“Eurotrash”, de Christian Kracht (2021)

Diz a capa do livro, citando o vencedor Pulitzer Joshua Cohen, que Kracht é “o maior escritor de língua alemã da sua geração”, e este livro foi nomeado para o Booker Prize Internacional do ano passado.

É um livro estranho. O narrador (aparentemente, o autor do livro), é filho e neto de nazis e o livro conta-nos uma viagem mais ou menos alucinada, protagonizada pelo próprio e pela sua mãe octogenária e com uma perturbação bipolar.

É difícil descrever o livro e perceber por que razão o narrador e a mãe percorrem quilómetros, num táxi, com um saco cheio de dinheiro, com a intenção de o dar a alguém.

O tom do livro é irónico, como se comprova por este pedaço:

“E a comida na Suíça, que tinha sempre um sabor muito melhor do que noutros lugares, era preparada por crianças escravas que lhe acrescentavam drogas da empresa Nestlé, para que as pessoas gostassem de comer, continuassem em actividade e fossem bons suíços. Os suíços comiam o seu Soylent Green, faziam o seu trabalho, iam dormir, acordavam no dia seguinte, e nada acontecia. Não havia música, nem filmes, nem literatura, não havia absolutamente nada na Suíça, apenas a avidez dos suíços por mais luxo, o desejo de sushi, de ténis coloridos e de Porsche Cayennes, e a construção de mais centros comerciais de bricolagem, imensos, nas aglomerações urbanas em expansão.”

E uma surpresa na página 87, com a referência à família Espírito Santo:

“Certa vez, num verão, o meu pai alugou para nós a casa da família de banqueiros portugueses Espírito Santo em Cascais, uma villa magnífica numa ponta de terra com acesso próprio ao mar.”

A ligação da família Espírito Santo a um chefe de família com ligações ao regime nazi? Deve ser tudo romantismo…

Um livro curioso, apenas isso.

Trump inventa novo SNS americano

Para quê pagar, mensalmente, a uma companhia de seguros para, mais tarde, ter direito a descontos na factura do hospital?

A partir de agora, basta ser adepto do MAGA, prometer estar sempre ao lado de Trump e de votar no seu movimento, mesmo depois de ele falecer (o que esperamos que seja em breve…).

O extraordinário presidente norte-americano acaba de publicar nas suas redes sociais, uma imagem que mostra como é que ele pretende resolver o problema da Saúde nos seu país e, por extensão, no Mundo:

Como a imagem mostra, Trump desce dos céus, coloca a palma da sua mão na testa do doente e tudo fica resolvido!

Deixam de ser necessários exames complementares de diagnóstico, intervenções agressivas com cortes e sangue e toda essa panóplia da Medicina Científica – a espiritualidade tudo resolve!

Obrigado Trump!

Vai-te foder, Trump!

“Conversa n’a Catedral”, de Mário Vargas Llosa (1969)

Conheço este livro há décadas, mas só o comprei em 2013; mesmo assim, ficou ali na estante durante mais 13 anos até me sentir com coragem para o abordar, o que só aconteceu agora.

Mário Vargas Llosa, que recebeu o Nobel em 2010, publicou-o dois anos depois do famoso “Cem Anos de Solidão”, mas este livro, embora a sua acção se centre num país da América Latina, não tem nada a ver com o chamado realismo fantástico de Garcia Marquez e congéneres.

Esta conversa na Catedral também nada tem a ver com uma catedral. De facto, Catedral refere-se a uma cervejaria limenha, onde dois dos muitos protagonistas do calhamaço de 630 páginas, Santiago e Ambrósio, falam, depois de muitos anos sem se verem.

Santiago é um dos filhos de D. Fermin, um ricalhaço que apoia o regime no Poder; na juventude, Santiago sentiu simpatia pelos comunistas e até foi detido, mas o pai, com a sua influência, conseguiu que fosse libertado. Embora se deixasse de ideias comunistas, Santiago acabou por deixar a casa paterna e tornar-se jornalista, com um ordenado miserável e nunca aceitou nenhuma das riquezas da família.

Ambrósio foi motorista de D. Fermin, depois de ter sido motorista de Cayo Bermudez, um dos ministros do governo. D. Fermin tinha um segredo muito bem guardado e Ambrósio sabia qual era e Cayo Bermudez fazia uma vida de ostentação e putas.

E este é apenas um pequeno resumo das várias histórias que se cruzam neste livro, que está dividido em quatro partes; algumas delas são bem difíceis de seguir. Vargas Llosa mistura diálogos que estão a acontecer naquele momento com outros que aconteceram no passado e, como todas as personagens são políticos peruanos dos anos 50, torna-se difícil seguir o rumo da história.

As pegas, a D. Ivone, a Hortência e a Queta, são outras personagens centrais, já que todos aqueles homens frequentam as casas de passe de Lima.

Enfim, e em resumo, que grande desafio que deve ter sido escrever este livro. Llosa tinha apenas 33 anos quando o publicou…

Um chefe do Governo sem cinto

Deixem o Luís andar sem cinto!

Deixem-no gabar-se e mostrar toda a sua arrogância no banco de trás do carro que o transporta para o trabalho – sem cinto!

Screenshot

No dia em que se noticia que no fim de semana da Páscoa, morreram 18 pessoas vítimas de acidentes na estrada, o Luís deixa-se transportar de carro sem cinto!

É assim, destravado, que ele nos governa.

É assim, infringindo a lei, que ele quer que sigamos o seu exemplo.

Deixem o Luís continuar a dar barraca!

Sem cinto!

“Triunfo do Triunfo”, de Luísa Costa Gomes (2026)

Mais um livro de contos desta escritora, que é uma especialista na matéria.

