EMANUEL PALHAVÃ
Programa emitido em 24 de Abril 1983
Pequenos factos
* Um gestor diplomado deve cuidar da sua aparência,
usando sempre fato e gravata.
Emanuel Palhavã era um gestor diplomado e prevenido
– por isso, usava sempre dois fatos e duas gravatas.
* Emanuel Palhavã nunca declarava os impostos das
suas empresas. Para ele, gestor esclarecido e informado,
o segredo era a alma do negócio.
* O apartamento de Emanuel Palhavã tem dez divisões
assoalhadas e dois corredores; o segundo corredor chega
sempre com o mesmo tempo que o primeiro.
O namoro de Emanuel Palhavã
com D. Deolinda Alto do Pina
O namoro de Emanuel Palhavã podia figurar, sem qualquer
favor, na galeria das grandes paixões que, ao longo
dos séculos têm impressionado poetas, dramaturgos,
romancistas e metalúrgicos em geral.
Emanuel Palhavã e D. Deolinda Alto do Pina amam-se
apaixonadamente há cerca de 14 anos, mas uma série
de vicissitudes têm impedido o casamento – tão
aguardado pelas famílias de ambos os amantes. Amantes?!
Que dizemos nós, seres perversos e habituados aos
pecados deste mundo?! Amantes, de modo nenhum! Namorados
é, sem dúvida, o termo adequado.
Tudo começou, portanto, há pouco menos de
14 anos, quando Emanuel Palhavã – já
então um gestor de nomeada – conheceu D. Deolinda
Alto do Pina num beberete de lançamento de uma nova
marca de peúgas.
Nesse beberete, Emanuel representava a empresa que lançava
as peúgas e D. Deolinda, nas suas viçosas
18 primaveras, usava-as nos pés , às peúgas,
claro, e pisava a passarelle, com elegância e firmeza.
Palhavã sorveu um golo de champanhe e os seus olhos
focaram as tíbias de Deolinda e ali ficaram colados.
Só o conhecido ortopedista Sarmento Alcoitão
conseguiu resolver o problema, garças a uma delicada
intervenção cirúrgica.
Foi aí que começou a paixão entre Deolinda
e Emanuel –mas o casamento era impossível naquele
momento, porque o gestor de quem falamos andava em busca
do galhardete perdido – e um homem sem galhardete
não está em condições de casar,
como é do conhecimento geral. Não sei se me
estou a fazer entender...
Por isso, Emanuel Palhavã prometeu a Deolinda que,
assim que arranjasse o galhardete necessário, o casamento
se faria imediatamente.
Até aqui, tudo bem.
Desde então, e já lá vão 14
anos, os dois namorados encontram-se semanalmente e mais
ou menos assim:
A – Boa tarde Deolinda... como tem passado?
B – Olhe, passei a tarde a dormir... ontem fiquei
acordada toda a noite, a pensar em si... não sei
se me fiz entender...
A – Sua malandreca!... pensou em quê?...
B – Ora! Pensei em como seria bom você estar
aqui, ao pé de mim, acariciando-me as espáduas,
ou mesmo titilando-me os lóbulos das orelhas... não
sei se me fiz entender...
A – Francamente, Deolinda!... Você, por vezes,
nem parece pertencer ao estrato social a que, de facto e
de jure, pertence!... bem sabe que nós somos apenas
namorados... nem sequer noivos estamos...
B – Oh Emanuel! Você destroi-me com a sua lógica
arsitotélica!... Os tempos são outros... as
coisas mudaram... E uma mulher madura como eu precisa de
certos carinhos, de um apoio muito especial, de uma dedicação
particular; uma mulher não se satisfaz com caixinhas
de bombons ou com ramos de rosas – quer mais, o seu
coração clama por mais, o seu coração
pulsa, vibra e deseja!... não sei se me fiz entender...
A – Está a deixar-me atrapalhado, Deolinda!
Começo a pensar que você se está a esquecer
dos seus princípios morais e se está a transformar
numa verdadeira debochada!
B – Numa quê?!... Emanuel, repita isso, se for
capaz!
A – Repito, com certeza que repito: acho que você
se está a transformar numa verdadeira debochada!
B – Debochada?... com xis ou com cê-agá?
A – Com cê-agá...
B –Aguarde só um momento, por favor... deixe-me
ver aqui no dicionário...
A – Deolinda, deixe-se de coisas... eu próprio
lhe posso explicar o significado de debochada...
B – Não confio em si, seu sevandija!... eu
verei aqui no dicionário!... Ora vejamos: “debitar”...
“débito”... “debochada” –
Cá está! “Debochada: devassa, corrompida,
viciada”! Oh Emanuel!Você estraga-me com mimos!
A – Bom, bom... empreste-me cá o dicionário
que quero ver uma coisa... Ora deixe cá ver... “setentrional”...”sevandija”...
