HISTÓRIA(S)
Programa emitido a 19 de Dezembro 1982
Abertura
Pão Comanteiga – um programa que vai ficar
na história por ser o primeiro a afirmar peremptoriamente
que, mesmo que não haja electricidade, uma lanterna
de mão pode continuar funcionar, desde que as pilhas
estejam carregadas.
Pão Comanteiga – um programa feito por uma
perigosa quadrilha, cujos componentes ficarão também
na História, quanto mais não seja pela repetição
semanal dos seus nomes.
Pão Comanteiga – um programa “blanc et
noire” das 10 às 13, nos dois sítios
da Rádio Comercial, sempre aos domingos. Um programa
onde se contam histórias de pasmar, onde se pasmam
espasmos de prazer, onde se prezam presos na prisão
e onde se recordam feitos inenarráveis dos nossos
antepassados – incrivelmente, todos mortos!
Pão Comanteiga – um programa que se pode ouvir
com a televisão ligada.
Frases
* História de Portugal com letra grande lê-se
“história de portugal”.
* Historiogarfo é o sujeito que estuda a culinária
ao longo da História.
* A história de Moisés já tem barbas!
* Toda a gente diz que D. Afonso Henriques foi o 1º
rei de Portugal. No entanto, ninguém acrescenta que
mais ninguém entrou na corrida.
* Quase todas as páginas da nossa História
foram escritas com o suor dos nossos heróis. Que
mal cheira o compêndio de História de Portugal!
* A história de um grande homem pode escrever-se
em duas linhas: chamava-se Renato, media cerca de 2 metros
de altura e foi atropelado por um camião Tir.
* Ela só sabia histórias de embalar.
Trabalhava numa fábrica de embalagens.
* Deuladeu Martins, padeira de Aljubarrota, D. Filipa de
Lencastre. A nossa História está cheia de
heroínas. O Centro de Controlo e Profilaxia da Droga
só foi criado muitos anos depois...
* Ao conjunto dos reis de uma mesma casa real dá-se
o nome dinastia. No entanto, a sucessão não
se fazia de tias para sobrinhos, mas sim de pais para filhos.
Dinaspai seria mais lógico...
Sempre a mesma história
É sempre a mesma história...
O rapaz encontra a rapariga, a rapariga gosta de de outro
rapaz, o primeiro rapaz sofre e decide conquistar a rapariga
a todo o custo.
É sempre a mesma história...
O primeiro rapaz despe-se completamente, sobe ao alto da
estátua do Marquês de Pombal e começa
a gritar obscenidades, tentando chamar a atenção
da rapariga, que passeia no Parque Eduardo VII, trazendo
o segundo rapaz pela trela e com açaimo.
É sempre a mesma história...
Verificando que ninguém lhe liga pevide, o primeiro
rapaz começa a descer da estátua mas, quando
está a 25 metros do solo, cai redondo no asfalto
da rotunda do Marquês e é atropelado por 459
carros e uma motorizada mas, mesmo assim, levanta-se e vai,
a nado, até à outra margem.
É sempre a mesma história...
Chegado ao Parque Eduardo VII, o primeiro rapaz encontra
a rapariga, atira-a ao chão, corta-lhe o cabelo com
uma escovinha e assassina o segundo rapaz com dois beijos
venenosos na testa, correndo depois para os breços
de um polícia.
Casam-se e são muito felizes.
É sempre a mesma história...
A corrida
Era uma vez um cágado e uma lebre. Como todas as
tartarugas, os crocodilos deslocam-se vagarosamente, ao
passo que os coelhos são rápidos na corrida.
Certo dia, o macaco, gostando sempre de imitar o homem,
propôs ao hipopótamo uma aposta: iriam correr
desde o pântano à clareira, para ver quem era
o mais rápido.
Apesar de saber que o canguru tinha todas as vantagens,
o leão aceitou o desafio e prepararam-se as coisas.
A partida foi dada e logo a zebra se distanciou largamente,
enquanto que a girafa, com o seu passo lento, ficava muito
para trás.
“Isto está no papo!” – pensou a
galinha, e deitou-se a descansar à sombra de uma
azinheira que já não sabia a idade. No entanto,
o lobo não desistia facilmente. E no seu passo de
caracol lá se foi arrastando com persistência,
enquanto a coruja continuava a dormitar, convencida de que
a corrida estava ganha.
