“Eurotrash”, de Christian Kracht (2021)

Diz a capa do livro, citando o vencedor Pulitzer Joshua Cohen, que Kracht é “o maior escritor de língua alemã da sua geração”, e este livro foi nomeado para o Booker Prize Internacional do ano passado.

É um livro estranho. O narrador (aparentemente, o autor do livro), é filho e neto de nazis e o livro conta-nos uma viagem mais ou menos alucinada, protagonizada pelo próprio e pela sua mãe octogenária e com uma perturbação bipolar.

É difícil descrever o livro e perceber por que razão o narrador e a mãe percorrem quilómetros, num táxi, com um saco cheio de dinheiro, com a intenção de o dar a alguém.

O tom do livro é irónico, como se comprova por este pedaço:

“E a comida na Suíça, que tinha sempre um sabor muito melhor do que noutros lugares, era preparada por crianças escravas que lhe acrescentavam drogas da empresa Nestlé, para que as pessoas gostassem de comer, continuassem em actividade e fossem bons suíços. Os suíços comiam o seu Soylent Green, faziam o seu trabalho, iam dormir, acordavam no dia seguinte, e nada acontecia. Não havia música, nem filmes, nem literatura, não havia absolutamente nada na Suíça, apenas a avidez dos suíços por mais luxo, o desejo de sushi, de ténis coloridos e de Porsche Cayennes, e a construção de mais centros comerciais de bricolagem, imensos, nas aglomerações urbanas em expansão.”

E uma surpresa na página 87, com a referência à família Espírito Santo:

“Certa vez, num verão, o meu pai alugou para nós a casa da família de banqueiros portugueses Espírito Santo em Cascais, uma villa magnífica numa ponta de terra com acesso próprio ao mar.”

A ligação da família Espírito Santo a um chefe de família com ligações ao regime nazi? Deve ser tudo romantismo…

Um livro curioso, apenas isso.

“Conversa n’a Catedral”, de Mário Vargas Llosa (1969)

Conheço este livro há décadas, mas só o comprei em 2013; mesmo assim, ficou ali na estante durante mais 13 anos até me sentir com coragem para o abordar, o que só aconteceu agora.

Mário Vargas Llosa, que recebeu o Nobel em 2010, publicou-o dois anos depois do famoso “Cem Anos de Solidão”, mas este livro, embora a sua acção se centre num país da América Latina, não tem nada a ver com o chamado realismo fantástico de Garcia Marquez e congéneres.

Esta conversa na Catedral também nada tem a ver com uma catedral. De facto, Catedral refere-se a uma cervejaria limenha, onde dois dos muitos protagonistas do calhamaço de 630 páginas, Santiago e Ambrósio, falam, depois de muitos anos sem se verem.

Santiago é um dos filhos de D. Fermin, um ricalhaço que apoia o regime no Poder; na juventude, Santiago sentiu simpatia pelos comunistas e até foi detido, mas o pai, com a sua influência, conseguiu que fosse libertado. Embora se deixasse de ideias comunistas, Santiago acabou por deixar a casa paterna e tornar-se jornalista, com um ordenado miserável e nunca aceitou nenhuma das riquezas da família.

Ambrósio foi motorista de D. Fermin, depois de ter sido motorista de Cayo Bermudez, um dos ministros do governo. D. Fermin tinha um segredo muito bem guardado e Ambrósio sabia qual era e Cayo Bermudez fazia uma vida de ostentação e putas.

E este é apenas um pequeno resumo das várias histórias que se cruzam neste livro, que está dividido em quatro partes; algumas delas são bem difíceis de seguir. Vargas Llosa mistura diálogos que estão a acontecer naquele momento com outros que aconteceram no passado e, como todas as personagens são políticos peruanos dos anos 50, torna-se difícil seguir o rumo da história.

As pegas, a D. Ivone, a Hortência e a Queta, são outras personagens centrais, já que todos aqueles homens frequentam as casas de passe de Lima.

