e jogos de palavras. Isso era o mais
importante. Claro que, depois, os meus textos eram difundidos
pela rádio ou pela televisão, mas esse facto
já não era o mais importante. Aliás,
só muitos anos depois me apercebi da verdadeira dimensão
do “fenómeno” Pão Comanteiga.
Nos tempos do Coiso, em papel, o maior gozo era em minha
casa, a fabricar aqueles textos malucos, com o Zé
e, depois, no República, quando todos nos ríamos
com as macacadas que inventávamos, eu e o Zé,
o Rui, o Mário, o Álvaro e o Barradas.
Quando surgiu a hipótese de ter uma página
na net, não hesitei – era outro veículo
para escrever o que me apetecesse, sobretudo para ser lido
pelos amigos, pelos Sousas, pelos meus filhos e ponto final.
Claro que sei que, ao colocar o que escrevo na net, estou
a expor esses textos e eles serão lidos, potencialmente,
por toda a gente. Paciência... Não é
esse o meu objectivo, mas, no fundo, não me faz diferença.
Estou, apenas, a registar o facto.
A coisa ficou pior com o incremento dos blogs. Hoje mesmo,
a Lúcia Guimarães (uma brasileira radicada
em Nova Iorque que, semanalmente publica uma coluna no DN),
fala dessa loucura dos blogs. Diz ela:
“Se Grouch Marx estivesse entre nós, imagino
que ele abriria uma excepção ao seu desprezo
por clubes que lhe aceitassem como sócio. Groucho
poderia ser sócio fundador do MSB, o Movimento dos
Sem Blog. O MSB ainda não foi fundado mas é
apenas uma questão de tempo. Afinal, não há
vida inteligente fora da blogosfera.”
E acrescenta:
“Na noite passada, comecei a fazer uma lista
mental das experiências que não tive. Não
li Ulisses. Só li o primeiro canto dos Lusíadas
na escola secundária e não sou mais capaz
de ir além da Taprobana, se me pedirem para citar
de cor. Não visitei as ruínas de Petra nem
assisti a uma montagem da Flauta Mágica. Nunca aprendi
a me equilibrar de rollerskate (...). A lista é interminável
e pode me levar à melancolia crónica. E, enquanto
tento me consolar com a brevidade da existência, sou
objecto de uma ofensiva de alistamento para acessar weblogs,
ou blogs. O blog vai extinguir a profissão de psicoterapeuta.”
E continua neste tom, para se referir à loucura
nova-iorquina em redor dos blogs. Eu faço ideia!...
Pois se, no nosso pequeno país já todo o pateta
tem o seu blog, imagino como será nos States!...
O mesmo DN, no seu DNA, já se dá ao trabalho
de publicar, semanalmente, citações de diversos
blogs.
Isto é, na minha perspectiva, o contrário
do espírito das páginas pessoais, dos diários
na net, ou do que lhe quiserem chamar. Estas coisas (como
o Coiso) são para estar sossegadinhas na net, apenas
para gozo (raiva, fúria, amor, ódio) de meia
dúzia de pessoas – não são para
divulgar nos órgãos de comunicação
social tradicionais, não servem para influenciar
a opinião pública, não se destinam
a minar as instituições, a alimentar polémicas
ou fazer cair governos. Em breve assistiremos, em Portugal,
àquilo que, segundo L. Guimarães, já
se passa em Nova Iorque: vernisages para assinalar o lançamento
de um novo weblog do famoso escritor/jornalista/deputado/jurista/economista
Fulano de Tal.
É por isso que a Dona Lavínia e a Sra. Paula
Veloso não precisavam dar-se ao trabalho de me enviarem
mails tão furiosos com aquilo que escrevi.
Senhoras: isto não tem importância nenhuma!
É apenas uma brincadeira, um gozo pessoal, íntimo...
E mantenho: Lula é um gastrópode que, por
acaso, chegou à presidência do Brasil.
