Maio
2004:
| Os neo-nazis no Poder | Malditos
afanípteros | O perigoso
Rumsfeld | Telejornal - tele-regiões
| Voyeurs | País
de pedófilos | Grande equipa!
|
Sábado, 15
Os neo-nazis
no Poder
No seu site (www.macacos.com),
o Pedro escrevia o seguinte, no passado dia 5:
“A minha dificuldade em compreender a política
internacional.
Eu sou um bocado lento.
Ainda não percebi... os nazis invadiam, ocupavam,
metiam pessoas em campos, torturavam e matavam e eram maus;
os americanos invadem, ocupam, metem pessoas em campos,
torturam e matam, mas são bons?
Deve haver uma subtileza qualquer...”
Até ao momento, este post do Pedro, já mereceu
17 comentários, alguns deles de um tal António,
que ficou indignado com esta comparação, perfeitamente
legítima, que o Pedro fez entre os nazis e os americanos.
Eis o primeiro comentário do António:
“A subtileza: os americanos reconhecem, investigam,
punem e pedem desculpas pelos erros, pelas atrocidades cometidas
por alguns deles. Tão importante como olhar para
os erros, é sintonizar a CNN neste momento e ver
os chefes das forças armadas a pedirem desculpa pelo
sucedido.”
Ingénuo António!... Ingénuo ou conivente?...
Os comentários sucedem-se e, às tantas, também
eu decidi entrar no debate, escrevendo:
“A única diferença entre os americanos
e os nazis, é que os americanos fazem filmes sobre
as atrocidades que cometem; que seria da indústria
cinematográfica de Hollywood sem a guerra do Vietname,
os serial killers, o racismo, a xenofobia, as mafias, o
contrabando de armas e drogas, o conflito israelo-árabe,
etc, etc? NADA! E quem comanda a indústria cinematográfica?
Exacto: os sionistas! E quem é que os nazis perseguiam?
Isso mesmo: os sionistas! Portanto, trata-se, simplesmente,
de um caso de vingança! Sim, claro, os nazis também
faziam filmes sobre eles próprios, mas eram uma merda!…
Por isso, prefiro os americanos, dão-nos o leite
e a sombra e fazem-me rir…”
Claro que tudo isto vem a propósito do que se passa
nas prisões iraquianas e em Guatanamo. Todos vimos,
nos jornais, fotos de iraquianos presos, todos nus, amontoados
uns sobre os outros, simulando relações sexuais;
outro, todo nu, deitado no chão, com uma coleira
à volta do pescoço, enquanto uma soldada americana
segurava a trela, como se o tivesse a arrastar; outros,
ainda, também nus, enquanto a mesma soldada, de cigarro
ao canto da boca, se sorria, sarcástica, enquanto
apontava para os piriluas dos muçulmanos. Suprema
humilhação! Os soldadinhos americanos que
participaram neste festim foram presos e já começaram
a dar entrevistas, dizendo que estavam apenas a cumprir
ordens. O perigoso Rumsfeld, confessou ao Congresso que
já sabia que estas cenas se passavam há algum
tempo, mas que não lhes tinha dado a devida atenção.
Publicações norte-americanos, que são
tudo menos esquerdistas, como “The Economist”
e “The New York Times”, pediram logo a demissão
de Rumsfeld. O que fez George Worm Bush? Foi ao Congresso
elogiar Rumsfeld, dizendo que a América lhe deve
muito e que grande trabalho está ele a fazer no Iraque!
Portanto, o tal António – e outros –
recusam-se a ver a evidência: nos EUA, os neo-nazis
estão no Poder. Bush, Rumsfeld e restante camarilha
são, certamente, um pouco mais sofisticados que Hitler,
Goebbels e quejandos, fruto das novas tecnologias (ao fim
e ao cabo, já passaram mais de 50 anos e o mundo
mudou muito neste meio século). Mas, no fundo, o
bando do George tem o mesmo sentimento de impunidade que
os nazis tinham: invadem, prendem, torturam, matam e estão-se
nas tintas para o resto do mundo!…
Sexta, 14
Malditos
afanípteros!
Tira um gajo um curso superior para isto!
