FUTURO
Programa emitido em 29 de Maio 1983
Frases
* Nunca se deve perguntar a um arquitecto desempregado:
“quais os teus projectos para o futuro?...”
* “O futuro da democracia está ameaçado!”
– declarou o ditador – “Cheguei agora
mesmo do médico, que me deu mais 30 anos de vida!...”
* Atenção governo da África do Sul!
Toda a gente diz que o futuro é NEGRO!
* Antes de lhe lerem a sina, lave sempre as mãos.
* Amanhã, quando acordar, não se lembrará
desta frase.
* É perfeitamente possível modificar o futuro.
Por exemplo, eu ia agora dizer uma frase mas já não
digo.
O futuro será diferente
– algumas revelações
A vida será muito diferente no futuro. Após
ter consultado muitos futurologistas, o Pão Comanteiga
está em condições de revelar, em primeira
mão, algumas das diferenças que os nossos
vindouros descobrirão no seu dia a dia.
Qualquer pessoa medianamente inteligente é capaz
de perceber que, no futuro, as coisas não podem continuar
assim. É por demais evidente que o Tollan estará
em Cacilhas, o Cristo rei em Belém, o Marquês
de Pombal no Tejo, o Ginjal na Rotunda, os Jerónimos
em Almada, e por aí fora.
Até aqui, tudo bem...
Mas estão serão, apenas, alterações
conjunturais, previsíveis em qualquer país,
mesmo português. Além disso, é natural
em democracia...
Ora o Pão Comanteiga está na posse de dados
que lhe permitem fazer revelações espantásticas
sobre o futuro.
Tome nota, para depois não se admirar:
* No futuro, por exemplo, a gente mete a moeda na ranhura
apropriada, disca o número e não ouvirá
absolutamente nada. No entanto, o médico dos ouvidos
será gratuito, bem como o aparelho paa deixarmos
de ouvir ainda melhor.
* O metro passará a ter o dobro do tamanho, isto
é, dois quilos, e serão inauguradas dezenas
de novas estações. Em algumas choverá,
noutras fará sol, conforme o solstício.
* Os países árabes transformarão o
petróleo em bebida nacional e passarão a exportar
areia para a Costa da Caparica. Em troca, o governo português
– uma alegre coligação entre PPM, PS,
CDS, PCP e MRPP – exportará edições
do livro “Os Meus Discursos”, de Ângelo
Correia, traduzido em jordano e aragonês.
* Dos regimes políticos, nem é bom falar.
Será tudo diferente! A Grã-Bretanha adoptará
definitivamente o fleumatismo maoista, fará uma aliança
com a Singapura do Norte, a Malásia e Dodge City,
declarando guerra à Frente Lesoto-Botsuana.. Entretanto,
os Estados Unidos – que modificarão o seu nome
para Estados Unidos da América e Sucursais SARL –
decidirão acabar com as eleições livres.
Passarão a ser semi-livres, o que quer dizer que
o cidadão terá a liberdade de votar em quem
quiser, desde que seja num determinado candidato, previamente
escolhido por computador.
Tudo isto provocará largas repercussões na
União das Variadíssimas Repúblicas
Socialistas E.P. que, por retaliação, invadirão
o Nepal. Só para chatear, as cinco Alemanhas e as
duas Bélgicas juntar-se-ão ao Rochedo de Gibraltar
(super-potência que integrará a Espanha, Marrocos,
Argélia e Setúbal) e, todos juntos, invadem
também o Nepal.
A confusão aumentará consideravelmente quando
a Aliança Luso-Greco-Turca (únicos sobreviventes
da antiga CEE), decidir arrasar todos os países começados
por M, invadindo, logo de seguida, o Nepal.
Por tudo isto, o Nepal passará a ser a região
do globo com maior densidade populacional e o resto do mundo
não passará de um deserto chato...
Dulcídia – uma mulher
preocupada com o futuro
Quando Dulcídia nasceu, todos foram unânimes:
tinha os olhos da mãe, a boca do pai, o nariz da
avó e as mãos de um tio que vivia na Austrália.
O nascimento de Dulcídia significou, portanto, a
mutilação de quatro membros da família.
E este facto marcou Dulcídia para sempre. Mascou-a,
mais precisamente, numa nádega, pelo que só
se via quando estava de costas. Por isso, Dulcídia
nunca se punha de costas, para que não lhe notassem
a marca.
“É registada?...” – perguntavam
os amigos mais íntimos, aqueles tão íntimos
que conseguiam ver a marca.
Mas a marca de Dulcídia não era registada.
No entanto, embora muito imitada, nunca conseguira ser igualada.
Era uma marca única!
Mas Dulcídia era uma rapariga com azar. Como a mãe
era míope e ela tinha os olhos da mãe, foi
obrigada a usar óculos. Como o pai sofria de cárie
dentária e Dulcídia tinha a boca do pai, andava
sempre com dores de dentes. Como a avó tinha sinusite,
Dulcídia tinha sempre o nariz a pingar. E como o
tio da Austrália roía as unhas, Dulcídia
não as podia pintar.
Enfim – azares de Dulcídia, compensados pelo
seu magnetismo pessoal – capaz de atrais qualquer
um.
Mas Dulcídia temia o futuro: míope, com cárie
dentária, sinusite e sempre a roer as unhas, como
poderia ela arranjar um emprego decente e monetariamente
compensador?
É que Dulcídia começava a entrar na
casa dos trinta, deixando para trás os tempos despreocupados
da adolescência e as quatro pensões de invalidez
que recebia não chegavam para a sustentar. Dulcídia
era uma mulher de muito alimento.
Por isso, começou a andar cabisbaixa, ensimesmada
e deprimida.
Os amigos tentavam conformá-la.
Dizia um: “Deixa lá Dulcídia! Míopes
há muitos! Eu até conheço um zarolho
que é míope, vê lá tu!...”
Mas Dulcídia não via lá muito bem...
E dizia outro amigo: “Não te preocupes!....
Arranca os dentes e usa placa!”
Mas Dulcídianão ia á bola com placas
porque não gostava de futebol.
E outro amigo dizia ainda: “Não te rales!...
Tu tens sinusite e eu sofro de rinite, faringite, pirite
e calcopirite!... Um mal nunca vem só!...”
Mas com o mal dos outros podia Dulcídia muito bem.
Com o que ela não podia era com os seus males, os
seus defeitos que a impediam de encontrar um emprego compatível
com os seus inegáveis dotes intelecto-corporais.
Por tudo isso, Dulcídia tinha medo do futuro.
Mas um dia, já depois das 4 da tarde, o futuro chegou
e afinal era bom!
Dulcídia está grávida do segundo filho
e o futuro é primeir-ministro...
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