“As Raízes da Língua”, de Marco Neves (2026)

Marco Neves é bem conhecido no que diz respeito a estas coisas da língua portuguesa.

Este livro debruça-se sobre a origem de 50 palavras e é mais um excelente veículo de propaganda da nossa língua, excepto na página 155, logo na última palavra analisada, onde podemos ler

“no fundo, é uma boa viagem para uma tarde de verão – embora, avisa já, começemos no calor de Portugal…”

Como é possível?

Ninguém reparou neste erro, tão comum nas redes sociais?

O cê de cedilha antes de um “e”?

Ó Marco Silva, também tu?! (ou alguém por ti?)

Parece quase um crime, julgar todo um livro por uma simples frase, mas, quando se trata de um livro sobre a língua, não há desculpas.

De resto, todo o livro merece ser lido…

“Quem Diz e Quem Cala”, de Chiara Valerio (2024)

Chiara Valerio nasceu em Scauri, Itália, em 1978 e é escritora, ensaísta, editora, tradutora e coargumentista cinematográfica e conseguiu, neste pequeno livro, uma espécie de policial doméstico.

O livro tem duas protagonistas: Léa, uma advogada, mãe de duas filhas, casada com Luigi e Scauri, no mar Tirreno, pequena localidade que recebe milhares de veraneantes, mas que, no fundo, é um meio pequeno em que todos se conhecem.

Nos últimos 20 anos, Vittoria, uma senhora de quem todos gostavam viveu em Scauri, juntamente com Mara, que podia ser sua filha, mas era sua amante.

Certo dia, Vittoria, que era uma excelente nadadora, apareceu morta por afogamento na banheira. Léa achou estranho e sempre duvidou que a morte de Vittoria tivesse sido um acidente.

É Lea quem nos conta esta história e vamos descobrindo os vários habitantes da pequena cidade e alguns dos seus segredos. Ao mesmo tempo, a narradora conta-nos alguns episódios da sua vida doméstica:

“Eu tinha voltado a frequentar a igreja para dar o exemplo, já que a minha filha Giulia, com os seus oito anos, estava a passar por um momento de êxtase místico. Não conseguia perceber se tinha sido a pré-primária junto das freiras ou aquelas tardes passadas com os meus pais, que procuravam os males com o pêndulo e rezavam para os afastar. O facto é que voltei a ir, para a acompanhar, e também porque o Partido Comunista, que durante anos tinham sido um ritual semanal partilhado com Luigi, já não existia”.

Gostei.

“Quando Éramos Órfãos”, de Kazuo Ishiguro (2000=

Deste autor, que nasceu em Nagasáqui em 1954 e vive na Grã-Bretanha desde os 5 anos, e venceu o Nobel em 2017, já tinha lido, apenas, “Um Artista do Mundo Flutuante” e “Klara e o Sol”. Gostei deste último e do outro, nem tanto…

Este “Quando Éramos Órfãos” é um livro estranho. Christopher Banks é um miúdo que nasceu em Xangai, cujos pais estão envolvidos no comércio do ópio, apear da oposição da mãe e que tem um amigo na casa ao lado, japonês, chamado Akira. A acção decorre em 1930/31 e promete. No entanto, depois, de repente, em Londres, o Christopher transformou-se num detective famoso, os seus pais desapareceram, a guerra entre o Japão e a China intensifica-se, mas nunca se chega a perceber como.

Por alguma razão estranha, o protagonista adopta uma Jennifer que é órfã, como ele julga que é e, depois de muita “palha”, decide regressar a Xangai e ir à procura dos pais que, nessa altura já devem estar velhotes. Mesmo assim, anda por lá, aos trambolhões, acaba por prometer a uma inglesa casada com um velhote, que ele conhecera em Londres, fugir com ela para Macau, depois vai à procura dos pais que acredita estarem sequestrados numa casa, no meio dos escombros da guerra sino-japonesa, reencontra o seu amigo de infância, o tal Akira, que está ali mesmo, ao virar da esquina e não me apetece contar mais nada porque toda a história me parece inverosímil e racista, quanto ao modo como o protagonista descreve os chineses e os japoneses.

Muito mau…

“Em Nome da Língua. Amen”, de Manuel Monteiro (2026)

É uma pena estes livros não serem obrigatórios nas redações do jornais e telejornais e não serem leitura obrigatória nas escolas.

