Yellowstone National Park, 10 de Maio – I

A caminho do Yellowstone National Park. Noite agradável na cabana do Buffalo Bill, bem quentinha, apesar do frio, lá fora. O pequeno-almoço foi vulgar, mas tivemos direito a torradas.

Hoje vamos visitar o Yellowstone, um Parque Nacional com mais de 100 km de comprimento. Acabámos de passar sobre o Shoshone river e vamos entrar nas montanhas, outra vez.

A primeira paragem foi no Buffalo Bill Reservoir, um grande lago que se formou na dependência de uma barragem.

Mais í  frente, depois de passarmos por um longo troço em obras e atravessarmos uma vasta floresta queimada, avistámos um urso negro, calmamente comendo erva, í  beira da estrada. Para além da neve, outra coisa que infantiliza os adultos, é o avistamento de animais selvagens.

Mal se avistou o urso, toda a gente começou aos gritos.

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Seguiu-se o Yellowstone Lake, o maior lago de montanha dos States. Está a 2 300 metros de altitude e tem 30 por 50 km de extensão. Grande parte do lago ainda está gelada. Nas margens, diversas fumarolas expeliam o seu fumo, com cheiro a enxofre.

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Um pouco mais í  frente, mais excitação: junto í  estrada, três bisontes a pastar e, um pouco mais além, dois ursos grizzly, eventualmente, mãe e filho. Mais uma paragem para fotos; os ursos deram-nos até o prazer de brincarem um pouco sobre a neve e de se porem em pé.

Seguimos, depois, ao longo do Yellowstone river, e ainda vimos dois pelicanos, até chegarmos a um conjunto de fumarolas e vulcões de lama e água a ferver, a sair do solo. Cheirava a Açores.

Big Horn Mountains, Cody, 9 de Maio

Está a nevar, em Lead!

Lead é uma pequena cidade, colina acima, salpicada de pinheiros de natal. Hoje, í s 6 da manhã, estava a nevar!

Devia ter começado a nevar pouco tempo antes. Passada meia hora, o panorama era de bilhete-postal de Natal. Os pinheiros brancos, as pequenas casas cobertas de neve, a colina toda branca. E a neve a cair incessantemente. A neve, embora não seja rara nesta época do ano, também não é assim tão frequente. Foi uma surpresa afradável.

Toda a gente, mesmo os que estão habituados a neve, estava exultante. A neve parece ter este efeito nas pessoas, infantilizando-as.

Hoje, vamos até Cody. Serão cerca de 400 km.

Entrámos no Wyoming. O Wyoming é conhecido como the cowboy’s land. Não chega a ter meio milhão de habitantes. Está a nevar novamente. A paisagem é branca e plana. O alcatrão da estrada faz o contraste.

Fizemos a nossa primeira paragem numa terreola chamada Gillette. O sol já brilha, o que faz com que grandes pedaços de gelo, desabem dos telhados das casas. A temperatura está perto dos zero graus, mas aguenta-se bem. Parámos num McDonald’s, para um hot chocolat e um cookie.

Esta região do Wyoming é muito rica em carvão. As minas de carvão, a céu aberto, negras, contrastam com os campos, brancos, pela neve.

TIP – “to insure promptitude”. Esta é a grande instituição nacional americana. A média da gorjeta é de cerca de 15% do que se paga. Se a refeição custar 10 dólares, pagas dólar e meio de gorja. Os empregados das lojas são taxados por presunção, isto é, pagam IRS, partindo do princípio que deverão receber uma certa quantia em gorjetas, dependendo do emprego que ocupam. Sendo assim, se não dermos gorjeta, estamos a prejudicar os trabalhadores. Por outro lado, em busca de uma boa tip, todos os empregados são extremamente simpáticos, sempre prontos a ajudar.

Não me importava nada de apoiar a instituição da tip, em Portugal, se soubesse que isso implicaria uma mudança de atitude na maioria dos empregados das lojas.

Por aqui, na dita América profunda, não são só os empregados das lojas que parecem muito simpáticos. Toda a gente te cumprimenta, na rua. Há sempre um “how are you today?”, um “can I help you?”, um “have a nice day”, um “where are you from?”. E estas interpelações não soam intrometidas, nem forçadas – parecem genuínas e não sentes que a tua privacidade está a ser ameaçada. Sentes-te em casa.

Em Sheridan – paragem para almoço, antes de entrarmos nas montanhas Big Horn, que se vêem lá ao fundo, cobertas de neve; sobre elas, nuvens pesadas e ameaçadoras.

