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O Coiso
O melhor do meu Pão Comanteiga

VIAGENS

Programa emitido em 17 de Abril 1983

Frases
* Fernão de Magalhães deu a volta ao Mundo mas ele ficou na mesma...

* É possível viajar de Lisboa a Nova Iorque sem sair do mesmo lugar – sentado no avião, por exemplo...

* Era tão pessimista que nunca comprava bilhetes de ida e volta.

Conselho aos filatelistas
Debruçado sobre a amurada do paquete, ele contemplava o horizonte. Lá ao fundo, o mar e o céu confundia-se, como nos filmes.
Ela veio por trás, silenciosamente, e encostou o seu corpo ao dele. Sussurou-lhe ao ouvido:
- O mar é imenso!
- Imenso como o nosso amor... – comentou ele, menos debruçado sobre a amurada, mas mais encostado a ela. Depois disse:
- E se fossemos ver a minha colecção de selos?...
Foram, enlaçados, para o camarote dele.
E estavam tão entretidos a ver os selos do Quénia, que nem deram pelo naufrágio.
Morreram os dois.
Daqui se conclui que os filatelistas não devem levar consigo as colecções de selos quando viajam de barco...

Extractos de um livro de viagens
“As Viagens de Gulliver”, “Viagens na minha Terra”, “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, são apenas três títulos de outros tantos livros de viagens. Desde sempre, o homem viu-se atraído pelo desconhecido, pelo longe, pelas viagens, enfim...
Pão Comanteiga tem, hoje, a honra de dar a conhecer ao grande público, extractos de um livro inédito, do grande escritor Amarildo Calhariz, apaixonado por viagens.
Amarildo Calhariz – de cuja obra se destacam livros como “Morrer aos Pedaços a Caminho do Lesoto” e “A Travessia Subterrânea dos Pirinéus Alpinos” – decidiu, desta vez, dedicar um livro inteiro às suas frequentes viagens de metro.
Segundo nos confidenciou, está indeciso quanto ao título, tendo, no entanto, duas hipóteses: “As Minhas Viagens de Metro” ou “Minhas Viagens de Metro”.
Portanto, em primeira mão, extractos do próprio livro de viagens de Amarildo Calhariz.

As estações de metro são fáceis de encontrar, apesar de estarem debaixo do chão. Abundam, sobretudo, na Avenida da Liberdade. Já, pelo menos, oito. É assim uma espécie de gradeamento, com uma estaca mais alta que, no cimo, tem um grande éme. Depois, há uma escadaria...
Foi numa manhã fria de Inverno que me dispus a descer essa escadaria, em busca do desconhecido. Dentro de mim, crescia aquele desejo que tem inflamado muitos homens e infectado algumas mulheres: enfrentar o perigo!
Ao fundo da escadaria, deparei com um grande átrio, bastante maior que a minha sala de estar, mas sem sofás. Em compensação, encontrei duas espécies de gaiolas com vidro. Uma estava vazia, mas a outra tinha uma senhora lá dentro. Avancei, decidido. Naquele momento, não valia a pena hesitar! Deixara recado em casa, dizendo que não me esperassem para jantar, redigira o testamento, ficara tudo em ordem – e há momentos na vida de um homem em que é necessário encarar os acontecimentos.

A senhora que estava dentro da gaiola perguntou-me o que eu desejava. Pedi-lhe um bilhete – um simples bilhete que me franqueasse as portas do desconhecido. Vendeu-me um pedaço de papel com letras e números, por cerca de 20 escudos, em moeda portuguesa, e indicou-me uma estranha máquina cor de laranja. Aproximei-me um pouco e verifiquei, não sem uma pontinha de espanto, que a máquina possuía uma ranhura, por cima da qual dizia mais ou menos assim: “introduza aqui o seu bilhete”. Assim fiz, embora contrariado. Ouviu-se um pi-pi e, quando retirei o bilhete, este encontrava-se cortado numa das pontas. Senti o perigo percorrer-me a espinha até ao sacro, mas disfarcei, assobiando um teledisco. A experiência ensinou-me que não se deve dar parte de fraco nestas situações. Há que avançar sempre. Foi o que fiz... e encontrei nova escadaria, que desci, de cabeça erguida.
Lá ao fundo era a gare. Percebi logo que era a gare, devido ao movimento de pessoas, colocando-se em bichas ordenadas. Sentia-se o frenesim da espera, bebia-se, do ar, aquele calor humano próprio das esperas. Nas paredes da abóbada, letreiros vermelhos com letras brancas diziam: “Picoas – Picoas – Picoas – Picoas – Picoas”. Picoas cinco vezes. Algum sádico, certamente! Algum tarado que, de alfinete em punho, avançou sobre um grupo de senhoras indefesas e picou-as cinco vezes, sem dó nem piedade. Imaginei a cena por momentos e o suor nasceu-me aos borbotões da testa. Como tenho uma testa alta, só no Campo Pequeno o suor escorreu até ao queixo.