Ontem, fui fazer mais uma visita domiciliária ao
casal A. Estavam os dois bastante em baixo, com tosse e
expectoração, mialgias e febre. Pneumopatia,
muito provavelmente. Pedi Rx do tórax e saí
a grande velocidade. Ao auscultar o Sr. C., dois afanípteros
saltaram, ágeis, do seu peito para algures. Eu próprio
também quase que saltei! Depois, vi melhor: havia
afanípteros por todo o lado! Afanípteros saltitando
no chão, afanípteros locomovendo-se nos cobertores
da cama, afanípteros passeando na camisa de dormir
da Dona R. – estava rodeado de afanípteros
por todos os lados!
Assim que saí de casa do casal A., procedi à
limpeza das calças. Ontem vesti umas calças
de veludo, castanhas claras – os afanípteros
viam-se bem; com o seu corpo espalmado, castanho escuro,
distinguiam-se das riscas do veludo; tinha vários,
a escalarem-me as calças. Sacudi tudo vigorosamente
e, antes de entrar no carro, dei uns piparotes nas meias
também, local muito do agrado dos afanípteros.
Conduzi até Almada, cheio de comichões. Estacionei
e fomos beber um café. De repente, uma ferroada junto
ao umbigo! Meto a mão entre dois botões da
camisa e, entre os dedos, mais um afaníptero, que
logo saltou alegremente para o chão.
Já em casa, meti-me no duche, vestido; tirei a
roupa, sacudi tudo muito bem, da camisa às cuecas,
e passei-a à Mila, que a foi por na máquina
de lavar. Depois, deixei-me purificar pela água do
duche. Li, não sei onde, que uma formiga consegue
sobreviver 12 dias dentro de água – e um afaníptero,
quanto tempo aguentará?
Esta manhã, ao acordar às sete e picos,
no nosso último dia de trabalho antes das nossas
férias peruanas, dispunha-me a fazer a cama quando
topo com mais um afaníptero, saltando de dentro da
cama! Porra! É demais!
Diz a enciclopédia que existem 1 200 espécies
de afanípteros, que também recebem o lindo
nome de sifonápteros. A mais conhecida será
a Ctenocephalides felis, ou pulga-do-gato, que tem pentes
de espinhos na cabeça e no corpo, o que lhe permite
não resvalar e não cair do corpo do hospedeiro;
como o nome indica, encontra-se principalmente nos gatos,
mas também pode passar para o cão, para o
rato e para homem, sobretudo se esse homem se chamar Artur
e tiver ido fazer uma consulta domiciliária ao Santuário
dos Afanípteros, situado em casa do casal A. Como
parece óvio, a simpática Ctenocephalites felis
alimenta-se de sangue, produzindo uma picada irritante.
Outros afanípteros famosos: a pulga-do-mar e a pulga-da-areia,
que pertencem à conhecida família dos Antípodes;
a pulga-do-rato e a pulga-da-peste, respectivamente, a Xenopsylla
cheopis e a Nosopsyllus fasciatus, que transportam, nas
suas lindas patinhas, vermes platelmintas que transmitem,
ao homem, a simpática peste bubónica que,
na Idade Média, matou cerca de um quarto da população
da Europa.
Mas já que os afanípteros gostam tanto de
mim, decidi saber mais sobre elas e fui consultar a Enciclopédia
Britânica. Eis o que aprendi: os afanípteros
vivem em qualquer lugar do nosso lindo planeta, do Círculo
Árctico aos desertos da Arábia; o seu tamanho
varia entre 1 e 10 milímetros e vivem desde algumas
semanas até mais de um ano. As sacanas têm
poderosos músculos nas pernas, o que lhes permite
efectuar saltos acrobáticos, atingindo distâncias
200 vezes superiores ao seu tamanho. A fêmea deposita
minúsculos ovos brancos no hospedeiro e destes emergem
larvas sem perninhas que se alimentam de pedacinhos de excrementos
secos, sangue, fragmentos de pele ou uma matéria
fecal especial, muito rica em sangue, que lhes é
fornecida pelos extremosos pais. Algum tempo depois, as
larvas formam um casulo e deste nasce um novo afaníptero.
