SUPER-HERÓIS
Programa emitido a 13 de Setembro de 1981
Frases
* Apesar dos chorudos direitos de autor, Tarzan continua
de tanga.
* A marca do Zorro é registada?
* O companheiro do Mascarilha era o índio Tonto.
Sempre o mesmo racismo...
* Então e o Homem-arranha?
Claro, desde que não tenha feito a barba...
* Então, se o Cavaleiro é Andante, para que
quer ele o cavalo?
* Um super-herói defende os fracos e oprimidos.
O super-farmacêutico defende os frascos dos comprimidos.
* Sansão tinha toda a sua força nos cabelos.
Isso é que desiludiu Dalila...
Será que você é
um super-herói?
Você, senhor ouvinte, não sabe se é,
ou não, um super-herói. A Natureza pode ter-lhe
dado alguns super-poderes que você ignore. Por vezes,
os super-heróis estão escondidos onde menos
se espera. O Pão Comanteiga vai ajudá-lo a
tentar descobrir alguma super-faculdade escondida.
1ª Experiência: o olhar de raio xis –
vamos ajudá-lo a descobrir se tem, ou não,
olhar de raio xis, isto é, capacidade de ver para
além de corpos opacos. Para tal, coloque um objecto
qualquer, por exemplo, uma garrafa, sobre uma mesa, no corredor.
Depois, sente-se na sala, do outro lado da parede e concentre-se.
Olhe convictamente para a parede e tente ver a garrafa através
do betão. Verifique, primeiro, se ninguém
o está a observar. Ninguém gosta que lhe chamem
maluco!... Vá, agora, força! Puxe pela cabeça!
Força! Bom, também não vale a pena
puxar desse modo – cuidado com o pescoço!
Se após todo esse esforço não conseguiu
ver a garrafa, é porque não possui olhar de
raio xis. Paciência!... Não se pode ter tudo...
mas se, pelo contrário, você duas garrafas,
é porque antes de iniciar a experiência decidiu
beber o conteúdo da garrafa... e não era leitinho,
certamente...
2ª Experiência: a super-força –
vai agora verificar se tem, ou não, a chamada super-força,
que permite aos super-heróis derrotar todos os seus
inimigos, e mesmo alguns amigos distraídos. Será
necessário, para esta experiência, arranjar
uma pedra mármore, uma bigorna ou qualquer outro
objecto, desde que bastante duro. Na pior das hipóteses,
utilize a cabeça.
Agora dê uma grande pancada com toda a sua força
no objecto escolhido. Partiu-se? O quê? O objecto
ou a mão? E foi o objecto, reclame junto do fabricante.
Se foi a mão, trate-se. Se foi a cabeça, já
não nos deve estar a ouvir, neste momento. Pode guardar
a bigorna – afinal, não serviu para nada...
3ª Experiência: O super-ouvido – Toda
a gente sabe que qualquer super-herói que se preze,
tem um ouvido fora do vulgar, sendo capaz, por exemplo,
de ouvir uma abelha zumbir em Boston, estando ele nas margens
do Sena. Vamos lá a ver, ou melhor, vamos lá
a ouvir se você tem o seu ouvido assim tão
desenvolvido. Para esta experiência terá que
pedir a colaboração de um amigo. Diga-lhe
para se colocar no fundo da rua, enquanto você fica
em casa, fechado na sala, com a música em altos berros.
Peça ao seu amigo que suspire, respire, espirre e
transpire, por esta ordem. Tente identificar cada um desses
sons. Se não conseguir, experimente com a música
baixa. Se ainda não conseguir, é porque o
seu ouvido não é grande coisa. Passe o resto
da semana a puxar pelas orelhas. No fim da semana conseguirá
ter, pelo menos, orelhas de abano. Então, abane-se...
4ª Experiência: O voo – um super-herói
que não voe, não é super-herói.
Provavelmente também não será um pássaro.
O voo é fundamental. O ovo também. Mas o voo,
muito mais. Talvez você consiga voar, sem nunca ter
dado por isso. Não há nada como experimentar.
Mas não comece com grandes voos, que se pode sair
mal. Comece, por exemplo, por saltar do banco da cozinha
para o chão. Ao dar o salto, poderá emitir
uma exclamação qualquer, bem ruidosa, para
dar maior realismo à coisa. Seguidamente, salte do
guarda-vestidos para a cama. Não se esqueça
do berro. E, finalmente, chegou a altura da prova final,
a experiência que demonstrará se você
é, de facto, um super-herói. Chegou a altura
de saltar do telhado da sua casa e voar sobre os quintais
vizinhos, causando o espanto de todos. Mas não vamos
ser nós que o aconselhamos a dar esse salto. O problema
é seu. Só é super-herói quem
quer. Salte se quiser. E depois diga-nos o resultado. Se
puder, claro...