Enfim, e em resumo, que grande desafio que deve ter sido escrever este livro. Llosa tinha apenas 33 anos quando o publicou…

“O Barulho das Coisas ao Cair”, de Juan Gabriel Vásquez (2011)

Depois de ter lido “Os Nomes de Feliza”, fiquei com curiosidade em conhecer mais livros deste autor colombiano.

Encontrei este livro de 2011, que me fez companhia nos últimos dias, mas não me entusiasmou muito.

Vásquez conta-nos a história de um dos primeiros traficantes de droga da Colômbia, no tempo em que Escobar ainda não dominava e dá a ideia de que, nessa altura, os traficantes eram inocentes, que faziam o tráfico como se fossem jovens sem a verdadeira noção do mal que provocavam. Enfim, é um romance, que envolve um acidente de avião que matou muita gente, americanas envolvidas em apoios ao povo colombiano e muito aparente desconhecimento do que o tráfico provoca.

Guardo o livro na prateleira e lá ficará a apanhar pó…

“Partida”, de Julian Barnes (2026)

Este é o décimo livro que leio deste escritor britânico e, a acreditar no que ele diz, será o seu último livro. Agora com 80 anos e sofrendo de uma doença mieloproliferativa, Barnes parece satisfeito com a sua extensa obra e decidiu descansar.

Dele li “Inglaterra, Inglaterra” (1998), “Amor & Etc” (2000) “Arthur & George” (2005), “Nada a Temer” (2008), “O Papagaio de Flaubert” (2010) “O Sentido do Fim” (2011) “O Ruído do Tempo” (2016), “A Única História” (2018), “O Homem do Casaco Vermelho” (2019), “Elizabeth Finch” (2022).

Como é habitual em muitos dos seus livros, Barnes fala connosco e este “Partida” – no original “Departure(s) – parece mesmo uma conversa do autor com os seus leitores, uma conversa de fim de vida.

O livro está dividido em cinco partes: duas delas conta-nos a história de Stephen e Jean, que Barnes juntou quando frequentavam a Universidade e tornou a juntar 40 anos depois; a primeira parte fala-nos nas memórias, nomeadamente a catadupa de memórias que, muitas vezes, são despertadas por um cheiro ou um sabor; outra das partes é dedicada à doença de Barnes e às doenças em geral, sobretudo o cancro e a última parte é uma espécie de despedida.

A propósito do cancro que, estatisticamente atingirá uma em cada duas pessoas, Barnes diz, com o seu habitual humor:

“O obituário «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta contra o cancro» deveria ser substituído por «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta que o cancro manteve com ele»”

Chegado aos 80 anos, Barnes já não vai fazer uma série de coisas que poderia ter desejado fazer, mas já leva a barriga cheia e isto que ele diz, na página 136, poderia ser dito por mim:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

Mais uma leitura agradável de Julian Barnes.

“A Festa do Chibo”, de Mario Vargas Llosa (2000)

Publicado dez anos antes do escritor peruano receber o Nobel, este livro debruça-se sobre a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, de 1930 a 1961, quando foi assassinado.

O livro tem três histórias que se vão cruzando: os últimos anos da ditadura e todas as suas atrocidades e arbitrariedades, a intentona, como foi preparada, como correu e o que sucedeu aos revoltosos, e a história de Urania, filha de um dos colaboradores de Trujillo, que volta ao país muitos anos depois do fim da ditadura.

As ditaduras têm todas pontos comuns: um ditador que é visto como salvador da pátria, um grupo de cortesãos que o seguem cegamente, uma polícia política sem dó nem piedade, comunicação social domesticada e um aparente sucesso da Nação, que não seria nada sem o ditador.

Mas Trujillo tinha algumas particularidades: além de um culto da personalidade levada ao extremo da própria capital do país ter mudado de nome e ter adoptado o nome de Cidade Trujillo, o homem era um garanhão e não se coibia de comer as mulheres de alguns dos seus seguidores, que não se importavam e até achavam uma honra o Chibo ter interesse pelas suas esposas. E gostava, sobretudo, de jovens virgens. Na página 373, diz:

“A receita de Petrónio e do rei Salomão: uma conazinha fresca para devolver a juventude a um veterano de setenta primaveras”

E é aqui que entra a jovem Urania.

