FAÇA VOCÊ MESMO
Programa emitido a 26 Julho 1981
Abertura
Faça você mesmo o seu Pão Comanteiga.
Abra o pão, barre-o com manteiga, ria-se e bata palminhas.
Ponha o disco ou ligue o rádio, pendure o quadro,
faça a cadeira, coloque o vidro, monte a estante,
encaderne a enciclopédia, plante o tubérculo,
ligue o interruptor – faça você mesmo!
Não se deixe embarrilar! Nós damos-lhe uma
ajuda:
Artur Torno e Santos, Bernardo Rebite e Cunha, Eduarda Ferreiro
Espeto de Pau, Berbequim Furtado, José Serrarte,
José Parafusanha, Mário Brocajal e Carlos
Betuns, de manual na mão, vamos ajudá-lo a
fazer você mesmo.
Faça você mesmo...
Faça, por exemplo, um lindo e prático
bengaleiro. Toda a gente tem, em casa, uma mesa
velha, a cair de podre, toda empenada. Pendure-a na parede
do seu hall, com as pernas paralelas ao chão. Depois,
pendure o casaco e o sobretudo nas pernas da mesa. Mas,
se não quiser fazer um bengaleiro, utilize a sua
mesa velha para se divertir. Coloque-a, primeiro, no chão
da sala, de pernas para o ar. Depois arranje quatro tachos
e com a ajuda de um abre-latas, retire os fundos dos tachos
– obterá assim quatro lindas argolas. Com a
mesa e os tachos sem fundo, poderá organizar um torneio
em sua casa, que consiste, simplesmente, em tentar enfiar
os tachos nas pernas da mesa. A diversão é
garantida!... Mas, se não estiver para isso, serre
a mesa ao meio, saque-lhe as pernas, retire-lhe os pregos
e os parafusos, atire tudo fora e compre uma mesa nova.
Pinte você mesmo a sua casa. É
fácil, desde que siga os nossos conselhos.
Em primeiro lugar, deve escolher a tinta adequada. Não
use tinta permanente, a menos que pretenda uma tinta para
sempre. Se não souber nadar, a tinta de água
também não é aconselhável. É
claro que também deve evitar o tintol por causa do
fígado. A tintura de iodo é mais adequada
nos hospitais.
No que respeita à cor, não seja troca tintas.
No quarto, qualquer cor é agradável, desde
que se apague a luz. Na cozinha, é preferível
a cor de laranja. Na sala de visitas, a cor tesia. Na casa
de jantar, o verde alface ou mesmo o verde salada de tomate.
Se preferir, pinte todas as dependências com uma cor
uniforme militar que, entre nós, é o verde,
como se sabe.
Depois de escolhidos o tipo e a cor da tinta, há
que escolher os instrumentos que vamos utilizar para pintar.
Evite o trombone e o clarinete – prefira os pincéis,
o rolo e a brocha. Quanto aos pincéis, use o da barba
para pintar os cantos, mas não faça muita
espuma.
É claro que, antes de iniciar a pintura, deve tomar
algumas precauções: cubra a alcatifa com jornais,
para evitar os pingos de tinta, cubra os jornais com plástico
para não manchar as notícias, cubra o plástico
com panos para não sujar o plástico e cubra-se
a si próprio com roupas velhas, calce umas luvas
de borracha, tome um copo de leite por causa das intoxicações,
telefone à família avisando-a do que vai fazer,
tenha à mão os números de telefone
dos bombeiros e do hospital mais próximo, retire
os móveis da sala, antes de pintar, cubra os buracos
da parede com gesso ou com posters, dilua a tinta com um
pouco de água, junte duas gotas de lixívia
para cada litro de água, mexa com uma colher de pau,
veja se está boa de sal, adicione dois dentes de
alho e alguma pimenta, abra as janelas de par em par e as
portas de impar em impar por causa do cheiro ou ponha desodorizante
e, finalmente, pegue no pincel e esteja-se nas tintas!
Faça você mesmo um lindo e moderno
castiçal. Fácil e eficaz. Pegue numa
garrafa de cerveja, de preferência, bem geladinha.
Retire a carica com o abre-cápsulas e beba o conteúdo
da garrafa, lentamente, golo a golo, com ar de entendido.
Pode inclusivamente dar alguns estalidos de satisfação
com a língua. Uma vez esvaziada a garrafa, passe-a
por água e introduza a extremidade de uma vela de
estearina no gargalo da garrafa. Trata-se de um castiçal
que, embora simples, não deixa de ser saboroso. Se
preferir, e como o calor aperta, faça dois, três
ou mesmo seis castiçais; basta que beba duas, três
ou mesmo seis cervejinhas...
Faça você mesmo uma toalha de praia.
Muito útil nesta altura do ano. Fácil e barato.
Basta arranjar uma toalha de rosto, daquelas turcas, que
você tem, penduradas na casa de banho, enrolá-la
cuidadosamente e colocá-la debaixo do braço.
Seguidamente, dirija-se à praia e, mal chegue ao
areal, estenda a toalha de rosto que, a partir desse momento,
passará a designar-se por toalha de praia.
