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O Coiso
Um dia destes...

Setembro 2004:


| Joana, este povo não presta | Atestados médicos - um direito dos portugueses | Socialistas, tendência socrática| A versatilidade da Dona Celeste | Das vantagens do manual; do falhanço do digital | A perversidade da TV Cabo | Ei, Amaral, a tua reforma é obscena! | A Santanada continua | As taxas moderadoras | Kiváncsi! | O poder do marketing | Poderes do Diu | As crianças de Beslan | Mês de Agosto - minha mãe estou no meu posto! |


Quina, 30
Joana, este povo não presta!
Os facto são estes: há cerca de 15 dias, desapareceu, numa aldeia algarvia, uma miúda de 8 anos, chamada Joana. A mãe surgiu nos telejornais, dizendo que tinha mandado a filha ao mini-mercado fazer umas compras e nunca mais a tinha visto. As autoridades puseram-se em campo, à procura da criança. Alguns dias depois, um pasquim que continua a publicar-se, titulava na primeira página, que a mãe da criança a teria vendido a um casal de alemães. Novamente nos telejornais, a mãe nega com pouca veemência e, nesse mesmo dia, ela e um irmão (tio da criança) são presos, sob a acusação de terem espancado a criança até à morte.

Os telejornais rejubilaram! Em directo da aldeia da Figueira e dos arredores do tribunal de Portimão, temos assistido todos os dias a um circo nojento: as autoridades procuram, em vão, o corpo da Joana, os repórteres esganiçam-se, com os cameramen atrás, correndo de um lado para o outro, e os populares, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre presentes, feios, porcos e maus. Será que esta malta não trabalha? Gajos gordos, com as grandes barrigas a espetarem a camisa, barba por fazer, ar boçal, a dizerem que, se fossem eles, os ditos assassinos já tinham deitado tudo cá para fora; mulheres desdentadas, com as eternas batas e os habituais chinelos, com ar hipotiroideu, vão assegurando que seriam incapazes de fazer uma coisa dessas a um filho. E os repórteres puxam por esta canalha, fazem-lhe perguntas idiotas, provoca-a. E quando não há assunto, sempre se pode ir à escola entrevistar as colegas da Joana, perguntar-lhes se sentem a falta da menina!

Como diz o Pacheco Pereira, na sua crónica do Público de ontem: “Por esse ‘povo’ não tenho nenhum respeito, nem por eles, nem pela televisão que os mobiliza e atiça”.

E os profissionais da televisão, como se sentem? Como consegue dormir o José Rodrigues dos Santos, o Guedes de Carvalho, a Judite de Sousa, o José Alberto de Carvalho? Quanto à Manuela Moura Guedes, deve dormir que nem uma justa porque nada disto faz sentido para ela. Mas os outros profissionais, não ficarão incomodados com as imagens que estão a caucionar, não terão vergonha por fazer parte de uma televisão que exibe estas imagens nojentas e indignas? E não me venham dizer que apenas mostram a realidade: de certeza que, se as televisões lá não estivessem, os idiotas dos mirones seriam muito menos e não se exibiriam como quando a televisão “está a dar”!

Não há dúvida que este povo não presta e tem a televisão que merece!
Quanto à Joana – quem se preocupa com ela?...

Quarta, 29
Atestados médicos – um direito dos portugueses
Não consta da Constituição, mas devia: todo o cidadão português tem direito ao seu atestado médico!

Setembro é o melhor mês para atestados. Já devo ter passado cerca de um milhar!

Não há creche, infantário ou jardim infantil que se preze, em Portugal, que aceite um menino nas suas instalações que não venha munido do competente atestado médico, onde deve figurar a frase mágica: “pode frequentar a creche (jardim infantil, infantário, escola, ATL)”. No caso de ser a primeira vez que o menino frequenta semelhante estabelecimento, é certo e sabido que, após uma semana de contacto com o ranho dos outros meninos, fica logo doentinho e tem que vir ao médico. Depois de medicado, só pode regressar ao infantário (creche, jardim infantil, escola, ATL) munido de mais um atestado médico com a frase milagrosa “pode regressar à escola (infantário, creche, jardim infantil, ATL).