Parámos num grande espaço, para almoçar. Opções: Taco Bell, McDonald’s e Arby’s. Escolhemos este último porque sim e comemos uma refeição tão rápida que acho que já fiz a digestão.

Mais um momento alto desta viagem: atravessámos as Big Horn Mountains. Um espectáculo! O nome vem daquela espécie de carneiros com cornos muito grandes e retorcidos, espécie quase extinta, actualmente. Só vimos dois ou três, e de fugida. O pico mais alto, ultrapassa os 4 mil metros. A estrada que percorremos, chega aos 3 mil. A nossa passagem esteve em dúvida, tendo em conta o nevão desta manhã mas, felizmente, a estrada estava aberta e a visibilidade era óptima.

Durante cerca de uma hora, rolámos pela montanha, rodeados de pinheiros ponderosa, cobertos de neve e extasiados pela paisagem, agreste e bela. Cada curva da estrada, proporcionava nova imagem, melhor que a anterior. No meio do manto branco e de toda aquela vegetação, aqui e ali, grandes blocos de granito.

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Parámos por duas vezes, para apreciar melhor a paisagem. E, depois, começámos a descer. A neve foi desaparecendo, as árvores começaram a rarear, dando lugar í s rochas nuas. Ainda parámos numa zona chamada Shell Falls, onde um pequeno riacho foi escavando um canyon na montanha, e onde existe uma pequena cascata.

Se pensam que A-dos-Cunhados ou Venda das Raparigas são nomes estranhos para localidades, aqui vão alguns nomes de localidades, aqui, no Wyoming: Gillette, Atomic City, Montpelier, Alcova, Dinossaur, Eureka, Medicine Bow, Ten Sleep.

Se alguma vez vierem a Cody, fiquem nas Buffalo Bill Villages e jantem no Tard Q Restaurant. They’re the best!

Assim que entrámos em Cody, tivemos aquela sensação de déja vu. Cody é uma cidade como as que se vêem nos road movies: uma rua principal, larga, larguíssima, com edifícios de um só piso, semáforos e grandes placas, pendurados nos cruzamentos; ao fundo, a imensa montanha, coberta de neve.

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Visitámos o Museu do Buffalo Bill, durante cerca de hora e meia. É um museu peculiar: uma ala dedicada aos índios, que o Buffalo Bill ajudou a exterminar, outra só para o cowboy, outra para a história natural da região, uma imensa gift shop.

William “Buffalo Bill” Cody talvez tenha sido um dos primeiros americanos a entrar no show business: foi vaqueiro, estafeta do Pony Express, batedor do exército americano, caçador de búfalos, pioneiro do turismo no far-west e ainda teve tempo para montar um espectáculo de circo, em que recriava o tempo em que os cowboys e os índios andavam í  pancada. Viveu 71 anos e dá a sensação que, desde o princípio, soube que se ia transformar numa lenda, tal foi a maneira como geriu a sua vida e deu publicidade aos seus feitos.

O museu acaba por ser bizarro, porque estamos a falar de um tipo que viveu num país que estava a nascer, numa altura em que a vida devia ser difícil, mas que não descobriu nada, não inventou nada, não influenciou a História do mundo mas que, de certeza, é mais conhecido do que, por exemplo, o Vasco da Gama.


Badlands, Black Hills, Mount Rushmore, Lead, 8 de Maio

7h 30 ““ Saímos de Sioux City, em direcção a Lead.

O pequeno-almoço foi mais uma desgraça americana. O Clarion Hotel decidiu oferecer o pequeno-almoço. Então, atirou com uns quantos baggels, que são duros como cornos, e outros quantos muffins, para cima de uma mesa, juntou-lhes café e sumo de laranja de pacote e chamou a isto, pomposamente, continental breakfast!

Vamos em frente.

Serão mais 800 km. Diz-se por aqui: “…this is not the end of the world, but you can see it from here…”

Fizemos a nossa primeira paragem em Mitchell, já no South Dakota. Esta pequena localidade, no meio de lado nenhum, decidiu passar a vir no mapa, usando os seus próprios recursos. Assim, em 1892, os habitantes de Mitchell construíram um palácio em madeira, e decoraram-no com maçarocas de milho. O sucesso foi tão grande, que a coisa foi crescendo. Hoje em dia, o Corn Palace é de tijolo e, lá dentro, tem espaço para a realização de jogos de basquetebol, concertos, festivais. Por fora, toda a decoração é feita com maçarocas de milho. Todos os anos, por altura das colheitas, a decoração é renovada. No topo do palácio, minaretes dão-lhe um toque ainda mais bizarro.