Faça você mesmo uma amolgadela no
seu automóvel. Não deixe que os outros
estraguem o que é seu...
Faça você mesmo o seu gira-discos.
Faça inveja aos seus amigos quando, apontando o seu
trabalho disser, orgulhoso, “fui eu que fiz isto!”
Arranje uma caixa de camisas, daquelas de cartão
(a caixa), e pinte-a de preto. É a cor indicada para
gira-discos. Na face inferior da caixa, cole quatro rodinhas,
que poderá roubar aos automóveis do seu filho.
Em seguida, espete um pau no centro da caixa – pau
esse que servirá de eixo e que deve possuir a espessura
exacta do buraquinho que todos os discos têm no meio.
Introduza agora um disco no eixo e rode a caixa. Como vê,
o disco gira. Acabou de construir um gira-discos. Dirá
que não toca, não é? Pois é
– mas também não se pode ter tudo!...
Faça você mesmo um paliteiro.
É sempre útil em qualquer casa assoalhada.
O material é simples: um cálice e um pedaço
de papel vegetal. Coloque o papel vegetal sobre o bocal
do cálice e, no papel, faça muitos furinhos,
com a ajuda de um berbequim, munido de uma broca muito fininha.
Depois, é só colocar os palitos nos furinhos.
Que lindo paliteiro, não é?...
Frases
* Para pregar nem sempre é necessário um martelo.
Basta, por vezes, ter o dom da palavra.
* Como se aparafusam os fusos horários?
* Se quer pintar a sua casa à pistola, use calibre
38. Aproveite os buracos das balas para pendurar quadros.
* Não se deixe enganar: faça você mesmo
o seu filho!
* Se pretende estufar de novo o seu sofá, coloque-o
no fogão, em lume brando. Com batatinhas, fica óptimo!...
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Quando pintar a sua casa, dê a primeira demão,
a segunda de pé e a terceira de cócoras!
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Nunca faça você mesmo o seu dinheiro.
* Se o seu partido tem falta de quadros, pinte-os você
mesmo.
* Mesmo antes da bricolage se tornar popular, já
era frequente cavar a própria sepultura.
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº5,outubro 1981)
* Faça você mesmo a sua cama. Mas quanto ao
psiché, procure um psichiatra.
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº4, setembro 1981)
* Nunca diga: “Vá-se lixar!” Diga antes:
“Vá-se esmerilar!” – é mais
técnico...
As ferramentas
Antes de iniciar qualquer trabalho de carpintaria caseira,
convém possuir alguns conhecimentos, ainda que mínimos,
sobre as ferramentas que vai utilizar.
Não se serra com um martelo, não se prega
com o alicate, não se aparafusa com o dedal, nem
tampouco se lixa com o aspirador. Vamos dizer-lhe para que
servem as ferramentas nossas amigas.
Comecemos pelo cate, que é uma espécie de
tenaz, mas mais forte, e que toma o nome alicate ou aquicate,
conforme o local onde se encontra em relação
ao observador. O alicate serve para arrancar os pregos que
você pregou mal.
Falemos agora do martelo, de que se conhecem muitas variedades,
desde o martelo pilão ao martelo Rebelo de Sousa.
Como é evidente, o martelo serve para martelar doce
lar. Coloca-se o prego na posição pretendida
e dão-se cacetadas com a parte de metal do martelo
na cabeça do prego ou ainda na cabeça do dedo,
o que trás sempre um pouco de frisson (em inglês,
thrilling) ao seu bricolage. Martele o prego e o dedo alternadamente.
A princípio custa mas, com a continuação,
acabará por achar piada.
Quanto às chaves, comecemos pela chave inglesa, também
conhecida por key, que serve para apertar ou desapertar
porcas, sobretudo quando torcem o rabo. A chave inglesa
é, pois, uma chave de porcas. As chaves de parafusos
devem ser utilizadas com muita perspicácia. Introduz-se
a extremidade mais fininha da chave de parafusos na ranhura
do parafuso e roda-se a chave para a direita, para aparafusar,
ou para esquerda, para desaparafusar – ou talvez seja
ao contrário. Experimente! Faça você
mesmo! Também não lhe podemos ensinar tudo!
A plaina é uma ferramenta fundamental em qualquer
trabalho de carpintaria. Atire a plaina ao ar e deixe-a
plainar à vontade.
Chegou a vez de falar da serra e seus derivados, o serrote,
a serrilha, a serradura, a serração e a serra
da Malcata. É com a serrilha da serra ou do serrote
que se serra para fazer serradura. A serração
é uma espécie de nevoeiro e a serra da Malcata
é um sítio onde há poucos linces, mas
a gente vai salvá-los! Há também a
serra circular, muito utilizada nas rotundas.
Formalmente, o formão usa-se de forma a que a forma
do objecto não se deforme. Conforme o formão
e a forma com for utilizado, assim o objecto ficará
transformado ou uniforme, em relação á
forma inicialmente prevista.
E se queria saber como se usa a grosa, vá grosar
com outro!
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