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O Coiso
O melhor do meu Pão Comanteiga

Programa ao contrário

Programa emitido a 18 de Outubro 1981

Abertura
Ciao hein!
Assim termina o manteiga com Pão de hoje. Domingos todos, das 13 às 10, ou das 10 às 13, para quem teima em ouvir-nos em sentido correcto.
Como já devem ter reparado, ao longo destas três horas de programação, decidimos fazer hoje um programa ao contrário. Aliás, estivemos quase para não fazer o programa, invertendo as posições habituais, isto é, os ouvintes vinham todos aqui para a cabina, fazer o programa e nós ficávamos em casa, na caminha, a ouvir as vossas baboseiras. Mas acabámos por fazer o programa nós próprios. Sempre a sacrificarmo-nos pelo bem comum. Esperamos que gostado tenham. Pela parte nossa, imenso nos divertimos durante a semana ao a cara imaginarmos dos ouvintes nossos quanto escutar começassem programa o.
A do costume equipa foi: Santos Couto e Artur, Cunha Brito e Bernardo, Ferreira Eduarda, Furtado Joaquim, Duarte José, Fanha José, Zambujal Mário e Cruz Carlos.
Na rede toda de MF e Média Onda da Comercial Rádio, permanecemos aqui três horas durante, do inverso falando e do contrário, do oposto e dos antípodas. Gostado esperamos que tenham e até para a semana que passou.

Outra Abertura
Bom... vamos lá falar a sério. Nada de brincadeiras agora! O programa de hoje foi concebido ao espelho – às vezes, as coisas saem-nos ao contrário. Acontece a qualquer um!... E se não for desta vez que a ambulância nos vem buscar a todos, prometemos tentar fazer um programa em código Morse e outro em terylene, na semana que vem. Se a semana vier, claro...
Portanto – e como já devem ter percebido – a manteiga com Pão de hoje é dedicada ao inverso, ao avesso, ao contrário, ao oposto, aos antípodas.
A equipa, já todos sabem qual é: Rutra Otuoc e Sotnas, Odranreb Otirb e Ahnuc, Arierref Adraude, Odatruf Miuqaoj, Esoj Etraud, Esoj Ahnaf, Oiram Lajubmaz e Solrac Zurc.
Isto é que foi suar para conseguir fazer o programa desta semana!
As obras consultadas foram, entre outras: “As Pupor do Sr. Rutilas”, “As Morgadais do Canavinhas”, “Os também Abatem cavalos”, “As Viras da Inha”, “O Crame do Priem Amiro”, “Quando os luibos oibam”, “Gaz e Perra”, “Orgueito e Preconçulho”, “Retalhos da Védica de um Mídico”, “A Crónica dos Brandos Malons” e “O Que Delero Boliz”.

