REGRESSO
Programa emitido a 17 Outubro de 1982
Abertura
O Pão Comanteiga regressa.
A pedido de várias famílias, de colectividades
espalhadas por todo o país e até em Lisboa,
de ouvintes deprimidos, desesperados e, sobretudo, chateados.
Regressamos com a nossa consciência de serviço
público e de habilidade estonteante, sabendo que
o nosso regresso era desejado, se não por todos,
pelo menos por alguns; e, desses alguns, se todos não
nos desejavam ardentemente, pelo menso uma parte sentia
saudades de tal modo atrozes, que se afundaram no vício
e na perdição, sentindo impulsos irresistíveis
de comer as próprias meias ou assassssinar gafanhotos
– numa tentativa vã de afastar o tédio.
Foi a pensar nesses ouvintes, nesses portugueses verdadeiros,
que arriscaram a sua sanidade mental e mesmo a sua intercorrência,
para nos ouvirem 3 horas por semana durante 2 anos, que
o PcM decidiu regressar, sem ofender qualquer opção
política, aos microfones da Rádio Comercial.
Constituição da equipa:
Dando com a língua no dentes, Carlos Cruz, malabarista,
intruso persistente, alto e tisnado pelo sol da Cruz Quebrada,
mais de 30 anos, engenheiro da palavra e técnico
do feminino plural, adorador de deuses esquisitos, flibusteiro
e risco ao meio. E, por trás dessa personalidade
broncopulmonar, outras figuras perigosíssimas, a
saber: Bernardo Brito e Cunha, mais de 30 anos, formado
em música ligeira e tango de guerra, coberto de pelos
por todos os lados, excepto por um, chamado bigode, estudioso
do vernáculo e do mogno indiano, amante da mística
renascentista e de amendoins com mostarda; José Fanha,
mais de 30 anos,, licenciado em esquadrias e tectos falsos,
eloquente e sagaz, bom rapaz, samaritano condigno, alma
minha gentil e acento circunflexo, almofadado por fora,
barrado de ideais caucasianos por dentro; Artur Couto e
Santos, licenciado em cérebros paralelos, imaginações
voláteis e delírios consistentes, sisudo mas
triste, sobretudo aos domingos, dobrado de riso e encharcado
em lágrimas; Mário Zambujal, mais de 30 anos,
especialista em sorrisos de salsaparrilha, versátil,
dobrável e inquebrável, escrivão dedicado
de palavras com letras, dedilhador inverosímil e
tal; José António Pinheiro, 30 anos, licenciado
em algarismos árabes e símbolos esotéricos,
curvado pelo peso de penas de pato, dolorido e indolor,
amante de álamos e outros ruminantes; e José
Duarte, mais de 30 anos, concubino do jazz, simulacro de
contrabaixo, enciclopédico atrevidote, profissional
de ideias coleccionáveis e de convites volúveis,
detesta fusíveis.
E é esta a equipa conversível e profunda que,
semanalmente, fará o PcM – um programa humilde.
O regresso
O regresso... ai, o regresso!...
Como diria o poeta – se, para tanto, imaginação
tivesse – “regressar é viver”.
Mas para regressar é preciso partir. Para partir
é preciso alguma força. E a força nasce
da união. E para nos unirmos, precisamos de estar
mais perto uns dos outros. Mas para estarmos mais perto
uns dos outros, é necessário regressar ao
ponto de partida. E a partida é dada pelo chefe da
estação. E a estação mais bonita
é, sem dúvida, a Primavera. E a Primavera
é anunciada pelas andorinhas que regressam. Mas,
para regressarem, as andorinhas precisam, primeiro, de partir.
Para partir é preciso baralhar primeiro. E para baralhar
é necessário confundir. E para confundir é
necessário dizer meias verdades. E para dizer meias
verdades é preciso falar aos soluços. E para
falar aos soluços é necessário que
eles nos oiçam. Mas nós não queremos
apenas que eles nos oiçam – queremos também
que eles nos compreendam. E para sermos compreendidos, precisamos
de utilizar uma linguagem simples e directa. E para usar
essa linguagem há que regressar ás origens.
