PÃO COMANTEIGA - 1988
Abril– mês da Mentira
Programa nº 5 – 2 de Abril 1988
Abertura
Pão comanteiga tem a honra de inauugrar o Ciclo da
Mentira, neste mês de Junho.
Ao longo destas quase cinco horas de emissão, através
dos microfones da Rádio Alto Douro, uma garbosa equipa
de mais de 50 elementos, que inclui nomeadamente, dissertará
sobre esse tema candente, premente e quente que é
a mentira.
António Curvelo, Joaquim Pessoa, Edite Estrela, Eduardo
Cortesão, Fialho Gouveia, Valentina Torres, Luis
Pereira de Sousa e Magnusson estudaram, ao longo dos últimos
anos, as causas e consequências da mentira. Depois,
juntaram-se perto da foz do Douro, em Viana do Castelo e
tiraram as conclusões uns aos outros.
Esse acontecimento permitiu à equipa do Carcaça
com Margarina preparar uma série de quatro programas
que serão transmitidos a esta mesma hora, todas as
segundas-feiras, das 9 às 4 da manhã. O ouvinte
interessado, poderá ler todos estes textos no Correio
do Minho, aos domingos de manhã, num suplemento de
200 páginas a cores.
Pão Comanteiga – aos sábados na Comercial,
às quintas na Capital.
A mentira é uma arte – aqui e naquela parte.
Antunes – o filósofo
Certo dia, um discípulo chegou-se perto de Antunes
e perguntou-lhe:
- Mestre: mentir por paixão será imoral?
Antunes remexeu-se um pouco na cama, ajeitou a almofada
e, olhando o discípulo de alto a baixo, respondeu:
- Não martirizes o teu espírito com questões
mesquinhas e deita-te aqui, a meu lado... Descansa que hoje
não te faço mal... – respondeu Antunes,
atirando-se sobre o discípulo selvaticamente mas
ccom elegância.
A mentira através da História
Já quando Moisés enchia a sua arca com exemplares
de todos os animais existentes na Terra, um casal de pandas
homosssexuais conseguiu lugar na embarcação,
fazendo-se passsar por ursos polares sujos. É por
isso que os pandas são uma espécie em vias
de extinção.
Mais tarde, quando Júlio César assasssinou
o filho Brutus, a mentira ficou sedimentada na espécie
humana. Levado á presença da mãe, Madame
Curie, Júlio César negou o assasssínio
de Brutus, mas assumiu o do general Custer, sempre para
bem do Império Tirolês.
Mas foi napoleão quem mais desenvolveu a mentira,
refinando-a, desculpabilizando-a com razões de Estado
– numa palavra: legalizando-a. Recorde-se que foi
Napoleão que disse: “falem mais alto que eu
sou surdo!”, enquanto compunha a nona sinfonia de
Vitor Hugo.
Passou então a ser fino mentir.
Por isso, ninguém acreditou quqnaod Vasco da Gama
apareceu, aos pulos, na Praça da Figueira, gritando
“Descobri o sabonete! Descobri o sabonete!.”
Mentira, claro.
Vasco da Gama era incapaz de descobrir o caminho para a
sua própria casa e o sabonete já fora inventado
século antes por Louis Pasteur.
E o Povo – sempre ele! – foi-se habituando a
estas pequenas mentiras dos grandes homens e todos se riram
quando Newton afirmou a pés juntos ser capaz de comer
feijoada sem sujar a barba, graças à força
da gravidade.
Mais recentemente, Hitler deu um novo impulso à mentira
ao declarar ser o paladino de uma nova raça que dominaria
o mundo e que, no futuro, todos seríamos baixos,
gordos, negros e de olhos castanhos.
Afinal, a prestação de Hitler no plantel do
Borussia de Moengendalbach foi um fracasso e a equipa acabou
por perder o campeonato.
Por isso, hoje em dia, mentir é apenas uma maneira
diferente de dizer a verdade. E não admira que o
1º ministro francês, Ronald Reagan, continue
a prometer o desarmamento total, enquanto o rei Gorbachev
I da Prússia continua a desmontar ogivas nucleares,
substituindo-as por fisgas.
Para a semana, abordaremos o modo como Alexandre o Grande
mentiu aos Hunos, fazendo-se passsar por Alexandre o Pequeno.
(A Capital –14.4.88)
História verdadeira
Diniz acercou-se de Isabel e perguntou-lhe bruscamente:
- Que levais no regaço, minha esposa?
Assustada, Isabel aconchegou o regaço, como se quisesse
esconder algo ou alguma coisa e murmurou:
- São rosas, senhor... são rosas...
- Ora, ora!... Rosas!... – casquinou Diniz –
Estais mentindo, senhora! Quem já viu rosas em Abril?!...
Mostrai-me essas rosas imediatamente! – intimou Diniz,
que afinal era Dom.
Tremendo, Isabel deixou cair o regaço e, em vez de
rosas, surgiu pão.
- Pão?! – espantou-se Dom Diniz.
- E com manteiga! – acrescentou Isabel.
É por isso que a rainha Santa Isabel é a padroeira
do Pão Comanteiga e hoje é feriado em todo
o país.
Cuidado com as falsificações
Um falso pintor pinta quadros de electricidade
Um falso juiz julga penas de avestruz
Um falso médico passa receitas de bacalhau à
Brás
Um falso persussionista toca bateria alcalina
Um falso poeta escreve reversos de medalha
Um falso jornalista escreve artigos indefinidos
Uma falsa cantora lírica interpreta áreas
urbanizadas
Um falso padeiro fabrica cacetes de vídeo
Uma falsa modista faz provas de vinho
Um falso músico faz concertos em electrodomésticos
Um falso pai dá concelhos de Estremoz
Um falso político diz sempre a verdade
Disciplina
- Que estás tu a fazer, Bruno Eduardo? – perguntou
a mãe, severa.
- Estou a estudar. – respondeu o petiz, agarrando-se
com desespero ao caderno de cópias.
- Mentiroso! Julgas que me enganas?! – explodiu a
mãe. E sovou sistematicamente o filho.
Duas horas depois, a mãe voltou ao quarto do miúdo
e perguntou:
- Que estás a fazer desta vez, Bruno Eduardo?
A criança escondeu o caderno de cópias apressadamente
e exibiu uma revista colorida.
- Estou a ver revistas pornográficas – gaguejou
ele.
- Estás a ver?... – regougou a mãe,
com voz terna – Não é muito mais bonito
dizer logo a verdade?
E aplicou-lhe outra sova, ainda mais sistemática.
(A Capital –14.4.88)
O mês da mentira continua aqui
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