21. A Tropa Fandanga (1980)
Em Agosto de 1980, com a ansiedade a atingir níveis
inauditos, as extrassístoles a baterem constantemente
no meu peito e a recruta a aproximar-se, senti necessidade
de regressar aos meus caderninhos, onde fui escrevendo as
minhas emoções e os meus medos. Paralelamente,
comecei, também, a escrever um diário (que
ainda hoje mantenho) e onde apenas assinalo factos.
No dia 21 de Agosto, escrevi isto:
“Daqui a dez dias apresento-me às portas
do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha. Neste momento,
essa perspectiva apenas me causa uma única reacção:
vontade de cagar.
(…) Sou incapaz, apenas a dez dias de distância,
de me ver fardado, alinhado, marchando, batendo continência
e praticando outras idiotices afins – se é
que é isso o que vou fazer. De uma maneira difusa,
pergunto-me, por vezes, onde irei dormir, quem estará
comigo, como será a comida e outros pormenores ainda
mais pequeninos: como conseguirei manter certos hábitos,
tão simples mas tão importantes para o meu
precário equilíbrio psicológico. Por
exemplo: de manhã, após o pequeno almoço,
como resolver a imperiosa vontade de defecar? Será
possível, ou terei logo que marchar, bater continência
e cagar-me pelas pernas abaixo?”
Estava mesmo aflito com a tropa – e com razão.
Claro que, graças ao curso de Medicina e aos sucessivos
adiamentos e ao 25 de Abril, acabara por me safar da guerra
colonial. Mas, como depois descobri, afinal havia guerra
– a minha guerra contra o absurdo do serviço
militar obrigatório. As seis semanas de recruta,
não só confirmaram os meus temores, como me
demonstraram quão ingénuo eu era. Aquilo foi
muito pior do que eu alguma vez imaginara! Um absurdo puro
e simples: um pelotão de cerca de cem licenciados,
em Medicina e Advocacia, a aprenderem a fazer continência,
ombro arma, apresentar arma, funeral arma, direita e esquerda
volver, desmontar e montar G-3, rastejar, atirar granadas,
dar tiros com pistolas e, sobretudo, servir os senhores
oficiais, rebaixarem-se perante os senhores oficiais, serem
humilhados pelos senhores oficiais – e para quê?
No meu caso, para, durante mais um ano, ir uma semana por
mês a Évora, consultar as esposas dos senhores
oficiais! Um gasto absurdo do dinheiro dos contribuintes!
No momento em que escrevo, o Governo decidiu cortar nas
despesas das Forças Armadas e há um coro de
protestos. Pois que o Governo corte à vontade, já
que a tropa é uma instituição que vive
parasitariamente à custa do contribuinte. Por isso
digo e repito: criem, rapidamente, o exército profissional!
Então, no dia 1 de Setembro, lá fui eu servir
a Pátria. A Mila, o Pedro, a Marta, o Jorge e a Luisa
acompanharam-me até ao portão do Regimento,
quase como se fosse a minha última morada. E logo
nessa mesma noite, iniciei aquilo a que chamei “Correspondência
de Guerra” – uma carta por dia para a Mila,
e várias para o restante pessoal.
Excerto dessa primeira carta, que eu endereçava a
Milapedromarta:
“Humilhação é a única
palavra que pode definir isto e, mesmo assim, temos que
convir que é muito pouco. São 10 horas da
noite, o cornetim tocou a silêncio e não tarda
muito que fechem as luzes. (…) Há sempre alguém
em circunstâncias bem piores. Entraram hoje, comigo,
para a recruta, um neurologista e um oftalmologista! O neurologista,
com quem conversei longamente há bocado, é
um tipo de 32 anos que, quando acabou o estágio,
conseguiu adiamento para tirar a especialidade e este ano,
pimba! foi chamado. E agora abisma-te ainda mais: este neurologista
(Alexandre Castro Caldas), é professor auxiliar de
neurologia em Santa Maria, dedica-se à investigação,
tendo a seu cargo um laboratório de linguagem e recebeu,
há mês e meio, um subsídio de mil e
quinhentos contos da Gulbenkian, para aplicar na investigação.