Recomendo.

“Os Nomes de Feliza”, de Juan Gabriel Vásquez (2024)

Feliza Bursztyn (Bogotá, 1933-Paris, 1982) foi uma escultora colombiana cuja vida dava, de facto, para um romance, um filme e uma série televisiva. Morreu subitamente, com apenas 49 anos, e a história da sua vida teria ficado por contar se não fosse, Juan Gabriel Vásquez, que decidiu contá-la neste livro, juntando factos, testemunhos e um pouco de imaginação.

Feliza, cujo nome teve várias versões, escolheu ter uma vida diferente daquela que parecia estar-lhe destinada. Depois de um casamento precoce, depois de ter tido três filhas, abandonou tudo e dedicou-se totalmente à escultura, criando obras a partir de sucata.

Teve uma vida muito acidentada e repleta de tragédias, como a morte num acidente de aviação do seu segundo companheiro e, mais tarde, o seu próprio acidente, desta vez, a bordo de um Volkswagen – acidente esse que a obrigou a um flagelo de cirurgias reconstrutivas.

A sua ligação a tudo o que fosse diferente e provocador, levou-a, depois, a Cuba e a um confronto com as autoridades colombianas que acabaram por resultar no seu exílio, primeiro no México, na casa de Garcia Marquez, depois em Paris, onde acabou por falecer de ataque cardíaco, quem sabe proporcionado pelos muitos vapores da soldagem que usava para unir a sucata, a partir da qual criava as suas obras (só muito tarde começou a usar máscara).

Livro muito interessante.

“O Desfufador”, de Valério Romão (2025)

Tenho feito um esforço, juro que tenho, mas desisto hoje, na página 262.

Quando li a entrevista ao autor, Valério Romão, no Ipsilon, do jornal Público, pensei que ia ser um livro que me iria divertir e, por alguma razão, lembrei-me de António Rebordão Navarro e do seu livro de 1972, “O Discurso da Desordem”, que li em março de 1973, com apenas 20 anos, deslumbrado com aquela narrativa revolucionária.

A entrevista que o Público publicou sobre este “O Desfufador” até falava no velho Mário-Henrique Leiria. Coitado! Daria voltas na campa se estivesse para aí virado! Mas o que é que o pobre do Mário teria a ver com isto?!

“O Desfufador” é um livro que não incomoda ninguém porque ninguém o pode levar a sério, quando um dos seus personagens principais é o Alex, um anão que tem “corpo de pónei e sarda de cavalo”. Mas que merda de piada é esta?!

A ironia do Mário-Henrique não tem nada a ver com este chorrilho de palermices!

E eu sei o que estou a dizer…

O que é isto, afinal?

“Ao que o homem pobre não se pode negar (…) era transformar o sonho em fumo (…) ele que sempre sonhara ir ao cu a uma gaja e nunca o tinha feito”

Ou isto, na página 145:

“… quanto à execução de um orçamento cuja leitura e avaliação por parte do eleitor comum estaria, normalmente e em termos de prioridades, bem abaixo da sujeição a uma colonoscopia caseira às mãos de um tio parkinsoniano munido de uma mangueira de bombeiro”

Não, não me sinto ofendido, nem sequer me ruborizo por esta linguagem – simplesmente acho-a infanto-juvenil, como mais este exemplo absolutamente idiota, na página 181:

“a prova de que o português, em focando-se e trabalhando em grupo (!!! Exclamações minhas), é capaz de expulsar qualquer um e reclamar o que é seu. E havia que afastar da cachimónia a ideia de pequenez lusitana, a ladainha do povo simpático sempre enrabado pela sarda estranja, dos bons costumes a troco da gorjeta liliputiana…”

O autor parece enfeitiçado pelos termos “camurço” e “sarda”.

Chega de exemplos.