Antigamente também havia
super-heróis
Os super-heróis não são uma criação
recente, como se poderia supor. Já na Antiguidade,
muitos homens e mulheres se distinguiram pelos seus feitos,
merecendo o epíteto de heróis. No entanto,
se tivessem vivido no século XX e vendessem as suas
histórias a uma qualquer empresa de banda desenhada,
certamente que seriam tão super-heróis como
o homem-aranha ou o super-homem.
Façamos uma rápida recapitulação
dos grandes super-heróis de antigamente, sem preocupações
cronológicas.
Todos se recordam de Spartakus que, com uma fisga de ir
aos passarinhos, furou o olho do gigante Adamastor, num
combate que se tornou célebre em todo o Egipto. Ou
Alexandre, o Grande que, à frente de um exército
montado em elefantes, atravessou os Himalaias, derrotando
os Persas em Ormuz, sem lugar para dúvidas nem lugar
para os mortos, que foram aos milhares. Todos se recordam,
também, do pequeno David, possuidor de uma farta
cabeleira que, graças à sua força bruta,
impediu que o Circo de Roma se desmoronasse durante o terramoto
de 1755. Foi também nessa data que Joana d’Arc
se tornou famosa ao transformar o pão que levava
aos pobrezinhos esfomeados, em rosas perfumadas, ao ser
interpelada por Lord Nelson, que acabava de chegar da batalha
de Aljubarrota, na qual, à frente de um pequeno exército,
derrotara as hordas dos temíveis Hunos, que pretendiam
conquistar o Peloponeso. Foi a histórica batalha
de Lalys, em que também se distinguiu Guilherme Tell
que, com um único tiro de pistola, acertou em cheio
na maçã de Adão de Gengis Khan, pondo
fim ao reinado de terror daquele impiedoso imperador jugoslavo.
Não menos famosa foi Deuladeu Martins, uma super.heroína
lusa que, munida de uma pá de padeiro, esmagou o
crânio do gigante Golias – essa fera hedionda,
possuidor de um único olho, situado a meia distância.
Citemos ainda Buffalo Bill, espadachim exímio que,
num duelo nunca visto, porque era noite e estava escuro,
derrotou Napoleão na batalha de Trafalgar, quando
os ingleses, fartos e cansados da Guerra dos Cem Anos procuravam,
a todo o custo, submeter os povos das Antilhas britânicas.
Outro grande nome foi, sem dúvida, Nabocudonosor,
mas esse não foi herói. Herói foi,
no entanto, Robin dos Bosques, cavaleiro da Transilvânia
que, durante a noite, se transformava num insaciável
vampiro, conhecido pelo nome de Conde de Sabrosa, que aterrorizava
toda a região limítrofe do seu castelo. Ou
esse outro herói, o Dr. Frankenstein que, graças
a um produto químico que ele próprio fabricava
no seu laboratório secreto, se transformava em Dr.
Jeckyl. Os americanos lembram-se dele e da sua actuação
decisiva para a independência dos Estados Unidos.
E o grande Ulisses que, na batalha de Trancoso, preferiu
ser decepado a deixar a bandeira nacional nas mãos
dos austro-húngaros, acabando por morrer com a bandeira
nos dentes.
E os nomes dos super-heróis de antigamente poderiam
continuar. Seria uma lista interminável. El Cid,
o Campeador, herói britânico que preferiu juntar-se
aos povos árabes e lutar pela sua independência,
nas ardentes areias do deserto paquistanês. Robinson
Crusoe que, com um golpe de espada, trespassou a enorme
baleia Moby Dick. Ben-Hur que, mercê da sua super-força,
afastou as águas do Mar Vermelho, para deixar passar
os Curdos, que fugiam dos agressores gauleses. Lawrence
da Arábia, que ficou na história como desbravador
da selva africana, enfrentando feras, antropófagos
e a malária, acabando por morrer às mãos
de King Kong, terrível chefe etíope que, na
altura, dominava todas as tribos a norte do Tibete. Ou Sir
Lancelot e D’Artagnan, dois dos famosos Cavaleiros
da Távola Redonda, que se distinguiram na busca da
pedra filosofal, derrotando dragões e monstros fantásticos,
como de Loch Ness e o da Lagoa de Melides.
Que nos desculpem as memórias dos que não
foram aqui citados, mas para todos os super-heróis
de antigamente aqui fica a nossa homenagem e o nosso muito
obrigado! Bem hajam!
A verdadeira história de
Tarzan – o homem-macaco
1º Capítulo: O naufrágio
Era uma vez um cidadão australiano, de nome Henri
Von Smith que, podre de rico e podre de muitas outras coisas,
nomeadamente, do fígado, que teimava em conservar
permanentemente embebido em whisky, decidiu fazer um cruzeiro
á volta do mundo por duas razões: primeiro,
porque não se pode fazer um dólar à
volta do mundo; segundo porque, como a Terra é redonda,
não há outro remédio senão ser
à volta.
