Que é feito da velha pasta dentífrica com sabor a pasta dentífrica?
E do velhinho iogurte com sabor a leite azedo?
E das bolachas com sabor a Maria ou Torrada?
Agora, todos os sabores têm que ser arrevesados.
Tenho uma pasta dentífrica com o mirífico sabor de “hortelã e chocolate”. Quando acabo de lavar os dentes, sinto uma necessidade imperiosa de bochechar com Betadine ou, melhor ainda, beber um golo de whisky e rematar com um cigarrinho.
Qualquer sabor é melhor do que aquele horrível “hortelã e chocolate”.
No que respeita aos iogurtes, já não há respeito. É difícil encontrar um iogurte de leite ou, no mínimo, um iogurte com apenas um sabor. Quase todos exibem, no rótulo, orgulhosamente, uma mistura espantosa de sabores: “morangos e cereais”, “framboesa e melancia”, “toranja e marmelada”…
Para já não falar no sabor a aloé vera, esse cacto miraculoso, que também podemos encontrar, por exemplo, nos detergentes para a roupa…
E os sabores imaginativos já chegaram, também, í s bolachas.
O Público noticiava, ontem, que a Triunfo Proalimentar retirara do mercado duas qualidades de bolachas, por poderem conter pequenas peças metálicas susceptíveis de ameaçar a saúde dos consumidores. Os produtos retirados foram as bolachas com os sabores “frutos do bosque” e “maçã e canela”.
Estão a ver?
“Frutos do bosque” saberá a quê?
E por que não, em vez de “maçã e canela”, “maçã e alumínio”, já que as bolachas continham pequenos pedaços metálicos?
Apesar desta invasão de sabores estranhos, penso que os criativos ainda não ousaram o suficiente.
No sentido de ajudar os criativos a encontrar sabores novos para os seus produtos, proponho, desde já, os seguintes: “contraplacado e baunilha”, “fezes e caramelo”, “laranja e nicotina”, “salsaparrilha e melancolia”, “insónia e chocolate”, “pêssego e eficácia”.
Ora aqui está uma excelente série da HBO e, talvez, uma das mais bizarras, curiosas e interessantes.
Este livro editado em 2002, foge, talvez, ao paradigma das histórias de Auster. Ou talvez não.