Setembro 2004:
| Joana, este povo não presta |
Atestados médicos - um direito
dos portugueses | Socialistas,
tendência socrática| A
versatilidade da Dona Celeste | Das
vantagens do manual; do falhanço do digital |
A perversidade da TV Cabo | Ei,
Amaral, a tua reforma é obscena! | A
Santanada continua | As taxas moderadoras
| Kiváncsi! | O
poder do marketing | Poderes do Diu
| As crianças de Beslan | Mês
de Agosto - minha mãe estou no meu posto! |
Quina, 30
Joana, este
povo não presta!
Os facto são estes: há cerca de 15 dias, desapareceu,
numa aldeia algarvia, uma miúda de 8 anos, chamada
Joana. A mãe surgiu nos telejornais, dizendo que
tinha mandado a filha ao mini-mercado fazer umas compras
e nunca mais a tinha visto. As autoridades puseram-se em
campo, à procura da criança. Alguns dias depois,
um pasquim que continua a publicar-se, titulava na primeira
página, que a mãe da criança a teria
vendido a um casal de alemães. Novamente nos telejornais,
a mãe nega com pouca veemência e, nesse mesmo
dia, ela e um irmão (tio da criança) são
presos, sob a acusação de terem espancado
a criança até à morte.
Os telejornais rejubilaram! Em directo da aldeia da Figueira
e dos arredores do tribunal de Portimão, temos assistido
todos os dias a um circo nojento: as autoridades procuram,
em vão, o corpo da Joana, os repórteres esganiçam-se,
com os cameramen atrás, correndo de um lado para
o outro, e os populares, a qualquer hora do dia ou da noite,
sempre presentes, feios, porcos e maus. Será que
esta malta não trabalha? Gajos gordos, com as grandes
barrigas a espetarem a camisa, barba por fazer, ar boçal,
a dizerem que, se fossem eles, os ditos assassinos já
tinham deitado tudo cá para fora; mulheres desdentadas,
com as eternas batas e os habituais chinelos, com ar hipotiroideu,
vão assegurando que seriam incapazes de fazer uma
coisa dessas a um filho. E os repórteres puxam por
esta canalha, fazem-lhe perguntas idiotas, provoca-a. E
quando não há assunto, sempre se pode ir à
escola entrevistar as colegas da Joana, perguntar-lhes se
sentem a falta da menina!
Como diz o Pacheco Pereira, na sua crónica do Público
de ontem: “Por esse ‘povo’ não
tenho nenhum respeito, nem por eles, nem pela televisão
que os mobiliza e atiça”.
E os profissionais da televisão, como se sentem?
Como consegue dormir o José Rodrigues dos Santos,
o Guedes de Carvalho, a Judite de Sousa, o José Alberto
de Carvalho? Quanto à Manuela Moura Guedes, deve
dormir que nem uma justa porque nada disto faz sentido para
ela. Mas os outros profissionais, não ficarão
incomodados com as imagens que estão a caucionar,
não terão vergonha por fazer parte de uma
televisão que exibe estas imagens nojentas e indignas?
E não me venham dizer que apenas mostram a realidade:
de certeza que, se as televisões lá não
estivessem, os idiotas dos mirones seriam muito menos e
não se exibiriam como quando a televisão “está
a dar”!
Não há dúvida que este povo não
presta e tem a televisão que merece!
Quanto à Joana – quem se preocupa com ela?...
Quarta, 29
Atestados
médicos – um direito dos portugueses
Não consta da Constituição, mas devia:
todo o cidadão português tem direito ao seu
atestado médico!
Setembro é o melhor mês para atestados. Já
devo ter passado cerca de um milhar!
Não há creche, infantário ou jardim
infantil que se preze, em Portugal, que aceite um menino
nas suas instalações que não venha
munido do competente atestado médico, onde deve figurar
a frase mágica: “pode frequentar a creche (jardim
infantil, infantário, escola, ATL)”. No caso
de ser a primeira vez que o menino frequenta semelhante
estabelecimento, é certo e sabido que, após
uma semana de contacto com o ranho dos outros meninos, fica
logo doentinho e tem que vir ao médico. Depois de
medicado, só pode regressar ao infantário
(creche, jardim infantil, escola, ATL) munido de mais um
atestado médico com a frase milagrosa “pode
regressar à escola (infantário, creche, jardim
infantil, ATL).