E repito: nesta época do ano é habitual
as editoras publicarem livros sobre dietas/alimentação
saudável e sim, é verdade, não li o
livro de Paula Veloso – e, já agora, não
tenciono lê-lo, embora não tenha nada contra;
só que não tenho pachorra... há uns
meses atrás, a Mila bem me tentou “obrigar”
a ler o mais recente livro do Emílio Peres, o decano
português da Alimentação Saudável,
e não conseguiu convencer-me...
Bom, até parece que fiquei muito chateado com o
mail da P. Veloso. Estejam descansados que não é
isso... Esse mail apenas me serviu de apoio a este texto
que, de qualquer modo, já estava com vontade de escrever,
a propósito dos blogs e da malta que tem paciência
para visitar as páginas pessoais na net, lê-las
e, ainda por cima, enviar comentários aos autores
– quer a aplaudir, quer a criticar. Sobre este facto,
não tenho nada contra ou a favor – apenas me
espanto. Como leitor assíduo de jornais, quase diariamente
me exalto com alguns artigos, calinadas no português,
inexactidões, etc, etc; nomeadamente, no campo da
Saúde, é confrangedora a ignorância
da maioria dos jornalistas. Hoje mesmo, a propósito
da estabilização da taxa de mortalidade neo-natal
(pela primeira vez, nos últimos dez anos, esta taxa
não baixou, em Portugal), ouvi e li diversas barbaridades,
sobretudo, a confusão entre mortalidade neo-natal
e mortalidade infantil. Mas, enfim, não tenho pachorra
para escrever um mail à RTP, outro ao DN, outro ao
Público, chamando-lhes a atenção para
aqueles erros. Não me apetece – só isso.
Portanto, sempre que recebo um mail daqueles, fico espantado
e sai-me aquele comentário, provavelmente, de quem
não percebe bem o que se está a passar por
esse mundo fora: estes gajos não têm mais nada
que fazer?!
A menos que, a eles, lhes dê tanto gozo a comentar
o que escrevo como me dá, a mim, escrevê-lo...
Mick Jagger
tem 60 anos
Foi ontem que o vocalista da “maior banda de rock
and roll do mundo” completou 60 anos. O mínimo
que se pode dizer de um tipo que desde os 16 anos, anda
metido numa vida de “sex, drugs and rock’n’roll”
e que chega aos 60 anos e os comemora com um concerto de
duas horas, em Praga – o mínimo que se pode
dizer é que o tipo tem uma resistência do caraças!
Quantas bebedeiras, quantos chutos de heroína,
quantas snifadelas de coca, quantos cigarros, quantos companheiros
e companheiras de sexo desprotegido, quantas noitadas –
que “quantidade” de vida desbragada aguentou
já este gajo?
Qual é o seu segredo? alguém lhe perguntou.
Jagger respondeu, simplesmente: “uma alimentação
saudável e não abuso das drogas e da bebida”.
Não abuso das drogas? Não abuso da bebida?
Então, isto quer dizer que o fulano continua a drogar-se
e a beber, mas com moderação?...
Um resistente, este tipo!...
Não
matem o Saddam, por favor!
Esta semana, o exército norte-americano, graças
a uma denúncia, descobriu os dois filhos do Saddam
e, após intenso tiroteio, matou-os. Posteriormente,
as autoridades norte-americanas exibiram os corpos, quais
troféus de caça, e permitiu que os jornalistas
filmassem e fotografassem. O mundo pôde, assim, ver
os corpos de dois homens, crivados de balas e barrados de
sangue e comprovar que os dois filhos do “carniceiro
de Bagdad” estavam, de facto, mortos. Para que não
restassem dúvidas nas mentes dos mais cépticos,
foram também mostradas radiografias e fichas dentárias
dos dois homens.