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Este mirabolante Corn Palace fica na Maine Street de Mitchell e está rodeado de pequenas lojas de souvenirs e bares, em edifícios térreos, que fazem lembrar as cidades de cowboys.

A propósito deste show off tão tipicamente americano, sublinhe-se o facto de quase todos os restaurantes, cafés e bares, serem os melhores do mundo em alguma coisa, e anunciarem-no em letras garrafais. Em Sioux City, um restaurante chamava-se Famous Dave. Será que é famoso desde que foi inaugurado ou, começou por ser, simplesmente, Dave Restaurant e, depois, í  medida que foi sendo conhecido, acabou por passar a ser o Famous Dave?

O Aurélio”™s Pizza, em Chicago, tinha “…the most famous pizza in the world“. E todos têm uma qualquer característica que os transforma nos mais populares, ou mais tradicionais, ou, mais simplesmente, os the world”™s best!

Uns convencidos, estes americanos…

Almoçámos no Al”™s Oasis, que fica logo ali ao lado do Missouri. Desta vez, tivemos a oportunidade de degustar uma salad bar, composta por mistela de galinha e massa, acompanhada por saladas diversas. Enfim, comeu-se…

Entretanto, começou a chover. A estrada continua, sempre em frente, através de campos infinitos, verdejantes. Aqui e ali, pequenas quintas, com celeiros. De vez em quando, vacas a pastar. No Dakota do Sul, a população não chega ao milhão de habitantes.

Ao contrário da maior parte das nações, os States não conquistaram as suas terras: compraram-nas. Já conhecia a velha história da compra de Manhattan aos índios, pelo equivalente a 24 dólares. Fiquei agora a saber, que o Presidente Jefferson comprou a Louisiana a Napoleão, por 15 milhões de dólares, o que só prova que Napoleão não era nenhum índio!

Naqueles tempos, a Louisiana era um território extenso, que ia desde o sul dos actuais States, até ao Canadá, incluindo esta região do South Dakota. O Louisiana, era maior que os EUA de então. Jefferson não sabia muito bem o que estava a comprar e Napoleão não sabia muito bem o que estava a vender. A maior parte da região, ainda não tinha sido explorada. Depois da compra, Lewis e Clark organizaram uma expedição, para explorarem estas terras de ninguém. Só depois é que os americanos começaram a matar os índios (como se sabe, os únicos índios bons são os índios mortos; o mesmo acontece com os polícias…)

As Badlands são outra daquelas coisas especiais que vão ficar na nossa memória, como Machu Pichu, Guilin, o Amazonas, o Grand Canyon…

As Badlands são um conjunto de montanhas arenosas, com estratos sedimentares e que se foram formando í  medida que o Oceano foi recuando. Os índios e os pioneiros americanos, chamavam-lhes The Wall e, com efeito, após quilómetros de pradaria, erguem-se estas montanhas, como se fossem uma parede intransponível.

Tivemos sorte com o tempo: o sol abriu por entre as nuvens e até estava calor. Os flocos de nuvens sobre as rochas e a alternância de luz e sombra, conferem diferentes visões destas rochas. Algumas elevam-se, num imenso vale; outras, parecem abrir caminho para baixo. Paisagem lunar.

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Agora, vamos a caminho do Monte Rushmore, enquanto nos divertimos a ver os prairie dogs, de pé, nas patas traseiras, junto í s tocas. São í s dezenas. Mas tão pequenos e tão rápidos, que é impossível fotografá-los.

Entretanto, ganhámos uma hora, porque passámos um paralelo, algures na imensa estrada.

O Monte Rushmore é mais outra daquelas coisas que não lembrava a mais ninguém, senão aos orgulhosos patriotas americanos. Esculpir as cabeças de quatro presidentes (Lincoln, Jefferson, Washington e Roosevelt), no topo de uma montanha, num local praticamente inacessível, deve ter sido tarefa árdua. A obra ficou pronta pouco antes de começar a II Grande Guerra.

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A nossa visita ao Monte Rushmore esteve em risco. Quando chegámos í s Black Hills (assim chamadas porque a densa floresta dá uma cor negra í s montanhas), começou a chover intensamente. No entanto, quando atingimos o topo das montanhas, parou de chover e, apesar de o céu estar plúmbeo, a visibilidade era boa.

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Estava um frio do caraças, a contrastar com o calor das Badlands e o chão estava cheio de pedaços de gelo.

