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O Coiso
Um dia destes...

Junho 2003:


| Farmacéutico especialista? | Coisas de santos | Herança | Susana, a fibromiálgica | Os pombos do McDonalds |


Domingo, 1
Farmacêutico especialista?
O poder da Associação Nacional de Farmácias é enorme. O seu presidente, o Sr. Cordeiro, passa incólume por todos os governos e todos os ministros da Saúde. A dívida que o Estado tem às Farmácias não pára de crescer e pode dizer-se que, se a ANF quisesse, o Serviço Nacional de Saúde paralisava.

Este governo conseguiu, de facto, generalizar o uso dos genéricos – mas não à custa dos farmacêuticos. Ainda esta semana consultei um doente com faringite que já tinha ido à farmácia, onde lhe venderam uma embalagem de Farmiz, um antibiótico que, como é óbvio, só pode vender-se mediante receita médica. Ora, o Farmiz é a azitromicina, que já tem genérico. Por que razão o farmacêutico não vendeu ao doente o medicamento genérico, mas sim o de marca? Porque ganha mais dinheiro se vender o medicamento de marca, claro. Aliás – por que razão o farmacêutico vendeu um medicamento sem receita médica?

Nas televisões está a passar um anúncio em que se diz que o farmacêutico é o especialista, que é a ele que as pessoas devem recorrer em caso de dúvida. Ontem mesmo, fui à farmácia aqui da rua comprar um medicamento e vi a directora técnica da farmácia, um pouco atrapalhada, com uma receita na mão – não sabia o que era a amlodipina. Uma colega lá lhe explicou que a amlodipina é o Norvasc. A directora técnica desconhecia qual é o princípio activo do Norvasc.

Especialistas? Não me parece...

Quarta, 4
Coisas de santos
Quando comecei a minha carreira de clínico geral, poucas mulheres conheciam o rastreio do cancro do colo. A consulta de Planeamento Familiar era pouco frequentada e tínhamos que ser nós a estimular as mulheres a frequentá-la, chamando-lhes a atenção para a importância dessa consulta, nomeadamente no que respeita ao rastreio do cancro do colo.

A pouco e pouco, as mulheres foram percebendo a importância de fazerem a colpocitologia com regularidade e, hoje em dia, temos já um bom número de utentes que não descuram a sua saúde. Os termos “planeamento”, “citologia” ou “papanicolau” começaram a fazer parte da sua linguagem. E, para além das jovens, sempre melhor informadas, que já não dispensam a sua consulta de planeamento familiar, temos também já um número considerável de mulheres post-menopáusicas que nos procuram espontaneamente para se submeterem ao rastreio do colo.
Mas há sempre surpresas...

Ontem, na consulta de urgência, apareceu-me uma mulher dos seus 60 anos, com um sotaque beirão típico, que vinha muito preocupada: contou-me que tinha ido consultar uma médica de ginecologia três dias antes: “Desde que ela me fez as papas de São Nicolau, nunca mais deixei de sangrar e estou com ardor na boca do corpo! Já pus o creme Canastren, mas não me passa!”

Exactamente: as papas de São Nicolau!

Não sei o que o pobre do santo terá a ver com o rastreio do cancro do colo, mas o que é certo é que esta mulher tinha ficado muito preocupada desde que a médica lhe tinha feito as papas do dito santo...
Coisas...

Herança
Fui hoje fazer o domicílio da Dona Catarina. Triplo by-pass há dois anos, colocação de pacemaker no ano passado. Está óptima, cheia de genica, apesar dos seus 75 anos.

Há dois dias, tropeçou na arca de cânfora e bateu com o ombro no lava-loiça. Resultado: fractura da clavícula. A filha levou-a ao hospital, onde lhe aconselharam a pôr o braço ao peito e lhe deram paracetamol para as dores. Concordei, evidentemente.

Auscultei-a, medi-lhe a tensão e passei-lhe os medicamentos do costume.

Quando me vinha embora, a Catarina perguntou-me: “De que clube é o doutor?” Um pouco espantado – mas pouco... – respondi-lhe que sou do Benfica. Um sorriso iluminou-lhe o rosto:
- Ainda bem que o doutor é do Benfica! Os da minha família são todos do Belenenses e do Sporting e eu tenho aqui uma coisa que me ofereceram... qualquer dia fecho os olhos e são capazes de a deitar fora... assim, fica o doutor com ela!

Abriu a arca onde tinha tropeçado e tirou lá de dentro um estojo vermelho que cheirava a bafio à distância. Ofereceu-mo com devoção. Abri-o e deparei com um porta-chaves e uma caneta com o emblema do glorioso. Lindos! Ambos de plástico, claro...

Agradeci e vim-me embora, trazendo na minha mala dos domicílios a preciosa herança da Dona Catarina...
Os meus doentes não deixam de me surpreender...