Fiz em esforço do caralho para ler esta preciosa merda até quase às 300 páginas e assusto-me só de pensar que ainda vai sair mais um volume.

A culpa é apenas do tipo do Público, cuja entrevista me fez despertar o interesse por esta miséria.

Volta Rebordão Navarro!

“Maligna Ofélia! Deves estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais às mães, filhos iguais aos pais, criados baralhados nas contas, queixando-se dos joanetes e um cego que senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo”.
(in “O Discurso da Desordem”, 1972)

Mas o que me deu nesta cabeça, para me lembrar deste pequeno-grande livro do Rebordão Navarro quando li a entrevista ao autor deste “O Desfufador”.

Cenas…

“O Último Avô”, de Afonso Reis Cabral (2025)

Nem de propósito, acabei de ler hoje o último livro de Afonso Reis Cabral, que se refere ao avô do narrador, um conhecido e afamado escritor, chamado Campelo (não sei porquê, mas identifiquei-o como o Lobo Antunes), que morrera sem publicar nada relacionado com a guerra colonial.

E digo, nem de propósito, porque os apaniguados do 25 de novembro, esquecem, de propósito, o que o 25 de abril fez de mais importante: acabar com a guerra colonial!

Claro que falo em meu benefício, mas é verdade que, para mim, tão importante como o fim da ditadura, o 25 de abril significou o término daquela guerra que não fazia qualquer sentido histórico, já que todos os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias africanas.

O narrador deste livro é um jovem que viveu numa comunidade “hippie” no Algarve e que tem uma ligação muito importante com o avô escritor.

No fundo, o segredo deste livro é a intervenção do avô na guerra colonial, já depois do 25 de abril, num lugar tão problemático como Cabinda.

Afinal, parece que o avô não era assim um grande herói: ”O Campelo nunca o pôs o pé no mato, homem!, continuou o Anselmo. “Nem o dedo no gatilho, porra. Eu não sou ninguém para julgar, ainda menos se fosse por objeção de consciência ou motivações políticas…”

Gostei muito deste livro.

A guerra colonial continua a ser um assunto tabu na sociedade portuguesa, ainda hoje ouvi o cabrão do Ventura perorar contra o facto dos antigos combatentes não estarem a receber aquilo que deveriam. Tão preocupado que ele estava, coitadinho!… E, no entanto, deve estar bem se cagando para os antigos combatentes – ou será que, caso consiga tornar-se primeiro-ministro, irá propor que a tropa portuguesa regresse aos territórios ultramarinos?

Há coisas na História que não podemos mudar e a descolonização foi o que foi – se há muita gente que foi prejudicada, também há muitos que se lixaram por causa da guerra, quer por mortes e feridas graves, quer por situações que ficaram suspensas, aguardando pelo fim da guerra.

O livro de ARC não fala de nada disso, fala apenas de um neto que é influenciado por um avô, que ele pensa ter sido um eventual herói e que, afinal, foi mais um que se viu envolvido numa guerra sem significado.

Aconselho!

“O que Podemos Saber”, de Ian McEwan (2025)

McEwan continua a ser um dos meus escritores preferidos e este último livro é mesmo muito bom.

Thomas Metcalfe é um universitário académico que estuda a literatura do século 21. Ele e a sua companheira Rose, também académica, vivem em 2119, numa Europa destroçada pelas alterações climáticas, numa Inglaterra transformada num arquipélago, depois da Grande Inundação, num mundo totalmente alterado pela Desordem, em que a América voltou à confusão do wild west e em que a Nigéria domina a internet.

McEwan não perde muito tempo a explicar como é o planeta Terra no século 22. A história é narrada por Thomas e ele vive naquela actualidade e não sente necessidade em explicá-la, dando-nos, apenas, algumas pistas que nos permitem pensar que o mundo mudou muito depois de ataques nucleares e alterações climáticas extremas.