Casamento
Foi portanto assim que a história terminou. Eles casaram-se, o casamento foi mais ou menos importante, a noiva ia lindíssima, foi na igreja, claro, com padrinhos e tudo, muitos convidados e uma multidão de curiosos, que quiseram ver, de perto, os noivos, aquele esplendor, aquela grandiosidade. Por que não todos os dias que se casam duas pessoas da mais fina flor da nata da melhor sociedade da alta roda.
Ela era alta, ombros largos, cabelo cortado à escovinha das unhas (tinha acabado de sair da tropa), um lindo bigode loiro muito bem aparado. Ia de fraque negro, impecável. Ele era de estatura mediana, longos cabelos loiros, terminando por caracóis e lesmas, olhos lindos (dois, mais precisamente), profundamente azuis. Ia de branco, impecável. O sacerdote, na sua farda de gala, exibindo as condecorações, nomeadamente a cruz de guerra e a cruz quebrada, aguardava perto do altar, ladeado por um alcoólico vestido de polícia e um sacristão, obviamente cobrador a carris. Via-se pelo alicate. Um pouco mais atrás dos noivos seguiam os cães de caça, siameses puros, o padrinho, de barco, e a madrinha, a nado,, num elegante estilo mariposa.
Chegados ao altar, o sacerdote desembainhou a espada e, erguendo-a à altura do joelho esquerdo, começou com a arengada do costume:
“Chegou a altura de um metro e oitenta. Todos os presentes e a maior parte dos ausentes sabe que sou contra o absentismo!” – exclamou, brandindo a espada de um modo que pôs em perigo o braço do prelado mais próximo, que ficou perlado de suor. O cheiro invadiu a nave, que continuava a baloiçar perigosamente, por môr do mar encapelado – o que é habitual nas capelas da província.
“Por isso” – prosseguiu o general, cofiando a barba de dois dias que, por sinal de trânsito, nem era dele – “declaro solenemente que uma grave irregularidade ressalta desta cerimónia, que deveria ser solene?”
Ninguém respondeu. No entanto, um murmúrio percorreu a nave, da ponte de comando à arrecadação da farinha. O camareiro-mor sentiu-se indisposto e foi obrigado a ingerir uma horrível mistura de cloreto de sódio e sal vulgar – um purgante excelente, sobretudo na prisão de ventre, bem como na prisão de costas, muito mais traiçoeira. Mas o general não terminara. Os generais nunca terminam. Mostrando possuir uma navalha no bolso do colete, ergueu o dedo indicador da mão direita à altura da testa do capelão-plão e disse, lentamente, falando de modo a que ninguém entendesse:
“Faix elle taix óber méber esse tréber déber céber inix móber ninix aix esse!”
Vozes ergueram-se até á cúpula. Ninguém entendera. O padrinho da noiva, bichanando, explicou-lhe que devia ser mais claro. O general ficou lívido, mas acabou por traduzir o que disseram em hebraicozelandês:
“Falta o mestre de protocolo!”
A multidão entreolhou-se comprometida. Faltava o mestre de protocolo. Procuraram-no por toda a parte, mas não havia sinais dele. A menos que se tivesse escondido no véu da noiva, que era comprido como a légua da póvoa. Levantaram o véu da noiva e viram que as calcinhas eram de muito má qualidade. Um saldo, provavelmente. Mas lá estava o chefe de protocolo, corado, envergonhado, tentando esconder-se nas rendas do véu. Chamaram-no à pedra. Ele foi, vacilante. O sacerdote perguntou-lhe, irado, embora assim-assim:
“Que desodorizante usa, seu velhaco?”
“Com sabor a rosas...” – respondeu o velhaco, tentando dissimular o seu enrascanço atrás de um biombo chinês, ali colocado para o efeito.
Era evidente que a população estava zangadíssima. Atiravam arroz, sussurravam berros, soletravam guinchos, davam pulinhos nas bancadas e houve até um free lancer que executou uma peça de fazenda no órgão da igreja.
Apesar de tudo, o casamento consumou-se. A noiva – um engenheiro conhecidíssimo, com uma excelente conta bancária – beijou o noivo umbigo e o noivo, de pijama, dançou uma valsa ao ritmo disco. O copo de água foi de vidro e partiu-se, claro.

Frases
* Fique sabendo que o contrário de largo não estreito: é ogral.

* Nem todos os opostos se dão mal. Os sexos oposto, por exemplo.

* Quando um homem se vira do avesso, é uma vergonha – vê-se-lhe tudo!

O sentido das coisas
Não é por acaso que as coisas têm um sentido. Se determinadas coisas tivessem o sentido inverso, o mundo não seria o que é. Por exemplo, os iô-iôs seriam ôi-ôis; os guarda vestidos seriam vestidos da guarda; os porta chaves seriam as chaves das portas; os peitos dos pés seriam os pés dos peitos; as bases dos partidos seriam os partidos das bases; o sexo dos anjos seria os anjos do sexo; o quarto crescente seria o crescente do quarto e por aí fora.
Os exemplos poderiam multiplicar-se como os pães de Deuladeu Roupinho ou D. Fuas Martins.
É graças ao sentido das frases que dizemos, por exemplo, “o João come a maçã”, e não, “a maçã come o João”. No entanto, certas frases fazem sentido em ambos os sentidos. Por exemplo:
- corpo consular e consular o corpo
- golpes de mestre e mestre de golpes
- festas de amigos e amigos de festas
- mulher de má fama e fama de mulher má
- um homem às direitas e as direitas de um homem
- jogos de salão e salão de jogos
- amor sem complexos e complexos sem amor
Todas estas frases fazem sentido, em ambos os sentidos, embora não tenham o mesmo sentido.
Mas tomemos outro exemplo: Suponha a frase: “Bolas! Livra! Chiça!”. Experimente dizê-la assim: “Livra! Bolas! Chiça!”, ou “Chiça! Bolas! Livra!”, ou ainda “Livra! Chiça! Bolas!” O significado é o mesmo, qualquer que seja a ordem das palavras. De onde se poderia concluir que a ordem das palavras é arbitrária. Aliás, como todas as ordens.
No entanto, nem sempre isso acontece. Eis outro exemplo: “chegou a casa e sentou-se à mesa”. Neste caso, a ordem das palavras é importante, porque não deverá dizer-se: “chegou á mesa e sentou-se na casa”.
Apesar de tudo, e porque somos uns tipos fixes, deixamos que você diga, se quiser, “Antonieta pilha-galinhas”, “andar a cavalo faz bem á espondilose”, “gosto muito de morangos com natas” e até “bom dia senhor professor”.
Diga cada uma destas frases 32 vezes e verifique como é fácil fazer figura de parvo. Quem é amigo, quem é?