Resultado: o subsídio está na gaveta e os
técnicos do laboratório estão sem fazer
nada, enquanto ele estiver na tropa!”
E apesar de ser um Castro Caldas, o Alexandre não
se safou da recruta, embora depois tenha conseguido a requisição
civil para trabalhar no seu projecto de investigação.
Mas convenhamos que era muito importante que aquele ilustre
neurologista aprendesse a bater continência e a lavar
as latrinas. Aliás, nem sei como é que a Neurologia
nacional poderia passar sem um especialista que não
soubesse desmanchar uma G-3 na perfeição –
coisa que, evidentemente, nenhum de nós aprendeu
a fazer convenientemente…
Na carta do dia seguinte, dou conta do corte do meu querido
bigode:
“(…) esse excelente bigode que tanto tempo
demorou a desenvolver-se e que, neste momento, já
não existe. Enfim, ele está cá mas
sem as guias que o caracterizavam. Tudo começou esta
manhã, quando o comandante da companhia disse que
os cabelos tinham que ser aparados, bem como as barbas e
“há aí um senhor com um bigode à
Tchekov (?), que não pode ser!…”
(…) Estou tão abismado com isto que nem consigo
raciocinar e acabo por me sentir calmo. Sinto-me, isso sim,
humilhado, absurdizado. Pensava que isto era pior num sentido,
mas afinal é noutro. Explico: a comida engole-se,
temos um sítio onde ler e escrever, vamos poder ir
à vila todos os dias, das 17 à uma, os camaradas
parecem ser porreiros e eles já avisaram que não
vão puxar muito nos exercícios físicos.
Por outro lado, não calculava que isto fosse tão
deprimente para a nossa maneira de pensar. Quando, na parada,
na formatura do jantar, ás 18h 20, acatei e cumpri
as ordens sucessivas de “firme!”, “sent’up!”,
“direita’ver!”, murmurei para o lado:
“se o meu puto me visse, fartava-se de rir”,
e as lágrimas vieram-me aos olhos. É isto
que me está a amarrotar, isto mesmo, a disciplina
militar, estas coisas que nós andamos todos a fazer,
das 8h 20 às 17h, as fardas, as explicações
que os instrutores dão para coisas que não
têm explicação absolutamente nenhuma.
(…) Como dizia o neurologista: não há
nada aqui que dê gozo, não há nenhum
proveito a tirar daqui e o nosso único pensamento
deve ser ficar com o máximo de ódio por tudo
isto!”
Estaria a exagerar?… Quem passou pela tropa no tempo
da guerra colonial deve achar tudo isto uma grande mariquice.
Um tipo a queixar-se de passar todo o dia a fazer ordem
unida, enquanto milhares de jovens morreram e muitos mais
correram perigo de vida, lutando numa guerra absurda, que
marcou uma geração. Por um lado, isto é
verdade mas, por outro, o facto de não haver guerra
nenhuma, o facto de, depois da recruta, os médicos
militares se limitarem a consultar os familiares castrenses,
torna a recruta ainda mais absurda.
Outro exemplo: as regras para as refeições,
que cito na carta de 3 de Setembro:
“Às 7h 20, formamos para o pequeno almoço,
às 12h 40, para o almoço e às 18h 20,
para o jantar. O alferes ou furriel de serviço dá
vozes de firme, sentido, direita volver, em frente marche,
e vamos avançando, em fila indiana, para o refeitório.
Aí vamos ocupando as mesas, que são de seis
pessoas, sem que nenhum lugar fique vago; e o que fica à
ponta direita da mesa é o “chefe de mesa”;
é ele que serve os seis “convivas”, despeja
os restos da comida, vai guardar os talheres, arruma a mesa.
