Burocracia
Programa emitido a 5 Julho 1981
História de um burocrata
Era um burocrata zeloso. Zeloso e crente. Acreditava piamente
na burocracia. Era um burocrente. Por isso, decidira transportar,
para casa, a sua profissão. Em casa daquele burocrata,
tudo funcionava com papeis.
Quando chegava, após um dia extenuante de trabalho,
em que despachara dezenas de documentos, selara outros tantos
e carimbara mais ainda, o burocrata apresentava, á
esposa, um requerimento em meia folha de papel selado, solicitando
um aperitivo. Regra geral, o requerimento era deferido e,
alguns minutos depois, a mulher aparecia com um excelente
e refrescante aperitivo. Gin tónico, não -
como todos sabem, os burocratas detestam gin tónico...
Depois de saborear a bebida, o burocrata preenchia um papel
verde, que mandara imprimir numa tipografia da Baixa, papel
esse que lhe dava direito ao jantar. Entregava o papel á
esposa que, diligentemente, o conduzia à sala onde,
pouco depois, o jantar era servido. O burocrata comia, comedido.
Como se sabe, os burocratas nunca têm muito apetite...
Terminada a mastigação, o burocrata preenchia
outro papel, este de cor amarela, feito na mesmo tipografia,
em que solicitava um café e um digestivo - um brandy
mel, por exemplo. É do conhecimento geral que os
burocratas nunca bebem bagaço. O papel era, uma vez
mais, deferido, e a mulher trazia-lhe o café e o
digestivo, que o burocrata saboreava, com ar entendido.
Chegava então a vez de preencher o papel azul, que
se destinava a ver televisão. Era também deferido
sem complicações e a esposa trazia-lhe os
chinelos, um banquinho para ele colocar os pés por
causa das varizes (todos os burocratas têm varizes,
como se sabe...) e acendia-lhe a televisão. E ele
via, enquanto fumava um cigarrinho, no máximo, dois.
Pelas 11 horas da noite, a programação chegava
ao fim. O burocrata ouvia, perfilado, o hino nacional, observadno,
emocionado, a bandeira ondulando ao vento. A esposa desligava
o aparelho e dirigiam-se para a cama.
E era a altura do burocrata preencher o papelinho cor de
rosa que, com ar malicioso, entregava á mulher que
rapidamente o colocava na gaveta da mesinha de cabeceira,
destinada a assuntos pendentes. A gaveta estava já
cheia de papelinhos cor de rosa, mas o burocrata não
desesperava. A sua sólida formação
profissional ensinara-lhe que, por vezes, certos documentos
precisam de ser bem analisados antes de terem despacho favorável.
Por isso, todas as noites, há meses e meses, ele
via a mulher guardar o papel cor de rosa na gaveta dos pendentes,
virar-se para o outro lado e adormecer tranquilamente...
A lenda do Septágono
A organização administrativa de Saltibúria
poderia parecer complicada. No entanto, para quem, como
eu, conhecia a sua subtileza até ao mais ínfimo
pormenor, diria que tudo o que é complicado é
belo...
O edifício onde se concentravam todos os serviços
do estado saltiburiense era enorme, como convinha. Cada
piso era destinado a um determinado serviço e, no
átrio de entrada, distribuíam-se roteiros
onde tudo era explicado, com linguagem simples e directa,
acompanhada de excelente gráficos.
No rés-do-chão, cerca de 128 guichets vendiam
os mais variados impressos, que eram preenchidos pelos interessados
em quatro salões destinados a esse fim.
No 1º piso encontravam-se 64 secções,
onde os impressos eram entregues. No entanto se, por exemplo,
alguém quisesse obter uma licença, teria que
subir ao 2º piso. Aí, em 32 secções
diferentes, outros tantos funcionários diligentes,
informavam, competentes, quais os impressos necessários.
Impressos que seriam adquiridos no rés-do-chão
e entregues no 1º piso. Depois, era só esperar
alguns dias - por vezes, meses, o que era compreensível,
pois os habitantes de Saltibúria ultrapassavam os
milhões - e levantar os impressos despachados, nos
16 guichets do 3º piso.
É claro que ninguém poderia levantar qualquer
impresso, sem que provasse ser cidadão saltiburiense,
no uso de todos os seus direitos. Para tal, as pessoas dirigiam-se
às 8 secções do 4º piso onde,
mediante a apresentação dos documentos indispensáveis,
lhes eram passadas guias de marcha. Cada uma destas dava
a possibilidade ao portador de adquirir, nos 128 guichets
do rés-do-chão, os já referidos impressos.
Finalmente, quando os documentos estivessem devidamente
autenticados pelo Septágono, o interessado subiria
ao 5º piso onde, nas quatro secções especializadas,
lhe passariam o requerido.
No entanto, a subtileza da orgânica de Saltibúria
ia mais longe. Para que as 4 secções do 5º
piso pudessem entregar o documento requerido, este teria
que ser analisado pelas duas juntas do 6º piso, formadas
por pessoal da inteira confiança do Septágono.
Era no Septágono, de facto, que estava concentrado
o poder de Saltibúria.
Como se depreende do étimo da palavra, o Septágono
era composto por sete membros que trabalhavam, afanosamente,
um dia por semana.
Podereis achar pouco, um dia por semana. Mas tereis que
compreender que, devido à complicada organização
administrativa de que dei apenas uma pálida ideia,
raramente um pedido de documento chegava às mãos
do Septágono. Quando algum papel lhes caía
na mesa oval, em redor da qual re reuniam semanalmente,
abriam garrafas de espumante e faziam logo ali uma festa
formidável! E depois da beberagem, raramente se sentiam
dispostos a analisar o documento em causa. E o papel juntava-se
às rimas de outros papeis, que guardavam num salão
apropriado, cuja porta possuía uma fechadura, tendo
cada um dos membros do Septágono, uma cópia
da respectiva chave.
De quando em vez, iam à arrecadação
e tiravam um papel à sorte. Embrenhavam-se na sua
análise e lá o despachavam, ou não,
conforme...
E assim era a excelente organização administrativa
de Saltibúria. Eu, caros senhores, pertenço
ao Septágono.
Há alguns anos que tenho a honra de me sentar á
mesa oval, de colaborar nas excelentes festas e de sentir
chocalhar, no meu bolso, uma das cópias da chave
da porta da arrecadação. Perguntareis como
fui eleito... O meu pai e os meus cinco irmãos não
deixam que o revele...
Frases
* Um burrocrata é o amanuense que pensa que 2 e 2
são 5.
* Em Portugal, a taxa de analfabetismo é altíssima,
o que é óptimo. Já viram o que se poupa
em certificados de habilitações literárias?
* É na caderneta militar que se colam os cromos
dos soldadinhos...
* Será verdade que os militares não se podem
casar pelo civil?
* Ele era um notário tão íntegro
que só reconhecia a sua própria assinatura.
* Apesar de tudo, continua a não haver bilhetes
de identidade de ida e volta.
* Impostor é o burocrata que trata dos impostos.
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