Manuel Monteiro, autor e revisor linguístico, também é contra o chamado Acordo Ortográfico – aquele que é mais um Desacordo, como o demonstra este pedaço:

“óptico e ótico dizem respeito, respectivamente, à visão e à audição. Com o infausto novo acordo ortográfico, passam a grafar-se de forma igual. Mais um crime”

E nesta pequena citação, o corrector do Word, assinala-me doi erros: o primeiro “óptico” que, segundo o tal acordo não leva “pê”, e “respectivamente”, que não leva “cê”.

Gostava de saber como é que os jovens que foram para Medicina, vão distinguir o nervo ótico do nervo ótico.

Este pequeno livro mostra-nos 71 erros comuns na nossa Língua, muitos deles a surgirem todos os dias nos órgãos de comunicação social. E também há algumas chamadas de atenção para a chamada linguagem politicamente correcta, como esta:

“Se inexistente é o contrário de existente, se inadequado é o contrário de adequado, se inapropriado é o contrário de apropriado (…), invisual é o contrário de visual. (…)

Chamar invisuais aos cegos equivale a chamar inauditivos aos surdos.

Acresce que não temos invisualidade (cegueira) nem invisualizar (cegar) nem invisualzinho (ceguinho). O Ensaio sobre a Invisualidade havia de ser bonito.”

Leiam e aprendam.

“O Sul”, de Tash Aw (2025)

Tash Aw nasceu em 1971 em Taipei, Taiwan, filho de malaios e vive em Londres. É autor de cinco romances, três dos quais foram finalistas do Booker, incluindo este.

Em capítulos curtos, o autor vai-nos desvendando a história de uma família que herda uma quinta à beira da falência. Jay, o mais novo de três irmãos, conhece Chuan, o filho do caseiro, e ambos desenvolvem uma relação cada vez mais íntima. Os pais de Jay, Lina e Yin, não têm as melhores relações, em parte, devido á diferença de idade e de temperamento e, a pouco e pouco, a família vai-se desagregando.

A acção da história decorre na Malásia, com a sombra da Singapura por perto e os protagonistas descendem de migrantes provenientes da China, que falam cantonês.

Um livro curioso.

“A Insubmissa”, de Cristina Peri Rossi (2020)

Cristina Peri Rossi nasceu no Uruguai em 1941 e emigrou para Barcelona, fugindo da terrível ditadura militar que governou aquele país durante anos. Trata-se de uma escritora que abordou várias disciplinas: poesia, conto, romance. Nas décadas de 60 e 70, desenvolveu com Júlio Cortazar uma cumplicidade literária que fez com que aquele escritor lhe dedicasse diversos poemas.

“A Insubmissa” é um romance autobiográfico muito interessante. Peri Rossi recorda a sua infância de modo divertido; viveu durante algum tempo com uns tios, no campo, porque sofria de uma infecção tuberculose e o ar do campo far-lhe-ia bem.

Pelos cinco anos, comi muito mal e a tia decidiu perceber por que razão ela se recusava a comer determinados alimentos.

“Carne, porque tem sangue e nervos.

Ovos, porque têm clara.

Leite, porque tem nata.

Laranjas, porque têm fios brancos.

Bananas, porque têm fios amarelos.

Maçarocas, porque têm barbas.

Gofio, porque me engasgo.

Manteiga, porque tem gordura.

Frangos e galinhas, porque são meus amigos, o que se aplicava, além disso, aos coelhos, aos porcos, às perdizes e aos borregos.

Peixe, porque não fecham os olhos e estão sempre a olhar para mim.”

Peri Rossi não gostava do seu pai, que era violento e tratava mal a sua mãe, e adorava um tio, que tinha muitos livros. Capítulo a capítulo, a escritora vai contando diversos episódios curiosos: a paixão que desenvolveu com uma colega mais velha, a sua relação com os mendigos, a operação ao apêndice, etc.

Um livro muito curioso e que li com muito agrado.

“A Península das casas Vazias”, de David Uclés (2024)

Este é que foi um empreendimento: ler este tijolo de 686 páginas deste escritor espanhol, nascido em 1990. O livro mereceu diversos prémios, incluindo Prémio Cálamo de melhor livro de 2024.

Como estávamos a ver a série colombiana da adaptação do excelente “Cem Anos de Solidão”, não consegui deixar de encontrar semelhanças com a escrita de Gabriel Garcia Marquez, embora, sejamos francos, com enorme vantagem para o autor sul-americano.