Mas os papás dos meninos portugueses querem que
eles cresçam fortes e saudáveis. Para isso,
o desporto é fundamental. Então, inscrevem-nos
na natação. Muito bem. Só que, para
praticarem natação, para submergirem os seus
lindos pezinhos na água da piscina, os meninos precisam
de mais um atestado médico, que tem que dizer “pode
praticar natação (judo, karaté, ginástica,
etc).
E também os papás e as mamãs dos
meninos querem perder uns quilitos e baixar o colesterol.
Por isso, também se inscrevem na natação
e precisam, por conseguinte, do competente atestado médico.
O mesmo se passa com os avôs e as avós dos
meninos, embora estes cidadão mais idosos, prefiram
a hidroginástica, a qual não podem praticar
sem o inevitável atestado médico.
Considerando que, para além dos atestados para a
escola e para a prática de qualquer desporto, também
passo atestados médicos para carta de condução,
carta de marinheiro e carta de caçador, atestados
de robustez física e mental para o exercício
desta ou daquela profissão, atestados de doença
crónica para candidatura a rendimento de inserção
social, para obtenção de uma casa de renda
social, para conseguir um subsídio para ajudar a
pagar os medicamentos, atestado de doença para justificar
as faltas ao serviço, etc, etc, etc, etc, etc, etc...
– considerando todos estes atestados, estou convencido
que todos os meus quase 2 mil doentes tiveram já
direito a um atestadinho passado por mim!
Não há dúvida que somos um país
de atestados!
E ai de mim se não os passar: os meninos não
poderiam frequentar a escola (o jardim infantil, a creche,
o infantário, o ATL), os meninos, os papás
e os vovôs não poderiam praticar desporto,
muitos não teriam acesso aos subsídios do
Estado Providência, alguns faltariam ao trabalho injustificadamente
e seriam despedidos, não haveria automobilistas,
caçadores e marinheiros em Portugal.
E todos me passariam, a mim, um atestado de incompetência...
Domingo, 26
Socialistas,
tendência socrática
O PS realizou eleições para secretário
geral – facto inédito em Portugal. As eleições
foram por voto secreto e José Sócrates ganhou
com quase 80% dos votos, contra 16% de Manuel Alegre e 3%
de João Soares.
O Sócrates é um tipo simpático, que
fala com convicção e que parece estudar os
assuntos, antes de emitir uma opinião. Mediático,
persuasivo, modernaço – há muito tempo
que o PS não tinha um líder assim. Está
bem para o Sr. Lopes. O Manuel Alegre usa barba, parece
estar sempre zangado e até é poeta. O João
Soares tem cara de poucos amigos e raramente pestaneja.
Nestes tempos de “sound bytes”, os militantes
socialistas escolheram alguém que – pelo menos
ao nível da imagem – pode fazer frente aos
populistas que estão no governo.
Sinceramente, não faço ideia se isto é
bom ou mau, mas pressinto que o Sr. Lopes e o Sr. Portas
terão mais dificuldade em enfrentar o Sócrates
do que teriam se, à frente do PS, estivesse o Manuel
Alegre ou o João Soares.
Claro que a campanha eleitoral que decorreu no interior
do PS, com vasta cobertura mediática, mostrou as
grandes diferenças entre as três candidaturas.
As coisas que se disseram não ajudaram nada à
imagem de unidade do partido. No entanto, sempre foi melhor
do que a hipocrisia que reina no PSD, no qual quase todos
os “históricos” do partido desprezam
o Sr. Lopes e odeiam a aliança com o Sr. Portas,
mas poucos têm coragem de o dizer publicamente (honra
seja feita ao Pacheco Pereira e poucos mais).
