Outubro
2003:
| A censura nos jornais portugueses
| As escutas que os pariu! | Uma
choldra! |
Quarta, 22
As
escutas que os pariu!
Portugal resume-se ao processo Casa Pia. Não se fala
noutra coisa. As primeiras páginas de todos os jornais,
as primeiras meias-horas de todos os telejornais, as primeiras
notícias de todas as rádios, todas são
dedicadas a algum aspecto relacionado com a Casa Pia. Nas
lojas, nas ruas, nos almoços e jantares entre amigos,
nas reuniões de família, não se fala
de outra coisa. O país ficou reduzido a meia dúzia
de presumíveis pedófilos e algumas centenas
(serão mesmo centenas?) de crianças abusadas.
Ninguém quer saber da Constituição
Europeia, do Orçamento de Estado para 2004, da constante
falência de pequenas e médias empresas, do
emprego crescente, da contestação dos estudantes
às novas propinas, da quase falência da Segurança
Social, da ineficácia da cobrança dos impostos
– nada interessa mais do que pequeno universo de um
escândalo de dimensões verdadeiramente reduzidas,
quando comparadas com tudo o resto.
Claro que alguns dos arguidos são figuras públicas
– o Carlos Cruz, o Paulo Pedroso, o Herman José;
claro que tudo o que envolva sexo desperta mais a atenção;
claro que a história dos “vícios privados,
públicas virtudes” ser assim exposta mexe com
a curiosidade dos mortais; claro que o facto de as crianças
abusadas pertencerem a uma instituição do
Estado dá a entender que os implicados são
muitos mais e altamente colocados; claro que faz confusão
pensar que o provedor não sabia, que o ministro desconhecia,
que o presidente ignorava. Mas, apesar de tudo isso ser
verdade, não me parece que seja caso para que –
praticamente desde Fevereiro, altura em que o Carlos Cruz
foi preso – não se fale noutra coisa.
Na passada 6ª feira, poucos dias depois da libertação
de Paulo Pedroso, a Sic divulgou as escutas telefónicas
aos dirigentes do PS, no dia em que o nº2 do partido
foi preso preventivamente. Ora bem, o fulano foi preso há
4 meses – por que razão é que as escutas
foram divulgadas apenas na semana em que ele foi libertado?
Quem passou a informação aos jornalistas?
É óbvio que a transcrição dessas
escutas estão (estavam) em segredo de justiça
– então, como foram parar à mão
dos jornalistas? Numa das conversas, Ferro Rodrigues diz
a frase fatal: “tou-me cagando para o segredo de justiça!”
Imediatamente, essa frase fez as manchetes dos jornais e
abriu os telejornais.
Depreende-se que os tipos do PS não estariam muito
interessados em divulgar uma frase como esta, portanto,
é admissível supor que não foram os
advogados do Paulo Pedroso que passaram a informação
aos jornalistas. Então, quem foi? É assim
tão difícil de descobrir? O Procurador da
República – que, na expressão feliz
de Eduardo Prado Coelho, parece um gato constipado –
só ontem, 5 dias depois, decidiu abrir um inquérito
para averiguar quem quebrou o segredo de justiça.
Mas afinal brincamos ou quê? Quem tem acesso à
transcrição das escutas? Cinco pessoas, dez,
trinta, cinquenta? Não devem ser muitas mais, senão
aquilo deixa de ser segredo logo desde o início.
Não deve ser muito complicado descobrir quem foi.
Mas estará alguém verdadeiramente interessado
em saber?
E os jornalistas, como ficam no meio disto tudo? Bem, segundo
parece. Só ontem ouvi o José Sócrates
fazer uma crítica dura aos jornalistas. Porque, se
alguém, de dentro do processo, quebrou o segredo
de justiça, os jornalistas publicaram a coisa, estando-se
borrifando para o facto de: 1) estarem a divulgar algo que
era suposto estar no segredo de justiça; 2) estarem
a divulgar uma conversa telefónica privada entre
duas pessoas, violando um dos mais elementares direitos
constitucionais.
