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O Coiso
Um dia destes...

Setembro 2003:


| Coisas dos jornais | A incrível família S. e outros seres estranhos | Adjectivos nossos amigos | Nascido para negociar | Coisas que nos chegam pelo correio | Cínico, eu? |


Segunda, 29
Coisas dos jornais
Dois recortes dos jornais de ontem.

Já repararam bem no preço das crianças? Crianças desde12 euros e 90! Isto é o resultado da onda de pedofilia que assola o país. De notar, ainda, que “mulher” e “homem” estão no singular, o deve querer dizer que, caso se queira uma mulher, teremos que desembolsar 14,90, enquanto um homem continua a valer mais – 19,90 (continua a não haver igualdade entre os sexos). No entanto, no que respeita aos jovens e às crianças, como estão no plural, poderemos depreender que, por apenas 12,90, teremos à nossa disposição “jovens” ou “crianças”. Quantos? À dúzia é mais barato?...

Outro recorte:

Bom, isto é o que eu ando a dizer há anos! E, agora, a OCDE veio dar-me razão! O povo, na sua imensa sabedoria, costuma dizer que “o trabalho dá saúde”. A isto, o mesmo povo, costuma responder: que trabalhem os doentes!
Paul Lafargue teorizou o Direito à Preguiça, muito antes dos especialistas da OCDE chegarem a esta brilhante conclusão.

É que até os sindicatos – que, supostamente, deviam defender os trabalhadores – insistem em defender o direito ao trabalho!

Pois se está provado – agora e para sempre! – que o trabalho faz cada vez mais mal à saúde!!!

Sábado, 20
A incrível família S. e outros seres estranhos
A família S. é protagonista de várias das minhas histórias pouco clínicas. No entanto, continua a espantar-me. Na passada 4ª feira, na consulta de Saúde Infantil, estava marcado o André S., de 15 meses. Claro que não podia vir sozinho. É axiomático: um S. nunca vem só. Claro, é compreensível que uma criança de 15 meses não venha sozinha à consulta. Mas, no caso dos S. já sei que vêm todos à consulta. Sempre.

A família S. é actualmente composta pelos seguintes elementos: a avó, com cerca de 60 anos, viúva e 4 filhos: 3 raparigas e um rapaz; o rapaz está detido por tráfico de droga há cerca de 7 anos, mas deixou por cá uma filha de 6 anos. A rapariga mais velha tem 3 filhos, todos do sexo masculino, com 15 e 8 anos e o André, de 15 meses; a do meio, tem um puto de 4 anos; a mais nova, uma miúda de 3 anos. Total de membros activos na minha consulta: dez, já que os maridos das 3 raparigas raramente acompanham as esposas, felizmente. Na 4ª feira, a acompanhar o André, vinham apenas mais 4 membros. Nada mau! Para consultar um S. só tive que aturar cinco S. A consulta correu da forma habitual, com todos os S. a falar ao mesmo tempo e os dois miúdos a mexerem em tudo o que tenho sobre a secretária; começam por tirar os clips todos da caixa, mexem nas canetas, abrem as gavetas, sobem e descem da marquesa, dão umas estaladas um ao outro, ao mesmo tempo que as três mulheres me fazem perguntas cruzadas, me contam episódios espectaculares dos diversos rebentos e me apresentam queixas variadas. Respirando fundo e tentando fazer de conta que tudo decorria normalmente, lá consegui concluir a consulta.

Mas eis que, à tarde, quando já tinha terminado a consulta dos doentes crónicos, me surge a S. que faltou de manhã, mais o seu jovem rebento de 4 anos. Mais ou menos como quem diz: pensavas que te livravas da família toda? Não reparaste que, de manhã, só aturaste 5 S.? Pois agora levas com mais dois!

Felizmente, já começaram as aulas e 3 dos S. não apareceram porque já estão integrados no alegre processo do insucesso escolar.

Outro cromaço que me apareceu esta semana na consulta: um negro, de 60 anos. “Então, Sr. Semedo, o que o trás por cá?”. Resposta: “A minha cabeça não está bem, é esquisito, quando deixo cair um parafuso ao chão fico com uma grande confusão na cabeça e só descanso quando o consigo encontrar... e então, se o parafuso cai para um esgoto, eu sou capaz de partir a manilha toda até encontrar o parafuso! No outro dia, tive que ir ao hospital e entrei por uma porta e, depois, quando queria sair, tive que sair pela mesma porta e andei às voltas no hospital, até encontrar a mesma porta e a minha cabeça ficou muito confusa!”

Diagnóstico? Alguém tem uma sugestão?