Agora, a tarefa do Sócrates – se ele for
esperto – não é muito complicada: bastará
chamar a atenção para as idiotices constantes
do Sr. Lopes e para a arrogância fascistóide
do Sr. Portas. E, ao longo destes dois últimos meses,
o PS já perdeu muitas oportunidades:
- o Lopes diz que o governo vai avançar com as
taxas moderadoras diferenciadas na saúde e o ministro
Pereira fica aflito porque não sabia de nada
- o Lopes diz que, em Novembro, a GNR regressa do Iraque
e, pouco depois, afirma que os garbosos militares portugueses
ficam lá até Janeiro
- o Guedes revela o relatório do inquérito
à explosão na refinaria da Galp sem dar cavaco
ao Sr. Barreto
- o Sr. Barreto diz que o Guedes devia era estar caladinho,
caladinho
- o Lopes diz que a refinaria da Galp em Matosinhos vai
fechar e o Sr. Barreto diz que não
- o Sr. Félix diz que a reforma do Mira Amaral é
“quase obscena” e, depois, nomeia a Dona Celeste
para a Caixa Geral de Depósitos
- o Lopes diz que têm que ser apurados os culpados
nos atrasos da colocação dos professores e
que, para o ano, o sistema tem que ser alterado e a ministra
da Educação diz que o sistema é óptimo
e transparente – e, afinal, os professores vão
ser colocados á mão
E os exemplos podiam continuar...
Com um cenário destes, Sócrates só
pode brilhar!...
Quinta, 23
A versatilidade
da Dona Celeste
Sou médico de Clínica Geral. Cuido de pessoas
e famílias, do nascimento à morte; sigo grávidas,
crianças, jovens, adultos e idosos; acompanho hipertensos,
diabéticos, doentes oncológicos; trato gripes
e constipações, faringites, amigdalites, otites,
pneumonias, pé de atleta, unhas encarceradas, abcessos
dentários, caspa, treçolhos, panarícios,
omalgias, gonalgias, cervicalgias, lombalgias, ciáticas,
crises de gota, herpes zooster, varicela, rubéola
e as mais variadas viroses; faço ensinamento de pílulas,
aconselhamento em planeamento familiar, perturbações
da erecção; trato depressões, crises
de pânico, síndromas ansiosos; acompanho esquizofrénicos,
doentes bipolares e border-lines; faço domicílios
a doentes acamados, em estadio terminal.
E mais, muito mais.
Já fui jornalista, trabalhei para a RTP, o Jornal
de Notícias e a Gazeta da Semana. Publiquei textos
no República, Pé de Cabra, Pau de Canela,
Bisnau, colaborei no Pão Comanteiga, rádio
e revista, em diversos outros programas de rádio
e televisão.
Sei aspirar a casa, limpar o pó, fazer a cama,
pendurar cortinados, pregar, aparafusar, fazer furos, meter
buchas; pinto paredes e tectos, envernizo portas, já
montei prateleiras e fiz pequenos móveis. Sei tocar
guitarra.
E mais, muito mais.
Sendo assim, não percebo por que razão não
me convidam para gestor da Caixa Geral de Depósitos!
Afinal, o que é que a Dona Celeste Cardona –
que acaba de ser nomeada para a CGD - sabe fazer que eu
não saiba?!...
Quarta, 22
Das vantagens
do manual; do falhanço do digital
Diz uma piada antiga que a masturbação feminina
é mais avançada que a masculina porque, enquanto,
nas mulheres, ela é digital, nos homens, continua
a ser manual.
A vantagem do digital em relação ao manual
é evidente. Seria difícil conceber o mundo
de hoje sem o primado do digital.
Mas há excepções, como sempre.
O caso mais flagrante teve o seu epílogo ontem,
com a assunção, por parte da ministra da Educação,
Dona Carmo, que os professores teriam que ser colocados
pelo método manual – já que o programa
informático que os iria colocar, como que por magia,
faliu completamente, emperrou, baralhou-se e não
deu nada.
O famoso programa informático foi desenvolvido por
uma empresa chamada Compta. Dos dirigentes dessa empresa
destacam-se Rui Machete e Couto dos Santos, dois destacados
membros do PSD.
Coincidências...