A população, em Bagdad (os “iraqui
people”, como lhe chamam os americanos) exultou: os
filhos do ditador estavam mortos! E, como é costume,
vieram par as ruas festejar, dando tiros para o ar. Resultado:
31 mortos, vítimas das balas perdidas nos festejos.
Por isso, peço, humildemente, aos americanos que,
por favor, não apanhem o Saddam. Se isso acontecer,
os festejos poderão provocar a extinção
do “iraqui people”!...
Domingo, 20
Os
livros mais vendidos
O DN publicou ontem a lista dos 10 livros mais vendidos
em Lisboa, nas Livrarias Diário de Notícias.
Esta lista revela a insanidade que vai por aí...
Em primeiro lugar está o primeiro romance do Miguel
Sousa Tavares, “Equador”. Não faço
comentários porque não li o livro, apenas
algumas críticas, todas favoráveis. Admito
que seja um bom romance mas duvido que estivesse em primeiro
lugar nas vendas se não fosse a promoção
que o autor obtém pelo simples facto de ser uma figura
pública, aparecer com frequência na televisão,
escrever uma crónica semanal no Público e,
portanto, ter muitos amigos que podem fazer a diferença.
Portanto, o primeiro lugar é aceitável.
No entanto, daí para baixo é quase tudo uma
desgraça.
Vejamos.
Em segundo lugar está “José Mourinho”,
da autoria de um tal Luis Lourenço. Quem é
José Mourinho? Para que fique registado, é
um treinador de futebol. Carreira: adjunto de Robson no
Barcelona, treinador do Benfica durante uns meses, do União
de Leiria em 2001-2002 e do Porto, em 2002-2003, época
em que foi campeão nacional, ganhou a taça
de Portugal e a taça UEFA. Isto dá para escrever
um livro? Dá. E para vender assim tantos exemplares,
de modo a que ocupe o 2º lugar de vendas? Sim.
Sem comentários.
Em 3º lugar vem uma coisa chamada “Não
há lugar para divorciadas”, de Francisco Moita
Flores. O título diz tudo. E quem é FMF? Foi
investigador da PJ durante uns anos e, depois, tornou-se
autor de telenovelas e “especialista” em criminologia.
Sempre que há um caso que envolva crimes, lá
surge FMF, nas televisões, a cagar sentenças.
Isso faz vender livros? Faz.
Em 4º lugar está o senhor que, escrevendo
em português, vende mais livros no mundo inteiro:
Paulo Coelho e o seu novo livro “Onze Minutos”.
Say no more...
Em 5º lugar, Nicholas Sparks e “Laços
que perduram”. Há sempre um Konsalik ou um
Robbins nos Top Ten...
Os dois lugares seguintes são ocupados por livros
largamente noticiados em tudo o que é revista e jornal
e que estão directamente relacionados com a mania
de perder peso na época estival. Isabel do Carmo
escreveu “Porque não consigo parar de comer”
(e ela deve saber bem porquê, já que continua
gordinha, apesar do PRP-BR e da prisão...) e Paula
Veloso publicou “Dietas sem dieta”, com a enorme
vantagem de ser apresentada, convenientemente, como a irmã
de Rui Veloso.
Em 8º lugar vem um outsidder, que nada tem a ver
com os restantes: “A Vida de Pi”, de Yan Martel,
vencedor do Booker’s Prize. É verdade que também
tem sido alvo de uma boa campanha, por parte dos jornais
e revistas. O autor é simpático e comunicativo,
esteve em Portugal por altura da Feira do Livro e tudo isso
deve ter ajudado à promoção do livro.
Comprei-o, exactamente, na Feira, mas ainda não li;
no entanto, cheira-me que se trata de um romance interessante;
depois se verá...
Em 9º lugar, “O meu país inventado”,
de Isabel Allende, que é aquele tipo de escritora
(de quem nunca li nada), que vende tudo o que publica porque
sim.