Cá está: sevandija significa insecto parasita
ou pessoa servil... Assim estou mais descansado!...
B – Porqueê, Emanuelzinho querido?
A – Pensei que sevandija queria dizer outra coisa,
Deolinda... mas tire a sua mão da bainha das minhas
calças, que me estraga as costuras...
B – Ora! Onde quer que eu ponha as mãos?!...
A – Aqui, Deolinda, aqui!
As vantagens da rádio em relação à
televisão são enormes. Não temos imagem,
por exemplo. Assim, o ouvinte do Pão Comanteiga,
casto ou malandreco, imaginará o local onde Dona
Deolinda Alto do Pina colocou as suas mãos. Mas de
uma coisa poderá ter a certeza: o que a agricultura
tem de bom é que se aproveita tudo...
Não sei se me fiz entender...
Como Emanuel Palhavã começou
a coleccionar galhardetes
Foi a uma sexta-feira santa que o gestor diplomado, Emanuel
Palhavã, teve a ideia de coleccionar galhardetes.
Terá importância referir que foi a uma sexta-feira
santa que ele teve essa ideia, aliás brilhante?
Claro que tem muita importância, como adiante se verá...
Era, portanto, uma sexta-feira santa – um dia que
só acontece uma vez por semana, o que já não
se passa com os domingos. Os Domingos podem ser maus ou
bons, simpáticos ou coléricos, como os Alfredos,
os Césares ou os Teodósios. Mas há
uma fatalidade a que os Domingos não podem fugir:
repetem-se todas as semanas.
Nessa sexta-feira santa, Emanuel Palhavã estava sentado
na 3ª sala do seu apartamento de 10 assoalhadas. Quem
o visse diria, se medo de errar, que estava chateado.
Deixara o tabaco na 5ª sala, o semanário na
1ª sala, o livro policial no quarto, o álbum
de fotografias no quinto – e não sabia como
passar o tempo.
Qualquer ouvinte (ou trinta) mais distraído responderia
logo, todo lampeiro: ora! Ouvia um pouco de música
ou via televisão!
Seriam, de facto, duas excelentes ideias, mas a aparelhagem
sonora de Emanuel Palhavã estava na 7ª sala
e a TV transmitia cerimónias religiosas.
Daí a importância de se estar a uma sexta-feira
santa.
Foi então que o nosso amigo, cansado de pensar em
nada, sentiu algo crescer em si. Muita gente sentiu já
algo crescer em si. Neste momento, por esse Portugal fora,
milhares de ouvintes do Pão Comanteiga, sobretudo
os que viajam nas estradas deste país, estão
a sentir crescer algo em si (isto é que é
optimismo!). Schubert, por exemplo, sentiu também
crescer algo em si – mais precisamente, a sinfonia
em Si menor, que deixou incompleta, afinal...
Emanuel Palhavã sentiu crescer em si o desejo de
ser coleccionador de galhardetes.
Até aqui, tudo bem.
Por isso, telefonou ao seu amigo Godofredo Miratejo, coleccionista
convicto, filuminista, filatelista, numismata e medalhista
ferrenho, e perguntou-lhe como deveria coleccionar galhardetes.
Godofredo Miratejo pensou um bocado e disse: “Ora...
nunca coleccionei galhardetes, mas penso que é como
as outras colecções – primeiro, arranjas
um galhardete, depois outro diferente e já tens dois,
depois outro, e já tens três... e assim sucessivamente...”
Emanuel Palhavã agradeceu, desligou o telefone e
caiu numa depressão profunda: era sexta-feira santa,
como já sabemos, e as lojas estavam fechadas. Onde
arranjaria ele o primeiro galhardete?
De súbito, fez-se luz no seu espírito! Tomou
um comprimido, deitou-se e dormiu até ao dia seguinte.
No dia seguinte era sábado de aleluia e Emanuel Palhavã
irrompeu pelo relvado do estádio da Luz no momento
em que os capitães de ambas as equipas trocavam galhardetes,
roubou-os e fugiu.
Foi apanhado na 2ª circular, perto do hipódromo.
Na esquadra explicou: “se eles os estavam a trocar
é porque tinham galhardetes para a troca!”
Emocionados com esta confissão tão pronta
e sincera, os agentes da ordem libertaram Emanuel Palhavã,
que voltou para casa com os dois primeiros galhardetes da
sua nóvel colecção.
A infância de Emanuel Palhavã
Apesar de ser oriundo de família abastada da Beira
Alta, Emanuel Palhavã nasceu pequenino e de parto
natural.
Todos os esforços de seus pais e avós foram
inúteis no sentido de modificar o comportamento inicial
do pequeno Emanuel, nada digno de um Palhavã. Com
efeito, durante largos meses, Emanuel fazia tudo nas fraldas,
chorava desalmadamente, chuchava no polegar, era praticamente
careca, não tinha dentes, não articulava uma
única palavra e nem sequer andar sabia.