Domingo, 8
Susana, a fibromiálgica
Esta tarde, ao ler mais alguns textos do 2º livro de Crónicas do António Lobo Antunes, deparei-me com este pedaço:

“... o senhor Joaquim que vendia esqueletos aos estudantes de Medicina. Trazia os cadáveres do cemitério dos Prazeres e punha-os a secar no telhado do Campo de Santana. Era pequeno e bexigoso e orgulhava-se da doença de Parkinson do filho.
Apresentou-mo assim, com legítima vaidade:
- O meu rapaz, parkinsonista.
Não um estado, não uma enfermidade: um título.”

Este trecho trouxe-me à memória um episódio que se passou comigo há algumas semanas. Ia começar a consulta da tarde quando uma jovem, com vinte e poucos anos, me bateu à porta do gabinete e me pediu um minuto de atenção.

Deixei-a entrar, contrafeito. Estendeu-me a mão e apresentou-se:
- Dr. Artur, sou a Susana e sou fibromiálgica.
Assim – não um estado, não uma doença: um título.

A fibromialgia está na moda. Na mesma semana, apresentou-se ao público uma Associação de doentes com fibromialgia, a Myos, e uma outra Associação, já existente, de doentes com miastenia gravis e fibromialgia, iniciou uma campanha de esclarecimento. Na sessão de apresentação da Myos, com larga repercussão na comunicação social, estiveram presentes a jornalista Maria Elisa e a esposa do 1º ministro. Se tão destacadas damas sofrem de fibromialgia, a doença tem logo outra dimensão e deixa de ser aquela patologia mais ou menos estranha, de cuja existência muitos médicos desconfiam.

Tenho algumas doentes com a hipótese diagnóstica de fibromialgia. E digo hipótese porque não existe maneira de fazer um diagnóstico conclusivo. São mulheres que sofrem de dores pelo corpo todo, astenia física e psíquica e cujos exames complementares habituais nada mostram. Poderia dizer-se que sofrem de síndroma depressivo e que as suas queixas somáticas são meros equivalentes depressivos e, neste caso, a fibromialgia, como entidade nosológica, não existiria. No entanto, há alguns anos que alguns reumatologistas estudam a hipótese de a fibromialgia ser uma entidade independente.

De qualquer modo, sendo ou não uma doença verdadeira, o que mais me irrita é a importância que, de repente, adquiriu o facto de se sofrer de fibromialgia. Como a Susana, que se me apresentou, orgulhosamente, como fibromiálgica. Sinceramente, não estou a ver o Sr. Manuel a entrar no meu gabinete e dizer: “boa tarde, sr. Doutor, eu sou o Manuel, o canceroso”, ou ainda, “boa tarde, eu sou Manuel, o epiléptico”. E esta reflexão leva-me a pensar que um tipo que tem um cancro ou uma epilepsia não tem muita vontade de ostentar esse título – no entanto, ser fibromiálgica, agora que a Maria Elisa e a senhora Durão Barroso o assumiram publicamente, passou a ser um must!

Quinta, 19
Os pombos do McDonalds
Na esplanada do McDonalds de Almada acontece algo de extraordinário, que espantaria Darwin – uma simbiose quase perfeita entre os pombos e os humanos.

A Praça S. João Baptista há muitos anos que tem a sua população de pombos. Era frequente vermos, nessa praça, bandos de pombos precipitando-se para alguma velhota que lhes vinha trazer pedacinhos de pão. Entretanto, abriu o primeiro restaurante McDonald’s de Almada, a Praça foi remodelada, mas os pombos e os velhotes ficaram.
Os velhotes mudaram-se dos bancos da Praça para as mesas do McDonald’s: o restaurante é climatizado, as cadeiras são confortáveis e os reformados pedem um garoto e um copo de água e ali ficam, toda a manhã, lendo o Diário de Notícias, conversando ou simplesmente vendo quem entra e quem sai.

Quanto aos pombos, andam por ali, na esplanada, entre as mesas, à procura de migalhas. Só que, a pouco e pouco, foram ganhando coragem, foram-se tornando mais afoitos e, agora, é frequente vê-los em cima das mesas, mesmo junto aos tabuleiros, recebendo, com agrado, uma ou outra batata frita que os humanos lhes vão dando. E têm competidores ferozes. Os passarocos (pardais, suponho eu), graças à sua velocidade e agilidade, sacam, muitas vezes, as migalhas aos pombos. Avançam em voo picado, sacam o pedacinho de pão com o bico e partem, a alta velocidade, para desespero dos pombos.

Mas os pombos são maiores e são mais. A pouco e pouco vão conquistando terreno. Esta semana, vimos um bando de pombos invadindo uma mesa e roubando, literalmente, as batatas fritas de duas miúdas. Assustadas com aquele ataque, as miúdas pegaram nos hamburgueres e nas Coca-colas, abandonaram o tabuleiro e mudaram de mesa. Então, os pombos tomaram conta da mesa e rapidamente devoraram as batatas todas.

Em breve veremos as pessoas comprarem duas “happy meals” e atirarem uma delas para os pombos, a fim de poderem comer a sua refeição em paz.

Ou então, a “fast food” será cada vez mais “fast” e veremos toda a gente a comer a sua refeição muito mais depressa do que habitualmente, antes que os pombos ataquem.

 

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Actualizado em: 30 Junho 2003
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