Couto dos Santos (que nada tem a ver comigo; eu sou Couto
e Santos), é outro daqueles homens da Renascença,
com múltiplos saberes: já foi secretário
de Estado e ministro de várias coisas, nomeadamente,
da Educação, é gestor da Compta (entre
outras) e vai passar a administrar, também, a Casa
da Música, no Porto.
Quando for grande, gostava de ser como estes senhores
e senhoras, que tanto são ministros, como gestores
de empresas de informática, como responsáveis
por programas culturais, criação de cavalos,
arranjos florais, moda feminina, rádio, televisão,
relações internacionais e tudo o mais!
Portanto, como o programa informático borregou, toca
a colocar os professores à mão, como sempre
se fez.
Não sei qual é o drama: à mão
também é bom e, se um tipo se engana, pode
sempre emendar... a mão...
Terça, 21
A perversidade
da TV Cabo
A partir do próximo dia 28 do corrente mês,
a TV Cabo vai proceder à reorganização
da sua grelha de canais. Após 10 anos de existência,
a dita cuja decidiu ordenar os canais por temas. Assim,
depois dos generalistas nacionais, RTP 1 e 2, SIC e TVI,
seguem-se os temáticos nacionais: SIC Notícias,
SIC Mulher, RTP-N, SIC Radical, SIC Gold, RTP Memória.
Os canais de notícias também ficam todos juntos,
a partir do 70: Euronews, CNN, Bloomberg, Sky News. O mesmo
sucede com os canais de documentários, a partir do
40: Discovery, Odisseia, História, People + Arts,
National Geographic.
Até aqui, tudo bem.
Mas que dizer dos canais 91, 92 e 93?...
Nessa zona do éter, a TV Cabo parece ter decidido
juntar os canais erótico-pornográficos.
A saber:
No canal 91, o Sexyhot. No canal 92, o Playboy. E no canal
93, TV Canção Nova...
Parece-me correcto...
Domingo, 19
Ei Amaral,
mira, a tua reforma é obscena!
Carta aberta ao ministro das Finanças
Exmo. Sr. Ministro das Finanças, Monsenhor Bagão
Félix:
Venho por este meio, ao abrigo do precedente Mira Amaral,
solicitar junto de Vossa Excelência, uma reforma igual
à daquele servidor do Estado.
Também eu sou servidor do Estado, tendo trabalhado
numa empresa pública, a RTP, entre 1974 e 1977; desde
1978, tenho trabalhado como médico em diversos hospitais
e Centros de Saúde, a saber: Hospital D. Estefânia,
Hospital Curry Cabral, H. S. José, Hospital dos Capuchos,
Maternidade Magalhães Coutinho, Hospital Miguel Bombarda,
Centro de Saúde de Armamar, Centro de Saúde
de Mourão e, desde há 20 anos, Centro de Saúde
do Monte de Caparica.
Bem sei que tenho apenas 51 anos e o Sr. Mira Amaral já
tem a proveta idade de 58 anos, mas eu já fiz as
contas e não me importo de perder algum dinheiro.
Portanto, como se perde 4.5% do salário por cada
ano que falta para o candidato a reformado completar 60
anos, a mim faltam-me 9 anos, perderei cerca de 40% do salário.
Como o referido senhor foi reformado com 18 000 euros, perderei
7 200 euros mensais – o que quer dizer que ficarei
com uma reforma de 10 800 euros.
Não faz mal! Como assistente graduado de Clínica
Geral ganho menos de metade disso, portanto, fico a ganhar
com a troca.
Pede deferimento,
Artur Couto e Santos
Sábado, 17
A Santanada
continua
Eu bem disse que este governo ia ser um fartar de rir...
Depois do caso do barco do aborto, em que se destacou o
PP Paulo Portas, outro PP entrou em cena: o Sr. Guedes convocou
uma conferência de imprensa para divulgar os resultados
do inquérito à explosão que ocorreu
na Galp, em Matosinhos e arrasou os responsáveis
por aquela petrolífera, um deles, o Sr. Mexia, que
agora também é ministro.
