COMÉRCIO
Programa emitido a 19 de Julho 1981
Propostas comerciais
Durante toda a semana a equipa do Pão Comanteiga
debruçou-se, sem cair, sobre o problema do Comércio.
Após discussões acaloradas chegámos
a algumas conclusões (brilhantes, como sempre!),
que transformámos em outras tantas propostas, que
deixamos à consideração das entidades
competentes, se as houver.
Assim:
1º Propomos que todos os centros Comerciais se instalem
na Praça do Comércio. Os Ministérios
que aí funcionam poderão mudar-se, por exemplo,
para a Praça do Império ou para o Campo Mártires
da Pátria.
2º Propomos a entrada imediata da União Soviética
no Mercado Comum. Os países que integram esta organização
passarão a designar-se por “países comum-nistas”.
3º Todos os mercados de Lisboa passarão a funcionar
no Campo das Cebolas.
4ºQuanto aos comerciantes de armas deverão mudar-se
definitivamente para a Rua Artilharia Um.
5º As lojas de produtos ortopédicos passam a
funcionar ao fundo das Escadinhas do Quebra Costas, ali
ao pé da Sé. Isso é que vai ser negócio!....
6º Quanto às lojas com produtos religiosos deverão
mudar-se para o Poço do Bispo ou para a Cova da Piedade.
7º Propomos, finalmente, que todas as lojas de artigos
eléctricos se mudem para as imediações
da Fonte Luminosa.
Frases
* Essa de que os judeus têm jeito para o negócio,
de que são bons comerciantes, não passa de
conversa fiada... Então não se lembram da
história de Judas, que vendeu cristo por 30 dinheiros?
Acham que foi bom negócio?...
* Um comerciante retalhista com os copos, vende grosso.
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Quando estão em balanço, as lojas fecham
para evitar o enjoo dos clientes.
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº5, outubro 1981)
* Os filmes de kung-fu são filmes co-marciais.
* Mas afinal, no Mercado Come-um, comem dois, comem três...
Quantos comem afinal?...
* Há anos que faço esta pergunta e ainda
ninguém me respondeu: que raio vendem as lojas maçónicas?
* Por que será que não existem vendedores
ambulantes de copos de cristal?
* Evite abrir uma loja de produtos ortopédicos no
2º andar de um prédio sem elevador.
* Não faça despesas desnecessárias:
não vale a pena ter música ambiente numa loja
de aparelhos sonotone.
* Se há lojas de electrodomésticos por que
razão não há também lojas de
electroselvagens?
(também publicada na revista Pâo Comanteiga
nº 4, setembro 1981)
* Será que todos os comerciantes de vinho metem
água?
* Se o segredo é a alma do negócio, nunca
revele a ninguém o que tem para vender. Nem aos seus
clientes...
(também publicada na revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Quanto custa um metro da Fazenda Nacional?
* E fique sabendo que a Lei Seca foi uma lei que proibia
os chapéus de chuva.
(também publicada na revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* O bom comerciante não é aquele que vende
gato lebre, mas sim o que consegue vender lebre por gato
* Se o armeiro vende armas, o barbeiro vende barbas?
* Que tipo de cola se usará para fazer aderir Portugal
à CEE?
(também publicada na revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* O comércio de divisas faz-se nos quartéis.
(também publicada na revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Em Portugal há empregados de balcão. Na
Grécia há empregados de Balcãs.
* Diz-se que a venda de armas aos vietnamitas tem sido
um negócio da China. Será verdade?
* Os armazéns de revenda só deviam vender
produtos em 2ª mão.
(também publicada na revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
Brevíssima História
do Comércio
O Comércio foi inventado muito antes da escrita.
Por isso mesmo, não existem documentos escritos sobre
a invenção do Comércio. De qualquer
modo, a tradição oral, aquela que passa de
boca em boca graças aos meios de ressuscitação
em caso de afogamento, permite que tenhamos uma ideia, ainda
que pálida, porque anémica, de como tudo começou.
Ou talvez mais ou menos.
Foi para aí na pré-História, no chamado
Período Triácico Inoxidável que o homem,
então denominado troglodita, descobriu a pedra lascada,
que era uma espécie de faca sem cabo, sem gume nem
faca, mas que servia para cortar. Consta que um troglodita
perdulário fabricou quatro pedras lascadas, embora
só necessitasse de uma. Ficou aflito, sem saber o
que fazer com as outras três. De súbito, lembrou-se
que o troglodita que vivia na caverna ao lado, tinha muito
jeito para fabricar os mais diversos objectos, nomeadamente
corta-unhas, pisa-papéis e chapéus de chuva.
Logicamente, ou talvez não, o nosso amigo troglodita,
trocou as pedras lascadas que lhe sobravam por dois corta-unhas
e um pisa-papéis muito bonito, daqueles que parece
terem neve dentro, quando se agitam, vocês sabem...
Estava inventado o Comércio. Esta actividade especificamente
humana foi-se desenvolvendo ao longo dos tempos e, alguns
séculos depois, era frequente ver-se qualquer Kit
Carson trocar colares, pulseiras ou anéis pela amizade
dos péles-vermelhas.
No caso particular dos portugueses, a época dos descobrimentos
foi áurea no que respeita ao comércio com
outros povos. Sabe-se que, após a descoberta do caminho
marítimo para a Índia, era frequente verem-se
portugueses trocarem bíblias, terços e figurinhas
religiosas por canelas, tíbias, peróneos e
mesmo pimenta. Quanto ao comércio que desenvolvemos
com povos do continente africano, os negócios foram
muito mais escuros, quer por mor da cor da pele dos africanos,
quer porque habitualmente era noite e Edison não
descobrira, ainda a lâmpada.
Com o desenvolvimento do Comércio, descobriu-se a
importação e a exportação, que
vieram revolucionar tudo ou, pelo menos, metade.
Como no caso da penicilina e do bicarbonato de potássio,
a descoberta da import-export foi absolutamente fortuita.
Conta-se que um inglês, de nome Colbert, ou Albert,
ou mesmo Tony, possuindo café a mais em casa, decidiu
atirá-lo pela porta fora. Por ironia do destino,
o pacote de chá foi parar às mãos de
um canadiano emigrado, que passava por acaso. Estava feita
a primeira exportação da história.
Mas o referido cidadão francês teve mais sorte
ainda quando o australiano, demonstrando uma honestidade
insuperável (este texto está a ficar muito
intelectual!...) decidiu devolver o pacote de milho ao jugoslavo.
Era uma importação...
Algum tempo depois, um francês de nome Rosbespierre
e Marie Curie, teorizou o mercantilismo que, muito resumidamente,
dizia que tudo podia ser comercializável, desde que
existam palermas que comprem.
É este, ao fim e ao cabo da roca, a base de todo
o Comércio dos nossos dias. Desde que se tenha jeito,
consegue-se vender pentes a carecas e enciclopédias
a analfabetos.
Diálogos
A – Ó sócio! Então aquele negócio
dos cereais parece que é trigo limpo!
B – O quê?!
A – Tou-te a dizer!
B – É pac! Isso é que é qualidade
de vida!
A – Ó sócio! Então continua
a faltar água na linha de Sintra?
B – O quê?!
A – Tou.-te a dizer!
B – É pal! Isso é que é qualidade
de vida!
A - Ó sócio! Então andam para aí
a vender vivendas a 4 mil e 600 contos?
B – O quê?!
A – Tou-te a dizer!
B – É pul! Isso é que é qualidade
de vida!
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