< Voltar à homepage do Coiso
O Coiso
O melhor do meu Pão Comanteiga

FALSIFICAÇÕES

Programa emitido em 13 Dezembro 1981

Abertura
Não se deixe falsi-ficar atrás – aprenda connosco o velho conto do vigário. Neste eng-ano da graça de 1981, no mês em que se celebra a Páscoa e a tomada da Bastilha, vamos enganar-nos uns aos outros, como gostaríamos que os outros nos enganassem. É que sem coisas falsas não existiriam coisas verdadeiras – e isso é tão certo como o rio Mondego ter nascido de cesariana. Era justo que prestássemos o nosso culto a todos aqueles que ganham a vida enganando o parceiro. Porque quem te engana, teu amigo é.
Assim, e até cerca das 15 horas, aos microfones da Rádio Altitude, a equipa do Copo de Leite, aqui estará para vos provar que o falso é o melhor: Artur Bernardo e Fanha, José Brito e Couto, Joaquim Cunha, José Zambujal, Mário Furtado, Carlos José, Santos Duarte e, na locução, Eduarda Ferreira. Directamente dos escritórios da firma Duarte & Cruz Lda, em diferido para todo o país, excepto para o Alentejo, o Algarve e Aix-la-Chapelle, onde seremos ouvidos apenas anteontem, por razões de ordem técnica.
Não fique connosco que nós vamos já embora; esteja atento e distraia-se, mas tome muita atenção porque nós duramos sempre!

Banha da cobra
Não estou aqui para enganar ninguém! Todos os meus produtos têm a garantia da fábrica que me fornece em exclusivo e cuja matéria prima é rigorosamente seleccionada! Nada do que vendo é falsificado, tudo foi experimentado nos mais sofisticados laboratórios! Tenho aqui, por exemplo, um extraordinário objecto, indispensável em todas as casas, que corta, apara, serra, aparafusa, mói, aplaina, agita, lava, desinfecta, coze, frita, assa, ferve, lixa, pinta, dá brilho, dactilografa, tira nódoas, aspira, solda, escreve, evita a ferrugem, óptimo para o reumático, evita a humidade e a azia, aguça, betuma, tira rugas e pés de galinha, indicado nas diarreias de todas as etiologias, , excelente como adubo, faz crescer os cabelos mais fracos e quebradiços, alisa, martela, prega, amplifica, comprime, regista, amacia, rapa, calca, voa, serpenteia, tira a sede e as dores, aumenta a libido, a tosse e as convulsões, depila, computa, memoriza, recebe telefonemas, limpa o pó, espreme frutos, congela, excelentes batidos, deliciosas sangrias, melhores pudins, conserva, mata insectos rastejantes e volantes, extermina ratos, constipações e prisão de ventre, adivinha o futuro, garante o passado, multiplica por dois, aquece a cama enquanto o outro não chega, dá luz, não contem corantes nem conservantes, aditivos e outras impurezas, tira a fome e os cabelos brancos, ensina quatro línguas, penteia, desentope canos e fá-lo sentir um homem de sucesso! E sabem o que é? Sabem de que objecto se trata? Não sabem, pois não? E é pena porque eu também não faço a mais pequena ideia do que seja!