Depois levantam-se os seis, arrumam os bancos debaixo da
mesa e aguardam que venha um superior. O chefe de mesa pede
licença para sair e, depois de ser concedida, diz
“firme, sentido, direita volver, destroçar”,
e saem os seis. Só com um pano encharcado nas trombas
destes gajos!”
Era mesmo do que aqueles cem licenciados estavam a precisar,
todos com quase trinta anos: que alguém lhes ensinasse
boas maneiras à mesa!
Mas se eu achava que a recruta era um absurdo, obviamente
que os nossos instrutores não tinham essa opinião.
Transcrevo um naco da carta de 4 de Setembro:
“Hoje tivemos uma conversa, aliás monólogo,
com o nosso coronel, que é o responsável pela
instrução. Trata-se de um tropa profissionalão,
mas armado em liberal. E foi mais uma sessão de humilhação,
ouvi-lo tentar justificar o nosso recrutamento, a necessidade
da nossa presença aqui, buscando argumentos incríveis,
como a possibilidade de uma guerra mundial; nesse caso,
mesmo os médicos, como ele disse, podem ter que enfrentar
um pára-quedista inimigo!”
Pois claro!… Guerra mundial!… Pára-quedista
inimigo!…
Anos depois, ao ver o filme “Full Metal Jacket”,
do Kubrick, vieram-me à memória alguns momentos
da minha recruta. O filme passa-se no tempo da guerra do
Vietnam e tem duas partes distintas: na primeira, os recrutas,
para além de treinarem técnicas de combate
e fazerem exercícios duríssimos, também
aprendem coisas idiotas, como manter as botas impecavelmente
engraxadas para se apresentarem na formatura, como deve
ser; na segunda parte, é a morte, a destruição,
o horror dos campos de batalha. O contraste entre a recruta
e as idiotices que a instituição militar veicula,
mesmo em tempo de guerra, e a realidade da guerra, fica
bem patente nesse filme. No meu caso, nem guerra havia mas
– e se aparecesse, de repente, um pára-quedista
inimigo?…
Às 17 horas terminava a nossa guerra e podíamos
ir à vida até à uma da manhã.
Mas ir para onde? Como? Jantar às Caldas da Rainha
mascarados com a horrível farda verde nº 2?
Nem pensar!
Foi então que eu, o Castro Caldas, o tal oftalmologista
(Vítor Ferreira), um policlínico (Mário
Santos) e um advogado (Botelho Moniz), alugámos um
quarto numa pensão das Caldas, só para tomarmos
um duche e despir aquela farda incrível, trocando-a
pela nossa roupa. Depois, já podíamos passear
pela cidade, entrar num café e jantar calmamente,
sem passarmos pela vergonha de sermos reconhecidos como
garbosos militares das Forças Armadas.
Na carta do dia 11, descrevo a instrução nocturna,
outra palhaçada abominável:
“A instrução nocturna resume-se
à seguinte frase: “90 licenciados ouviram um
furriel mijar”! É um facto! E nenhum de nós
acreditava que eles conseguissem chegar a este ponto e,
francamente, nem sei por onde começar. O melhor é
começar pelo princípio, metodicamente, a ver
se não me esqueço de nenhum pormenor. Pelas
21 horas, a 5ª Companhia formou, equipada com cinturão,
suspensórios, cantil e bornal. Estavam todos os instrutores
e o nosso capitão Ângelo. Em marcha, dirigimo-nos
para o pinhal e embrenhámo-nos na noite até
chegarmos a uma clareira. Então, em pé, com
o peso daquele material todo e ainda a G-3, começámos
a ouvir e a ver o maior chorrilho de asneiras que imaginar
se possa. O objectivo, segundo parece, era ensinar como
se deve comportar um combatente durante a noite. Caraças!
A idiotice foi tamanha que me é difícil começar…
Pois, o capitão começou por nos ensinar que,
de noite, não se deve acender uma luz porque, de
noite, a luz vê-se melhor que de dia; o mesmo para
o cigarro e respectivo fósforo. Então, mandou-nos
olhar para uns arbustos circundantes à clareira,
onde um dos furriéis acendeu uma lanterna: estava
provado que a luz se vê melhor de noite que de dia.