Mas para regressar é preciso partir. E para partir
pode ser necessário bater. E depois, alguém
perguntará: “quem é?” Depois,
nós responderemos: “sou eu”. Mas quem
sou eu, afinal? Para responder a esta pergunta é
essencial conhecermo-nos melhor. Para nos conhecermos melhor
é essencial regressar ao princípio. Mas, para
regressar ao princípio, é necessário,
primeiro, partir...
Histórias do regresso
Primeira
O general abriu o alçapão e desceu os degraus
da velha escada de madeira. Por ali havia fugido o assassino
do Presidente há menos de 10 minutos e o general
seguia-lhe a pista.
Astuto e alto, o general teve que ir de gatas porque o túnel
subterrâneo não tinha mais que um metro de
altura. Às apalpadelas, o general avançou
lentamente, pistola em punho, dedo no gatilho, pronto para
qualquer eventualidade. Minutos depois atingiu a saída
do subterrâneo, em pleno jardim do Palácio
Presidencial. Na terra encharcada pela chuva da noite, o
general não teve dificuldade em seguir as pegadas
do assassino, que se dirigiam para o Palácio.
O general estugou o passo. Ia apanhá-lo! Entrou na
Sala Principal e deparou com um sujeito bem vestido, que
examinava o cadáver do Presidente.
“O criminoso regressa sempre ao local do crime...”
– pensou o general e, sem hesitar, premiu o gatilho
três vezes, com a pontaria do costume. De imediato
foi detido pelo assassínio do Presidente auto-proclamado
há 5 minutos.
Coisas da política!...
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº16, janeiro 1983)
Segunda
Há 35 anos que esperava pelo regresso do Alfredo.
Nos seus sonhos de mulher solitária, evocava a sua
imagem com volúpia: era um homem alto, moreno, nariz
adunco e queixo voluntarioso. Partira em busca de fortuna
já lá iam 35 anos. Mas, finalmente, cansado
de calcorrear o mundo, decidira regressar e ela esperava-o
no aeroporto, com olhar ansioso.
Os passageiros começaram a surgir, em grupos, carregando
malas e embrulhos, e ela procurava-o com sofreguidão.
De súbito, vislumbrou um homem alto, moreno, nariz
adunco e queixo voluntarioso. Não mudara nada –
era como se aqueles 35 anos o não tivessem afectado.
Esqueceu, por momentos, o reumático que a afectava
e, num impulso reprimido há tantos anos, abraçou
apaixonadamente o filho do Alfredo...
Terceira
“Passas o dia todo na brincadeira! Faltas às
aulas! Não pegas num livro!” – bradava
a mãe preocupada – “Isto assim não
pode continuar! Logo à noite, quando o teu pai regressar
do trabalho, levas uma tareia que é para aprenderes!”
O pai regressou, zangadíssimo, e começou por
lhe dar uma estalada. O miúdo respondeu com um upercut,
que atingiu em cheio o maxilar do paizinho.
Desde que trocara a catequese pelo boxe que se sentia muito
mais desinibido...
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº16, janeiro 1983)
Quarta
Quando bateram à porta, os dois amantes estremeceram
na cama.
“É o meu marido!” – exclamou ela,
que nem sequer era casada.
É o que faz a tradição anedótica...
Quinta
Quando, 20 anos depois, regressou a casa, a mulher havia
partido há 12 anos, cansada de esperar durante 8
anos pelo seu regresso. A filha, que completara 2 anos quando
ele partira, saíra de casa há 4 anos, quando
atingira a maioridade, 16 anos depois de ele partir e 4
anos depois da saída da mãe. O seu filho –
um esbelto rapaz de 26 anos – tinha apenas 14 anos
quando a mãe abandonou o lar, 8 anos depois dele
e não assistiu à partida da irmã, pois
aos 16 anos, quando ela completara 12 anos, ele partira
também, 10 anos antes do regresso do pai.
Desistiu de os procurar.
Detestava matemática!