Quantas vezes um qualquer jornalista famosos terá
dito, ao telefone, para um amigo, coisas como “o cabrão
do 1º ministro”, “aquele maricas do ministro
Tal”, “não me fodas com essa história
dos direitos democráticos”, “quero que
o assessor do presidente vá levar no cu” ou
coisas semelhantes? Centenas, milhares de vezes! O facto
de eu dizer, ao telefone, que o Portas é um perigoso
hiper-nipo-nazi-fascista, não quer dizer, obrigatoriamente,
que eu o repetisse em público – embora, neste
caso, o exemplo não seja bom, porque eu acho mesmo
que o Paulinho é hiper-nipo-nazi-fascista. Mas enfim,
isso é uma opinião pessoal, à qual
tenho direito – uma das poucas coisas boas que conquistámos
com a democracia. Ninguém tem o direito de escutar
as minhas conversas privadas, gravá-las e transcrevê-las.
E, se a polícia e os juízes têm esse
direito em situações especiais, não
é suposto, depois, essas transcrições
virem escarrapachadas nos jornais!
Ontem, o Sampaio falou ao país. Também ele
é citado nas escutas, porque o Ferro telefonou-lhe
no dia em que o Pedroso foi preso. Além de garantir
que não tentou obstruir a justiça, o presidente
pediu bom senso a todos, jornalistas incluídos. Hoje
mesmo, o tablóide 24 Horas publica um caderno especial
com a transcrição integral das escutas. Não
são excertos – são as conversas todas
entre o Ferro, o Pedroso, o Costa, o bastonário da
Ordem dos Advogados, etc, etc. Portanto, quem quebrou o
segredo de justiça, fez um bom trabalho: fotocopiou
a coisa toda e passou-a aos jornalistas. À borla?
Duvido! Aliás, penso mesmo que, neste caso, a coisa
se passou assim: algum jornalista entrou em contacto com
alguém de dentro do processo e ofereceu dinheiro
em troca da informação; em alternativa: de
dentro do processo alguém falou com um jornalista
e ofereceu a informação, a troco de dinheiro.
Em qualquer dos casos, ambos são culpados em igual
grau.
A menos que se seja favorável à famosa tese
da cabala, que tudo isto tenha apenas intuitos políticos,
o que me parece complexo demais para o provincianismo da
política portuguesa...
Há algum tempo li, já não sei em
que jornal ou revista, um comentário jocoso sobre
os jornalistas americanos e ingleses, que farejavam os caixotes
do lixo das estrelas, em busca de algo comprometedor, de
modo a poderem ter uma cacha. Por exemplo, encontrar preservativos
usados no caixote do lixo do David Beckham, sabendo que
a mulher não está em Madrid, poderia ser a
prova de que o jogador do Real andava a dar facadas no matrimónio.
Ora, a semana passada, os jornalistas portugueses destacados
para o caso da pedofilia descobriram, espantados, folhas
inteiras de processos judiciais, no caixote do lixo à
porta do tribunal. E como descobriram eles esta coisa espantosa?
A resposta só pode ser uma: porque, também
eles, andam a farejar como cães vadios tudo o que
é caixote do lixo, em busca de algo que os possa
tornar famosos. A porcaria é a mesma!
No meio disto tudo, ninguém sai ileso. O psiquiatra
que acompanha os adolescentes abusados garante que eles
não mentem quando acusam quem os violou. Um psiquiatra
a dizer que os adolescentes não mentem! A provedora
da Casa Pia, Catalana Pestina, que me faz lembrar a Susaninha,
da Mafalda, diz o mesmo. Toda a gente bota faladura, ninguém
é capaz de estar calado, aguardando, calmamente que
as investigações sigam o seu curso. E quando
tudo isto acabar, ficaremos todos com muitas dúvidas:
os condenados serão mesmo culpados? Os absolvidos
serão mesmo inocentes?
A censura
nos jornais portugueses
A censura não precisa de ser feita por autoridades
especiais, a mando de governos pouco democráticos.