A burla é velha
A burla é tão velha como o homem. Adão foi o primeiro homem a ser burlado: trincou a maçã e o pedaço ficou-lhe na garganta. Ainda hoje, todos os homens exibem a famosa tangerina de Adão no joelho esquerdo. Logo a seguir, foi a vez de Adão e Eva enganarem o próprio Criador que, como se sabe, lhes ordenou que crescessem e se multiplicassem. Ignorantes de tudo o que fosse álgebra, Adão e Eva somaram-se primeiro e só depois se multiplicaram. Noé enganou os mamutes, não os deixando entrar na arca, contribuindo, assim, para a sua extinção. Moisés enganou os perseguidores egípcios, abrindo o canal do Suez no Mar Vermelho, deixando Yasser Arafat completamente baralhado. Brutus cravou um punhal no peito do próprio pai, assassinado-o em seguida. Dalila enganou Sansão, puxando-lhe os pêlos do peito e chamando-lhe Tarzan, mas rapando-lhe a cabeça quando o apanhou a dormir. Viriato foi enganado, ao deitar-se na cama com um punhal que tinha o bico virado para cima. E o seu seguidor, Sertório, após enganar os romanos, acabou por ser enganado, ao beber um vermute com arsénio. Alguns anos mais tarde, foi a vez de Afonso Henriques enganar sua mãe, Dona Tareja, convidando-a para um almoço em Valdevez, com batalha à sobremesa. David enganou Golias, dizendo-lhe “olha aquele aeroplano!”, no momento em que lhe atirava uma pedra à testa. Napoleão enganou-se, querendo invadir a Rússia através de Portugal. Cristóvão Colombo descobriu a América por engano. Richard Nixon entrou no caso Watergate por engano, o guarda-costas de Willy Brandt era agente duplo por engano, Giscard D’Estaing recebeu os diamantes de Bokassa por engano, Rui Guedes engana-se quando fala e toca piano quando se engana e vice-versa e por aí fora. Também você, amigo ouvinte, anda a ser enganado há quase 100 domingos, das 10 às 13, aqui no PcM – o único programa que se engana a si próprio!

Nasceu burlão
Nasceu sob o signo da aldrabice. Assim que veio ao mundo, conseguiu enganar a própria parteira, fazendo-se passar por menina. Só quando lhe mudaram a primeira fralda descobriram que era menino. Cresceu devagarinho, quando todos queriam que se fizesse homem depressa e, de súbito, quando menos se esperava, deu um pulo e deixou crescer a barba em dois dias.
Na escola, enganava o professor, utilizando cábulas falsas e respondendo às perguntas em play-back. Fez as quarta classe a um domingo e entrou no liceu pela porta das traseiras. Tirou o curso por correspondência, forjando as cartas em ambos os sentidos. Era ele que elaborava as lições, enviando-as, depois, pelo correio, para a sua própria morada. Estudava-as, respondia aos inquéritos redigidos por ele e tirava sempre a nota máxima, embora com alguma batota. Foi ainda ele que passou o diploma de técnico de relações públicas, mas conseguia fazer-se passar por consultor jurídico, graças a um bigode respeitável e muita lata. Já nessa altura desenvolvera a lábia, a garganta, o patuá. Colocava bem a voz, fazia os gestos apropriados e a lábia fazia o resto. Falsificou cheques, notas e moedas, vendeu agulhas sem buraco, buracos sem fundo, fundos sem meios, meios sem pontas, pontas sem mola, molas sem colchões, colchões sem espuma, espumas sem cerveja, cervejas sem garrafas, garrafas sem vidor, vidors sem relógios, relógios sem ponteiros, ponteiros sem bico, bicos sem gás, gás sem bilha, bilhas sem asas, asas sem pássaros, pássaros sem penas, penas sem tinta, tintas sem pincel, pincéis sem cola, colas sem tubo, tubos sem escape, escapes sem carro, carros sem rodas, rodas sem aros, aros sem anéis, anéis sem dedos, dedos sem nós, nós sem linhas, linhas sem agulhas, agulhas sem buraco...
E para culminar a sua brilhante carreira de burlão, suicidou-se na véspera da sua morte, falsificando a certidão de óbito.

Frases
* Tudo começou com um vigário de aldeia, o Sr. Padre Inácio que, no seu quintal, tinha lindos rabanetes que vendia, aos menos atentos, afirmando tratarem-se de tomates. Assim nasceu a expressão: “ser levado no conto do vigário por causa dos rabanetes do padre Inácio...”

* Uma burla é uma bula papal falsificada.