Mas os papás dos meninos portugueses querem que eles cresçam fortes e saudáveis. Para isso, o desporto é fundamental. Então, inscrevem-nos na natação. Muito bem. Só que, para praticarem natação, para submergirem os seus lindos pezinhos na água da piscina, os meninos precisam de mais um atestado médico, que tem que dizer “pode praticar natação (judo, karaté, ginástica, etc).

E também os papás e as mamãs dos meninos querem perder uns quilitos e baixar o colesterol. Por isso, também se inscrevem na natação e precisam, por conseguinte, do competente atestado médico.

O mesmo se passa com os avôs e as avós dos meninos, embora estes cidadão mais idosos, prefiram a hidroginástica, a qual não podem praticar sem o inevitável atestado médico.

Considerando que, para além dos atestados para a escola e para a prática de qualquer desporto, também passo atestados médicos para carta de condução, carta de marinheiro e carta de caçador, atestados de robustez física e mental para o exercício desta ou daquela profissão, atestados de doença crónica para candidatura a rendimento de inserção social, para obtenção de uma casa de renda social, para conseguir um subsídio para ajudar a pagar os medicamentos, atestado de doença para justificar as faltas ao serviço, etc, etc, etc, etc, etc, etc... – considerando todos estes atestados, estou convencido que todos os meus quase 2 mil doentes tiveram já direito a um atestadinho passado por mim!
Não há dúvida que somos um país de atestados!

E ai de mim se não os passar: os meninos não poderiam frequentar a escola (o jardim infantil, a creche, o infantário, o ATL), os meninos, os papás e os vovôs não poderiam praticar desporto, muitos não teriam acesso aos subsídios do Estado Providência, alguns faltariam ao trabalho injustificadamente e seriam despedidos, não haveria automobilistas, caçadores e marinheiros em Portugal.
E todos me passariam, a mim, um atestado de incompetência...

Domingo, 26
Socialistas, tendência socrática
O PS realizou eleições para secretário geral – facto inédito em Portugal. As eleições foram por voto secreto e José Sócrates ganhou com quase 80% dos votos, contra 16% de Manuel Alegre e 3% de João Soares.

O Sócrates é um tipo simpático, que fala com convicção e que parece estudar os assuntos, antes de emitir uma opinião. Mediático, persuasivo, modernaço – há muito tempo que o PS não tinha um líder assim. Está bem para o Sr. Lopes. O Manuel Alegre usa barba, parece estar sempre zangado e até é poeta. O João Soares tem cara de poucos amigos e raramente pestaneja. Nestes tempos de “sound bytes”, os militantes socialistas escolheram alguém que – pelo menos ao nível da imagem – pode fazer frente aos populistas que estão no governo.
Sinceramente, não faço ideia se isto é bom ou mau, mas pressinto que o Sr. Lopes e o Sr. Portas terão mais dificuldade em enfrentar o Sócrates do que teriam se, à frente do PS, estivesse o Manuel Alegre ou o João Soares.

Claro que a campanha eleitoral que decorreu no interior do PS, com vasta cobertura mediática, mostrou as grandes diferenças entre as três candidaturas. As coisas que se disseram não ajudaram nada à imagem de unidade do partido. No entanto, sempre foi melhor do que a hipocrisia que reina no PSD, no qual quase todos os “históricos” do partido desprezam o Sr. Lopes e odeiam a aliança com o Sr. Portas, mas poucos têm coragem de o dizer publicamente (honra seja feita ao Pacheco Pereira e poucos mais).

