PÃO COMANTEIGA NO CONTRA-ATAQUE –
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Programa emitido em 1 Maio 1982
Trabalho
* O mestre de obras é aquele trabalhador da construção
civil que ensina os tijolos a ler, escrever e contar.
* O operário que faz mesas, cadeiras e outros móveis
a soldo de uma empresa estrangeira, não é
um marceneiro – é um mercenário!
* Bate-chapas é aquele fotógrafo falhado
que tira fotografias a um automóvel com um martelo.
* Os trabalhadores não podem usar fato-macaco para
não ferir a susceptibilidade de alguns animais.
* Se os trabalhadores que usam tesouras são tesoureiros
e os que trabalham com alfaias são alfaiates –
como se chamam os que fazem fatos?
* Os cirurgiões trabalham com luvas para não
deixarem impressões digitais.
* Um corredor de automóveis não é
uma profissão – é um engarrafamento.
* Um cabeleireiro sem cabelo não é um paradoxo
– é um careca!
A Língua
O Tê
Tatiana tacteava o tecto totalmente tapado com telhas tratadas
com toda a ternura. Torneando as tetinas tatuadas e topando
as tábuas de tola que toldavam os tempos tardios
e as lutas intestinas, tardava em estremecer os intestinos
tombados dos tamanduás e tatus que trocavam as tâmaras
por tangeras tingidas de tintas estufadas. Trepando o tripé,
tocando o tucano com o topo da tripa, Tatiana topava o trinado
sem tino do pintarroxo tarado. Todavia, a cotovia tola atafulhava
a talha do tampo com trevos tolhidos por ternos tresmalhados
em talas e latas tardias, numa tentativa titubeante de atravessar
o túnel sem tom nem toque, trucidando tibiezas, atarantando
taratas tolhidos em toneis entornados. No tabique tablado,
a tabuleta talvez tamborilasse no tapume teimoso e Tatiana
tecia tarjetas e tasquinhava ténues tentilhões
teóricos.
O Éme
No mesmo momento, Menelau, o meliante, meneava a melancolia
com meiguice, no meio do mercado de marmelada, mercê
da melopeia memorável e do método métrico.
Mexendo na mesa meticulosa que mendigava migalhas militares
e mimava mamutes na miríade de ministérios
minúsculos e nos músculos dos moluscos malucos
que, de minuto em minuto, mirravam a misantropia do missal
e a mixórdia mnemónica da mocetona moderada,
qual modelo modesto de modorra modificada. Menelau moía
o molho da moldura monetária, matando monotonamente
os monstros morfológicos e os mordomos morosos, na
morrinha de um mosquete macerado por mostarda e mosquitos
que murmuravam murganhos e mordiscavam músicos mutilados.
O Cê
Cada cadência calava Camilo, que queria casquinar
na caleche calculista que corria no calor das calendas,
no caramanchão cambaleante, na canastra campestre
que canonizava os cânones canadianos. Camilo catava
catatuas e caçava cacarejos com cadetes de cacau
carcomidos pelo caruncho comilão, conquanto conquistasse
conservas em camas acamadas, em cómodas acomodadas,
cobertas por cristais coloridos, cambraias e camélias,
camelos e camiões, castiçais e castanholas.
Em Cantanhede cocava as caravelas quinhentistas, cavalgava
cavalos corcovados, enquanto o cágado da cova escovava
as caves do castelo com as costas da crina de uma Catarina
qualquer.
Soneto com tradução
simultânea
A palavra, a língua, a linguagem, as palavras com
o arado da caneta, o idioma, o idi-homem, a poesia se a
gente a deixasse ir.
Pela primeira vez na rádio portuguesa, um poema bi-lingue,
com tradução quase simultânea.
É um soneto, cianeto, um-dó-li-tá,
quem está livre, livre está.
Autor da letra: Nicolau Tolentino.
Tradução livre da equipa do Pão Comanteiga,
com supervisão técnica de John Weissmuller
e Josefa de Óbidos.
Línguas escolhidas: a de Carlos Cruz (em boher sulista)
e a de José Duarte (em português).
A – Fosquel prit biola, cark ziodé
B – Chaves na mão, melena desgrenhada
A – piri alala, avodé comondafa
B – Batendo o pé na cama, a mãe ordena
A – miózef abacate nil zoroponce
B – que o furtado colchão, fofo e de pena
A – Pezingue
B – A filha o ponha ali ou a criada
A – A filha, moça esbelta e aperaltada
B – Punche conf rufió gulp-gulp
A – Lhe diz co’a voz, que o ar serena:
B – Zi-zi ma-ma po-po linter ma
A – “Sumiu-se-lhe o colchão! É
forte pena!”
B - “Sumiu-se-lhe o colchão! É forte
pena!”
A – “Olhe não fique a casa arruinada!”
B – Iabe crapoma lupaf inche – nil!
A – “Tu respondes assim? Tu zombas disto?”
B – “You answer like that? You laugh de celá?”
A – Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
B – You think that lá por your father is on
the royal navy
A – Já a mãe não tem mãos?”
E, dizendo isto,
B – Não se arranja para aí uma cervejinha?
A – Oche nit pomatora nuque veil
B – Arremete—lhe à cara e ao penteado
A – Eis senão quando (caso nunca visto!)
B – Voici sinon quand (the never saw case!)
A – Sai-lhe o colchão de dentro do toucado…
B – Estou com uma sede que nem vejo!
Frases sobre a língua
* Tinha tudo na ponta da língua – até
os joelhos! Não lhe dava jeito nenhum, sobretudo
quando se sentava...
* Para dizer lambreta, lombriga, lamaçal, lâmina
e lambisgóia é preciso dar com a língua
nos dentes.
* Aquele homem nem sequer falava a própria língua
– era mudo!
* Nunca deite a língua de fora – olhe que
lhe faz falta...
* Tinha os nomes de todos os colegas do liceu debaixo da
língua – pode isso cussetava-lhe muto a fadar...
* Não se deixe enganar: um linguista é um
especialista em linguiças.
* Podemos afirmar com uma pequena margem de erro que as
línguas são cerca de metade dos lábios.
* Dominava perfeitamente duas línguas: a dele e
a da mulher.
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