“Vocação para os Desastres”, de José Carlos Barros (2026)

E eu ainda vou atrás das críticas publicadas pelo Expresso. Ainda há bem pouco tempo levei uma banhada com “A Morsa”, de Ana Cláudia Santos, uma colecção de contos que me deixou ligeiramente irritado, e agora, levei com mais esta colectânea de contos de um autor que já escreveu muita poesia e três romances, o último dos quais, até ganhou o Prémio Leya.

Mas esta série de contos é de uma pobreza confrangedora. Depois dos dois primeiros, que ainda papei, seguem-se coisas banais e sem interesse. Há “contos” armados em poemas, ou serão “haiku” (?), como este, chamado Memórias do Amor e que reza assim:

“A realidade é uma mentira. Eu sei que estavas nesta fotografia em que não apareces. Recordo perfeitamente o que me dizias ao ouvido no momento do flash”

Depois, há “Um Exame no Liceu de Chaves”, que podia ser uma espécie de redacção de um aluno do 12º ano, e há, também, “O Riso de Mireiya Carvajal”, que nos conta odisseia, em Cuba, de um treinador de futebol com o nome muito parecido com José Mourinho.

Senti-me enganado…

“A Morsa – Contos de Inocência e de Violência” (2026)

Que coisa mais desenxabida!

Fui levado a comprar este livrinho por uma crítica lida já nem sei onde (Expresso? Público?). Gosto de livros de contos, e comprei-o com essa intenção.

A autora nasceu em 1984 e tem muito boa imprensa porque este livro é mau, muito mau.

Consegui ler até à página 78 e desisti quando li:

“Vera levantou-se e atendeu: alguém lhe disse que o pai morrera. Morrer não é só desaparecer e deixar de ser visto, é também deixar de existir. É parecido como viajar, porque quer o morto quer o viajante estão ausentes, só que o morto já não existe e, porque ainda existe, o viajante pode voltar a ser visto”.

Ó Ana Cláudia, vai dar banho ao cão!

“Triunfo do Triunfo”, de Luísa Costa Gomes (2026)

Mais um livro de contos desta escritora, que é uma especialista na matéria.

Dela já lemos “Afastar-se – 13 contos sobre água” (2021), “Setembro e outros contos” (2007) e “Visitar Amigos e outros contos” (2024).

Este livro agora editado tem um conjunto de contos já publicados anteriormente e mais alguns repescados.

Destaco o conto que dá título ao livro, e que é um gozo a muitos dos nossos autarcas, e o conto O Golpe do Ascensor da Biblioteca, sobre aquele que poderia ter sido o golpe que daria origem à implantação da República.

Para esta autora, o mais importante não é a história que o conto nos conta, mas sim as palavras, o discurso que ela vai tecendo ao longo da narrativa.

“Isto Não É Miami”, de Fernanda Melchor (2013)

Este foi o primeiro livro publicado por esta jovem escritora mexicana (Veracruz, 1982).

Durante alguns anos, a autora recolheu histórias, sobretudo relacionadas com tráfico de droga e violência, passadas em Veracruz, sua terra natal. Parece que este pequeno livro serviu de ensaio para o excelente Tempo de Furacões e também para o romance que se seguiu, Paradaise, que foi mais do mesmo.

Dos vários relatos, destaque para o penúltimo, A Vida Não Vale Nada, que já parece indiciar o estilo da narradora: um texto longo, em discurso directo, sem parágrafos.

Apenas curioso.

“O Bom Mal”, de Samanta Schweblin (2024)

Samantha Schweblin nasceu em Buenos Aires em 1978 e é considerada uma das melhores escritoras das últimas datas da América Latina.

Este pequeno livro de seis contos é perturbador. São histórias estranhas que a pequena explicação que a autora nos dá, no final do livro, não ajuda muito.

A última história, por exemplo, intitulada “O Superior faz uma visita”, fala-nos numa mulher que visita a sua mãe num Lar e que, por um acaso, acaba por ajudar uma outra residente do Lar a abandoná-lo. Leva-a para casa e, pouco depois, surge o filho dessa mulher, que, armado, lhe rouba dinheiro e joias, depois de uma tarde inteira de terror.

Sobre mais esta história perturbadora, a autora diz o seguinte: “conheci o homem (deste conto) numa longa estada em Barcelona. Apesar de nunca nos entendermos, com ele aprendi por fim a levantar pesos sem que me doa a lombar. Parece uma coisa de somenos, mas ficar-lhe-ei sempre grata”.

Está bem…

“Visitar Amigos e Outros Contos”, de Luísa Costa Gomes (2024)

Luísa Costa Gomes gosta de nos contar histórias. Vencedora do Grande Prémio do Conto da Sociedade Portuguesa de Escritores tem já, no seu currículo, alguns livros de contos.

Depois de lermos “Setembro e Outros Contos” (2007) e “Afastar-se e Outros Contos” (2021), detivemo-nos, por estes dias, com este “Visitar Amigos”, editado já este ano.

São 13 contos, dos quais talvez destaque dois.

No conto “O Velho Senhor”, lemos este parágrafo:

“A mãe morrera num acesso de extrema discrição. Retirar-se por partes para um silêncio todo feito de modéstia, contíguo a uma etapa em que a sua única frase tinha sido, não me lembro, não sei, já não sei nada.”

