A pedalada do Luís!

Montenegro não vai tirar férias.

Já avisou os jornalistas de que vai ser difícil acompanhar o Governo durante estes verão! Espero que tenham a nossa pedalada, disse.

Correr atrás do ministro da Educação, com toda aquela trapalhada dos exames, já vai ser difícil – mas mais difícil vai ser apanhar o Ministro dos Incêndios e dos Reboques.

Depois da época dos Antónios – estamos mesmo na época dos Luíses!…

“A Morsa – Contos de Inocência e de Violência” (2026)

Que coisa mais desenxabida!

Fui levado a comprar este livrinho por uma crítica lida já nem sei onde (Expresso? Público?). Gosto de livros de contos, e comprei-o com essa intenção.

A autora nasceu em 1984 e tem muito boa imprensa porque este livro é mau, muito mau.

Consegui ler até à página 78 e desisti quando li:

“Vera levantou-se e atendeu: alguém lhe disse que o pai morrera. Morrer não é só desaparecer e deixar de ser visto, é também deixar de existir. É parecido como viajar, porque quer o morto quer o viajante estão ausentes, só que o morto já não existe e, porque ainda existe, o viajante pode voltar a ser visto”.

Ó Ana Cláudia, vai dar banho ao cão!

“O Nervo Ótico”, de Ma2014)ria Gainza (

Livro muito curioso desta crítica de arte e escritora argentina. Depois de ter lido o seu livro Um Punhado de Flechas, fiquei curioso, e decidi procurar este outro, mais antigo. Trata-se de uma narrativa que mistura crítica literária, autobiografia e ficção.

Gainza conta-nos histórias passadas consigo e com os seus amigos e familiares, talvez alguma inventadas, enquanto nos conta, também, histórias de alguns artistas plásticos.

“No que diz respeito aos homens, minha querida Pepita, são mais perversas as virtudes do que os vícios” – diz a escritora, citando alguém e a narrativa deste livro parece comprová-lo, contando-nos alguns episódios de Lautrec e de outros artistas, que deixam muito a desejar no que diz respeito à virtude.

É um livro curioso.

“Perdeu-se Relógio de Senhora”, de Alice Brito (2026)

Alice Brito, advogada e escritora, nascida em Setúbal, em 1954, conta-nos a história de três mulheres cujas vidas se vão entrecruzar perto do 25 de Abril.

O livro tocou-nos muito porque a autora tem praticamente a nossa idade e conta coisas que nós também vivemos, os anos do salazarismo, o medo da Pide, a euforia do 25 de Abril, as contradições da esquerda – e os tiques da sociedade fechada de Portugal, antes da democracia, o papel secundário das mulheres, a maneira como os poderosos mandavam na sociedade, os costumes retrógrados, o medo e a vergonha de se perder a virgindade antes do casamento, a recusa da homossexualidade, etc.

E depois, Alice Brito tem expressões que podiam muito bem ser minhas, caramba! Eu costumo dizer que, para mim, o melhor da tropa foram as lições de dança, e ela diz, na página 34:

“O outro chegou e fez continência. Os dedos espetados em direcção à sobrancelha, muito hirto, a cumprir a coreografia própria do baile militar”

E quanto à culpa que nos é inculcada desde crianças:

“A culpa faz mesmo parte deste sangue judaico-cristão que nos corre nas veias. Do sangue na da cabeça a abarrotar de moral e outras coisas sem préstimo”

Alice Brito vai conta as suas histórias como se tivesse a conversar connosco, por isso, o texto tem muito de oralidade:

“Se um martelo pisar o dedo a uma criatura nortenha, se ela estiver sozinha, poderá balbuciar um foda-se, e fica por aí. Mas, se estiver acompanhada, é provável que a dita criatura nortenha grite foda-se caralho, e atire o martelo com força para qualquer lado, num gesto quase mecânico de exteriorização da dor.”

O ódio ao Salazar é óbvio e apoiamo-lo:

“Tinham cantado na escola o Parabéns a você a Salazar, que fazia anos num dos primeiros dias de maio, ou num dos últimos de abril, não sei nem me apetece ir ver, que se foda o ditador”

Estas três citações poderão ser redutoras e muitas outras poderia fazer, mas penso que estas mostram bem o estilo divertido, embora o assunto seja muito sério.

Ao longo da narrativa, a autora fala de muitas coisas de que nos lembramos muito bem porque também as vivemos, e talvez tenha sido também isso que nos fez gostar muito deste livro que, de uma maneira simples, nos conta como foi a vida em Portugal antes do 25 de abril, sobretudo para os que sempre ansiaram por liberdade.

“Carne”, de David Szalay (2025)

Com este livro, David Szalay venceu o Booker Prize de 2025.

Nascido em Montreal em 1974, Szalay cresceu em Londres e vive em Viena actualmente.

Este “Carne” é um livro perturbador. Com as devidas diferenças – e são muitas – a sua atmosfera fez-me lembrar os livros da Patricia Highsmith, sobretudo os de Mr. Ripley.

István é um adolescente húngaro que se inicia sexualmente com uma vizinha um pouco mais velha que a sua própria mãe. A maneira como isso acontece é tão natural que István nem percebe como lhe está a acontecer isso – e, ao fim e ao cabo, tudo o que lhe vai acontecendo ao longo da vida.