O Sr. Barreto, que é super-ministro e que é
o responsável governamental pela Galp ficou indignado
e disse que o Sr. Guedes não devia ter divulgado
o relatório sem primeiro ter dele dado conhecimento
aos seus colegas do governo. O Sr. Lopes pediu ao Sr. Mexia
para estar caladinho e deixar o Sr. Guedes em paz.
Logo na semana a seguir, veio a bronca da colocação
dos professores. A ministra da Educação disse
que o atraso no início do ano lectivo não
era nada de grave e que o actual programa informático
de colocação dos professores é óptimo
e muito mais transparente que o anterior. No mesmo dia,
o Sr. Lopes afirmava que dizer que o ano lectivo tinha começado
era um eufemismo e tinham que ser descobertos os responsáveis
pelos enganos e atrasos. No dia seguinte, a ministra da
Educação descobre dois directores gerais que
foram nomeados no tempo de Guterres e vai exonerá-los,
como responsáveis pela bagunça.
Num dia, o Sr. Lopes diz que a retoma está aí
e que os números do INE o demonstram. No dia seguinte,
propõe o aumento das taxas moderadoras na saúde
e a cobrança de portagens nas auto-estradas do interior,
porque o Estado precisa de massa.
Entretanto, o Sr. Félix, numa verdadeira conversa
em família, anuncia aos portugueses que a retoma
ainda está longe e que é preciso fazer mais
esforços de contenção.
É a confusão total, como seria de esperar
com um líder como o Sr. Lopes.
E reparem bem quem, de facto, nos governa. Quem são
as estrelas da companhia? O Sr. Portas, com a sua feroz
luta contra as holandesas malandrecas, o Sr. Guedes, que
arrasa a Galp e o Sr. Félix, que põe em causa
a política da D. Ferreira Leite.
E a que partido pertencem o Sr. Portas, o Sr. Guedes e
o Sr. Félix?
Exactamente – ao PP, que até parece que foi
o partido mais votado nas últimas eleições.
Onde está o PSD?
Terça, 14
As taxas moderadoras
O governo propôs a alteração das taxas
moderadoras do Serviço Nacional de Saúde:
que elas sejam indexadas aos rendimentos de cada cidadão
– os que mais declaram, mais pagam.
A oposição, em bloco, veio criticar esta
proposta: os cidadãos que pagam impostos, acabarão
por pagar duas vezes; os que fogem aos impostos, continuarão
beneficiados; os ricos desistirão do SNS e vão
preferir a medicina privada; o SNS acabará por servir
apenas os pobres e os indigentes.
As coisas não são assim tão simples.
O SNS não é “tendencialmente gratuito”,
como diz a constituição: além das taxas
moderadoras para pagamento das consultas, os utentes pagam
ainda parte dos exames complementares e parte dos medicamentos.
Será justo que um utente que ganha um pouco acima
do ordenado mínimo (e que, portanto, não está
isento das taxas), pague por um qualquer exame complementar
de diagnóstico a mesma quantia que paga um deputado
ou um administrador de empresa?
Será justo que uma caixa de Ben-u-ron custe o mesmo
ao contínuo e ao gestor?
Parece claro que não é justo.
A quase gratuitidade das consultas no SNS, desvaloriza
o serviço prestado.
É óbvio que se as consultas nos Centros de
Saúde custassem, por exemplo, 5 euros, os utentes
pensariam duas vezes antes de irem a uma urgência
mostrar uma borbulha. Quando estou de serviço no
Atendimento Complementar e consulto um utente com uma dor
de garganta que, após dois dias de antibiótico,
regressa à consulta porque ainda não se sente
bem e não tem paciência para aguardar o efeito
do medicamento, o meu desejo é que as taxas moderadoras
aumentem.
Quando todos os dias sou fustigado pelos mais variados
pedidos de atestados, para praticar natação,
ginástica ou musculação, para frequentar
a creche, o infantário, a escola, para tirar as cartas
de condução, de marinheiro ou de caçador,
relatórios para juntas médicas de reforma
de invalidez, de grande invalidez, de incapacidade temporária,
de trabalhos melhorados, de relatórios médicos
para compra de casa, para atribuição do rendimento
mínimo, para a assistente social ajudar a pagar os
medicamentos ou para arranjar uma casa nova – perante
toda esta avalanche de pedidos de carácter burocrático,
a minha vontade é que a actual taxa moderadora de
2 euros suba exponencialmente.