Envergonhados, os Palhavã da Beira, mantiveram Emanuel
sempre longe dos olhares curiosos dos amigos da casa –
sobretudo dos Tondela, que se gabavam de ter um filho que
até andava na universidade!
Pois Emanuel não andava na universidade nem andava
em lado nenhum. Gatinhava, arrastava-se, rastejava como
um réptil imundo, emitia grunhidos indecifráveis,
babava as carpetes todas e era completamente analfabeto!
Foi então que Dona Odete Palhavã – mãe
de tão estranha criança – contratou
os serviços de uma ama, uma tal Ludovina Mangualde,
conhecida por ter educado centenas de beirões, alguns
deles figuras proeminentes da nossa vida política.
A primeira coisa que Emanuel Palhavã aprendeu a dizer
foi “papá” e, logo a seguir, “mamã”.
A família exultou mas mais espantada ficou quando,
dias depois, a criança disse as duas terceira, quarta
e quinta palavras, que foram, exactamente, “balança
de pagamentos”.
O sr. Torremolinos Palhavã, oriundo da Praça
de Espanha ou arredores, pai deste verdadeiro “enfant
prodige”, predisse logo ali o futuro da criancinha:
“o meu filho será um gestor diplomado!”
E assim veio a acontecer...
Certa tarde, a Sorte veio bater à porta dos Palhavã.
Era uma Sorte má e de má saúde, na
pessoa de um primo afastado, que veio a falecer pouco depois,
de morte natural após estrangulamento. No seu testamento,
redigido de livre vontade, com umapistola apontada à
nuca, legou a Emanuel Palhavã um diploma de gestor.
Tudo bem quando acaba bem...
Uma ligação eléctrica
de Emanuel Palhavã
“Não quer vir até ao meu apartamento
ver a minha colecção de galhardetes?”
– perguntou el, com voz doce.
“Não sei se deva...” – respondeu
ela, tímida.
Ele é Emanuel Palhavã, gestor diplomado, oriundo
de uma família abastada da Beira Alta, possuidor
de uma completíssima colecção de galhardetes.
Ela é Adalgisa Madragoa, secretária profissional,
estenógrafa exímia, tradutora simultânea,
dactilógrafa consequente, perfil de telefonista coerente
e democrata. Ele é doidinho por ligações
eléctricas ao fim de semana, período durante
o qual esquece o seu namoro de 14 anos com D. Deolinda Alto
do Pina, e se deixa levar por desejos libidinosos, perversos
e inequívocos.
Até aqui, tudo bem.
“Adalgisa... deixe-se de tretas... tenho bebidas,
tenho comidas, tenho música ambiente...” –
diz ele.
“Oh! Sr. Emanuel, francamente!... na véspera
das eleições!... estamos no período
de reflexão, preciso de pensar, de ponderar os programas
dos partidos...” – diz ela.
“Pondere comigo, Adalgisa... amanhã, eu acompanho-a
à secção de voto, levo-a lá
de carro, ajudo-a a meter o voto na urna, se for preciso...
mas venha passar este fim de semana comigo... sinto-me tão
só!” – diz ele.
Como os ouvintes devem estar a reparar, Emanuel Palhavã
está, neste momento, a fazer propostas que se podem
considerar desonestas a Adalgisa Madragoa – e que
podem, inclusivamente, alterar o seu sentido de voto. Por
isso, ela vai responder: “Não”. Emanuel
Palhavã fica vidrado com a tampa da secretária
e prepara-se para ripostar, em forma de chapada, quando
entra no gabinete o sr. Gonçalves Seixal, guarda-livros
na estante.
“Ora muito bom dia!... Então o sr. Emanuel
e a menina Adalgisa estão aqui os dois e não
diziam nada a ninguém!...”
“Eu ia já a sair...” – diz Adalgisa,
com pressa na voz.
“Não sai, não senhor!...” –
exclama Ivone Penha de França, prospectora de vendas,
que entra no gabinete com uma bandeja repleta de bolinhos
e café.
“Era isso mesmo que me estava a apetecer!” –
disse alguém, mas a gente já não sabe
se foi Emanuel, Adalgisa ou Gonçalves Seixal.
Não terá sido Acácio Poço do
Bispo?
Mas esse ainda nem sequer tinha entrado!
Nesse caso, entra agora e diz: “Era isso mesmo que
me estava a apetecer!”
“Café, a estas horas?!”
Quem falou?
Sei lá! Um tipo qualquer!
E quem responde agora?
Tanto faz... posso ser eu e digo: “Ontem, entrei na
despensa, distraído, e esmigalhei um saco de plástico
cheio de tomates!”
“Que contrariedade!” – exclamou um dos
outros, à escolha.
“Nem por isso... ficou concentrado de tomate!...”
– disse eu.
É o que a agricultura tem de bom... aproveita-se
tudo!
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