Só mesmo os americanos, para esculpir a capa de um disco dos Deep Purple, no cimo de uma montanha!…

Passámos a noite em Lead (pronunciar Lidz), uma pequena cidade que nos parece curiosa e que foi, no século 19, uma cidade mineira ““ daí que as Black Hills, aqui, assumam o nome de Golden Hills.


Sioux City, South Dakota, 7 de Maio

Partimos í s 7h 30, em direcção a Sioux City (pronunciar “…Su City”). Serão 860 km!

A primeira paragem foi no Welcome Center, í  entrada do Iowa. Percorremos a interestadual 80, acabámos de passar sobre o Mississipi, deixando o Illinois e parámos meia hora neste local agradável. No topo de uma colina verdejante, uma pequena casa de madeira, com uma gift shop, café í  borla (o café é tão mau, que os americanos não se importam de o oferecer…) e as inevitáveis casas de banho. Um sol acolhedor e muitos passarocos a chilrear.

On the road again.

Almoçámos no Pine Cone Restaurant, in the middle of nowhere, algures entre Iowa City e Des Moines. A comida é mesmo bera. Um buffet com frango cozido, que sabia a doença de infância, uma massa embebida num molho com sabor a baunilha, umas fatias de carne desenxabida, um pão doce e seco. A acompanhar, água, que nem cerveja havia! Uma tortura!

í€ nossa volta, americanos do campo, red necks, como os que vemos nos filmes, grandes, loiros, gordos e estranhos.

Em redor do restaurante, dezenas de trucks, que fazem as nossas delícias. Há-os de todas as cores, sempre brilhantes. Dominadores da estrada.

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E continuamos a viagem.

A auto-estrada é uma fita negra a perder de vista, ladeada por campos de milho imensos. O Iowa é um dos maiores produtores de milho do mundo; 90% da produção, destina-se a alimentar o gado e apenas 10% vai para os corn flakes.

A interestadual 88 não tem muito trânsito hoje, talvez por ser domingo. Mesmo assim, os grandes camiões passam constantemente. Só para se ter uma ideia da extensão desta auto-estrada, basta dizer que, estando cada saída numerada, a do Pine Cone Restaurant, era a número 200 e ainda vamos a meio do caminho…

Se os Sioux vivessem em Sioux City, provavelmente morreriam de tédio. É uma cidade morta, num domingo í  tarde. Chegámos por volta das 18h e partimos logo para uma voltinha pela cidade. Em 10 minutos, o principal estava visto: um quarteirão, que eles dizem ser histórico, com edifícios antigos, recuperados e ruas desertas, um Centro de Convenções, dois cinemas gigantescos, os correios e o hotel Clarion, tudo em tijolo escuro. Há dez anos, esta cidade estava viva, pululando de gente, graças a múltiplas lojas de artigos pornográficos. A segurança era pouca mas, pelo menos, havia animação…

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Chicago, 6 de Maio

A primeira visita foi í  Sears Tower, que é o edifício mais alto da América (442 metros) e o terceiro mais alto o mundo (depois do Taipe 101, em Taiwan e das Petronas Towers, em Kuala Lumpur).

Chegámos 10 minutos antes da hora de abertura (9 horas). Fomos dos primeiros a subir. São 103 andares e, lá de cima, o panorama é soberbo – uma verdadeira vista área, como já acontecia nas Twin Towers.

Acresce que toda a área de Chicago e arredores é completamente plana, pelo que se vêem estradas a perder de vista, que parecem ir até ao infinito.

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Do lado leste, é o Lago Michigan que domina; tão extenso que não lhe vês o fim (500×200 km). Parece um Oceano. Olhando para baixo, vemos os braços do Chicago River, apertados entre os arranha-céus, que ocupam todo o espaço disponível, até í  margem do rio que, em alguns casos, é formada pelos próprios edifícios.

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De regresso ao nível do mar, começámos a percorrer as ruas, em direcção í  Michigan Avenue. Uma das características mais marcantes da cidade é o comboio, cuja linha passa toda sobre as ruas, ao nível do 2º ou 3º piso dos prédios, em alguns casos, mesmo junto í s janelas. As linhas estão alcandoradas numa estrutura de ferro que já viu melhores dias e todo o conjunto parece estar pronto a desmoronar-se a qualquer momento. Nos pontos em que a linha passa para o outro lado do rio, vemos, de cima para baixo, o comboio, a ponte com os carros e, finalmente, o rio, o que não deixa de ser pouco habitual.