Fico também irritado quando um utente, a quem solicitei
diversos exames complementares de diagnóstico, fica
muito admirado quando tem que pagar a taxa de 2 euros quando
– como ele diz – “vem apenas mostrar os
exames”. Eu “apenas” terei que ver todos
os seus exames, escrevê-los na ficha clínica,
verificar se está tudo bem e actuar em conformidade.
Claro que este trabalho não vale 2 euros!
No entanto, como diferenciar as taxas moderadoras com
as aldrabices fiscais que para aí há?
Eu tenho utentes com senha verde, isto é, isentos
da taxa moderadora, que conduzem Mercedes do último
modelo e têm casa de férias no Algarve...
Portanto, o que o governo devia fazer era tornar o SNS absolutamente
gratuito e tentar outras formas de diminuir os custos da
saúde. Por exemplo:
- separar claramente a medicina pública da privada,
impedindo que médicos trabalhem nos dois lados;
- diminuir o número de cargos dirigentes entre os
médicos e enfermeiros – cada vez há
mais técnicos de saúde a fazer trabalho burocrático,
em vez de trabalho assistencial;
- tornar o uso de genéricos obrigatório no
SNS e fazer concursos públicos para a escolha dos
laboratórios que devem fornecer os diversos genéricos
ao SNS;
- impedir o surgimento de laboratórios como cogumelos,
com medicamentos-cópias;
- diminuir drasticamente o número de especialidades
farmacêuticas existentes no mercado;
- contratar laboratórios para efectuarem, em exclusivo,
os exames complementares para o SNS;
- sendo todos os exames gratuitos, passariam a ser propriedade
do SNS e não do utente (como acontece no Canadá);
assim se diminuíra o número de exames complementares
que são requisitados “a pedido do utente”,
sem que exista razão clínica para o fazer;
- contratar fisioterapeutas em vez de pagar milhões
a clínicas privadas;
- criar equipas de saúde, trabalhando em exclusividade
para o SNS, que integrem médicos, enfermeiros e administrativos,
pagando-lhes segundo a produtividade e por objectivos estabelecidos
anualmente;
- estabelecer parcerias com os parceiros sociais, claras
e inequívocas, que evitem gastos desnecessários
com transportes de doentes...
e as propostas poderiam continuar por aqui fora...
Claro que o mais fácil é aumentar as taxas
moderadoras e fazer com que os burros que não conseguem
fugir aos impostos não tenham outro remédio
senão financiar ainda mais o SNS.
Quinta, 9
Kiváncsi!
É, de facto, kiváncsi este Vocabulário
Básico em 11 Línguas, da Estampa, que ontem
comprei na Bertrand. Claro que será kiváncsi
em húngaro, mas em checo teremos que dizer zvèdavý,
enquanto que, em polaco, será ciekawy; já
em sueco, claro que é myfiken, enquanto em holandês
se dirá nieuwsgierig e, em alemão, neugierig;
penso que não vale a pena dizê-lo em espanhol,
italiano, francês ou inglês.
E para que raio quero eu um vocabulário básico
em 11 línguas?
Para semmi, nic, ingenting, niets, niente, rien, nothing,
nichts – nada!
Mas não há dúvida que é kiváncsi!
Terça, 7
O poder
do marketing
Alguns medicamentos tornam-se tão populares que não
há ninguém que não os conheça.
Durante muitas décadas, a Aspirina ocupou esse lugar.
Não corro o risco de exagerar se disser que não
há ninguém, no mundo ocidental, pelo menos,
que não tenha ouvido falar do famoso comprimido branco.
O mesmo se passa, de há alguns anos para cá,
com o Nimed. O marketing agressivo do laboratório
conseguiu transformar o Nimed numa espécie de panaceia
para toda a sorte de dores e estados mais ou menos inflamatórios.
Mas não só...