Thomas está obcecado por um poeta inglês do século 21, Francis Blundy e, sobretudo, pela sua mulher, Vivien. Na noite em que Vivien festejava o seu 54º aniversário, Francis ofereceu-lhe um poema, em forma de coroa, uma série de sonetos em que o último verso é o primeiro verso do soneto seguinte. Seria uma cópia única, escrita em pergaminho, e que até então, nunca tinha sido encontrado.

Francis Blundy não acreditava nas alterações climáticas, mas Thomas pensa que talvez aquele poema pudesse mostrar que ele estava a mudar o seu pensamento e não descansa enquanto não o encontrar.

Entretanto, pesquisa tudo o que pode sobre o poeta, a sua mulher e os amigos que estiveram no célebre jantar onde o poema foi lido, vasculhando e-mails, diários escritos on-line e outros documentos. Acabará por deduzir que o poema poderá estar enterrado algures perto da propriedade onde Francis e Vivien viveram, entretanto, localizada numa das pequenas ilhas, onde apenas se pode ir de barco dirigido por um capitão conhecedor daquele mar estranho, cheio de torres de igrejas.

O que fica de cada um de nós quando morremos?

Daqui a cem anos, o que poderão saber sobre cada um de nós? Por mais fotos que publiquemos no Instagram, por mais post colocados no X, ou no Facebook, ou no Whatsapp, por mais blogs que inventamos, como poderá alguém, daqui a cem anos, reconstituir a nossa vida, as nossas intenções, o que de facto nos aconteceu?

É isso que McEwean nos mostra, magistralmente, com a segunda parte deste livro, um longo capítulo, em que Vivien Blundy nos conta a sua vida e as suas atribulações e nos revela um segredo que não consta de nenhum e-mail, de nenhum diário, de nenhum registo informático.

Mesmo depois de lermos esse longo capítulo, a nota final que McEwan acrescenta e que diz que esse capítulo foi anotado e editado por Thomas Metcalfe deixa-nos a dúvida: será que essa é toda a verdade?

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos!

Outros livros de McEwan: A Barata; Máquinas Como Eu; Numa Casca de Noz; A Balada de Adam Henry; Mel; Na Praia de Chesil; Cães Pretos; Entre os Lençóis; O Jardim de Cimento; Solar; Lições

“Todos os Amantes da Noite”, de Mieko Kawakami (2011)

Mieko Kawakami (Osaka 1976) é considerada uma das mais importantes escritoras japonesas da actualidade.

Depois de ter lido o excelente “Seios e Óvulos”, fiquei com curiosidade para ler este “Todos os Amantes da Noite”, publicado nove anos antes e não fiquei desiludido.

Kawakami conta-nos a história de Fuyuko, uma revisora de textos freelancer, na casa dos trinta anos. Vive sozinha e teve apenas uma experiência sexual, muito má – no fundo, foi violada por um colega de escola.

Com uma vida monótona e triste, Fuyuko acaba por cair no alcoolismo. O saké e a cerveja ajudam-na a descontrair-se e a enfrentar o mundo. A certa altura conhece um homem, que diz ser professor, e a sua vida muda por algum tempo.

A escrita de Kawakami cheira a Japão por todos os lados e quem a ler percebe o que quero dizer, embora a tradução, que é feita a partir do inglês, use expressões idiomáticas que são demasiado portuguesas para serem ditas por uma japonesa.

Outra curiosidade: Fuyuko é revisora de textos e diz que não há livros perfeitos, que todos os livros têm erros, que escapam as revisores e editores, e este livro não foge a essa regra. Na página 127, quando a jovem Fuyuko está no quarto do rapaz que a há de violar, escreve:

“(…) entretive-me a olhar para as minhas mãos e para os pelos do tapete onde pousara o meu saco. Imaginei um globo terrestre suspenso entre mim e o tapete. Depois de ter circum-navegado, atravessando mares e oceanos, deixei que rodasse devagar até chegar à América do Sul, onde adquiriu a forma filiforme da Argentina…”

Tenho quase a certeza de que a autora estava a pensar no Chile e não na Argentina.

Mas gostei.