“Carne”, de David Szalay (2025)

Com este livro, David Szalay venceu o Booker Prize de 2025.

Nascido em Montreal em 1974, Szalay cresceu em Londres e vive em Viena actualmente.

Este “Carne” é um livro perturbador. Com as devidas diferenças – e são muitas – a sua atmosfera fez-me lembrar os livros da Patricia Highsmith, sobretudo os de Mr. Ripley.

István é um adolescente húngaro que se inicia sexualmente com uma vizinha um pouco mais velha que a sua própria mãe. A maneira como isso acontece é tão natural que István nem percebe como lhe está a acontecer isso – e, ao fim e ao cabo, tudo o que lhe vai acontecendo ao longo da vida.

Nas primeiras páginas do livro, acontece uma desgraça e a tensão que a narrativa cria faz com que estejamos sempre à espera que aconteça algo de muito trágico nas próximas páginas.

O livro mistura diálogos secos e inexpressivos com descrições líricas do tempo e da atmosfera envolvente.

“- O que é que ele faz então? – pergunta István.

– Não sei.

– Diz coisas más?

Uma vez mais, Jacob não responde.

– Tens medo dele?

Há novo silêncio que István interpreta como um sim.

– Porque é que tens medo dele? – pergunta.

– Não sei – diz Jacob, depois de outro silêncio prolongado.

Agora levemente angustiado, István inquire:

– Quando é que isto começou?

– Não sei – diz Jacob.

– Ele está lá desde o início?

– O que é que queres dizer?

– Desde que entraste para a escola.

– Não.

– Não?

Jacob abana a cabeça.”

E assim continua durante mais algum tempo e estes diálogos são sempre assim, demorados.

Um livro do caraças!

“Sete Rios”, de Vanessa Taylor (2025)

Vanessa Taylor é uma historiadora dos rios, da água e do ambiente na Universidade de Greenwich.

Este curioso livro fala-nos de sete rios: Nilo, Danúbio, Ganges, Tamisa, Mississipi, Niger e Yangtzé.

Cada um deles merece três capítulos; no primeiro, a autora fala-nos da história que percorre cada um dos rios; no segundo, fala-nos da actualidade; e no terceiro, dos problemas que o rio enfrenta.

A quantidade de informação contida no livro é tal que é difícil destacar alguma coisa.

Mesmo assim, na página 50:

“Esta é uma característica persistente de todos os grandes rios abordados neste livro – o enorme sacrifício humano sob a forma do trabalho árduo, da escravização, da deslocação e da morte implicados no processo de fazer com que as vias navegáveis (naturais e artificiais) e as terras irrigadas trabalhassem eficazmente em prol das economias nacionais e imperiais.”

A propósito do rio Ganges, esta passagem faz-me lembrar a discussão em redor do Pensão Social Única, tão na moda:

“Havia neste período duas escolas de pensamento quanto ao que fazer com a pobreza ou as “carestias”. Uma considerava que as pessoas deviam receber todo o auxílio possível. Outra perspectiva – defendida por cada vez mais políticos e altos funcionários britânicos (…) – dizia que fornecer “esmolas indiscriminadas” desmoralizava os pobres.”

A propósito do Mississipi, outra passagem que me faz lembrar alguns políticos que gostam muito de ser fotografados de joelhos, na igreja, a rezar:

“A própria mensagem cristã foi também símbolo tanto de servidão como de liberdade. Como disse William Wells Brown: “Não há quem reze mais, pregue mais, cante mais salmos do que os proprietários de escravos do sul”.

Leitura excelente!

“Autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid (1996)

Depois de “Annie John”, de 1985 e “Lucy”, de 1990, li agora mais um livro desta escritora, nascida na ilha de Antígua e Barbuda, em 1949 e que vive nos Estados Unidos.

Dos três livros, este terá sido o menos interessante e pareceu-me, por vezes, um pouco confuso. Percebe-se que toda a narrativa está cheia de pormenores autobiográficos, tal como os livros anteriores, mas há algumas incongruências.