No último lugar deste Top Ten, uma jóia
da literatura portuguesa: “Absolutamente Tias”,
da nóvel escritora Ana Bola! Quem diria! Lembro-me
bem, quando escrevia aqueles textos de merda para os programas
televisivos do Júlio Isidro e quando a Ana Bola e
a Maria Vieira ainda conseguiam que eles ficassem piores
do que já eram! Claro que eu é que estava
errado e elas é que estavam certas – eu tinha
a mania que conseguiríamos implantar, nos programas
de entretenimento televisivo algo de vagamente semelhante
ao non sense dos Monty Python e elas já tinham percebido
que o que o público gostava era de frases como “cheiras
mal”, ou bocas que metessem “chi-chi e cocó”.
Claro que, com o desenvolvimento da sociedade televisiva
portuguesa, as referidas actrizes, hoje em dia, já
dizem “merda” com total à vontade. Evoluiram,
e eu retirei-me, reduzindo-me à minha insignificância
de médico de clínica geral. E agora, isto:
Ana Bola está no Top Ten dos livros mais vendidos!
Cito – mais uma vez – o Mário-Henrique:
isto é mesmo um fartar de rir!
Domingo, 13
As
paneleirices do defeso
Os jornalistas desportivos adoram paneleirices. Sem ofensa,
claro. Conheço paneleiros que são gajos porreiros
e não perdem tempo com paneleirices!
Agora, que não há jogos de futebol, que
estamos na chamada época do defeso, os três
jornais desportivos diários (três!!!) e os
noticiários televisivos e radiofónicos, mais
as muitas páginas diárias que os jornais generalistas
dedicam ao futebol, há que encher o papel e o éter
com alguma coisa. Então, inventam-se paneleirices.
E as notícias do futebol ficam ao nível das
revistas de mexericos, tipo Caras, Lux e quejandas.
O Benfica está a estagiar em Qualquer-Coisa-de-La-Frontera,
no sul de Espanha. Todos os dias ficamos a saber que está
por lá muito calor e que os rapazes ficam exaustos
e muito suados e que os músculos se ressentem e que
dura é a profissão de futebolista! Vejam lá
que o Quaresma, aquele cigano que era do Sporting, até
só vai ganhar cerca de mil contos por dia em Inglaterra!
Mil contos por dia! O que eles sofrem, coitados! Será
que a Manuela Ferreira Leite também os obriga aos
pagamentos especiais por conta? Em caso afirmativo, é
uma injustiça, caramba! Eu, por exemplo, que não
passo de um médico de clínica geral da merda,
que ganho pouco mais que 25 contos por dia e que, no mês
passado, graças ao subsídio de férias,
paguei apenas cerca de 800 contos de impostos (retenção
na fonte, não há como fugir...), já
fui pagar o meu primeiro PEC, não vá eu enganar
o fisco, recusando-me a receber o ordenado ou indo ali à
secção de pessoal, ameaçar a funcionária
que me processa o vencimento e obrigá-la a não
reter porra nenhuma na fonte! Mas compreende-se que isso
me aconteça – sou um reles médico, não
possuo um táxi ou um camião TIR para atravessar
nos acessos a Lisboa, nem sou atleta de alta competição,
ninguém me obriga a treinar no sul de Espanha com
aquele calor, apenas sou obrigado a consultar 30 a 40 pessoas
por dia, a mexer em sovacos, pés e barrigas mal lavadas,
a fazer domicílios em espeluncas inenarráveis,
debaixo de um sol impiedoso e não tenho a mais pequena
hipótese de ser transferido para o Serviço
Nacional de Saúde inglês por 12 milhões
de euros...
