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O Coiso
O melhor do meu Pão Comanteiga

MONSTROS

Programa emitido em 28 de Novembro 1982

Abertura
Pão Comanteiga – um programa humilde e subversivo que diz, por exemplo, “mãe há só uma – às vezes não chega, outras vezes é demais.”
Pão Comanteiga – um programa com mau aspecto, transmitido pela Rádio Comercial todos os domingos da semana, entre as 10 e as 13. o nosso som é o do vosso receptor – se não gosta do nosso som, troque de aparelho.
Pão Comanteiga é um programa que, às vezes, fala de coisas sérias: a dívida externa monstruosa, a carestia da vida, que é coisa do outro mundo, o espectro do desemprego, o fantasma da inflação, o poder mágico dos políticos, a sombra maléfica do 3º conflito mundial, o demónio da crise da habitação, o raio da falta de escolas, o serviço nacional de saúde fantasma. Este mundo é feito de bocados do outro.
E como isto está a ficar deveras sério, aqui vai uma gracinha: conhecemos um afinador de pianos que não sabe tocar o Jingle bells.
Não acharam piada?
Então, aí vai outra: os homens gordos demoram mais tempo a engordar.
É negro este humor, não é?
Paciência – não se pode ter tudo. Já tivemos um programa às cores; este vai ser, sobretudo, negro. Aliás, como dizia a nossa avó: “ainda bem que inventaram o fecho éclair – assim, não tenho que estar sempre a pregar-te os botões das calças.”

O estranho caso do monstro Sargedas
Sargedas era um monstro com azar. O seu azar começava pelo nome. Sargedas é, de facto, um nome vulgar. Ao dizer Sargedas, pode imaginar-se um senhor respeitável, chefe de família, atinado e ordeiro, pode mesmo imaginar-se um sujeito malandreco, rufião, marginal – mas muito dificilmente se imaginará um monstro chamado Sargedas. Mas era o seu nome e os seus colegas aproveitavam-se do facto para o gozar.
“Ó Sargedas, deita a língua de fora e faz buuu!” – incitavam-no os restantes monstros. Ele ficava irritado e tornava-se azul, emitia um pseudópode com uma ventosa na ponta e aspirava uma tonelada de saibro. Sabe-se que os monstros, quando se sentem irritados ou deprimidos, sugam saibro, o que trás grandes dificuldades à construção civil e ás auto-estradas. Ora, por infeliz coincidência, Sargedas vivia perto de Aveiras de Cima e estava muitas vezes deprimido. Essa razão que tem levado os responsáveis pelas auto-estradas a inaugurar troços para os lados de Coimbra.
Sargedas não é casado porque é um monstro bonito. Como é do conhecimento geral, a escala de valores dos monstros é contrária à nossa. Um monstro bonito é horrível. Um monstro feio é atraente. Por isso, Sargedas é horrível porque é bonito e não arranja companhia. Aliás, hoje em dia, as companhias passaram de moda – mais comuns são as empresas.
Além disso, Sargedas é medricas – que é a última coisa que um monstro deve ser. Tem medo da escuridão e dorme sempre com uma vela acesa na mesa de cabeceira. É a vela e o monstro.
Há uns tempos atrás, Sargedas descobriu que possuía a faculdade da metamorfose e transformou-se num cobrador da Carris. Andou dois dias na carreira nº26, Prazeres – Gomes Freire, sem ser descoberto.
Desde então, tem tentado tudo, desde metamorfosear-se em turista, artista de variedades, locutor de TV, guarda fiscal e canalizador.
Desapareceu há cerca de uma semana. Os monstros de Aveiras de Cima começam a preocupar-se. Afirmam que Sargedas não sugava saibro há muito tempo e que, nos últimos dias, não fazia outra coisa senão metamorfoses. Num só dia – disse Ananias, um dos monstros mais conhecidos da região – Sargedas conseguiu transformar-se em polícia de trãnsito, director de jornal diário, crítico literário, pin-up e cisne. Ananias e todos os monstros em geral estão preocupados. A última vez que viram Sargedas, ia ele a caminho de São Bento...

Frases
* Escusa de orientar a antena – a televisão tem sempre fantasma.

* O apresentador do Pão Comanteiga é capaz de afirmar a pés juntos que o monstro de Loch Ness existe.
Aliás, á capaz de afirmar o mesmo com os pés afastados.

* O barão de Von Frankenstein foi o único homem a fazer transplante de cérebros humanos de que há memória. Das duas, uma: ou não se fez mais nenhum ou não há memória.