Delicioso! As pulgas – porque é de pulgas
que tenho estado a falar – são antigas como
o caraças! Foi encontrado um fóssil de pulga,
na Austrália, que deve ter cerca de 200 milhões
de anos!
Putas das pulgas!
Domingo, 9
O perigoso
Rumsfeld
Rumsfeld é o homem por trás de George W. Bush.
Diz-se que é ele que faz a política da Casa
Branca, que foi ele quem inventou a história das
armas de destruição maciça, que foi
ele quem arquitectou a invasão do Iraque, quem acicatou
o ódio de Bush por Saddam. É óbvio
que não há-de ser ele o culpado de tudo e
mais alguma coisa, mas que o tipo é sinistro, lá
isso é!
Surgiu agora, perante uma comissão do Senado, admitindo
que já sabia que alguns prisioneiros iraquianos tinham
sido sovados e humilhados, mas que não deu demasiada
importância aos eventos. Só que as fotos surgiram
nos jornais: prisioneiros todos nus a serem enxovalhados
por gloriosos soldados norte-americanos. E que fez Rumsfeld
– demitiu-se? Claro que não! Ele pertence àquela
elite de iluminados que “nunca se engana e raramente
tem dúvidas”. Há mais tipos dessa espécie,
embora à escala do nosso minúsculo país:
Santana Lopes, Paulo Portas, Cavaco Silva e muitos outros.
O pior, é que a memória é curta e as
pessoas rapidamente se esquecem do que se passou; esquecem-se
de Cavaco, por exemplo, a cometer erros disléxicos
durante o incêndio do Chiado (“temos que cicartizar
as feridas da cidade”, ou coisa que o valha). E agora,
perante a hipótese de terem que escolher entre Santana
e Cavaco para a presidência da República, até
já nem se importariam de escolher Cavaco, perante
a imbecilidade de um Santana que pôs Chopin a compor
concertos para violino e que até foi presidente de
uma equipa de futebol...
O efeito Rumsfeld, à nossa escala, é devastador...
Telejornal
- Tele-regiões
Os telejornais não passam de um serviço noticioso
regional. Na televisão estatal, a coisa divide-se,
habitualmente, em três partes: a chamada notícia
nacional do dia, uma notícia internacional e o desporto.
A notícia nacional, há mais de um ano, tem
sido quase sempre a Casa Pia. Claro que o processo da pedofilia
tem tido momentos mortos mas, felizmente, há sempre
outra coisa para tomar o seu lugar: mais recentemente, o
caso que envolve Valentim Loureiro, mas também outros
casos judiciais, como o dos agentes da Brigada de Trânsito
acusados de corrupção. À falta de crimes,
arranjam-se outras coisas que criem suspense, como a pneumonia
a adenovirus que matou duas crianças, a morte de
outros dois doentes, após uma anestesia, no Hospital
de Lagos, e coisas deste género. No que respeita
à notícia internacional, tem sido invariavelmente
a guerra no Iraque e, a menos que haja algum atentado bombista,
como o de Madrid, não se passa mais nada. Quanto
ao desporto, é o futebol e o campeonato nacional,
claro: de domingo a terça, faz-se o rescaldo da jornada
anterior, de quarta a sábado, antecipa-se a jornada
seguinte.
E, de resto, não há mais mundo! O telejornal
é, de facto, um tele-regiões (na TVI, então,
a coisa ainda é mais marcada, com a história
da senhora que foi assaltada pelo vizinho e o homem que
tropeçou numa caixa de esgoto que a Câmara
deixou aberta, ou o drama de uma família que vive
ao relento e o fenómeno da melancia que pesa mais
de 50 quilos).
Nos anos 70, quando trabalhei no telejornal, e apesar
da situação política nacional que obrigava
a noticiar todas as manifestações, reuniões
e restantes convulsões do post-25 de Abril, as notícias
internacionais ocupavam uma boa parte do telejornal: a crise
cipriota, a guerra no Líbano, as mudanças
de regime na América Latina – todos os dias
eu escrevia dezenas de notícias internacionais. Agora,
é um deserto: parece que não se passa nada
no mundo – não se houve falar do escândalo
do assessor do primeiro ministro francês, das novas
sanções dos EUA sobre Cuba, até do
que se passa aqui ao lado, em Espanha, com um novo governo
a tomar medidas todos os dias e a reorientar toda a política
de Aznar.