Note-se que os tais arbustos estavam a dois ou três
metros da clareira, mas o capitão comunicava com
os furriéis escondidos, através de um pequeno
rádio, quando bastaria apenas falar mais alto. Seguiram-se
alguns exemplos sobre ruídos, que se devem evitar
de noite. Espectáculo maravilhoso: primeiro, alguém
conversava; depois, alguém andava pisando a caruma
seca e – finalmente! – um furriel a mijar. Só
que ele não tinha vontade, pelo que teve que despejar
o cantil, a fim de simular a urina. Comentário do
capitão: “o nosso furriel não tem vontade
de urinar!…” E assistimos a mais demonstrações:
a tosse, o cigarro a acender-se e o cachimbo, para se sentir
o cheiro do tabaco.”
Digam lá se isto não é mesmo ridículo?…
O problema é que eu não estava em condições
de achar graça a esse ridículo – as
preocupações financeiras, o afastamento da
minha vida profissional e familiar e o incómodo e
revolta que aquela situação me provocava,
aumentavam a frequência e a intensidade das extrassístoles.
E, meus amigos, posso-vos garantir que é complicado
marchar ao som do bombo e da tarola, dando voltas à
parada sob um calor tórrido, levando às costas
toda a parafernália castrense e sentindo o coração
aos pulos, parecendo querer saltar pela boca…
O único momento feliz daqueles dias de recruta era
a chegada do correio; sem falhar, todos os dias lá
tinha uma carta da Mila, descrevendo-me o seu dia a dia,
como tinha que ir, por vezes, fazer consultas com os miúdos,
porque não tinha onde os deixar, os domicílios
que fazia, as voltinhas pelo jardim. Numa dessas cartas,
recebi um desenho do Pedro e uma carta, que ele escreveu
sem qualquer ajuda e que, para além de alguns erros
ortográficos aceitáveis para um puto que ia
entrar na 2ª classe, demonstrava a influência
alentejana, ao escrever, por exemplo, “vou acabare…”,
arrastando a última sílaba da palavra “acabar”;
a Marta também fez questão de me enviar um
desenho, em que eu sou representado com uma grande bola,
com dois pés e um bigode imenso que me envolvia a
boca toda.
Outro problema da recruta era o da alimentação,
de muito má qualidade.. Cito um pedaço da
carta do dia 18:
“São 20 horas e, dentro de uma hora, partimos
para a xaropada da instrução nocturna, após
um jantar óptimo, aqui no refeitório, que
consistiu em sarda cozida. Assim que senti o cheiro e recordei
a comida que fazes para o Snoopy, fui incapaz de comer,
pelo que jantei um prato de sopa, um pacote de batatas fritas,
dois pacotes de amendoins e um pacote de bolacha baunilha,
para além de uma cerveja.”
No entanto, alguns dias mais tarde, após uma manhã
inteira a fazer o que eles intitulavam de “ginástica
até à morte”, cheguei ao refeitório
tão esganado de fome que mamei as sardas todas e
até lambi os beiços! A partir desse momento,
eu, que teimava em dizer que não gostava de sardinhas
assadas, tornei-me um fã incondicional dos excelentes
peixinhos prateados. Foi, talvez, a única coisa boa
que trouxe da recruta...
Voltando à instrução nocturna:
“Agora vou-me mascarrar. É verdade: mascarrar
a cara com uma rolha queimada, para o IN (inimigo) não
nos detectar! Isto é uma palhaçada!…
(…) Regressámos! Está tudo superfodido!
Mais uma vez eles ultrapassaram todas as expectativas. Desta
vez, a instrução nocturna consistiu em caminhar
das 21h às 23h 30, andar, andar e, de vez em quando,
ouvia-se um tiro, e lá estávamos nós
deitados no chão, por cima das silvas, todos cagados
e arranhados. Não sinto os tornozelos, as coxas estão
em brasa e estou lixado com tudo isto. Que palhaçada!