* Entre os vampiros e o Instituto Nacional de Sangue existe apenas uma coincidência de material de recolha.

* Era um professor de zoologia muito exagerado: para ele, todos os alunos eram um bicho de sete cabeças.

* O fauno é uma figura lendária, metade homem, metade cavalo. O burro é um mamífero, burro nas duas metades.

* Era um fantasma tão envergonhado que, sempre que aparecia alguém, cobria-se com um lençol.

* Perguntar, não ofende: se a Ilha dos Amores era uma hipérbole, o Velho do Restelo uma metáfora e o gigante Adamastor uma parábola, Camões terá sido uma elipse?

* Tudo é relativo: Gulliver era gigante para os liliputianos; Portugal é uma superpotência para o Alto Volta.

* Mesmo quem não perceba muito dessas coisas, sabe distinguir uma fada má de uma boa fada.

* Era uma casa assombrada: 2 assoalhadas, 35 contos mensais.

Carícias de monstros
“Você não tem vergonha nenhuma nessa cara!” – disse ela, ternurenta – “Você é um mauzão! Um monstrozinho!”
Ele disse que sim, com a sua grande cabeça bicuda, abanou a cauda de 25 metros e sugou-lhe os olhos com a ventosa da direita.

História banal
A situação era clássica, useira e costumeira naqueles tempos: de um lado, a donzela frágil e histérica, guinchando aflita; do outro, o chevalier Quatrevingt-quatre, armados até aos dentes; a meio, o dragão, cuspindo fogo, grande e ameaçador, guardando a entrada da gruta.
O enredo é também o habitual: o chevalier queria salvar a donzela, para o que seria obrigado a lutar e vencer o dragão.
O final é óbvio: o dragão chamuscou um bocado o chevalier, quase lhe arrancou uma perninha, a donzela produziu mais alguns guinchos, mas o chevalier fez das fraquezas forças, espetou a espada entre os olhos do dragão, matou-o completamente, pegou na donzela, levou-a para o castelo e casou com ela.
Trata-se, portanto, duma história tão banal que decidimos nem sequer a contar.
(Também publicado na Revista Pão Comanteiga nº 18,Abril 1983)

A cidade fantasma
Rocky Redlips entrou na cidade fantasma, montado no fogoso Brownshoe. Aparentemente, a cidade estava deserta. O silêncio era quase total, não fosse os uivos do vento que à sua frente levava aquelas coisas redondas que nunca soube muito bem o que era, mas parece que são plantas do deserto.
No entanto, o nosso herói sabia que aquela cidade, apesar de parecer fantasma, não estava completamente deserta.
Por isso, desmontou Brownshoe e começou a percorrer, cautelosamente, a rua principal, olhando ora para um lado, ora para o outro, porque não era capaz de olhar para ambos os lados ao mesmo tempo.
De súbito, de uma ruela escura, apareceu Cathy Oliveira, com uma bandeja. Sobre esta, três objectos: um copo vazio cheio de água, um ovo de galinha cozido em dois pontos e um frasco pintado de fresco.
Com a sua pronúncia característica, com o seu sotaque luso-português, Cathy avançou para Rocky Redlips e fez-lhe a pergunta-chave:
“Se serrares uma mulher ao meio, com quantas mulheres ficas?”
desconfiado, o cowboy pensou durante uns momentos e acabou por responder:
“Fico com todas as outras!”

Diálogo
A – Acreditas em fantasmas?
B – Depende... de que fantasmas estás a falar?
A – De um, assim... alto, forte... musculoso.
B – Usa lençol?
A – Só quando está constipado.
B – É calvo ou usa cabelos?
A – Usa cabelos, mas só nas axilas...... além disso, tem olhos transparentes, três pés e uma ventoinha na orelha direita.
B – E a ventoinha funciona?
A – Só quando ele puxa a alavanca que tem na barriga...
B – Arrasta correntes?
A – Não... diz que é antiquado...
B – Ah, ele fala...
A – Fala, mas o som sai pelo joelho...
B – E só aparece à meia-noite...
A – Às vezes atrasa-se...
B – E como aparece ele?...
A – Ouve-se uma explosão, há fumo, cheira a enxofre e lá está ele.
B – Mete medo?
A – É de pôr os cabelos em pé! Ele depois corta-o – é barbeiro...
B – Esse fantasma é um perigo!... Nunca foi preso?
A – Várias vezes, mas como atravessa paredes, foge sempre...

 

 

 

 

 

Actualizado em: 21 Novembro 2003
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