Agora, a tarefa do Sócrates – se ele for esperto – não é muito complicada: bastará chamar a atenção para as idiotices constantes do Sr. Lopes e para a arrogância fascistóide do Sr. Portas. E, ao longo destes dois últimos meses, o PS já perdeu muitas oportunidades:

- o Lopes diz que o governo vai avançar com as taxas moderadoras diferenciadas na saúde e o ministro Pereira fica aflito porque não sabia de nada
- o Lopes diz que, em Novembro, a GNR regressa do Iraque e, pouco depois, afirma que os garbosos militares portugueses ficam lá até Janeiro
- o Guedes revela o relatório do inquérito à explosão na refinaria da Galp sem dar cavaco ao Sr. Barreto
- o Sr. Barreto diz que o Guedes devia era estar caladinho, caladinho
- o Lopes diz que a refinaria da Galp em Matosinhos vai fechar e o Sr. Barreto diz que não
- o Sr. Félix diz que a reforma do Mira Amaral é “quase obscena” e, depois, nomeia a Dona Celeste para a Caixa Geral de Depósitos
- o Lopes diz que têm que ser apurados os culpados nos atrasos da colocação dos professores e que, para o ano, o sistema tem que ser alterado e a ministra da Educação diz que o sistema é óptimo e transparente – e, afinal, os professores vão ser colocados á mão

E os exemplos podiam continuar...
Com um cenário destes, Sócrates só pode brilhar!...

Quinta, 23
A versatilidade da Dona Celeste
Sou médico de Clínica Geral. Cuido de pessoas e famílias, do nascimento à morte; sigo grávidas, crianças, jovens, adultos e idosos; acompanho hipertensos, diabéticos, doentes oncológicos; trato gripes e constipações, faringites, amigdalites, otites, pneumonias, pé de atleta, unhas encarceradas, abcessos dentários, caspa, treçolhos, panarícios, omalgias, gonalgias, cervicalgias, lombalgias, ciáticas, crises de gota, herpes zooster, varicela, rubéola e as mais variadas viroses; faço ensinamento de pílulas, aconselhamento em planeamento familiar, perturbações da erecção; trato depressões, crises de pânico, síndromas ansiosos; acompanho esquizofrénicos, doentes bipolares e border-lines; faço domicílios a doentes acamados, em estadio terminal.
E mais, muito mais.

Já fui jornalista, trabalhei para a RTP, o Jornal de Notícias e a Gazeta da Semana. Publiquei textos no República, Pé de Cabra, Pau de Canela, Bisnau, colaborei no Pão Comanteiga, rádio e revista, em diversos outros programas de rádio e televisão.

Sei aspirar a casa, limpar o pó, fazer a cama, pendurar cortinados, pregar, aparafusar, fazer furos, meter buchas; pinto paredes e tectos, envernizo portas, já montei prateleiras e fiz pequenos móveis. Sei tocar guitarra.
E mais, muito mais.

Sendo assim, não percebo por que razão não me convidam para gestor da Caixa Geral de Depósitos!

Afinal, o que é que a Dona Celeste Cardona – que acaba de ser nomeada para a CGD - sabe fazer que eu não saiba?!...

Quarta, 22
Das vantagens do manual; do falhanço do digital
Diz uma piada antiga que a masturbação feminina é mais avançada que a masculina porque, enquanto, nas mulheres, ela é digital, nos homens, continua a ser manual.

A vantagem do digital em relação ao manual é evidente. Seria difícil conceber o mundo de hoje sem o primado do digital.
Mas há excepções, como sempre.

O caso mais flagrante teve o seu epílogo ontem, com a assunção, por parte da ministra da Educação, Dona Carmo, que os professores teriam que ser colocados pelo método manual – já que o programa informático que os iria colocar, como que por magia, faliu completamente, emperrou, baralhou-se e não deu nada.
O famoso programa informático foi desenvolvido por uma empresa chamada Compta. Dos dirigentes dessa empresa destacam-se Rui Machete e Couto dos Santos, dois destacados membros do PSD.
Coincidências...