O título é enganador, já que a narradora diz várias vezes que decidiu não ter filhos.

Algumas passagens são curiosas, como esta:

“Beijou-me. Adormeceu. Então banhei o rosto na zona entre as suas pernas; ele cheirava a caril e cebolas, as mercadorias que descarregara durante todo o dia; outras vezes, quando eu banhava o rosto nessa zona – fazia isso muitas vezes porque gostava – cheirava a açúcar, a farinha, ou aos grandes rolos de algodão barato a que costumava subtrair uns metros que me oferecia para mandar fazer um vestido”.

Pacote laboral para o lixo!

Segundo o Montenegro e a ministra Palma Ramalho, o pacote laboral deste governo iria dar origem a melhores salários.

Os trabalhadores não acreditaram.

Os partidos de esquerda, também não.

O Ventura, ora sim, ora não…

A 9 de abril, disse que estava “errado despedir funcionários para os substituir por outsourcing”.

A 29 de abril , acrescentou que, para aprovar o pacote laboral, o governo teria de baixar a idade da reforma.

A 6 de maio, disse que se o tribunal considerar o despedimento ilícito, e o trabalhador não for reintegrado, que isso é criar um mercado selvagem.

Ainda mais radical, disse a 13 de maio que “não se deve fazer uma reforma laboral contra quem trabalha”.

A 3 de junho garantiu que “esta lei laboral será derrotada onde tem de ser, no Parlamento!”

No entanto – e após tantas afirmações contra a lei labora, o Chega preparava-se para votar a favor da lei.

Só que, entretanto, hoje mesmo saiu uma sondagem que mostra o PS em primeiro lugar, seguido do Chega e Ventura terá pensado: ó diabo! Se o PS está à frente e contra o pacote laboral, e o PSD está em terceiro lugar, talvez seja melhor eu votar contra – talvez me aproxime do PS, até poderei ultrapassá-lo!

E o Ventura votou contra!

Ai Montenegro… estás prestes a ser engolido pelo Ventura!…

“Cinco Esquinas”, de Mario Vargas Llosa (2016)

Depois de duas grandes desilusões, dois livros com muito boas críticas que não fui capaz de levar até ao fim, foi muito bom ler um livro de um escritor capaz de nos contar uma boa história de um modo escorreito, sem rodriguinhos.

De todos os romances que já li de Vargas Llosa, este parece o mais simples e directo, mas, por vezes, também sabe bem ler um livro assim, sem espinhas.

Vargas Llosa conta a história de um semanário de mexericos, do seu director e da sua sub-directora, de Fujimori e do seu esbirro, conhecido como o Doutor e de dois casais de ricalhaços, com uma boa vida e que se abalançam a novas aventuras sexuais.

Tudo isto se passa no Peru, quando o Sendero Luminoso estava no auge e perpetrava ataques terroristas e o tenebroso Doutor exercia o seu poder e Fujimori tentava um terceiro mandato.

O semanário de mexericos, Destapes, dirigido por Rolando Garro tem nas mãos uma série de fotografias de um bacanal em que participou o ricalhaço Enrique Cardenas e isso vai desencadear toda a história.

Lê-se de uma penada e vale a pena.

Outros livros de Vargas Llosa: Conversa n’a Catedral; A Festa do Chibo; O Herói Discreto; O Sonho do Celta; Travessuras da Menina Má

Fase Charlie, Fase Delta, Fase F…

As televisões desdobram-se em reportagens sobre a chamada fase Charlie do combate aos incêndios.

Repórteres entrevistam senhores fardados a preceito, enquanto, em fundo, vemos bombeiros perfilados, alguns com longas barbas prontas a pegarem fogo, se houver algum descuido.

Dizem que é a Fase Charlie, a primeira fase do combate aos incêndios, onde a vigilância é primordial.

Os comandantes falam aos jornalistas e descrevem todos os meios que estão disponíveis. Vemos bombeiros e bombeiras a percorrer os terrenos, vigilantes, em busca de um fogacho que seja.