Dela já lemos “Afastar-se – 13 contos sobre água” (2021), “Setembro e outros contos” (2007) e “Visitar Amigos e outros contos” (2024).

Este livro agora editado tem um conjunto de contos já publicados anteriormente e mais alguns repescados.

Destaco o conto que dá título ao livro, e que é um gozo a muitos dos nossos autarcas, e o conto O Golpe do Ascensor da Biblioteca, sobre aquele que poderia ter sido o golpe que daria origem à implantação da República.

Para esta autora, o mais importante não é a história que o conto nos conta, mas sim as palavras, o discurso que ela vai tecendo ao longo da narrativa.

A mentira do Primeiro de Abril

Não sei se já perceberam qual foi.

O Governo montenegresco divulgou a informação preciosas (para eles) de que o Marco Rubio telefonara a Paulo Rangel, agradecendo pela colaboração do governo português, através da base das Lajes, com a administração Trump, na sua demanda anti-iraniana.

Babando-se de orgulho, Rangel publicou essa informação nas redes sociais, não fosse passar despercebida para todos nós. Tão lindos que foram os nossos governantes, ao apoiarem os falcões da Casa Branca!

Claro que esta foi a grande mentira do 1º de Abril.

O Marco Rubio não telefonou para o Paulo Rangel, coisa nenhuma.

Mentira!

Foi o Paulinho Rangel que telefonou para o futuro ditador cubano a garantir-lhe que a base das Lages estará ao seu dispor sempre que ele quiser invadir, destruir, aniquilar, destruir e dar cabo de qualquer país à sua escolha!

Um gajo que não gosta de Museus!

O presidente Trump já não surpreende ninguém.

Ou talvez sim.

Ontem disse que não gosta de museus e bibliotecas. Enfim, talvez goste da biblioteca da Casa Branca, que talvez venha a ter o seu nome – tal como o Centro Rockefeller e o Estreito de Ormuz.

Do que ele gosta mesmo, é de hotéis, de sítios onde as pessoas dormem dois ou três dias e não deixam marca. Agora, Museus, onde os grandes artistas têm as suas obras?! Que bocejo! Bibliotecas, onde os escritores, quase todos tipos ou tipas com problemas psicológicos, mal-amados, fodidos da cabeça, deixou os seus textos?! Que seca!

Já repararam no hotel que vou mandar construir em Miami? Coisa linda! Vai ter um Air Force One no lobby!

É com esta criança patológica com 78 anos que o nosso mundo tem de lidar e o nosso governo está de joelhos.

Para além de lhes facilitar a Base das Lages para que os yankees a usem a seu bel-prazer, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, dá-se ao luxo de divulgar conversa telefónica com o traidor cubano, Marco Rubio, como se isso fosse algo de extraordinário. Portugal está a ser o capacho dos yankees e gosta!

Silvino, o Pescador

Mal se aposentou, o Silvino decidiu dedicar-se à pesca.

Foi a uma loja da especialidade, em Cacilhas e comprou o material necessário e, na manhã seguinte, informou a esposa: vou pescar o almoço.

Foi para o Ginjal, lançou o anzol e esperou.

Naquele dia, o Cais do Ginjal estava cheio de pescadores e Silvino ia vendo uns e outros a sacarem peixes do Tejo, mas ele, nada!

As horas foram passando e o Silvino estava cheio de dores nas cruzes; estar ali, em pé, a segurar a cana, afinal, não era pera doce – e ele que pensava que aquela malta que passava as manhãs a pescar, eram todos uma cambada de calões!…

Nesse dia chegou a casa de mãos a abanar.

Então o almoço? – perguntou a mulher.

Faz uma omeleta! – respondeu o Silvino.

E os dias foram passando e o Silvino não conseguia pescar nada.

Farto de omeletas, decidiu passar pelo mercado antes de ir pescar. Comprou carapaus, uma dourada de viveiro e uma pescada. Depois, levando os peixes numa geleira, foi para o Ginjal.

Nesse dia, fartou-se de pescar: tainhas às pampas, dois chocos e até um polvo.

A mulher do Silvino ficou toda contente, embora estranhasse que houvesse carapaus, douradas e pescadas no Tejo, mas enfim, tinham peixe para vários dias.

Silvino foi percebendo que havia ali um padrão: quando ia para o Cais do Ginjal de mãos a abanar, não conseguia pescar nada, se passasse primeiro pelo mercado e comprasse algum peixe, fartava-se de pescar.

A certa altura, o Silvino já não sabia o que havia de fazer a tanto peixe. Era o que comprava diariamente no mercado, mais todos aqueles que pescava no Tejo.

Foi a mulher que teve a ideia.

Abriram uma peixaria.

“Um Punhado de Flechas”, de Maria Gainza (2024)

Maria Gainza nasceu em Buenos Aires em 1975 e foi crítica de arte durante muitos anos, escrevendo para vários jornais, sendo também correspondente do New York Times.

Publicou o seu primeiro romance, O Nervo Ótico, que ainda não li, em 2018, inaugurando uma escrita que mistura narrativa, ensaio e crítica de arte.

O título deste Um Punhado de Flechas foi-lhe sugerido por uma conversa com Francis Ford Coppola, que lhe disse que casa um de nós nasce com uma aljava com um certo número de flechas douradas. Quando as lançou todas, acabou-se. Penso que Coppola estava a referir-se a ele próprio, que lançou as suas flechas todas com os três filmes do Padrinho, com o Apocalipse Now e o One From The Heart.

Este livro de Maria Gainza é curioso por isso mesmo: deu-nos a conhecer vários artistas plásticos argentinos que desconhecíamos e contou-nos histórias curiosas com eles relacionadas.

Um livro diferente que vale a pena.