O prefixo “in”
Em todo o indivíduo se processa uma luta entre o bem e o mal, entre o sim e o não. Chegou a altura do manteiga com Pão dissertar um pouco sobre estas questões profundamente filosóficas. Todos os sectores da sociedade são afectados por esta eterna luta entre forças antagónicas.
Na jardinagem, por exemplo, enquanto uns são a favor da poda, outros são antipodas. Na dietética, há os macrobióticos e os antibióticos. Nas geografia, as ilhas, e as antilhas. Na filosofia, as teses e as antíteses. Na toponímica, os Lopes e os antílopes. Na história, a idade e antiguidade.
Isto hoje está muito cultural! Até parece um programa subsidiado pela secretaria de Estado da Cultura. Mas não é. Felizmente para ambas as partes.
Falemos agora um pouco do prefixo “in”, prefixo de negação que, portanto, nega sempre alguma coisa. Por exemplo: seguro e inseguro, certo e incerto, correcto e incorrecto. Mas esta gramática anda toda engatada – estamos fartos de o dizer! É que, se o prefixo “in” é de negação, um fulano sem tacto deveria ser intacto. Se um tipo sem cultura é inculto, um outro sem formação deveria ser informado. Do mesmo modo, a palavra informação seria, portanto, o inverso de formação. Nesse caso, os bons jornais seriam órgãos de formação e os maus jornais, órgãos de informação. Por outro lado, quando um sujeito come muito, deveria dizer-se que estava fartado – e, se comesse pouco, infartado.
Enfim, os exemplos são muitos e, vendo as coisas sob este prisma, o impacto seria um pacto quebrado, impestar seria acabar com a peste, infestar seria o fim da festa e imputar seria o fim!

Diálogos
Primeiro
A – Dia bom!
B – Dia bom quê porque? Chover está!
A – Bem faz a chuva. Culturas é importante para! Germinavam não as alfaces chuva sem...
B – Fiada conversa! Chovesse senão regava-se!
A – Enganado está – chovesse senão cresciam não alfaces as!
B – Saber quero lá das alfaces! Até eu gosto nem saladas de!
A – Olhe pois faz que mal muito! Saladas muito são boas saúde para!
B – Sim ah? Lhe disse isso quem?
A – Lido tenho revistas especialidade da. Sabe eu que muito culto sou. Interessar-me tanto por tudo que cultura contribua!
B – Acha não, que conversa esta, tornar se está chata muito?
A – Sim, acho razão que tem...
B – Melhor então calarmo-nos é!
A – Dia bom.
B – Chover se não.

Segundo
A – Dia bom!
B – Sim acha? Ventania com uma destas?!
A – Aguentar temos! Vento preciso é!
B – Quê para, me diz não?
A – Para coisas tantas! Lá sei! Olhe, exemplo por, levar esporos os, para flores as polinizar.
B – Saber quero lá esporos dos! Nada de zoologia percebo!
A – Senhor é inconveniente muito! Além de que feio é desprezar as Natureza das forças.
B – Sei só que vento constipações me provoca! E resto conversa fiada é!
A – Em casa fique, caso nesse!
B – Ideia boa! Mesmo isso fazer vou!
A – Dia bom então.
B – Ventar se não...

 

 

 

 

Actualizado em: 26 de Abril 2003
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