* Um tipo que nos quer convencer que o alho cheira a rosas é um trapacheiro.

* Na música, o Fi é uma nota falsa.

* Era um vigarista tão requintado que vendeu gato por lebre e o freguês, quando chegou a casa, assou o peru, convidou os amigos e, ao provarem o pato, todos acharam que sabia a faisão.

* Um tecto falso falso é verdadeiro.

* O animal mais falsificado é o macaco de imitação.

* O sinos de latão tocam sempre a rebate falso.

* A falsa é uma imitação rasca da conhecida dança vienense.
Diálogos
A – Bom dia.
B – Bom dia.
A – A conhecer a cidade, não?...
B – É verdade... é a primeira vez que cá venho...
A – O senhor é um homem com sorte...
B – Eu? Porquê?...
A – É que decidi escolhê-lo a si para lhe porpor um grande negócio.
B – Bom... eu cheguei ontem da província mas não me deixo enganar facilmente.
A – Enganar? Mas quem falou em enganá-lo, meu caro amigo?
B – Ora, ora!... desde ontem já tentaram vender-me a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos!... Só que eu não sou nenhum parolo e não me deixo enganar facilmente! Não me diga que me quer vender o Cristo Rei!
A – Vender o Cristo Rei? Mas que disparate! Toda a gente sabe que o Cristo Rei não está à venda! A minha proposta é alugá-lo!
B – Alugar o Cristo Rei?...
A – Claro! É um bom negócio! O senhor já reparou que aquilo está sempre cheio de visitantes? O senhor fica rico numa semana!
B – Com efeito... e quanto custa o aluguer?
A – Dois contos por semana, meu amigo. Como vê, é ao preço da chuva! Dois contos ganha o senhor no primeiro dia, só com as entradas! A partir daí, é tudo lucro!
B – Está bem! Aceito o negócio! Mas... não gosto nada de ser enganado! Como poderei encontrá-lo, caso não esteja satisfeito com o negócio?
A – É fácil, meu caro amigo... sou o dono do Palácio de Queluz... é lá que atendo os meus clientes, às horas jormais de expediente...
B – Muito bem! Aqui tem os dois contos, mas já sabe, se houver alguma aldrabice nisto, o senhor tem-me à perna! É que eu nunca me deixo enganar...


A – Ó amigo.
B – Hum...
A – Não está interessado neste excelente relógio suíço?
B – Mostre lá... mas, não está certo!
A – Ora essa!... Está certíssimo!
B – Certíssimo?... Mas são quase 11 horas e marca meio-dia!
A – É evidente! O senhor tem que contar com os fusos horários! Isto é um relógio suíço!

A – Ó amigo.
B – Hum...
A – Não está interessado neste relógio suíço?... são só 250 paus!
B – 250 escudos? Mas como é que arranja relógios desses?!
A – Eu cá não os arranjo! Aliás, acho que este já não tem arranjo, por isso é que são só 250 paus!

 

 

 

 

Actualizado em: 3 Agosto 2003
O MELHOR DO PÃO COMANTEIGA
Textos seleccionados do Pão
CROMOS DO COISO
Cromos antigos para a troca e sites recomendados

O MELHOR DO PAU DE CANELA
Textos selecionados deste jornaleco de 1985

HISTÓRIAS POUCO CLÍNICAS
...mas muito cínicas
O MELHOR DO UMA VEZ POR SEMANA
Textos seleccionados deste programa sexual de 1986

COISAS DO COISO
textos e bonecos seleccionados que sairam no Coiso em papel

CAUSAS DO COISO
Como tudo começou

DICIONÁRIO PORRINHA
COMENTÁRIOS AO COISO
E-MAIL
Vá... enviem-me um e-mail!
Este é o Coiso do Artur Couto e Santos.
Se tiver algum comentário a fazer ao meu Coiso, carregue aqui:

arturcs@netcabo.pt