A censura nem sempre é a proibição
da publicação de certas informações.
A censura também pode ser o modo como os jornalistas
tratam determinados assuntos.
O Público de hoje tem um bom exemplo disso:
a) na página 28 diz-se que Portugal é um dos
países com menor taxa de vacinação
da gripe; numa lista de 14 países, Portugal está
no 11º lugar; atrás de nós, só
a Hungria, a Finlândia e a Roménia.
b) na página 35 diz-se que Portugal é um
dos países com menor taxa de mortalidade materna;
cinco mulheres morrem de parto em cada 100 mil nascimentos!;
temos uma taxa mais baixa do que a média europeia
(que é de 24 mortes por 100 mil nascimentos), mais
baixa do que países como a Alemanha, a França
ou a Holanda; entre os países da União Europeia,
apenas a Espanha, a Áustria e a Suécia têm
taxas mais baixas que Portugal.
Ora bem, entre estes dois indicadores de saúde,
qual é que o Público escolheu para destaque
de 1ª página? Claro que escolheu o da vacina
da gripe – que é, até, um indicador
pouco válido, já que a decisão de vacinar
ou não as populações em risco é
apenas uma decisão de cada médico, enquanto
que todos os procedimentos que levam a um baixa taxa de
mortalidade materna têm a ver com todo o sistema de
saúde.
A excelente taxa de mortalidade materna em Portugal é
um indicador muito positivo, sinal de que o Serviço
Nacional de Saúde, apesar de todas as suas falhas,
tem realizado um bom trabalho na área da Saúde
Materno-Infantil – e esse facto não deve ser
alheio ao trabalho dos Centros de Saúde, em equipa
com os Serviços de Obstetrícia dos Hospitais.
Mas enfim, para 1ª página de um jornal, esse
bom indicador não foi considerado relevante, em detrimento
de outro que, embora muito menos importante em termos de
Saúde Pública, revela mais uma fragilidade
do nosso país.
Estamos mal? Nesse caso, vamos tornar isto ainda pior!
Sábado, 18
Uma
choldra!
A filha do ministro dos Negócios Estrangeiros,
Martins da Cruz, faz uma exposição ao ministro
do Ensino Superior, pedindo-lhe para ser aceite na Faculdade
de Medicina, ao abrigo do contigente especial dos filhos
dos diplomatas, apesar do seu pai já estar em Portugal
há 2 anos. O ministro do Ensino Superior, Pedro Lynce,
despacha favoravelmente a exposição. Alguém
mete a boca no trombone. Os órgãos de comunicação
dão a notícia, ambos os ministros se demitem
e a miúda vai estudar para o estrangeiro. O nº2
do PS, preso preventivamente há 4 meses, suspeito
de ter abusado de criancinhas da Casa Pia é libertado
e recebido na Assembleia da República como herói.
O juiz que faz a instrução do processo participa
numa prova todo-o-terreno na Guarda e dá uma entrevista
à Rádio Altitude sobre a sua actuação
no processo da Casa Pia. O advogado Hugo Marçal,
preso preventivamente pelas mesmas razões, é
também posto em liberdade, depois de ter refutado
as acusações. A SIC divulga conversas telefónicas
entre os dirigentes do PS; numa delas, o líder, Ferro
Rodrigues diz “estou-me cagando para o segredo de
justiça!”. Os manuais de Língua Portuguesa
do 10º ano trazem textos sobre o “Big Brother”.
A “Time” faz 1ª página com as putas
brasileiras que atacam em casas de alterne, em Bragança.
O adjunto do 1º ministro, como represália, retira
a publicidade ao Euro 2004 que devia aparecer naquela revista.
Mas que raio de merda é esta?
Não há coisas mais importantes para discutir?
E o Orçamento Geral do Estado? E as grandes opções
políticas? O que interessa é o acessório,
o pormenor, o fait-divers?
Como dizia D. Carlos, citado hoje no editorial do José
António Saraiva, no expresso: “esta choldra
é ingovernável!”
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