Eu sei que preciso de férias e elas estão quase a chegar mas, por vezes, também me apetecia que me desaparecesse um parafuso!

Adjectivos nosso amigos
A língua portuguesa é muito rica em adjectivos. Gosto muito de adjectivos. O Garcia Marquez diz, nas suas Memórias, que tenta nunca usar palavras terminadas em “mente”, procurando usar outros adjectivos que as substituam. Compreendo-o bem. Em vez de dizer, por exemplo, “muito rapidamente”, dizer “veloz como um raio”. Aí está um bom adjectivo: veloz. E a nossa língua é bem mais pródiga em adjectivos do que a espanhola. Talvez por isso, nós percebemos quase tudo o que um espanhol diz, enquanto os espanhóis têm dificuldade em nos perceber.
Quando escrevia para o Pão, usava e abusava dos adjectivos. Agora, que todas as semanas tenho transcrito os meus textos desses tempos, redescobri o gozo dos adjectivos. E gosto deles: estupendo, formidável, fantástico, arguto, perspicaz, eficaz, exacto, cálido, tonitruante, espampanante, multitudinário, imarcescível, paupérrimo, expectante, pérfido, portentoso, sarcástico...
Adjectivem, meus amigos. Usem a língua, desentorpeçam-na, dêem com ela nos dentes, diversifiquem o vosso vocabulário, porque a nossa língua é, talvez, uma das poucas coisas de que nos podemos orgulhar...

Sexta, 12
Nascido para negociar
Os filhos da Belinha são conhecidos em todo o Centro de Saúde. Têm 5 e 6 anos e um ar traquinas, mais marcado por serem de etnia cigana.

Quando os filhos da Belinha vêm ao Centro de Saúde, tudo entra em alvoroço! O de 5 anos invade o gabinete da enfermeira e fana uma embalagem de compressas, enquanto o de 6 anos já lá vem, todo lampeiro, com um agrafador palmado à administrativa. Vai tudo à sua frente e é preciso estar com mil olhos para que não levem para casa coisas essenciais ao funcionamento do serviço. Porque já aconteceu, claro.

Ontem, o mais velhinho estava à minha porta, encostado à parede, talvez imaginando o que poderia surripiar.

Quando abri a porta do consultório, interpelou-me:
- Ó vizinho! Dá-me uma caneta!

Pedido habitual... Respondi:
- Só te dou uma caneta se me deres um porta-chaves.

O filho mais velho da Belinha ficou atrapalhado com a réplica. Estaria à espera, talvez, de um não rotundo, mas nunca de uma proposta daquelas. Os utentes que estavam no hall riram-se muito e eu chamei o Sr. Rogério, que era o doente a ser consultado a seguir.

Quando o Sr. Rogério ia a entrar no meu gabinete, o filho da Belinha puxou-lhe pelas calças e disse:
- Ó vizinho! Dá-me um porta-chaves!

Genial!...

Sexta, 5
Coisas que vêm pelo correio
As coisas que nos chegam diariamente pelo correio já quase que não nos espantam. Os laboratórios da indústria farmacêutica fizeram-nos o favor de, ao longo dos anos, nos habituarem às maiores idiotices via correio: já recebemos porta-chaves, canetas, toalhetes perfumados, puzzles, magnetos, clips, isqueiros, etc, etc. Isto para não falar dos mais variados folhetos publicitários com receitas de culinária, roteiros turísticos, restaurantes aconselhados, episódios da história trágico-marítima e tudo o que possam imaginar.

No entanto, de vez em quando, ainda nos espantamos com algumas coisas que nos chegam pelo correio.
Hoje, por exemplo, recebemos a revista “Você escolhe”. No Editorial, uma fogosa Vanessa Fernandes, directora comercial da Gespostal, deseja-nos umas boas férias e convida-nos a folhear a revista e escolher “aqueles pequenos mimos ou requintes para a nossa casa e o nosso ambiente”.

E que pequenos mimos a “Você escolhe” nos oferece?

São tantos tão variados que é difícil escolher apenas alguns deles. Passando pela colecção de 3 chávenas de café e respectivos 3 pires, ilustrados com temas de Renoir, saltando por cima dos relógios, do separador de moedas e do leitor de cd’s, chegamos ao alvo anti-stress para executivos e ao saco de boxe para executivos. Diz o texto da revista: “o stress põe-no nervoso? Liberte a sua tensão com este saco de boxe para executivos, duro e resistente, construído em polietileno para suportar os seus socos à esquerda, à direita, e até os mais violentos ganchos.” Portanto, se eu for executivo e se o stress me puser nervoso (que deve ser uma actividade rara, já que o stress, habitualmente, me provoca uma tranquilidade de planície alentejana...), é só adquirir um destes produtos e desatar a dar tiros ou socos e logo serei invadido por uma calma parva.