O cruzeiro decorreu sem incidentes nem dissidentes até
à costa africana. Aí, uma tempestade fantástica
transformou o mar num verdadeiro inferno líquido.
Como é costume nestas ocasiões, o paquete
parecia um barquinho de papel, jogado de onda em onda. Vocês
sabem como estas coisas são, mas a minha obrigação
é escrever e a vossa é ouvir, portanto, oiçam
mais alguns lugares comuns sobre tempestades marítimas:
as vagas alterosas pareciam engolir o navio a cada momento;
no entanto, mercê da providência, ou Mercedes
de Providência, que era o braço direito do
comandante, a embarcação lá se ia aguentando;
o fragor do mar era terrível e os passageiros gritavam
socorro, help, au secour e outras coisas que não
vêm agora para o caso. Bom, resumindo, que isto está
a ficar uma chachada: o barco foi ao fundo e Henry Mac Ernst
deu à costa, exausto, mas agradecido aos deuses por
estar vivo. E, como prova do seu reconhecimento, prometeu
fazer um filho e doá-lo àquela terra luxuriante
que, como já se percebeu, era a Selva.
2º Capítulo: Nasce uma criança
Depois de secar a roupa e de trincar qualquer coisa, a primeira
preocupação de Henrique Van Eyck foi encontrar
uma companheira que o ajudasse a cumprir a sua promessa.
Mas vocês sabem como o amor é difícil
e essa história do amor à primeira vista é
só para quem não tiver a segunda. Mac Dupont
não desesperou, porém, e prosseguiu as suas
buscas até que, numa aldeia escondida da Selva descobriu
uma nativa, por sinal chamada natividade, que estava na
disposição de o ajudar. Correu tudo muito
bem e, passados nove meses de gestação sem
problemas, Natividade deu á luz um excelente rapaz,
robusto, rosado, que era a cara chapada do pai orgulhoso,
Joseph MacNovich.
Mal nasceu, o rapaz deu provas de grande força: foi
ele próprio que rompeu a bolsa de águas e
depois ajudou a mãe a levantar-se daquela posição
tão incómoda. Henri Von Smith pretendeu chamar-lhe
Crispiano, mas natividade gostava mais de Luis. Por isso,
ficou Tarzan e pronto!
3º Capítulo: A adolescência de Tarzan
A infância de Crispiano, aliás Luis, aliás
Tarzan, foi muito curta. Três meses, precisamente.
Quatro meses após o nascimento, Tarzan era já
um adolescente muito bem desenvolvido para a idade. Entretanto,
seus pais, Ivan MacToy e Natividade, tinham decidido abandonar
o filho, ao que parece devido a uma desinteligência
quanto a mesadas e horas de regresso à cabana. Pariram
para parte incerta e nunca mais se ouviu falar deles. Aliás,
nunca se tinha ouvido falar deles antes, quanto mais depois!...
E assim, o jovem Tarzan ficou entregue a si próprio,
obrigado a procurar alimentos sozinho e a enfrentar os perigos
da Selva. Aliás, é bem conhecido entre os
africanos aquele ditado popular que diz: “na selva,
selve-se quem puder!”
Em breve, Tarzan travou conhecimento com vários macacos
que frequentavam aquelas zonas, sobretudo a famosa Xita,
símia exímia em bater palmas e fazer “hi-hi-hi”
nos momentos oportunos. Gradualmente, Tarzan foi aprendendo
a chamar pelos vários animais da Selva, graças
a diversos gritos que aperfeiçoou com o decorrer
do tempo.
4º Capítulo: Tarzan, o Homem-Macaco
Dois anos e quatro meses depois, Tarzan estava completamente
adaptado ao meio: tinha o corpo coberto de pelos, grunhia
e guinchava como qualquer macaco experiente, saltava de
liana em liana graciosamente e todas essssas coisas que
vocês já sabem há muito tempo. Diz-se
que foi mais ou menos por essa época que Tarzan assistiu
á projecção de um filme norte-americano
que teve muito êxito, e que decidiu imitar o herói
desse mesmo filme, John Weissmuller. Aperfeiçoou
então o famoso grito de Tarzan, que me dispenso de
evocar, e decidiu combater os bandidos que penetravam na
Selva para roubar os seus tesouros. Apesar de toda a sua
boa vontade, Tarzan falhou em toda a linha: os europeus
fanaram quase tudo o que havia para fanar, apesar do momem-macaco
andar para ali, de liana em liana, soltando o seu terrível
grito, sempre acompanhado pela sua companheira Jane, que
entretanto conhecera não se sabe muito bem onde.
Desiludido, Tarzan e Jane juntaram os trapinhos, duas tangas,
mais precisamente, e retiraram-se para um lar de 3ª
idade, onde se mantêm, sossegadinhos, a fazer paciências
e a recordar velhos tempos...
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