Couto dos Santos (que nada tem a ver comigo; eu sou Couto e Santos), é outro daqueles homens da Renascença, com múltiplos saberes: já foi secretário de Estado e ministro de várias coisas, nomeadamente, da Educação, é gestor da Compta (entre outras) e vai passar a administrar, também, a Casa da Música, no Porto.

Quando for grande, gostava de ser como estes senhores e senhoras, que tanto são ministros, como gestores de empresas de informática, como responsáveis por programas culturais, criação de cavalos, arranjos florais, moda feminina, rádio, televisão, relações internacionais e tudo o mais!
Portanto, como o programa informático borregou, toca a colocar os professores à mão, como sempre se fez.

Não sei qual é o drama: à mão também é bom e, se um tipo se engana, pode sempre emendar... a mão...

Terça, 21
A perversidade da TV Cabo
A partir do próximo dia 28 do corrente mês, a TV Cabo vai proceder à reorganização da sua grelha de canais. Após 10 anos de existência, a dita cuja decidiu ordenar os canais por temas. Assim, depois dos generalistas nacionais, RTP 1 e 2, SIC e TVI, seguem-se os temáticos nacionais: SIC Notícias, SIC Mulher, RTP-N, SIC Radical, SIC Gold, RTP Memória. Os canais de notícias também ficam todos juntos, a partir do 70: Euronews, CNN, Bloomberg, Sky News. O mesmo sucede com os canais de documentários, a partir do 40: Discovery, Odisseia, História, People + Arts, National Geographic.
Até aqui, tudo bem.

Mas que dizer dos canais 91, 92 e 93?...
Nessa zona do éter, a TV Cabo parece ter decidido juntar os canais erótico-pornográficos.

A saber:
No canal 91, o Sexyhot. No canal 92, o Playboy. E no canal 93, TV Canção Nova...
Parece-me correcto...

Domingo, 19
Ei Amaral, mira, a tua reforma é obscena!
Carta aberta ao ministro das Finanças

Exmo. Sr. Ministro das Finanças, Monsenhor Bagão Félix:
Venho por este meio, ao abrigo do precedente Mira Amaral, solicitar junto de Vossa Excelência, uma reforma igual à daquele servidor do Estado.

Também eu sou servidor do Estado, tendo trabalhado numa empresa pública, a RTP, entre 1974 e 1977; desde 1978, tenho trabalhado como médico em diversos hospitais e Centros de Saúde, a saber: Hospital D. Estefânia, Hospital Curry Cabral, H. S. José, Hospital dos Capuchos, Maternidade Magalhães Coutinho, Hospital Miguel Bombarda, Centro de Saúde de Armamar, Centro de Saúde de Mourão e, desde há 20 anos, Centro de Saúde do Monte de Caparica.
Bem sei que tenho apenas 51 anos e o Sr. Mira Amaral já tem a proveta idade de 58 anos, mas eu já fiz as contas e não me importo de perder algum dinheiro.
Portanto, como se perde 4.5% do salário por cada ano que falta para o candidato a reformado completar 60 anos, a mim faltam-me 9 anos, perderei cerca de 40% do salário. Como o referido senhor foi reformado com 18 000 euros, perderei 7 200 euros mensais – o que quer dizer que ficarei com uma reforma de 10 800 euros.

Não faz mal! Como assistente graduado de Clínica Geral ganho menos de metade disso, portanto, fico a ganhar com a troca.
Pede deferimento,
Artur Couto e Santos

Sábado, 17
A Santanada continua
Eu bem disse que este governo ia ser um fartar de rir...
Depois do caso do barco do aborto, em que se destacou o PP Paulo Portas, outro PP entrou em cena: o Sr. Guedes convocou uma conferência de imprensa para divulgar os resultados do inquérito à explosão que ocorreu na Galp, em Matosinhos e arrasou os responsáveis por aquela petrolífera, um deles, o Sr. Mexia, que agora também é ministro.

