Vida nocturna
Programa emitido em 27 Fevereiro 1983
Abertura
Como dizia Guerra Junqueiro na sua obra “A Velhice
do Padre Eterno”, “os elos desse monstro implacável
sois vós, sacristas!”
Estamos em crer que o poeta não se referia a nós
– até porque, após exaustivos estudos
levados a cabo pela equipa do Pão Comanteiga, descobrimos
que já Stuart Mill, no seu “Ensaio sobre a
liberdade” afirmava, peremptório, “é
isto o que cada povo livre deve fazer”.
Por isso, não é por acaso que a equipa do
costume apresenta, semanalmente, aos domingos, um Pão
Comanteiga com a duração de 3 horas, barrado
dos dois lados da Rádio Comercial.
Também não é por acaso que Platão
dizia, na sua “República” que, “quando
um cidadão democrático, sedento de liberdade,
encontra escanções nos seus chefes, embriaga-se
com esse vinho puro para além de toda a decência”,
embora Christopher Morley tenha afirmado que “para
ser um bom conservador, basta seguir uma só regra:
aprender a escutar.”
Claro que nada disto tira valor a John Steinbeck, quando
escreve no seu livro “A um Deus Desconhecido”:
“Pronto. Temos de sair. Vira-te para mim um bocadinho.”
Até porque, dentro da mesma linha, no “Diário
de um Louco”, Nicolau Gogol já dissera, com
ímpeto: “Oh!...aquele maldito chicote faz-me
doer horrivelmente!...”
Por tudo isto se vê – embora mal – que
Pão Comanteiga é um programa humilde e cultural,
destinado a todos os portugueses, sobretudo os que nos escutam
nas estradas de Portugal.
E não se esqueçam: quanto mais se bate com
um martelo num vidro, mas probabilidades se tem de o partir.
Frases
* De noite, é muito mais fácil distinguir
uma lâmpada acesa.
* Um guarda-nocturno com insónias passa o dia acordado.
* Durante toda a noite não conseguiu pregar olho.
Só às 7 da manhã se lembrou de usar
um pionés.
* As Mil e Uma Noites correspondem a 2 anos e 74 dias.
* Nos assaltos a Bancos ocorridos durante a noite, os empregados
bancários têm menos probabilidades de serem
feridos pelos assaltantes.
* Se passou a noite em branco, não proteste. Milhares
de pessoas passaram a noite em Castelo Branco e não
houve reclamações.
* Por mais que tentasse, nunca conseguia chegar a casa
a altas horas da noite. Era baixinho...
* Se o dia tem 24 horas e a noite tem, em média,
8 horas, quantas horas tem um dia afinal?
* Lisboa buy night STOP London sells day STOP.
* O que sera mais perigoso para a saúde: o sereno
da noite ou o nervoso da madrugada?
* Nunca adormecia antes das três. Era um homem vigoroso...
* Atenção à grafia: A madrugada é
mau exemplo para as criancinhas ou ama drogada é
mau exemplo para as criancinhas?
Excelente selecção
O disc-jockey tirava discos, punha discos, gritava ao microfone,
saltava na cadeira, fazia esgares terríveis, suava
em bica mas, na pista de dança, nem um par.
O gerente do dancing entrou na cabina e, discretamente,
informou o disc-jockey:
“Peço desculpa... não queria interferir
no seu trabalho, mas parece que os clientes não estão
a gostar muito da sua selecção musical...”
O rapaz ficou atónito e exclamou, rubro:
“Não gostam da minha selecção
musical?! Mas como é isso possível?! Xenaquis,
António Sala, José Cid, Bela Bartok, Cândida
Branca Flor, Stravinsky, Deep Purple, Trio Odemira... que
há de errado com a minha selecção musical,
caramba?!”
Insónia
Eram 2 da manhã e não conseguia dormir.
Deu voltas na cama, virou-se para a direita e para a esquerda,
tentou todos os processos conhecidos para conciliar o sono,
mas os resultados foram sempre negativos.