O que andaram 90 homens ali a fazer durante duas horas e
meia? Estou completamente lixado e só me apetece
dizer obscenidades, foder estes gajos todos!
(…) Hoje, mais uma surpresa: foram exibidos dois filmes
na aula de instrução individual do combatente
– um sobre camuflagem e outro sobre a utilização
do telefone de campanha, ambos americanos, dobrados em brasileiro.
Ano da realização: 1950!!! É assim
que os nossos soldados andam a ser instruídos! O
conteúdo dos filmes era obviamente idiota e, durante
o segundo, adormeci e até sonhei, sendo acordado
pelo alferes.”
Que tal? Filmes de 1950 na instrução de recrutas,
trinta anos depois! Mas a fantochada continuava e quase
todos os dias havia uma cena nova que enriquecia, ainda
mais, a farsa da recruta.
Transcrevo parte da carta de 30 de Setembro:
“De manhã, após a ginástica
até à morte, tivemos uma das cenas mais hilariantes
de toda a recruta: o recebimento do pré. Fomos vestir
a farda nº 2, com gravata e, um a um, por ordem numérica,
fomos à secretaria receber o pré, exactamente
599 escudos, depois de fazermos os salamaleques da praxe:
continência, meu capitão dá licença,
apresenta-se o soldado tal a fim de receber o seu pré,
recebe o dinheiro com a mão direita, passa-o para
a mão esquerda, faz continência, pede novamente
licença, meia volta volver e destroçar.”
Foi o meu ordenado, em Setembro de 1980: 599 escudos, enquanto
a esmagadora maioria dos meus colegas, algures no SMP ganhavam
cerca de 25 contos mensais, fora as horas extraordinárias
– tudo a bem da Nação!…
Mas a carta do dia 1 de Outubro reservava outra surpresa,
que passo a transcrever:
“Algures num eucaliptal, perto da Foz do Arelho,
dia 1 de Outubro, 14h 30:
Isto é inconcebível! Nunca pensei que viesse
a passar por estas coisas! O meu estado de espírito,
neste momento, é perigosíssimo para alguém
que tivesse a veleidade de se meter comigo! Apetece-me destruir,
ser violento, dar cabo desta merda toda! Ali ao fundo, o
coronel, o tenente-coronel, o capitão, o tenente,
os alferes e os furriéis, sentadinhos a uma excelente
mesa, mandibulam frango com batatas e emborcam Carslberg
fresquinhas! Nós, os doutores, os soldados cadetes,
acabámos há pouco a nossa misérrima
refeição na marmita, sentados no chão
e aproveitamos, agora, estes minutos de descanso, deitados
nos abrigos, que nós próprios escavámos
de manhã! Esta cambada brinca assim às guerras
à nossa custa e até vamos ter um ataque do
IN, logo pela madrugada! Estes três últimos
dias têm-me custado imenso a passar, muito mais que
a terceira e quarta semanas. Farto até à medula
dos ossos, cada vez mais revoltado com este absurdo, não
posso ver as fuças dos oficiais e mesmo as de alguns
dos meus camaradas! Se isto durasse mais uma semana, fugia
ou tentava outra maneira qualquer de me livrar desta idiotice!
Às 8h 20 de hoje, estávamos formados com G-3,
cantil, bornal com pano de tenda, marmita, mochila com cobertor,
colchão pneumático e outros acessórios.