O Sr. Barreto, que é super-ministro e que é o responsável governamental pela Galp ficou indignado e disse que o Sr. Guedes não devia ter divulgado o relatório sem primeiro ter dele dado conhecimento aos seus colegas do governo. O Sr. Lopes pediu ao Sr. Mexia para estar caladinho e deixar o Sr. Guedes em paz.
Logo na semana a seguir, veio a bronca da colocação dos professores. A ministra da Educação disse que o atraso no início do ano lectivo não era nada de grave e que o actual programa informático de colocação dos professores é óptimo e muito mais transparente que o anterior. No mesmo dia, o Sr. Lopes afirmava que dizer que o ano lectivo tinha começado era um eufemismo e tinham que ser descobertos os responsáveis pelos enganos e atrasos. No dia seguinte, a ministra da Educação descobre dois directores gerais que foram nomeados no tempo de Guterres e vai exonerá-los, como responsáveis pela bagunça.

Num dia, o Sr. Lopes diz que a retoma está aí e que os números do INE o demonstram. No dia seguinte, propõe o aumento das taxas moderadoras na saúde e a cobrança de portagens nas auto-estradas do interior, porque o Estado precisa de massa.

Entretanto, o Sr. Félix, numa verdadeira conversa em família, anuncia aos portugueses que a retoma ainda está longe e que é preciso fazer mais esforços de contenção.

É a confusão total, como seria de esperar com um líder como o Sr. Lopes.
E reparem bem quem, de facto, nos governa. Quem são as estrelas da companhia? O Sr. Portas, com a sua feroz luta contra as holandesas malandrecas, o Sr. Guedes, que arrasa a Galp e o Sr. Félix, que põe em causa a política da D. Ferreira Leite.

E a que partido pertencem o Sr. Portas, o Sr. Guedes e o Sr. Félix?
Exactamente – ao PP, que até parece que foi o partido mais votado nas últimas eleições.
Onde está o PSD?

Terça, 14
As taxas moderadoras
O governo propôs a alteração das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde: que elas sejam indexadas aos rendimentos de cada cidadão – os que mais declaram, mais pagam.

A oposição, em bloco, veio criticar esta proposta: os cidadãos que pagam impostos, acabarão por pagar duas vezes; os que fogem aos impostos, continuarão beneficiados; os ricos desistirão do SNS e vão preferir a medicina privada; o SNS acabará por servir apenas os pobres e os indigentes.
As coisas não são assim tão simples.

O SNS não é “tendencialmente gratuito”, como diz a constituição: além das taxas moderadoras para pagamento das consultas, os utentes pagam ainda parte dos exames complementares e parte dos medicamentos.

Será justo que um utente que ganha um pouco acima do ordenado mínimo (e que, portanto, não está isento das taxas), pague por um qualquer exame complementar de diagnóstico a mesma quantia que paga um deputado ou um administrador de empresa?

Será justo que uma caixa de Ben-u-ron custe o mesmo ao contínuo e ao gestor?
Parece claro que não é justo.

A quase gratuitidade das consultas no SNS, desvaloriza o serviço prestado.
É óbvio que se as consultas nos Centros de Saúde custassem, por exemplo, 5 euros, os utentes pensariam duas vezes antes de irem a uma urgência mostrar uma borbulha. Quando estou de serviço no Atendimento Complementar e consulto um utente com uma dor de garganta que, após dois dias de antibiótico, regressa à consulta porque ainda não se sente bem e não tem paciência para aguardar o efeito do medicamento, o meu desejo é que as taxas moderadoras aumentem.

Quando todos os dias sou fustigado pelos mais variados pedidos de atestados, para praticar natação, ginástica ou musculação, para frequentar a creche, o infantário, a escola, para tirar as cartas de condução, de marinheiro ou de caçador, relatórios para juntas médicas de reforma de invalidez, de grande invalidez, de incapacidade temporária, de trabalhos melhorados, de relatórios médicos para compra de casa, para atribuição do rendimento mínimo, para a assistente social ajudar a pagar os medicamentos ou para arranjar uma casa nova – perante toda esta avalanche de pedidos de carácter burocrático, a minha vontade é que a actual taxa moderadora de 2 euros suba exponencialmente.
Fico também irritado quando um utente, a quem solicitei diversos exames complementares de diagnóstico, fica muito admirado quando tem que pagar a taxa de 2 euros quando – como ele diz – “vem apenas mostrar os exames”. Eu “apenas” terei que ver todos os seus exames, escrevê-los na ficha clínica, verificar se está tudo bem e actuar em conformidade. Claro que este trabalho não vale 2 euros!