Acabou por desistir.
Levantou-se, vestiu-se e, nessa noite, não dormiu.
Na noite seguinte, também não.
Nem na seguinte.
Ao fim de 15 noites sem dormir, os amigos começaram
a interessar-se pelo seu caso. Alguém lhe sugeriu
a sua inscrição no Guiness Book.
Admirado, perguntou o que era isso do Guiness Book.
Explicaram-lhe que era um livro de recordes estranhos. Emprestaram-lhe
a edição do ano anterior. Levou-a para casa,
imaginando já o seu nome escarrapachado naquele grosso
volume.
Sentou-se no sofá da sala e começou a ler
o Guiness Book.
Adormeceu logo.
Perdulário
O facto de ser um pouco manco não o impedia de gostar
muito de dançar com as amigas lá do bairro.
Mas era um perdulário...
Naquela noite, foi à boite mais próxima dar
um pezinho de dança.
Deu o esquerdo.
Agora coxeia mais...
“Pela calada da noite, ninguém
grita” – história romanceada de um romance
histórico
Ele era um empregado bancário que trabalhava de noite
porque chegava sempre atrasado.
Ela, uma empregada de comércio que ia sempre muito
cedo para o trabalho porque tinha um medo terrível
de chegar atrasada.
Quis o destino e o autor que ambos se encontrassem às
5 da manhã, à esquina. Só que a esquinas
diferentes.
Ele, que chegara 8 horas atrasado à agência
bancária e só agora terminara o trabalho,
à esquina da Rua do Ouro com a Rua da Conceição.
Ela, que se dirigia já para o Centro Comercial que
abria às 9, parou para descansar, à esquina
da Rua da Prata com a Rua da Conceição.
Ainda não se conheciam e já tinham uma coisa
em comum: a Conceição.
Ele era um homem solitário.
Vivia num quarto alugado e três quartos de especulação
imobiliária. Passava as horas gastando os minutos,
raramente via rádio, lera um livro mas não
se lembrava onde e evitava ver-se ao espelho porque detestava
estranhos.
Era um homem de poucas falas. Quatro, no máximo.
Tinha um nome curioso e pouco vulgar.
Ela, pelo contrário.
O salário não chegava para pagar um quinto,
quanto mais um quarto – por isso, vivia ainda em casa
dos pais.
As suas relações com eles eram óptimas,
desde que haviam falecido.
Gostava de flores mas não ao ponto de as cheirar
e adormecia ao som do seu coração a bater
dentro do peito. Tinha um nome vulgar.
O empregado bancário com um nome curioso e pouco
vulgar, tinha grande dificuldade em acordar porque custava-lhe
muito a adormecer.
Já não sabia quando aquilo tinha começado,
nem tão pouco sabia o que acontecera primeiro. Uma
coisa era certa: chegava a casa pelas 6 da manhã,
estoirado de mais uma noite sem fazer nada na agência
bancária deserta, não se despia porque tinha
vergonha de si mesmo e metia-se na cama.
Já experimentara deitar-se com as galinhas mas era
alérgico às penas.
E era então que começava o tormento da insónia:
de barriga para baixo sentia o bater do coração
vibrar nas molas do colchão; de barriga para cima,
faltava-lhe o ar; de lado, ficava com o braço dormente;
em pé, tinha tonturas. E passava horas neste dilema,
revolteando-se na cama, acendendo e apagando o candeeiro
da cabeceira, olhando as horas, minuto a minuto.
Adormecia finalmente, pelas 5 da tarde – mas era um
sono agitado por pesadelos horríveis, em que era
trucidado pelo monstro de Loch Ness, proposto para presidente
do CDS, entrevistado pela United Press, obrigado a comer
na messe and God bless o nosso herói...
Por vezes, tinha sonhos eróticos. Fazia amor com
o aspirador, era apalpado até à exaustão
pelo caixa da agência bancária ou adormecia,
enlevado, nos braços de Morfeu – um calmeirão
de maneiras muito duvidosas.
