O Chega aluga quartos

O Chega – nome de um conhecido partido de extrema-direita português – está a enveredar pelo alojamento local ou algo parecido.

Quando se discutia, na Assembleia, o novo currículo da disciplina de Cidadania, nomeadamente, no que respeita à educação sexual, o excelso deputado Nuno Gabriel, do tal partido Chega, achou que a deputada do Livre Filipa Pinto estava a precisar de um sítio para praticar actos sexuais eventualmente indecorosos e, sendo assim, sugeriu-lhe que arranjasse um quarto e “faça aquilo que quiser”.

Esta afirmação encerra duas novidades:

O Chega está a sugerir que arranja quartos para as deputadas depravadas que querem fazer sexo que nem umas malucas;

E o Partido do Ventura não se importa que essas malucas façam o que tiverem na ideia, o que só demonstra que é um Partido liberal no que respeita ao sexo.

Benza-os Deus!

“Tóquio Express”, de Seicho Matsumoto (1958)

Este livrinho editado pela Presença e traduzido por André Pinto Teixeira, é apresentado como “um dos grandes clássicos da literatura japonesa”, e quem sou eu para contestar…

O autor, Matsumoto – que também é o nome de uma cidade, que visitei no ano passado – é apresentado como o “mestre do mistério japonês”.

Comparado com os seus contemporâneos norte-americanos da literatura policial, este Matsumoto parece ser muito – como direi? – japonês. Enquanto os escritores policiais norte-americanos são malandrecos, violentos, sacaninhas, estes dois detectives japoneses são tão puros e tão inocentes que até dá raiva.

A história gira à volta de dois eventuais amantes que se suicidam – coisa que parece ser banal para os japoneses. No entanto, há por ali muito mistério, sobretudo em redor de horários de comboios.

“O Asakaze chega à plataforma quinze às 17:49 e parte às 18:30. Fica na plataforma um total de quarenta e um minutos. Entretanto, nas linhas treze e catorze, efectuam-se as seguintes movimentações: na linha treze, um comboio da linha Yokosuka chega às 17:46 e parte às 17:57. Pouco depois, às 18:01, chega outro comboio, que parte às 18:12. Contudo, mesmo após a partida deste comboio, há o comboio regular 341, na linha catorze, com destino a Shizuoka, que dá entrada pelas 18:05, partindo apenas às 18:35. A sua paragem durante esse período bloqueia a vista do expresso Asakaze na linha quinze, ao lado”.

E é graças a todas estas verificações que o detective acaba por descobrir o crime.

Para quem nunca foi ao Japão, tudo isto soa a brincadeira – mas não é! Os japoneses nunca brincam com comboios!

“Trilogia da Paixão”, de Ariana Harwicz (2012-2016)

Que difícil foi ler esta Trilogia, caramba!

Aliás, até decidi não a ler toda…

Ariana Harwicz (Buenos Aires, 1977), é uma escritora argentina que alguém compara a Virginia Wolf e Sylvia Plath e este livro reúne três novelas: Mata-te, Amor (2012), A Atrasada Mental (2014), e Precoce (2015).

Segundo a autora, trata-se de uma trilogia involuntária sobre a maternidade e os seus tabus.

Então, não percebi nada!

Os três textos são muito parecidos (o terceiro, Precoce, nem o acabei). A autora escreve como se fosse uma escrita automática.

“Se pudesse usava uma bengala, vestia-me como uma velha, pintava o cabelo de branco, tomava comprimidos para doenças neurológicas até que o meu cérebro se habituasse a elas. Quero ser uma velha. Desagradável em todos os sentidos, hedionda, insuportável, fedorenta, e tomaria a medicação para que me tivesse de lavar durante muito tempo. Assim, ainda com o sexo a latejar, ouvi-o, vi-o mexer uma boca já distante, dizer palavras que não compreendi. As folhas cortavam o ar, o cenário tremia como se alguém nos dirigisse. Até que ouvi, cura. Isso vinha de mim. Uma mulher que precisava de se acalmar. Tornar-se uma ameba.”

E assim continua…

As duas primeiras novelas são um conjunto de textos deste género; cada textos cobrindo página e meia.

O terceiro é um texto contínuo, mas, no fundo, é mais do mesmo.

Há uma narradora, uma mãe, um amante (?), muitas ereções e ejaculações e textos, todos eles, herméticos.

“Trava de repente na berma. Olha para mim. Sei que me teria cravado uma agulha de costura no corpo mas tem a cara e a boca demasiado secas”.

Está bem, vou ler outra coisa…

O frouxo e o fanfarrão

Ontem houve debate do Estado da Nação.

Não é líquido que o Estado da Nação seja sólido. Parece-me que o Estado da Nação não é líquido nem sólido – é mais um gel, assim uma espécie de slime que passou o prazo, cheira mal e deixa ficar os dedos sujos e com bocado agarrados.

O Luís “Deixem-no Trabalhar” Montenegro, fez as habituais notícias pré-eleitorais: suplementos para as reformas, descidas de IRS e de IRC e negou ter um princípio de acordo com o Chega, que este garantiu existir.

Mas o que me deixou mais incomodado, foi a atitude do Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, em relação à linguagem usada pelos deputados.

Ventura – sempre ele – acusou a liderança do PS de ser frouxa, mais frouxa do que a anterior. Um Pedro Nuno frouxo, mas um Carneiro ainda mais frouxo.

Ora, um Carneiro frouxo não fica nada bem a um Partido que quer fazer Oposição.

Carneiro levantou-se e chamou fanfarrão a Ventura.

Aguiar-Branco ruborizou e, cortando a palavra ao Carneiro frouxo, advertiu-o que aquela não era linguagem que se usasse na Assembleia. Ler nomes de crianças estrangeiras que frequentam a escola, ainda vá; chamar frouxo ao Carneiro, é como o outro – agora dizer que Ventura é fanfarrão – isso é que não!

Ora, sabendo que fanfarrão é um indivíduo que ostenta uma postura de valentão, mas que, na realidade, não tem a valentia que demonstra – temos de concordar que o Carneiro frouxo se excedeu. Basta lembrar-nos como Ventura enfrentou a sua crise de azia cardiovascular para perceber que ele é, de facto, um valentão.

Até chorou, coitadinho!…

“O Problema Final”, de Arturo Pérez-Reverte (2023)

Já há muito tempo que não lia nada deste escritor espanhol e este livro a imitar histórias de Conan Doyle também não me entusiasmou.

No longínquo ano de 2000, li “O Cemitério de Barcos Sem Nome” e, dois anos depois, “A Rainha do Sul”. Eram romances de aventuras de que gostei. No entanto, depois, os livros de Pérez-Reverte tornaram-se um pouco enfadonhos.

Como, em tempos, gostei dos chamados livros policiais – e tenho dezenas de volumes da coleção Vampiro – pensei que este livro podia configurar um bom entretenimento.

Expectativas goradas.

Parece que Pérez-Reverte leu todas as histórias de Sherlock Holmes e decidiu fazer uma espécie de resume dessas histórias neste livro. Um grupo de turistas são apanhados numa ilha grega com uma tempestade que não os deixa abandonar o hotel. E acontecem um, dois, três crimes. Um actor que, em tempos, interpretou o papel de Sherlock Holmes em 15 filmes, adjuvado por um espanhol que escreve livros de cordel, armado em Watson, vão tentar desvendar esses crimes.

Chega a ser aborrecido (ou então, sou eu que já não tenho paciência para livros policiais…)