No entanto, como diferenciar as taxas moderadoras com as aldrabices fiscais que para aí há?

Eu tenho utentes com senha verde, isto é, isentos da taxa moderadora, que conduzem Mercedes do último modelo e têm casa de férias no Algarve...
Portanto, o que o governo devia fazer era tornar o SNS absolutamente gratuito e tentar outras formas de diminuir os custos da saúde. Por exemplo:

- separar claramente a medicina pública da privada, impedindo que médicos trabalhem nos dois lados;
- diminuir o número de cargos dirigentes entre os médicos e enfermeiros – cada vez há mais técnicos de saúde a fazer trabalho burocrático, em vez de trabalho assistencial;
- tornar o uso de genéricos obrigatório no SNS e fazer concursos públicos para a escolha dos laboratórios que devem fornecer os diversos genéricos ao SNS;
- impedir o surgimento de laboratórios como cogumelos, com medicamentos-cópias;
- diminuir drasticamente o número de especialidades farmacêuticas existentes no mercado;
- contratar laboratórios para efectuarem, em exclusivo, os exames complementares para o SNS;
- sendo todos os exames gratuitos, passariam a ser propriedade do SNS e não do utente (como acontece no Canadá); assim se diminuíra o número de exames complementares que são requisitados “a pedido do utente”, sem que exista razão clínica para o fazer;
- contratar fisioterapeutas em vez de pagar milhões a clínicas privadas;
- criar equipas de saúde, trabalhando em exclusividade para o SNS, que integrem médicos, enfermeiros e administrativos, pagando-lhes segundo a produtividade e por objectivos estabelecidos anualmente;
- estabelecer parcerias com os parceiros sociais, claras e inequívocas, que evitem gastos desnecessários com transportes de doentes...
e as propostas poderiam continuar por aqui fora...

Claro que o mais fácil é aumentar as taxas moderadoras e fazer com que os burros que não conseguem fugir aos impostos não tenham outro remédio senão financiar ainda mais o SNS.

Quinta, 9
Kiváncsi!
É, de facto, kiváncsi este Vocabulário Básico em 11 Línguas, da Estampa, que ontem comprei na Bertrand. Claro que será kiváncsi em húngaro, mas em checo teremos que dizer zvèdavý, enquanto que, em polaco, será ciekawy; já em sueco, claro que é myfiken, enquanto em holandês se dirá nieuwsgierig e, em alemão, neugierig; penso que não vale a pena dizê-lo em espanhol, italiano, francês ou inglês.

E para que raio quero eu um vocabulário básico em 11 línguas?
Para semmi, nic, ingenting, niets, niente, rien, nothing, nichts – nada!
Mas não há dúvida que é kiváncsi!

Terça, 7
O poder do marketing
Alguns medicamentos tornam-se tão populares que não há ninguém que não os conheça. Durante muitas décadas, a Aspirina ocupou esse lugar. Não corro o risco de exagerar se disser que não há ninguém, no mundo ocidental, pelo menos, que não tenha ouvido falar do famoso comprimido branco.

O mesmo se passa, de há alguns anos para cá, com o Nimed. O marketing agressivo do laboratório conseguiu transformar o Nimed numa espécie de panaceia para toda a sorte de dores e estados mais ou menos inflamatórios.
Mas não só...