Até aqui, tudo normal.

Vejamos, agora, outros produtos que a revista nos oferece: “anel micro-lanterna”, “fita métrica com gravação digital”, “almofada insuflável com rádio” e “carros corta-unhas”. De repente, um tipo fica a pensar: onde andei eu estes anos todos, desconhecendo todos estes produtos? Que pateta sou eu, que sempre cortei as unhas com um daqueles corta-unhas clássicos, de metal, tipo tenaz, quando tinha, à minha disposição um objecto “que pode também ser uma peça decorativa, a denunciar a sua paixão pelas máquinas velozes das pistas de corridas ou dos trilhos de ralis”? Sinto-me desfalecer por nunca ter pensado em comprar “uma colecção de alguns dos mais famosos bólides que são também ergonómicos corta-unhas”.

Mas há mais!

Como foi possível viver até agora sem o “afasta animais inoportunos”, o “afasta ratos e insectos” e, sobretudo, sem o “pente electrónico mata-parasitas”?

Fui-me deitar insatisfeito comigo próprio. Tantas horas gastas a palmilhar alguns dos maiores centros comerciais da Europa, dias e dias seguidos nos corredores do Colombo, do Vasco da Gama, do Fórum de Almada, sempre à procura daqueles objectos sem os quais a vida é quase insuportável e, afinal, tudo o que um homem necessita para ser feliz e civilizado, está aqui, nesta formidável revista que nos chega pelo correio!...

Pelo correio – mas electrónico - também me chegou uma proposta fantástica. Hoje recebi um e-mail de Tomson Taylor, que me faz um convite irrecusável. Depois de ler a mensagem com toda a atenção, discuti o assunto com a Mila e, na próxima 2ª feira, vou pedir a demissão do meu cargo e mudar definitivamente de vida.

Tomson Taylor é primo de Charles Taylor, ex-presidente da Libéria que, recentemente, se exilou na Nigéria, acusado de ser o responsável por milhares de mortos numa das mais longas e sangrentas guerras civis de África.

E o que é que o primo do sanguinário Taylor me propõe? Pois, candidamente, informa-me que o ex-presidente tem cerca de 30 milhões de dólares em Madrid mas, como está indiciado pelo tribunal internacional como criminoso de guerra, não pode mexer na massa. Por isso, Charles Taylor pediu ao primo Tomson que encontrasse um sócio credível que se pudesse movimentar facilmente, sem levantar suspeitas. Vai daí, o Tomson escolheu-me a mim e aguarda, urgentemente, pela minha resposta, sugerindo-me que nos encontremos em Madrid em breve.

Acrescenta que, caso eu não esteja interessado neste negócio, deverei avisá-lo, também com urgência, para ele poder contactar com outro potencial sócio.

E termina com “best regards and God bless”.

Como eu nem sequer respondi, suponho que Deus não me vai abençoar e que o pobre do Tomson terá que encontrar outro sócio...

Coisas!...

Cínico, eu?
O Sr. E. Coutinho ficou muito escandalizado com o cromo que publiquei com o Paulo Portas a deglutir a hóstia.

Chamou-me a atenção para o facto de dever respeitar as convicções religiosas de cada um. Não entendeu – ou não quis entender – que eu estava, apenas, a ser cínico, provavelmente quase tão cínico como Portas, que não tinha necessidade nenhuma de engolir a hóstia numa cerimónia que ele sabia (porque a provocou) que ia ser pública, cheia de repórteres (o funeral de Maggioli Gouveia).

Mas, mais cínico que eu e que o P.P. é, sem dúvida, o advogado francês Olivier Debuzy, que publicou um artigo no jornal “Les Echos”, a propósito dos chamados “mortos pelo calor” que, em França, foram aos milhares, dizem. Debuzy diz: “perante a derrapagem do défice orçamental, a vaga de calor é quase benéfica. Ela contrapõe-se assim aos médicos que mantêm em vida os dementes senis e os doentes em fase terminal. O aumento da taxa de mortalidade enche os cofres do Estado por intermédio dos impostos sucessórios, contribuindo assim para reduzir o défice. Depois, as vagas de habitações contribuem para a baixa de preços no mercado imobiliário.”

Ora aqui está uma visão completamente nova. Há males que vêm por bem...

 

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Actualizado em: 30 Setembro 2003
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