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Chegados í  Michigan Avenue, entrámos no Starbucks, para beber um terço do tal café small e comer um plain baggel, aproveitando para descansar um pouco as pernas. Subimos, então, o pedaço da Michigan a que chamam The Magnificent Mile. E porquê magnificent? Porque estão lá todas as lojas de marca, e porque toda a avenida está bordejada de flores, sobretudo túlipas, das mais variadas cores. Cada canteiro é patrocinado por um hotel ou por uma loja, que se responsabiliza pela manutenção do mesmo – e são verdadeiros arranjos florais ao ar livre, com a combinação das várias túlipas com arbustos.

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í€ medida que a manhã avançava, a Michigan ia-se enchendo de pessoas, quase todas com um copo na mão, que é outra característica dos americanos. Em cada esquina, um negro pedia change. Mas tudo muito ordenado, como se até os sem abrigo se regessem por algum código de conduta, imposto pela municipalidade. Não sentimos insegurança em lado algum.

O Navy Pier é mais uma daquelas adaptações de um antigo molhe. Ao longo da margem do Lago Michigan, uma série de restaurantes, uma roda gigante, minigolfe e outras atracções. A animação era muita, sobretudo í  custa de uma espécie de festa, em honra da Polónia. Por todo o lado, polacos exibindo bandeirinhas, cachecóis e t-shirts, brancas e vermelhas.

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Eram quase 2 da tarde e já estávamos com fome. Foi então que nos sentámos na esplanada do Dock Street Café. As ementas dos restaurantes americanos têm algo em comum com as dos restaurantes chineses. Não percebemos nada, em nenhumas delas. Nas ementas chinesas, não percebemos porque aquilo está escrito em mandarim; nas americanas, porque os tipos inventam descrições mirabolantes para pratos ridiculamente estúpidos. Enfim, depois de estudarmos atentamente a ementa, optámos por um cuban roll e um schrimp po’ boy. O tal cubano, era um conjunto de fatias de carne inominável (peru? porco? vaca? camelo?), cobertas com cebola e tomate, tudo enfiado num french roll e acompanhado por french fries. Os camarões do pobre rapaz (po’ boy), eram fritos e cobertos cm qualquer coisa, e encaixados, também, num french roll e acompanhados, claro, por french fries. Cozinha francesa, portanto…

Enfim, uma refeição tipicamente americana. Não admira que estes gajos continuem a perder guerras…

Já a arrotar a cebola, continuámos a caminhada, percorrendo, depois, mais uma parte da Michigan e o Grand Park, que é o Central Park cá do sítio. É uma extensão imensa de relvados e árvores carregadas de flores lilases, cor-de-rosa, brancas. Ao nosso lado esquerdo, o azul límpido do lago; ao nosso lado direito, os arranha-céus alinhados, a reflectirem-se uns nos outros.

A meio do jardim, a enorme Buckingham Foutain, jorrando hectolitros de água a várias alturas, e formando arco-íris.

Continuando para baixo, chegámos í  parte do jardim, onde ficam o Planetário e o Oceanário. Desse ponto, vê-se todo o skyline de Chicago.

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Arrastámo-nos, então, de regresso ao hotel, que estava mais longe do que imaginámos. O pedómetro marcava 22 km! Eram 18h30, tinham passado 10 horas. Mal conseguíamos mexer as pernas e, no estí´mago, ainda resfolegava o cuban roll!

Pequeno dicionário familiar de expressões exclusivas

ígua mineral, da fonte hidrotermal – espécie de cantilena infantil, que pode ser usada em qualquer momento

A autoridade foge da chuva – expressão que pode ser usada, sempre que se avista um agente da autoridade

Azerbeijante – adjectivo superlativo (Ex: “que calor azerbeijante!”)

Chambote kaná! – saudação em estrangeiro; é percebida pelos falantes de todas as línguas

Cunanas – refere-se a homem indeciso, mole, sem iniciativa; o mesmo que “coninha de sabão”

Falta-lhe uma redezinha – expressão que deve ser usada sempre que, em qualquer circunstância, falte algo ao conjunto

Nesta casa, só de ferro! – exclamação que deve ser utilizada, sempre que se parte ou estraga alguma coisa, lá em casa.