De súbito, a tensão aumenta, as pessoas movimentam-se com ansiedade e, do fundo do túnel, vem um rugido terrível, como um troar de canhões, um trovejar rouco, que talvez pudesse definir, literariamente, como um “uaaaá”. Era o metro que se aproximava.
As pessoas tomaram os seus lugares. Desconfiado, uma mão à frente e outra atrás, aproximei-me também da beira da gare, atento, preparado.
Até aqui, tudo bem – pensei eu...
E eis que, de supetão, o túnel vomita uma linda composição, também denominada comboio, composta por duas carruagens, uma à frente da outra, estando a segunda atrás da primeira – era o metro. Confirmei com a régua. Foi a explosão da grita, a confusão, a turbulência irrequieta da fera humana. Avançámos todos por ali fora, aos trambolhões, em busca de um lugar. Todos queriam entrar, ninguém queria perder a oportunidade de experimentar essa doce sevícia de viajar no metro.
Entrei, também, de roldão, espalmado entre um cavalheiro de sobretudo e brilhantina e uma menina que me sujou a camisa de baton. Ouviu-se um sinal sonoro. Pensei que era para acertar o relógio mas, afinal, era o sinal para fechar as portas. Alguns desgraçados resistiam, um pé na gare, outro no metro, lutando desesperadamente para entrar. Sim – eles também tinham bilhete, vivemos numa sociedade democrática e pluralista! Tentei ajudá-los: puxei o braço de um, mas soltou-se! Agarrei outro pelo pescoço, mas ouvi um “crac” estranhíssimo. Fraca constituição da coluna, pensei. A um terceiro ainda lhe deitei a mão, mas devolveu-ma, dizendo que já tinha duas.
Finalmente, as portas fecharam-se e a viagem começou. Oh que êxtase! Supremo prazer! Apertado agora entre uma senhora de 39 anos com um alfinete no peito, que me furou o olho direito em três sítios diferentes, e um homenzarrão, cujo pé esquerdo me proporcionou uma pisadela memorável, da qual resultou o esmagamento irrecuperável de três dedos, assim apertado, segui até à Rotunda – fixando mentalmente todos os pormenores, que aqui descrevo com emoção e sentimento.

A partir daqui, o notável livro de Amarildo Calhariz transforma-se completamente e não passa de frases dispersas que o escritor lançou ao papel como quem cospe de um 3º andar para uma rua deserta.
Limitamo-nos apenas a ler algumas dessas frases, desses fragmentos de um lirismo tenebroso.

Hoje sinto-me feliz mas, ao mesmo tempo, apreensivo: fui do Intendente ao Socorro sem ser apalpado!

Entre os Anjos e a Alameda, um sujeitinho amarelo e insignificante, colocou-me uma cotovelada na boca do estômago. Durante alguns segundos, parece que fiquei inconsciente e revivi episódios da minha infância. Quando dei por mim, o sujeito já estava duas cabeças além. Entre mim e ele, duas senhoras faziam renda. Esgueirei-me, empurrei, avancei e quando o metro estava mesmo a chegar à estação de Alvalade, consegui chegar perto dele; introduzi o indicador da minha mão direita no seu ouvido esquerdo e empurrei com força. Sorri-me, sarcástico...

Como é bom estar apaixonado!... encontrei-me com ela entre o Parque e S. Sebastião. Bom... encontrei-me não é o termo... fui de encontro a ela e senti o desejo brotar dos nossos corpos. Ia perguntar-lhe o nome quando alguém lhe puxou pelos cabelos em Sete Rios...

Decidi entregar-me a uma experiência nova. Entrei na estação dos Restauradores, fechei os olhos e deixei-me levar até Entrecampos. Cheguei em cuecas.

Roubar carteiras é fácil, sobretudo na Rotunda. Não fiz de propósito, claro... Mas hoje, vinha da Avenida, entalado entre uma senhora gorda que cheirava a naftalina e um indivíduo magro de tresandava a incenso, quando a composição estacou na Rotunda. Saíram e entraram tantas pessoas que quase perdi o equilíbrio. Tentei agarrar-me a uma daquelas argolas que eles colocam junto ao tecto para gozar com os baixinhos – e foi então que reparei que tinha nas mãos duas malas de senhora, em cabedal, feitas à mão, duas carteiras de pele de crocodilo, um porta-moedas, duas mochilas completas com fogão de campismo, para além de um livro de cheques e de uma caixa com um serviço de chá para doze pessoas.
Montei um centro comercial e decidi deixar a literatura...