Há dias, a Maria disse-me que andava muito nervosa
devido a um conflito com uma vizinha. A dita vizinha tinha
dois cães que, todos os dias, urinavam à porta
da minha doente. A Maria – mulher muito asseada –
todos os dias lavava a entrada da casa com lixívia
e a vizinha acusava-a de, desse modo, tentar envenenar os
cãezinhos.
Certa tarde, a discussão estalou.
Contou-me a Evangelina:
- Ela chamou-me tantos nomes, doutor, que eu comecei a sentir-me
mal, a desfalecer e o meu marido teve que chamar o nimed!
- Teve que chamar quem?! – espantei-me eu.
- O nimed, doutor! O 115! – esclareceu a Maria.
Que marketing tão poderoso este, que faz algumas
pessoas confundirem o INEM com o Nimed!...
Poderes do DIU
Consulta de urgência no Atendimento Complementar.
Vinha pedir uma análise de gravidez.
Contou que o filho, de 3 anos, tinha acidentalmente engolido
três das suas pílulas anticoncepcionais. Devido
a não ter tomado as referidas pílulas, engolidas
pelo petiz atrevido, ela estava agora com medo de estar
grávida.
Preocupação natural.
Foi-lhe recordado que os medicamentos se devem manter
fora do alcance das crianças, claro...
Perguntou, então, se não estaria na altura
de fazer a consulta de revisão do dispositivo intra-uterino.
A dúvida instala-se, subitamente: DIU? Mas dissipa-se
rapidamente e a memória volta a funcionar: claro
que esta doente tem um DIU!... Então, se tem um DIU,
por que razão está a tomar a pílula?
É ela que nos refresca a memória: queixava-se
de diminuição da líbido, após
o parto; foi-lhe proposto colocar um DIU porque algumas
mulheres apresentam essa queixa quando tomam a pílula.
A sua interpretação: o DIU devolvia-lhe a
líbido, enquanto a pílula a protegia da gravidez.
O que é certo é que resultou!
Domingo, 5
As crianças
de Beslan
Eu nem sabia bem onde ficava a Ossétia! E, de repente,
o sequestro de mil e tal pessoas, entre elas muitas crianças,
numa escola de Beslan, por um grupo de terroristas, veio
colocar a Ossétia no mapa. Ao longo de três
dias, os sequestradores amontoaram as pessoas no ginásio
da escola, que armadilharam, impediram-nas de comer e de
beber, violaram miúdas, fuzilaram os homens, usaram
as crianças como escudos humanos. Depois, quando
algumas crianças tentaram fugir, abateram-nas com
tiros nas costas. Os soldados russos forçaram a entrada
na escola e o tiroteio generalizou-se. No final, cerca de
500 mortos, muitos deles crianças.
O que pretendiam os terroristas? Aparentemente, a independência
da Tchetchénia. Impossível dialogar com este
tipo de gente!
Nas televisões, desfilaram os nossos especialistas:
Nuno Rogeiro, Ângelo Correia e afins. Todos têm
uma opinião bem formada sobre estas coisas. Admiro-os.
Como é possível dizer o que Putin devia ter
feito, que as forças de segurança estavam
mal organizadas, que a acção de libertação
dos reféns foi um caos – e quase esquecer que
foi um grupo de terroristas que teve a brilhante ideia de
sequestrar crianças no seu primeiro dia de aulas.
Como se dialoga com um grupo de sádicos que amarra
crianças às janelas para servirem de escudos
e que as obriga a beber a própria urina para matar
a sede? O que se faz perante tamanha barbárie?
Não tenho opinião sobre isto. Sinto-me revoltado,
indignado, horrorizado, mas não sou capaz de emitir
uma opinião. E espanta-me que os chamados comentadores
políticos consigam alinhavar meia dúzia de
linhas tão definitivas sobre algo tão abjecto.
Claro que nada disto teria acontecido se o Kremlin deixasse
a Tchetchénia em paz e sossego, não é?
Assim como, se os EUA não tivessem treinado e financiado
o Bin Laden, e deixassem de apoiar Israel, as Twin Towers
ainda continuariam de pé. No entanto, nada pode justificar
actos como os da escola de Beslan.
voltar ao topo |
|