O outro chama-se “Património” e começa assim:

“Na primavera dos seus quarenta e um anos, saindo de um duche frio, Félix teve a consciência de que nunca por nunca viria a ser rico. A nitidez, quase de alucinação, pode ter vindo do choque térmico, ou da fome danada com que sempre acordava. Secando-se depressa calculou que o esperavam anos e anos de contas e acertos, dívidas pequenas que iam transitando de mês a mês, mudando, na melhor das hipóteses, a intensidade com que as sentia”.

Mas há mais, muito mais…

A história “Catilinária”, começa assim:

“Não encontro dono de gato que o seja sem relutância. É comum julgar-se vítima de um acaso que lhe trouxe à porta, miando pela vida, uma exigência a que ele, por fraqueza, não resiste. Diz com ironia que é mais o gato que o tem a ele do que ele ao gato. Não convém argumentar”.

Muito bom…

“Antologia do Conto Erótico Brasileiro” (2024)

Eliane Robert Moraes organizou esta antologia, que vai desde contos escritos por Machado de Assis até a autores dos nossos dias, mais precisamente, desde 1886 a 2003.

Para nós foi uma completa desilusão. A culpa deve ser da “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, coligida pela Natália Correia, que tanto prazer nos deu.

Esta Antologia brasileira tem muito pouco de erótica e os textos são muito pouco interessantes.

Para além do texto ordinário e asqueroso de Reinaldo Moraes e da sua “cinta caralha”, apenas vale a pena salientar o conto de Ignácio Loyola Brandão, “Obscenidades para uma dona de casa”, em que aprendemos alguns sinónimos de pénis que desconhecíamos” (“Repete essa palavra que não suo. Nem pau, nem pinto, cacete, caralho, mandioca, pica, piça, piaba, pincel, pimba, pila, careca, bilola, banana, vara, trouxa, trabuco, traíra, teca, sulapa, sarsarugo, seringa, manjuba”).

O resto, é um deserto de erotismo.

“Os Nossos Desconhecidos”, de Lydia Davis (2023)

Desta autora norte-americana (Massachussets, 1947), já tínhamos lido “Contos Completos”, mas esta nova colectânea é mais, digamos, radical.

Que dizer deste conto, intitulado “Momento Matrimonial de Irritação – Coco”:

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“Após muitos dias, ele disse à mulher:

«Podias fazer alguma coisa com este coco?»

A maioria destes textos são assim, curtos, simples frases ouvidas ao acaso. Outro exemplo, intitulado “Solteirona Melancólica”:

“O que é aquilo,

Tocando-lhe tão delicadamente durante o banho

Ah,

Um marcador de livros a flutuar…”

Na contracapa, diz-se que este livro é “gracioso, engraçado, estranho, surpreendente, improvável, persuasivo e comovedor”.

Estou de acordo com a maioria dos adjectivos.

“Colchão de Pedra”, de Margaret Atwood (2014)

A idade não parece afectar a imaginação de Margaret Atwood. Actualmente com 83 anos, a escritora canadiana continua bem viva.

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Esta colectânea de contos foi publicada originalmente há nove anos, e saiu agora em Portugal, pela Bertrand.

São nove fábulas de humor negro. É a própria autora que lhe chama fábulas, embora os personagens sejam humanos, e não animais.

Na história que dá nome ao livro, uma turista, a bordo de um cruzeiro no írtico, engendra um assassínio perfeito, usando um estromatólito.

Na última fábula, idosos de um lar enfrentam uma multidão de manifestantes jovens que querem acabar com os idosos que não servem para nada, a não ser, para consumirem os parcos recursos do planeta.

Vale a pena ler.

“Pequenas Coisas Como Estas”, de Claire Keegan (2021)

Claire Keegan (Wicklow, Irlanda, 1968), foi finalista do Booker Prize de 2022 com este livro.

Depois de ter lido um calhamaço com mais de 600 páginas, despachei este pequeno livro de 80 páginas numa penada.

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Por vezes, não é preciso escrever muito para se conseguir o que se pretende. O que esta escritora irlandesa quis foi falar-nos, de um modo simples, de mais uma tragédia relacionada com a igreja católica.

No final do livro, uma nota dá-nos conta das chamadas Lavandarias de Madalena, instituições ligadas a conventos que albergavam raparigas “…pecadoras”, aquelas que engravidavam depois de terem sido violadas, ou depois de uma relação ocasional, e que eram solteiras. Diz a nota que essas mulheres eram “…escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nessas instituições”. Muitos dos registos dessas lavandarias foram destruídos e não se sabe ao certo quantas mulheres albergaram. Há quem fale em 10 mil, há quem diga que foram 30 mil. Muitas dessas mulheres perderam os seus bebés, muitas perderam as suas vidas. Um relatório recente da Comissão de Investigação dos Lares para Mães Solteiras concluiu que 9 mil crianças morreram em apenas 18 das instituições investigadas. Em 2014, a investigadora Catherine Corless descobriu que 796 bebés morreram entre 1925 e 1961 no lar de Tuam, no condado de Galway.

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É sobre isto que trata esta pequena, mas eloquente novela.

Bill Furlong vendia carvão, antracite e lenha. Vivia numa pequena vila irlandesa, com a sua mulher e as suas cinco filhas. Um dia, ao entregar carvão no convento local, deparou-se com uma rapariga presa no reservatório de carvão.

Depois de muito matutar, Bill Furlong tomou uma decisão em relação í quela rapariga. O que fez, não foi nada de especial, mas são Pequenas Coisas Como Estas que podem fazer a diferença.

Vale a pena ler.