Nas primeiras páginas do livro, acontece uma desgraça e a tensão que a narrativa cria faz com que estejamos sempre à espera que aconteça algo de muito trágico nas próximas páginas.

O livro mistura diálogos secos e inexpressivos com descrições líricas do tempo e da atmosfera envolvente.

“- O que é que ele faz então? – pergunta István.

– Não sei.

– Diz coisas más?

Uma vez mais, Jacob não responde.

– Tens medo dele?

Há novo silêncio que István interpreta como um sim.

– Porque é que tens medo dele? – pergunta.

– Não sei – diz Jacob, depois de outro silêncio prolongado.

Agora levemente angustiado, István inquire:

– Quando é que isto começou?

– Não sei – diz Jacob.

– Ele está lá desde o início?

– O que é que queres dizer?

– Desde que entraste para a escola.

– Não.

– Não?

Jacob abana a cabeça.”

E assim continua durante mais algum tempo e estes diálogos são sempre assim, demorados.

Um livro do caraças!

“Sete Rios”, de Vanessa Taylor (2025)

Vanessa Taylor é uma historiadora dos rios, da água e do ambiente na Universidade de Greenwich.

Este curioso livro fala-nos de sete rios: Nilo, Danúbio, Ganges, Tamisa, Mississipi, Niger e Yangtzé.

Cada um deles merece três capítulos; no primeiro, a autora fala-nos da história que percorre cada um dos rios; no segundo, fala-nos da actualidade; e no terceiro, dos problemas que o rio enfrenta.

A quantidade de informação contida no livro é tal que é difícil destacar alguma coisa.

Mesmo assim, na página 50:

“Esta é uma característica persistente de todos os grandes rios abordados neste livro – o enorme sacrifício humano sob a forma do trabalho árduo, da escravização, da deslocação e da morte implicados no processo de fazer com que as vias navegáveis (naturais e artificiais) e as terras irrigadas trabalhassem eficazmente em prol das economias nacionais e imperiais.”

A propósito do rio Ganges, esta passagem faz-me lembrar a discussão em redor do Pensão Social Única, tão na moda:

“Havia neste período duas escolas de pensamento quanto ao que fazer com a pobreza ou as “carestias”. Uma considerava que as pessoas deviam receber todo o auxílio possível. Outra perspectiva – defendida por cada vez mais políticos e altos funcionários britânicos (…) – dizia que fornecer “esmolas indiscriminadas” desmoralizava os pobres.”

A propósito do Mississipi, outra passagem que me faz lembrar alguns políticos que gostam muito de ser fotografados de joelhos, na igreja, a rezar:

“A própria mensagem cristã foi também símbolo tanto de servidão como de liberdade. Como disse William Wells Brown: “Não há quem reze mais, pregue mais, cante mais salmos do que os proprietários de escravos do sul”.

Leitura excelente!

“Autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid (1996)

Depois de “Annie John”, de 1985 e “Lucy”, de 1990, li agora mais um livro desta escritora, nascida na ilha de Antígua e Barbuda, em 1949 e que vive nos Estados Unidos.

Dos três livros, este terá sido o menos interessante e pareceu-me, por vezes, um pouco confuso. Percebe-se que toda a narrativa está cheia de pormenores autobiográficos, tal como os livros anteriores, mas há algumas incongruências.

O título é enganador, já que a narradora diz várias vezes que decidiu não ter filhos.

Algumas passagens são curiosas, como esta:

“Beijou-me. Adormeceu. Então banhei o rosto na zona entre as suas pernas; ele cheirava a caril e cebolas, as mercadorias que descarregara durante todo o dia; outras vezes, quando eu banhava o rosto nessa zona – fazia isso muitas vezes porque gostava – cheirava a açúcar, a farinha, ou aos grandes rolos de algodão barato a que costumava subtrair uns metros que me oferecia para mandar fazer um vestido”.

Pacote laboral para o lixo!

Segundo o Montenegro e a ministra Palma Ramalho, o pacote laboral deste governo iria dar origem a melhores salários.

Os trabalhadores não acreditaram.

Os partidos de esquerda, também não.

O Ventura, ora sim, ora não…

A 9 de abril, disse que estava “errado despedir funcionários para os substituir por outsourcing”.

A 29 de abril , acrescentou que, para aprovar o pacote laboral, o governo teria de baixar a idade da reforma.

A 6 de maio, disse que se o tribunal considerar o despedimento ilícito, e o trabalhador não for reintegrado, que isso é criar um mercado selvagem.

Ainda mais radical, disse a 13 de maio que “não se deve fazer uma reforma laboral contra quem trabalha”.

A 3 de junho garantiu que “esta lei laboral será derrotada onde tem de ser, no Parlamento!”

No entanto – e após tantas afirmações contra a lei labora, o Chega preparava-se para votar a favor da lei.

Só que, entretanto, hoje mesmo saiu uma sondagem que mostra o PS em primeiro lugar, seguido do Chega e Ventura terá pensado: ó diabo! Se o PS está à frente e contra o pacote laboral, e o PSD está em terceiro lugar, talvez seja melhor eu votar contra – talvez me aproxime do PS, até poderei ultrapassá-lo!

E o Ventura votou contra!

Ai Montenegro… estás prestes a ser engolido pelo Ventura!…