O pequeno cubo azul – diz-se de algo que não pertence ao contexto

O homem dos cenários – diz-se de alguém que está fora do contexto

Perliquiteques – o mesmo que “sericócu tapete” e “triquelariques”

Sericócu tapete – mulher cheia de salamaleques

Trique-lariques – o mesmo que “sericócu tapete”, com a vantagem de poder ser usada para homens, também

Um pequeno lápis – frase que deve ser usada em vez de “um pequeno lapso”

1º de Maio, 120 anos depois

Foi em Chicago, há 120 anos, que milhares de trabalhadores saíram í s ruas, protestando contra as condições de trabalho e exigindo um horário de trabalho de 8 horas, em vez das 13 horas diárias a que eram obrigados.

Nesse dia, começou uma greve geral, que haveria de ter consequências trágicas. Três dias depois, uma concentração de manifestantes foi reprimida pela polícia, na Praça Haymarket. No meio da polícia, uma bomba rebenta e morrem alguns agentes. A polícia abriu fogo sobre os manifestantes, matando e ferindo dezenas deles. Vários militantes anarquistas foram presos e quatro deles foram executados, a 11 de Novembro de 1887.

Três anos depois, um Congresso Socialista, em Paris, criou o Dia Mundial do Trabalhador, em homenagem aos operários de Chicago.

No entanto, só em 1919 o senado francês declara o dia 1 de Maio como feriado nacional, depois de ratificar o horário de trabalho de 8 horas. No ano seguinte, a União Soviética adopta também o 1º de Maio, como Dia do Trabalhador e feriado nacional, no que é seguida por muitos países. Em Portugal, o primeiro 1º de Maio só foi celebrado em 1974, como toda a gente devia saber.

Ironicamente, nos EUA, o 1º de Maio não é feriado. O Labour Day é celebrado no dia 1 de Setembro…

O primeiro disco da banda Chicago Transity Authority contem uma faixa intitulada Prologue, August 29, 1968, a qual foi gravada durante uma manifestação que ocorreu na Convenção do Partido Democrático. Manifestantes negros gritavam: “God give us the blood to keep going”; nessa altura, a polícia tenta dispersar os manifestantes, que cantam, então: “The whole world’s watching”.

Também em 1886, todo o mundo estava a olhar para os operários de Chicago, sem o saber.

Portanto, para comemorar o 1º de Maio, hoje decidi comprar um disco dos Chicago.

Fiz mal…

Chicago 18

Chicago 18

Chicago Transity Authority iniciaram-se em 1969, com um duplo álbum que fez furor, por várias razões: não era habitual, naqueles tempos, uma banda iniciar-se logo com um duplo-álbum, assim como não era habitual, as bandas terem seis ou sete elementos, juntarem sopros í s guitarras e darem um tom “jazístico” ao rock (outro exemplo foram os Blood, Sweat & Tears).

Também neste caso, a culpa foi dos Beatles.

Segundo reza a história, Walter Parazaider (nasceu em 1945), Lee Loughnane (1946) e James Pankow (1947), todos estudantes de música, encontravam-se com músicos autodidactas, como o guitarrista Terry Kath (1946-1978) e o baterista Danny Seraphine (1948) nos bares de Chicago e tocavam de tudo, desde R&B até música irlandesa. Até que os Beatles lançaram o álbum Revolver e, no tema “Got to get you into my life”, utilizaram uma secção de metais. A partir daí, aquele grupo de músicos de Chicago, arranjou mais dois elementos (um deles, o piroso Peter Cetera) e formaram os Chicago Transity Authority, com uma forte secção de metais a apoiar as guitarras e com a particularidade de terem três vocalistas.

Ora, com a tesão própria dos vinte anos, os seus três primeiros discos foram todos duplos. E esgotaram-se. A partir daí, Cetera tomou conta da ocorrência e passou a ser o líder da banda, para além de se tornar o principal vocalista e compositor. Uma desgraça. Depois de Chicago III, todos os restantes álbuns da banda têm sido dominados por vozinhas em falsete, arranjos para elevador de hotel de luxo, melodias melosas e bocejantes. E, no entanto, dizem as estatísticas que, depois dos Beach Boys, os Chicago são a banda norte-americana com mais discos vendidos.

chicago18.jpgA única curiosidade deste Chicago 18 (editado em 1986) reside no facto da banda ter pegado numa poderosa canção rock, “25 or 6 to 4” e fazer dela uma merda absoluta. É que um tipo não se admirava se fosse qualquer outro grupo piroso a fazer uma versão pateta da canção… agora, ser a banda a estragar o que ela própria fez, 15 anos antes, não tem desculpa.

Aliás, todo o disco é inaudível. Como diria o Paulo Fernando: “este disco é intocável – mas, felizmente, não é inquebrável!”