Quem quiser saber o que se passa no mundo, tem que ler
os jornais ou ligar a televisão na CNN, na BBC ou
na Euronews porque, nos Telejornais dos três canais
generalistas, não se passa nada...
Sexta, 7
Voyeurs
Terminou a prisão preventiva de Carlos Cruz. Após
mais de um ano detido, regressou a casa, onde vai aguardar
o eventual julgamento.
As televisões deram-nos o espectáculo do
regresso de Carlos Cruz a casa. Um nojo! Tivemos oportunidade
de ver grandes planos da porta da garagem do Carlos, grandes
planos da campainha da porta, imagens aéreas do telhado
da casa, imagens da rua onde o Carlos mora, com dezenas
de fotógrafos barrigudos encostados às paredes,
aguardando poder fotografar algum visitante. Depois, lá
vem alguém conhecido, o Fialho Gouveia, a ex-mulher
do Carlos, o afilhado do Carlos e todos os jornalistas (?)
correm para eles, microfone em punho, atropelando-se, passando
rasteiras uns aos outros, tipos a correr com câmaras
às costas, como está o Carlos, está
bem disposto, já beijou a filha, tem tido prisão
de ventre, o que comeu ao jantar? Os Telejornais ligam em
directo para aquela rua, como se fosse o centro do Universo
e a repórter aparece a dizer que está tudo
calmo, e a câmara vai-nos dando imagens de paredes,
de uma porta ondulada, de um pedaço de asfalto. Isto
é informação? Não me parece
– parece-me mais voyeurismo.
Sábado, 1
País de
pedófilos
E, de repente, com o processo Casa Pia, descobrimos que
somos um país de pedófilos. Praticamente,
não há semana em que não tenhamos conhecimento
de um novo caso de pedofilia: é nos Açores,
é no Lar da Santa da Ladeira, é no Ninho dos
Pequenitos, é em quase todos os colégios com
internamento de criancinhas. Neste momento, até na
África do Sul está a ser julgado um português
acusado de 48 crimes de pedofilia.
Um tipo desfolha qualquer jornal e só depara com
notícias sobre pedofilia!
Depois, não admira que até a publicidade se
refira a este fenómeno.
Reparem neste anúncio da Halcon – agência
de viagens.
Estão a ver? Crianças grátis para
o Verão de 2004, é o que a Halcon oferece
a todos os portugueses!
País de poetas?... duvido...
País de pedófilos, pelos vistos!...
Grande equipa!
A histeria anti-tabágica continua.
Agora, basta abrir um maço de Marlboro para encontrar,
lá dentro, este cartão:
“Gostarias de ser um dos membros da equipa”?
– perguntam lá em cima.
E de equipa, perguntaremos nós. A resposta está
mais abaixo: “Fumar mata”.
De facto, quem não gostaria de pertencer à
equipa “Fumar mata”?
Quer dizer: um gajo que é fumador já tem
a obrigação, neste momento, de saber os perigos
que corre ao continuar a fumar. Mesmo assim, ao comprar
o macito do costume, depara com aquelas mensagens escarrapachadas
no maço: vais morrer, se estás grávida
o teu bebé vai nascer sem braços, vais ter
uma morte lenta e horrível, hás-de gritar
pela tua mãe enquanto morres com insuficiência
respiratória, cancro do pulmão, da língua,
da laringe, da bexiga e da próstata, ficarás
impotente e o fígado sair-te-á pela boca,
sofrerás horrores inimagináveis e, no fim,
morrerás completamente e ainda levarás para
a cova a culpa de matares milhares de não fumadores
que contigo convivem!
Apesar de tudo isso, o fumador abre o maço de cigarros,
pronto a enfrentar todos esses perigos e, lá dentro,
descobre estes cartãozinho: “gostarias de ser
um dos membros da equipa fumar mata?”
Vão-se catar!
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