Graças a estas reportagens elaboradas, ficamos com a impressão de que, este ano sim, estamos preparados.

Em julho, seguir-se-á a Fase Delta.

Virão mais bombeiros, mais máquinas de arrasto e mais aviões – perdão, mais meio aéreos… Finalmente, algures em julho ou agosto, ou até na semana que vem, entraremos na última Fase – a Fase Foda-se! Foda-se que este incêndio é do caraças e não estávamos à espera e metade dos meios aéreos, afinal, estavam inoperacionais, e o Siresp, e a descoordenação e Foda-se, afinal estamos na fase Foda-se, é natural que estejamos todos fodidos!

Tenham medo! Tenham muito medo!

É um orgulho nacional!

É um orgulho ter um ministro da Defesa como o Nuno Melo!

Ei-lo aqui, em pose de ataque, João Nuno Lacerda Teixeira Melo, nascido em Joane, em 1966, formado em Direito pela Universidade Portucalense Infante D. Henrique – mais alguém pega numa arma como o Nuno Melo?!

Já viram aquela postura?

E o olhar? Já repararam naquele olhar sereno, mas firme, pronto para atacar quando for preciso?

Deve ter aprendido na recruta.

Não fez tropa? Não pode ser, não acredito!

Basta ver a postura, o penteado…

Por alguma razão a administração Trump diz que Portugal é um aliado inequívoco. Os restantes países da Nato podem duvidar, mas nunca Portugal, com um ministro da Defesa como o Melo!

Estaremos prontos para tudo, sr. Marco Rubio!

O que vai ser a seguir? Cuba?

Ok, cá estaremos para apoiar, nos Estrangeiros, Rangel, na Defesa, Nuno Melo!

“Nas Palavras Dela”, de Alba de Céspedes (1949)

Li há pouco tempo “O Caderno Proibido”, de 1952, outro livro desta autora nascida em Roma, filha do embaixador de Cuba em Itália e, portanto, com dupla nacionalidade, cubana e italiana.

Apesar de se ter oposto ao regime fascista de Mussolini, não lhe foi retirada a nacionalidade, ao contrário do que o palhaço do Ventura queria fazer aos estrangeiros que conseguissem a nacionalidade portuguesa e cometessem determinados crimes.

Quem ler este romance, perceberá o que quero dizer.

São seiscentas páginas e a coisa pode parecer um pouco monótona, mas temos de entender a época em que o romance foi escrito, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, altura em que o papel das mulheres era absolutamente secundário.

No final do livro, temos acesso a um prefácio escrito pela autora em 1994, três anos antes de falecer. Este prefácio devia, na minha opinião, surgir antes do romance, para percebermos melhor o que a autora pensava sobre o que escrevera quase cinquenta anos antes.

“Dar-se conta de que a luta, a prisão e, para tantos, a morte, não tinham servido senão para fazer da Itália um protectorado americano” – diz a autora nesse prefácio.

Aconselho.

Hantavírus ataca esquadra do Rato

A DGS decidiu publicar uma série de normas para lidar com o hantavírus, o tal que é transmitido pelos roedores dos Andes.

Se, por acaso, sentir que tem dores de cabeça, diarreia, vómitos e febre, pode ser que tenha sido mordido por um rato infectado.

Nesse caso, deve contactar a Saúde 24 e ir ao Hospital de S. José, ou S. João, no Porto.

Parece que, afinal, esta história do hantavírus não é tão inocente como parecia.

Provavelmente, estamos perante uma nova pandemia que talvez já tenha começado na esquadra do Rato.

Como sabemos, o Rato é um roedor. Se estivesse infectado pelo hantavírus podia muito bem ter provocado as alterações mentais aos polícias que decidiram torturar e violar aqueles sem abrigo, lá na esquadra.

Espero bem que os polícias sejam testados porque, se se confirmar que estavam infectados quando torturaram aqueles cidadãos, certamente serão ilibados e teremos que condenar o cabrão do vírus!