Pois os futebolistas do Benfica lá estão
a treinar e fizeram uma votação para saber
quem iria ser o capitão da equipa na próxima
temporada. Helder foi o eleito, mas Simão Sabrosa
ficou magoado e não compareceu no treino dois dias
seguidos, disseram que era uma lesão no joelho, mas
o rapaz estava era zangado porque não tinha sido
escolhido para capitão e o Álvaro Magalhães,
adjunto do treinador Camacho, que foi contratado para cumprir
a mística do Benfica, porque ele próprio foi
um lateral direito do velho Benfica, chegou ao balneário
e viu que essa mística já não era a
mesma, porque antigamente só havia jogadores portugueses
e agora há-os de várias nacionalidades, mas
não se quis pronunciar sobre a questão da
eleição para capitão! Porra de paneleiros!
Que interessa é que tem esta merda? O que é
isto se não mexericos reles? O que estão a
fazer, no sul de Espanha, não sei quantos jornalistas
desportivos, a acompanhar o estágio do Benfica? A
ver quem enraba quem? A ver quem falta ao treino porque,
na noite anterior, foi para a cama com? Quem está
zangado com quem? Quem sua mais?
Paneleirices!...
Sábado, 12
Uma
questão de anilhas
O Sr. Luis é aquilo a que se chama um verdadeiro
pintas. Rosto quadrado, que parece ter sido talhado, à
pressa, com escopro e martelo, a partir de um bloco de granito;
barba cerrada, daquelas que começa logo por baixo
dos olhos e só termina nos tornozelos; voz rouca
e gutural; maço de tabaco no bolso da camisa e pente
no bolso de trás das calças.
O Sr. Luis gosta da pinga e embebeda-se com regularidade
desde tenra idade; quanto ao tabaco, diz que começou
a fumar na tropa e nunca mais parou e uma maço não
lhe chega até à hora do jantar.
Desde há dois anos que as aurículas do Sr.
Luis fibrilham que nem as asas de uma borboleta e no ano
passado esteve internado no hospital com uma descompensação
cardíaca que o ia obrigando a deixar de fumar. Deixar
de fumar, de beber, de comer – deixar de ser...
Lá se safou, com alguma dificuldade e, após
cerca de uma semana de bom comportamento, voltou ao mesmo.
Foi ontem à minha consulta, depois de uma longa ausência;
queixava-se de uma dor no peito, aqui mesmo do lado esquerdo,
em cima do coração, que depois vai para as
costas - parece que tenho aqui um peso de cinco toneladas
no peito e uma faca espetada nas costas, dizia o Sr. Luis,
enchendo bem os esses, fazendo-os parecer cê-agás.
Observei-o e, ao carregar-lhe nas articulações
condro-costais, na região précordial, o Sr.
Luis quase que deu um salto com a dor.
- Não me parece que essa dor seja do coração
– disse-lhe. – Você não fez algum
esforço ou deu algum jeito? – perguntei.
- Eu vou contar ao doutor o que aconteceu... – respondeu
o Sr. Luis. – Eu e o meu genro fomos ao supermercado
comprar uma bicha para o autoclismo, que estava avariado
e precisávamos também de quatro anilhas, mas
lá no supermercado só havia caixas com cem
anilhas. Então, o meu genro vai de tirar duas anilhas
duma caixinha e outras duas de outra caixinha! Eu ainda
lhe disse é pá olha que os gajos vêem
tudo pelas câmaras, mas o gajo não me ligou
nenhuma!... A gente pagou e quando já nos vínhamos
embora, vieram dois seguranças daqueles matulões,
agarraram-se a nós e algemaram-nos! Já tenho
60 anos e nunca tinha algemado na minha vida! Levaram-nos
lá para um cubículo e deram uns sopapos no
meu genro e foi muito bem feito, que o gajo não tinha
nada que palmar as anilhas! E tivemos que pagar as duas
caixas!...
O sintoma do Sr. Luis estava, assim, esclarecido. O segurança,
ao torcer-lhe o braço para o algemar, provocara-lhe
a dor condro-costal.
Tudo por causa de quatro anilhas...
Em compensação, o Sr. Luis e o genro possuem,
agora, 196 anilhas e não sabem o que hão-de
fazer com elas...
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