Sexta
“Meu amor! Regressei finalmente! Ao fim destes 5 penosos
anos cheguei à conclusão de que não
vale a pena viver sem ti! Sem ti, o sol não tem calor,
a lua é um satélite estúpido e anémico,
a primavera é uma sucessão de dias chuvosos
e tristes! Sem ti, meu amor, minha querida, minha pérola
real, o meu coração parece bater mais devagar,
preguiçoso em enviar o sangue que teima em congelar
nas minhas veias! Sem ti, meu tesouro, minha abelhinha,
nada tem valor, nada presta, nada interessa, tudo é
baço, turvo, desfocado e descolorido! Que parvo que
eu fui ao pensar que poderia passar sem ti, que poderia
viver sem o veludo das tuas mãos, sem a luz dos teus
olhos, sem a seda dos teus cabelos! Mas agora regressei
e vim para ficar! Apaguemos das nossas memórias estes
5 tristes anos em que vivemos afastados e recomecemos tudo
de novo!”
“Ah, és tu...” – disse ela –
“deixa-te de lamúrias e anda para a mesa que
o jantar está a arrefecer...”
(também publicada na Revista Pão Comanteiga
nº16, janeiro 1983)
Sétima
O cavaleiro Bellevue Quatre-vingt-quatre regressava ao seu
castelo, após mais uma longa e sangrenta batalha.
Sua jovem mulher, saudosa, correu para ele de braços
abertos e colou o seu corpo fremente ao dele.
Um grito ecoou no pátio do castelo.
O cavaleiro Bellevue Quatre-vingt-quatre esquecera-se de
embainhar a espada.
Frases
* “ quando regressares a casa, não venhas com
as mão a abanar...” – disse Jane a Tarzan
– “podes escorregar das lianas...”
* Regressou ao passado. Estava farto de bifes em sangue!
* E quando os cientistas quiseram que aquele peixe regressasse
às origens, ele exclamou: “Uma ova!”
* E quando regressou ao Poder, aquele político decidiu
não cometer os mesmos erros. Cometeu outros...
Volta Gumerzindo! Estás
perdoado!
Esta casa já não é a mesma desde que
tu partiste!
Mandámos arranjar a televisão que tu avariaste!
O paizinho reconstruiu a mesa que tu quebraste!
A mana gastou uma semana inteira, mas conseguiu cozer todos
os lençóis que tu rasgaste!
A vovó Lurdes levantou o dinheiro da reforma e comprou
outro serviço de chá para substituir o que
tu escaqueiraste, naquele dia em que estavas mal disposto!
Mas tudo isso já passou, Gumerzindo! O tempo tudo
cura e nós não podemos passar sem ti!
Olha, os vidros das janelas que tu partiste, já foram
substituídos.
O tio Reboredo comprou outra enciclopédia, igualzinha
à que tu rasgaste.
Claro que pintámos a casa toda e agora já
não se vêem aquelas manchas de gordura que
tu fizeste quando limpavas as mãos à parede.
O avô Lopes abriu os cordões à bolsa
e ofereceu alcatifas novas, para substituir as que tu retalhaste
com a lâmina da barba.
Volta Gumerzindo! Por favor!
A vizinha mostrou-se relutante, mas agora afirma estar disposta
a negar que tu a tenhas violado naquele dia.
O Sr. Ricardo do rés-do-chão garante que já
não se lembra que foste tu que lhe furaste a chapa
do carro com o saca-rolhas.
Até mesmo a Dona Violante, do 1º direito, afirma
que não eras tu quem fazia chi-chi, diariamente,
à porta dela.
Volta Gumerzindo!
Águas passadas não movem moinhos e o que lá
vai, lá vai...
Esperamos-te, ansiosos, desejosos que tu regresses!
Serás recebido condignamente, como mereces!
Já comprámos revólveres, calibre 45
e durante todo este tempo praticámos tiro ao alvo.
O paizinho jura que te coloca uma bala entre os olhos antes
que consigas dizer ai!
Volta Gumerzindo! Estás perdoado!
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