Este livro também aborda a realidade com as técnicas do chamado realismo fantástico, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola. A narrativa avança, tendo como base a família de Odisto, mas diverge para muitas direcções, baseando-se em crendices populares e em realidades fantásticas que não passam de excessos de narrativa.

“O médico da vila, Fernando, verificara antes que ambos os sangues eram compatíveis. Se os líquidos tivessem a mesma cor, o dador podia ligar-se ao paciente. Havia oito tons diferentes: almagre, carmim, vermelhão, lacre, castanho-avermelhado, escarlate, carmesim e grená. Acontece que os sangues eram almagre. Leo ganhou mais alguns meses de vida”.

O livro está cheio de citações, algumas muitos impressivas, como esta, de Gonzalo de Aguilera, assessor de imprensa de Franco>:

“Há que matar, matar e matar todos os vermelhos; exterminar um terço da população masculina e limpar o país de proletários”

Às tantas, Uclés adopta a ideia de Saramago e a península começa a afastar-se do resto da Europa, transformando-se, no fundo, em uma jangada de pedra, mas Uclés inventas uns agrafos que continuam a ligar a península a França. Talvez seja demasiado realismo fantástico.

Para o fim, a história arrasta-se um pouco. A guerra civil termina, Franco e os nacionalistas vencem, mas ficamos sem saber muito bem qual é a posição do autor perante aquilo. O povo ficou satisfeito? E o autor?

Penso que faltou aqui qualquer coisa…

“Trinta Milhões de Orgasmos”, de Minh Tran Huy e Jul (2025)

Um pequeno livro sobre as idiossincrasias dos pénis e vaginas de alguns animais. A autora é uma jornalista francesa de origem vietnamita e Jul é um ilustrador mais ou menos humorista.

O livro fala-nos das coisas esquisitas que acontecem pelo mundo animal, desde pénis com espinhos a vaginas em forma de elipse. Desde o canguru e a dama com três vaginas à libélula e o pénis-colher, dos bonobos e o sexo hippie ao polvo e o pénis amovível, passando pelo cão e o nó copulatório ou pelo pato e os labirintos da vagina, o livro exemplifica o que de mais estranho se passa na vida sexual de alguns animais – texto acompanhado de desenhos a propósito.

Divertido.

“Vocação para os Desastres”, de José Carlos Barros (2026)

E eu ainda vou atrás das críticas publicadas pelo Expresso. Ainda há bem pouco tempo levei uma banhada com “A Morsa”, de Ana Cláudia Santos, uma colecção de contos que me deixou ligeiramente irritado, e agora, levei com mais esta colectânea de contos de um autor que já escreveu muita poesia e três romances, o último dos quais, até ganhou o Prémio Leya.

Mas esta série de contos é de uma pobreza confrangedora. Depois dos dois primeiros, que ainda papei, seguem-se coisas banais e sem interesse. Há “contos” armados em poemas, ou serão “haiku” (?), como este, chamado Memórias do Amor e que reza assim:

“A realidade é uma mentira. Eu sei que estavas nesta fotografia em que não apareces. Recordo perfeitamente o que me dizias ao ouvido no momento do flash”

Depois, há “Um Exame no Liceu de Chaves”, que podia ser uma espécie de redacção de um aluno do 12º ano, e há, também, “O Riso de Mireiya Carvajal”, que nos conta odisseia, em Cuba, de um treinador de futebol com o nome muito parecido com José Mourinho.

Senti-me enganado…

“Indignidade – Uma Vida Reimaginada” – de Lea Ypi (2025)

Livro muito interessante desta professora de Teoria Política na London School of Econimics, especializada no estudo do marxismo.

Nascida em 1979 na Albânia escreveu este que foi considerado o livro do ano pelo Financial Times, Sunday Times e Washington Post, entre outros.

A ideia para este livro nasceu de uma foto que a autora encontrou nas redes sociais e que mostrava a sua avó Leman Ypi e o seu avô, nos Alpes, em 1941, durante a lua de mel. Ora, Lea Ypi pensava que todos os arquivos referentes à sua avó tinham sido destruídos na altura da ditadura comunista de Enver Hoxha na Albânia. Ora, se aquela foto existia, poderiam existir mais documentos sobre Leman.

A autora vasculhou, então, os arquivos de vários países (a sua avó nascera na Grécia) e descobriu muitas coisas, acabando por escrever esta obra que é um misto de biografia e romance.

Para quem, como nós, esteve recentemente na Albânia e nos países vizinhos, foi muito curioso ler este livro e recordar parte da História daquela região conturbada da Europa balcânica.