Depois das mariquices da praxe, começou a marcha
até ao local do acampamento: foi cerca de uma hora
e dez minutos, sob um sol escaldante, mais ou menos sete
quilómetros. Cada pelotão foi dividido em
três secções, cada secção
com três tendas; fiquei com o Calado e com o Gião;
montámos a tenda, fizemos a camuflagem, insuflámos
os três colchões e cavámos os três
abrigos. Não vale a pena dizer-te quão suado
e cagado fiquei no fim deste trabalho todo, mas já
nem ligo à porcaria. Na merda, está-se bem
emerdado! Por volta das 13 horas, chegou uma Berliet com
o almoço; formámos, foram-nos distribuídos
talheres e, em fila, passámos pelos panelões,
onde cabos despejavam a comida nas marmitas. Muito interessante!
Cambada de cabrões, filhos da puta, inqualificáveis!
(…) São 7h 40 de 5ª feira, estou sentado
no meu abrigo, à espera do pequeno almoço.
Estou sujíssimo, cheiro mal, estou todo picado por
mosquitos e estupefacto com tudo isto. Estes gajos continuam
a surpreender-me.
Depois do almoço, formámos e arrancámos
para uma nova caminhada tendo, no total, percorrido mais
uns três ou quatro quilómetros. Cada uma das
três secções do pelotão tinha
um itinerário marcado no mapa e havia que segui-lo,
progredindo como verdadeiros combatentes, com passo fantasma,
deita, levanta e etc. Claro que, a cada curva, disparavam
sobre nós ou atiravam-nos granadas, que fazem um
basqueiro dos diabos, abrindo verdadeiras crateras no chão.
Andámos toda a tarde nesta fantochada e chegámos
ao acampamento pouco antes das 19 horas. Seguiu-se o jantar:
uma espécie de arroz à valenciana, que me
deixou com azia toda a noite. Pormenor interessante e bem
demonstrativo do “espírito militar”:
de cinco em cinco cadetes, um levava uma garrafa de vinho,
mas o seu número ficava registado para, depois –
em formatura! – as garrafas vazias serem devolvidas!
Pelas 21 horas partimos para a instrução nocturna:
mais quatro quilómetros, ainda mais cansativos, porque
feitos devagar, e mais tiros, mais granadas. Chegámos
às 24 horas e , finalmente, pudemos descansar, isto
é, deitarmo-nos três numa tenda individual,
vestidos, com botas e G-3, sem espaço para nos mexermos
e com a promessa de que o IN poderia atacar a meio da noite.
Às 6 da matina fomos invadidos por uma legião
de melgas e mosquitos e estou mordido por todo o corpo.
Afinal o IN não atacou! Que desilusão! Claro
que a alvorada, às 6h 30 foi com duas granadas e
rajadas de G-3, sair das tendas e enfiarmo-nos nos abrigos.
(…) Foram escolhidos quatro cadetes, dos que aguentam
menos esforços físicos, para servirem de quarteleiros.
Funções: ir ao quartel, de Berliet, buscar
as refeições e…. servir os oficiais
à mesa!
Agora são 13h 20 e estou de sentinela! O almoço
foi penoso: um bife pestilento, comido na marmita, com prodígios
de equilíbrio e, ainda por cima, no posto de sentinela.
(…)
Já estou em São Martinho do Porto, a beber
gin Gordon’s (110 paus!)! Estou todo estragado, os
pés cheios de bolhas, a cabeça a estalar:
Para terminar o segundo dia de campo: um incêndio!
Estava eu de sentinela quando vejo, ao fundo, sobre um morro,
um grupo de militares de outra companhia a lançar
uma granada que, depois de estoirar, pegou fogo ao capim
circundante. Como boa sentinela, gritei fogo! enquanto o
tal grupo de militares fugia. O capitão aproximou-se
e, com a sua habitual rusticidade, perguntou: “Ó
sentinela, aquilo começou há muito tempo?”,
ao que lhe respondi que não, que começou agora
mesmo, e contei-lhe o que vira. Comentário do distinto
militar: “os gajos que se desenrasquem!” Mas
o fogo pegou mesmo e em poucos minutos ganhou uma frente
considerável e ameaçava já o acampamento.