Uma viagem de eléctrico
Quando César Vialonga se sentou no banco dos palermas do eléctrico, carreira 26, Estrela-Gomes Freire, nunca pensou que aquela viagem se iria transformar num verdadeiro pesadelo.
Com efeito, tudo começou bem.
O amarelo arrancou com a sua pachorra habitual e estabilizou-se na estonteante velocidade de 27 quilómetros/hora.
O eléctrico ia quase vazio. Além de César Vialonga, três ou quatro figurantes, o revisor, o condutor e um agente da ordem, devidamente uniformizado.
Até aqui, tudo bem.
Mas eis que o eléctrico chega ao Campo Mártires da Pátria e entram três: Martim Moniz, todo torcido pela porta do castelo de S. Jorge, D. Fernando, magro e escanzelado pelo longo cativeiro em Tanger e o alferes Duarte de Almeida, decepado completamente, mas ainda segurando a bandeira nacional nos dentes.
“Roca dentadura!... Deve usar uma pasta com flúor...” – pensou César Vialonga.
Mas o eléctrico já não era o mesmo. Os três mártires recusaram-se a pagar bilhete, alegando altos serviços prestados à Pátria. Resignado, o cobrador encolheu os ombros...
Como se nada se passasse, o condutor fez com que o 26 prosseguisse a sua marcha, descendo vertiginosamente a Rua de S. Lázaro. A meio, o próprio estende o braço, o transporte pára e o santo sobe.
Os mártires da Pátria e dois passageiros, bem como o agente da ordem devidamente uniformizado, ajoelham-se para receber a benção.
César Vialonga, ateu convicto, vira a cara para o lado.
Mais abaixo era o Martim Moniz. O eléctrico parou e o entaladinho desceu, aos pedaços, ficando especado, olhando para as barraquinhas dos vendedores ambulantes. O alferes Duarte de Almeida riu-se e deixou cair a bandeira nacional.
Na Praça da Figueira, D. Nuno Álvares Pereira saltou da estátua e entrou no eléctrico, triunfante, montado naquele bonito cavalo de bronze, manchado pela caca dos pombos. Foi o delírio no 26. O agente da autoridade, devidamente uniformizado, fez a continência impecável e colocou as suas armas ao serviço do Condestável. Este agradeceu e, acompanhado por S. Lázaro, dirigiu-se ao condutor que, tirando o boné da Carris, fez uma vénia, desajeitado.
D. Nuno Álvares Pereira mandou que o 26 seguisse para as Cortes, a fim de apear os usurpadores.
Foi então que César Vialonga se levantou do banco dos palermas e se dirigiu, furibundo, para a plataforma do eléctrico. Aquilo fora longe demais. Mas ele, republicano de longa data, ia pôr tudo em pratos limpos. Ainda por cima, em véspera de eleições!
Os planos saíram-lhe furados, no entanto...
O seu bilhete só dava até à Rua dos Fanqueiros e o 26 chegara já ao Terreiro do Paço.
Zangado, o cobrador – nomeada, entretanto, tesoureiro do Reino – empurrou César Vialonga para fora do eléctrico, no exacto momento em que D. José I e o respectivo cavalo se juntavam aos revoltosos.

Novas terras, novas gentes
A cena passa-se numa agência de viagens. Atrás do balcão, uma empregada com ar saudável mata o tempo com pancadas secas no relógio de pulso. Um homem bem parecido, alto e forte, entra e dirige-se a ela.
“Boa tarde” – diz ele. Tem uma voz bem timbrada, fala pausadamente e nota-se que lavou os dentes.
“Boa tarde.” – responde ela, algo nervosa; nota-se que a presença daquele homem a perturbou. – “Que deseja?”
“Vou direito ao assunto: começo as minhas férias no próximo dia 5... como, felizmente, sou um homem de posses, gosto de conhecer novas terras, novas gentes, adoro viajar!... Mas confesso-lhe que, este ano, estou um pouco indeciso...”
“Os preços aumentaram muito, de facto...” – disse ela, mordendo o lábio inferior, carnudo e rosado, bom para beijar.
“Não é o problema dos preços que me preocupa... Como disse, sou um homem abastado....” – e mostrou-lhe o seu último extracto bancário. Ela reparou que tinha muitos zeros antes do cifrão, ficou ainda mais nervosa e mordeu, também, o lábio superior.
“Nesse caso, o que o preocupa?” – perguntou ela.
“Ora!... é que não sei onde passar as férias este ano!... Viajo sempre sozinho, mas gosto de conhecer novas terras, novas gentes e já dei a volta ao mundo várias vezes! Não sei o que hei-de fazer este ano!”
“Conhece S. Domingos de Rana?” – perguntou ela, a medo.
“Vagamente.... não é ali para os lados da Rebelva?...”
“Exactamente...“
“”Já ouvi falar, mas confesso que nunca passei por S. Domingos de Rana... porquê?...”
Ela inclinou-se sobre o balcão, os seus lábios mordidos aproximaram-se do cliente e disse: “Eu moro em S. Domingos de Rana!... Venha conhecer novas terras, novas gentes... e o resto também: passe as férias comigo!...”
Ele aceitou.
Mas não se pense que a história termina aqui, com este final de conto de fadas, em que o homem rico se casa com a empregada da agência de viagens e vão ambos viver muito felizes para S. Domingos de Rana. De modo nenhum! Sempre interessado em conhecer novas terras, novas gentes, ele obrigou-a a mudar de casa constantemente. Andaram por Bobadela, Alpiarça, Pontinha, Caneças, Feijó, Loures, Almeirim e Rinchoa. Cansada de tantas viagens, ela deixou-o, certo dia, num apartamento no Seixal.
Desesperado, o homem rico suicidou-se três vezes e nunca mais foi feliz depois disso.

 

 


 

 

Actualizado em: 15 Maio 2004
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