Quando acordava, sempre mal disposto, uma perna na cama,
outra na cómoda, já o Banco fechara à
horas.
Por isso chegava atrasado e trabalhava de noite.
A empregada de comércio com um nome vulgar, tinha
um problema bem diverso.
Toda a sua vida era construída em redor de um terror:
o de chegar atrasada.
Na sua fantasia de rapariga solteira e estatura mediana,
cresciam monstruosidades que o patrão lhe poderia
infligir, caso ela chegasse atrasada: perguntar-lhe a tabuada
dos nove, calçar-lhe os sapatos ao contrário
ou mesmo rasgar-lhe a roupa interior, sem a despir primeiro.
Por isso, levantava-se pelas 3 da manhã, tomava um
duche baixinho para não acordar os vizinhos e vestia-se
a correr, o que a cansava bastante. Quando olhava para o
espelho, via uma velhota de 90 anos. Comprara o espelho
num antiquário.
Saía de casa depois de abrir a porta e corria desaustinada,
em busca do Centro Comercial.
Na agência bancária deserta, o empregado de
nome curioso e pouco vulgar, tinha sede. Era sempre de noite
e ninguém gostava de levantar cheques àquela
hora. Todos embirravam com ele. Deixavam-no só, por
entre as secretárias vazias, os telefones silenciosos,
os arquivos de metal e tal. Vagueava por ali, mas por aqui,
não! Que não queremos cá vadios! Procurava
cumprir rigorosamente o seu horário de 8 horas, mas
raramente o encontrava.
Saía triste e entediado.
Às 5 da madrugada lá estava ele, à
esquina da Rua do Ouro com a Rua da Conceição,
meditando nesta coisa profunda: “se não houver
vida depois da morte, estou lixado!”
Quase simultaneamente, a empregada de comércio com
um nome vulgar, descia a Rua do Crucifixo na mão
porque era muito religiosa, sempre temendo chegar atrasada,
e estacava na esquina da Rua da Prata com a Rua da Conceição,
às 5 da manhã, ofegante. E descansava. O suor
escorria-lhe por todos os sítios que queiram imaginar
e formava uma poça no empedrado do passeio. Por isso,
chegava sempre com os pés encharcados ao emprego.
Mas naquela noite, naquela precisa noite que ambos tão
precisavam e o autor também, para acabar com o romance
– naquela exacta noite, ele olhou em frente e ela
em frente olhou. Ele viu um vulto de homem e ela viu um
vulto de mulher. Tinham trocado olhares. Avançaram
lentamente e estacaram, frente a frente, apenas com 10 metros
a separarem os seus corpos ofegantes e sedentos de carinho
e amor.
Ele foi o primeiro a falar. Disse-lhe: “Aquilo que
lhe veio à cabeça”.
Ela pensou que fora um pergunta e respondeu: “Não
me veio nada à cabeça...”
Estava tão nervosa que começou a tirar as
pedras do passeio da Rua da Conceição e a
fazer um montinho com elas. Ele achou piada e começou
a ajudá-la. Em breve tinham tirado todas as pedras
da Rua da Conceição e preparavam-se para atacar
o passeio da Rua do Ouro quando apareceu a polícia.
Sem se perceber muito bem porquê, foram presos...
O amor continua incompreendido...
(também publicado na Revista Pão Comanteiga,
nº 22, Outubro 1983)
Histórias nocturnas
Primeira
Não podia suportar a ideia de passar mais uma noite
só. Aquele desespero tinha que terminar.
Por isso, decidiu afogar o seu desgosto em álcool.
Fechou-se na casa de banho e só então descobriu,
desconsolado, que só tinha água oxigenada...
Segunda
“Queres passar a noite comigo?” – perguntou
ele, malandreco.
“Quero...” – respondeu ela – “mas
com uma condição: prometes que não
fazes nada!”
Ele prometeu e cumpriu.
Foi ela que fez tudo...
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