Há dias, a Maria disse-me que andava muito nervosa devido a um conflito com uma vizinha. A dita vizinha tinha dois cães que, todos os dias, urinavam à porta da minha doente. A Maria – mulher muito asseada – todos os dias lavava a entrada da casa com lixívia e a vizinha acusava-a de, desse modo, tentar envenenar os cãezinhos.
Certa tarde, a discussão estalou.

Contou-me a Evangelina:
- Ela chamou-me tantos nomes, doutor, que eu comecei a sentir-me mal, a desfalecer e o meu marido teve que chamar o nimed!
- Teve que chamar quem?! – espantei-me eu.
- O nimed, doutor! O 115! – esclareceu a Maria.
Que marketing tão poderoso este, que faz algumas pessoas confundirem o INEM com o Nimed!...

Poderes do DIU
Consulta de urgência no Atendimento Complementar.
Vinha pedir uma análise de gravidez.

Contou que o filho, de 3 anos, tinha acidentalmente engolido três das suas pílulas anticoncepcionais. Devido a não ter tomado as referidas pílulas, engolidas pelo petiz atrevido, ela estava agora com medo de estar grávida.
Preocupação natural.

Foi-lhe recordado que os medicamentos se devem manter fora do alcance das crianças, claro...
Perguntou, então, se não estaria na altura de fazer a consulta de revisão do dispositivo intra-uterino.

A dúvida instala-se, subitamente: DIU? Mas dissipa-se rapidamente e a memória volta a funcionar: claro que esta doente tem um DIU!... Então, se tem um DIU, por que razão está a tomar a pílula?

É ela que nos refresca a memória: queixava-se de diminuição da líbido, após o parto; foi-lhe proposto colocar um DIU porque algumas mulheres apresentam essa queixa quando tomam a pílula.
A sua interpretação: o DIU devolvia-lhe a líbido, enquanto a pílula a protegia da gravidez.
O que é certo é que resultou!

Domingo, 5
As crianças de Beslan
Eu nem sabia bem onde ficava a Ossétia! E, de repente, o sequestro de mil e tal pessoas, entre elas muitas crianças, numa escola de Beslan, por um grupo de terroristas, veio colocar a Ossétia no mapa. Ao longo de três dias, os sequestradores amontoaram as pessoas no ginásio da escola, que armadilharam, impediram-nas de comer e de beber, violaram miúdas, fuzilaram os homens, usaram as crianças como escudos humanos. Depois, quando algumas crianças tentaram fugir, abateram-nas com tiros nas costas. Os soldados russos forçaram a entrada na escola e o tiroteio generalizou-se. No final, cerca de 500 mortos, muitos deles crianças.

O que pretendiam os terroristas? Aparentemente, a independência da Tchetchénia. Impossível dialogar com este tipo de gente!

Nas televisões, desfilaram os nossos especialistas: Nuno Rogeiro, Ângelo Correia e afins. Todos têm uma opinião bem formada sobre estas coisas. Admiro-os. Como é possível dizer o que Putin devia ter feito, que as forças de segurança estavam mal organizadas, que a acção de libertação dos reféns foi um caos – e quase esquecer que foi um grupo de terroristas que teve a brilhante ideia de sequestrar crianças no seu primeiro dia de aulas. Como se dialoga com um grupo de sádicos que amarra crianças às janelas para servirem de escudos e que as obriga a beber a própria urina para matar a sede? O que se faz perante tamanha barbárie?

Não tenho opinião sobre isto. Sinto-me revoltado, indignado, horrorizado, mas não sou capaz de emitir uma opinião. E espanta-me que os chamados comentadores políticos consigam alinhavar meia dúzia de linhas tão definitivas sobre algo tão abjecto.

Claro que nada disto teria acontecido se o Kremlin deixasse a Tchetchénia em paz e sossego, não é? Assim como, se os EUA não tivessem treinado e financiado o Bin Laden, e deixassem de apoiar Israel, as Twin Towers ainda continuariam de pé. No entanto, nada pode justificar actos como os da escola de Beslan.


 

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Actualizado em: 30 Setembro 2004
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