O capitão começou a ficar inquieto, hesitou
uns minutos mas acabou por, finalmente, dar ordens para
mandar chamar os bombeiros. Entretanto, de notar que estavam
ali 90 cadetes que, no início do fogo, poderiam ter
resolvido o assunto rapidamente. Mas não, as ordens
para os cadetes, que entretanto se aglomeravam a mirar as
chamas e a comentar, em surdina, a incompetência do
capitão, as ordens foram: apanhar todos os papéis
que, porventura, estivessem no chão do acampamento!
Mas eis que chegam os bombeiros, não mais que uma
dúzia, e constatam a grandeza do fogo, que ameaça
já um extenso pinhal. É pedida, finalmente,
a colaboração dos cadetes, a conselho dos
bombeiros, que verificaram serem poucos para a extensão
do incêndio. Claro que, com a ajuda de 90 homens,
apagando o fogo com ramos verdes de eucalipto, aquilo foi
questão de vinte minutos. Compensação?
Marcha acelerada para o quartel, porque já estávamos
atrasados. Fizemos o percurso de regresso em apenas uma
hora. Quando chegámos, totalmente esgotados, formámos
e o capitão disse que amanhã falaria sobre
os cadetes que mais se tinham evidenciado no combate ao
incêndio! Porra! No comments!”
Estes dois dias no campo foram o epílogo adequado
para a fantochada da minha recruta. O que estiveram ali
a fazer noventa licenciados, metidos em tendas minúsculas
ou resfolegando em covas abertas na terra, marchando, rastejando,
tapando os ouvidos quando alguma granada rebentava? E que
gozo deve ter dado aos senhores oficiais ver os médicos
e os advogados a comer da marmita, sentados no chão,
partilhando uma garrafita de vinho, enquanto eles, sentadinhos
à mesa, eram servidos pelos doutores e matavam a
sede com cerveja dinamarquesa!
Tal como eu previra, a recruta serviu, no entanto, para
uma coisa: a consolidação do meu ódio
pela instituição militar, que se mantém
ainda hoje, tão forte como há vinte anos.
Serviu, ainda, para três coisas que eu nunca tinha
aprendido, a saber:
1ª Defecar, de cócoras, para um buraco, sem
cagar os calcanhares;
2ª Tomar banho num lava-pés, porque nunca havia
água nos duches
3º Comer sardas cozidas, sabendo que sabiam a comida
de gato e não vomitar.
Mal me lembro do juramento de bandeira… A minha irmã
ainda me escreveu uma carta, perguntando se a cerimónia
seria pública. Se calhar, estava a pensar ir assistir
a mais uma fantochada… Claro que foi pública,
mas ninguém da minha família foi assistir,
felizmente.
Assim que aquilo acabou, foi arrumar a tralha e partir para
Mourão, rápido e em força, para bem
longe daquela merda toda.

Digam lá se não pareço um oficial
sul-americano, preparando-se para mais um golpe de Estado?...
O Exército que permite fotografias destas, é
um exército que está á beira da palhaçada.
Só tornei a vestir a farda mais uma vez e foi para
tirar uma foto oficial como aspirante médico. Outra
fantochada. Todos em fila indiana, numa dependência
qualquer do Hospital Militar da Estrela, em Lisboa. Entrávamos,
um a um, numa sala onde estava um fotógrafo, que
nos dava uma camisa branca, uma gravata, um boné
e um casaco de aspirante; vestíamo-nos e o tipo batia
a chapa. Foi assim que fiquei com uma foto minha, fardado
de aspirante da cintura para cima e com as Levi’s,
da cintura para baixo. O meu bigode já voltara a
crescer e tinha barba de três dias. Pareço
um ditador sul americano. Ofereceram-me seis fotos dessas
tipo passe e, como recordação, um postal,
que colei num bocado de aparite, com os seguintes dizeres:
“O Presidente de (quase) todos os portugueses –
vão por mim: a solução está
no gin!”
Como, mais tarde, escrevi para o Pão Comanteiga,
“o melhor da tropa são as lições
de ballet”.
Absurdo.
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