Meia hora mais tarde, já o elefante ultrapassara
a doninha e se aproximava da meta.
Acordando sobressaltada, a hiena descobriu que descurara
a força do urso e desatou a correr, na esperança
de o alcançar a tempo.
Foi impossível saber quem venceu a corrida, se o
rato, se o tigre, mas o facto serviu de lição
ao veado que, desde então, nunca mais desafiou o
Joaquim para corridas destas...
Diálogo
A – Ó avôzinho... conta-me uma história...
B – O menino deixe-me em paz... por que não
vai brincar com a sua pistola-laser?
A – Já brinquei muito, avôzinho... até
furei um olho ao Zequinha...
B – E ele?
A – Não se importou... diz que tem outro...
B – Então vá brincar às conversações
SALT.
A – Não me apetece... ó vovô,
conte-me uma história...
B – Bom... então só se for uma história
pequenina...
A – Está bem... obrigado, avôzinho!
B – Lá vai... era uma vez três ursos...
A – Polares?
B – Agora não me apetece, neto... o teu avô
já não tem idade para andar aos pulos!
A – Não é o avô – são
os ursos!
B – Ah! Os ursos!... os ursos também não
pulavam... eram três ursos que estavam cheios de fome.
A – Já não comiam há muito tempo?
B – Tinham comido no dia anterior, mas...
A – Ó avô – mas se eles tinham
comido no dia anterior já estavam com muita sorte...
não percebo porque raio estavam eles tão cheios
de fome?
B – Porque o menino é parvo e não percebe
que era absolutamente necessário que os ursos estivessem
esgalgados de fome para a história poder continuar...
portanto... estavam com fome e a mãe ursa decidiu
ir fazer uma sopa.
A – Puah!
B – O meu querido e adorado netinho faça favor
de não cuspir no seu avô! Se o menino não
gosta de sopa, os ursinhos gostavam! Esteja calado e cale-se!...
Portanto, a sopa levava tudo o que é bom...
A – Tinha chocolate?
B – Claro que não! A sopa tinha batata, legumes
vários, massa e essas coisas que todas as sopas costumam
ter... mas estava muito quente... por isso, os ursos decidiram
ir dar uma volta, enquanto a sopa arrefecia...
A – Foram ao carrossel?
B – Não, foram ao bosque... mas, enquanto davam
a voltinha, um leopardo cheio de fome entrou em casa dos
ursos... viu a sopa e comeu-a!
A – Toda?
B – Toda.
A – Puah!
B – Já lhe disse para não cuspir no
seu avô!... E então, quando os ursinhos regressaram...
A – Já não havia sopa nenhuma!
B – Mas havia ursos...
A – Mas isso havia desde o princípio da história.
B – Pois havia, mas o leopardo não sabia...
julgava que só havia sopa... então, quando
o leopardo viu os ursos – zás! – comeu-os!
A – Os três?!
B – Os três...
A – Ena que bruto!
B – Olhe, meu netinho querido e inteligente, eu tenho
muito que fazer e interrompi o meu trabalho para lhe contar
esta história idiota! Portanto, não admito
que me chame bruto, ouviu?!
A – Ó vovô, mas eu estava a chamar bruto
ao leopardo!
B – Nesse caso... acabo a história...... o
leopardo ficou com uma do de barriga das antigas e teve
que ir ao médico... Quando lá chegou, descobriu
que o médico era também um urso.....
A – Que bronca!
B – E então, quando o leopardo contou ao médico-urso
por que razão estava com dores de barriga, o clínico
vingou-se e deu-lhe uma injecção que transformou
o leopardo em cabina telefónica.
A – E depois, vovô?
B – E depois, o leopardo-cabina telefónica
foi colocado pela Câmara Municipal de Lisboa na Praça
da Figueira e está sempre avariada!
A – Que bonita história, avôzinho...
B – É verdade, meu adorável netinho...
agora vá dar tiros no seu irmão e deixe-me
acabar o meu trabalho... vai ver que, logo à noite,
já não reconhece a sua avózinha...
é só pôr-lhe um parafuso aqui na testa
e ela fica como nova!...
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